terça-feira, 7 de junho de 2005
Mosaico de horas
Eu e essa estrada, faz anos que é assim, tantos que ela já é quase uma pessoa. Uma pessoa, é isso, a gente vai rodando rodando nessa solidão e começa a racionar besteiras, uma estrada vira uma pessoa, já se ouviu de tudo, quer dizer, na verdade ninguém ouviu porque eu tô matutando sozinho. Mas, se tivesse alguém aqui eu ia mostrar o tanto que conheço bem esse caminho, daqui a uns quinze ou vinte minutos vou passar por aquela árvore grande que tá pendendo pra esquerda, uma de galhos engraçados, parece que quer abraçar, vamos ver, vou marcar no relógio, se alguém tivesse aqui ia ver como estou certo. Bom, ia ver ia ver e de quê isso ia servir? De nada porque de nada serve saber que em tal lugar dessa estrada tem isso ou aquilo, não serve de nada a não ser para pontuar essa solidão. É que tenho que manter a cabeça ocupada, essa vida de estrada é muito das esquisitas se a gente analisar, estrada, estrada e mais estrada, ninguém imagina o que é isso, nem eu imaginava que um dia ia ser assim, que a solidão pudesse ser tão vasta, que ia ter que treinar a minha própria cabeça para não ficar doido, vou pensando numas coisas e tentando não pensar noutras, às vezes pulo assim de um assunto (o assunto que assunto cá comigo) pra outro, mudo completamente de rumo, de propósito. Lá está a tal da árvore, vamos ver, dezessete minutos contados, nem quinze, nem vinte mas dezessete que está no meio. Olha lá, dá até vontade de abanar a mão pra ela. Veja o que a solidão faz com um homem, estrada vira gente, árvore vira gente...Um dia escutei no rádio uma história estranha, era sobre as sereias, essas também foram uma invenção da solidão do homem. Ficavam os marinheiros a marear por longos meses, anos, quem sabe, naquela solidão absoluta, quer dizer, só não era mais absoluta que a minha nesse caminhão porque lá eles tinham outros homens pra conversar, mas sempre os mesmos...não sei, em todo caso, mulher é que não viam a miúdo, daí a imaginação desses coitados transformou um peixe - um peixe que consegue sair da água por uns instantes – na mais bela criatura fêmea que havia, uma criatura fêmea, mas não mulher, mulher só pela metade. Solidão é isso, invenção. Estrada, minha estrada, até quando seremos nós dois?
De noite leio umas pagininha do bang-bang, escuto as notícias no rádio e durmo, umas vezes o sono vem rápido, outras demora, quando demora é o diabo, esticar essa solidão diurna é pagar os pecados que a gente nem tem tempo de cometer. Na manhã seguinte, a estrada está lá esperando a minha marca, é quase infinitamente assim, um dia não há de ser mais porque até o que parece infinito tem que ter um fim. É.
Leila Silva
sexta-feira, 3 de junho de 2005
Nota de agradecimento:
Agradeço também ao Manoel Carlos por me presentear com esse maravilhoso e poético A Ostra e o Vento, assim como a biografia do autor, Moacir Lopes e aproveito para agradecer ao próprio autor a bondade de ter lido alguns dos meus trabalhos (a pedido de Manoel Carlos) e as palavras tão gentis que escreveu a respeito deles, foram muito importantes para mim. Obrigada ainda a Moacir Lopes pelas dedicatórias.
Muito obrigada a Fávio Viegas Amoreira por ter enviado os seus Contogramas e A Biblioteca submergida, ambos publicados pela Sete Letras e a Chico Lopes pelo seu livro de contos Nó de sombras publicado pelo Instituto Moreira Salles.
Agradeço à professora Regina Igel por ter me presenteado com o seu excelente Imigrantes Judeus – Escritores Brasileiros, Editora Perspectiva.
Comentarei em post separado estes últimos livros e autores.
Todas essas pessoas eu encontrei através do blog ou de websites dedicados à Literatura, me esqueci certamente de incluir uma ou duas pessoas nesta nota rápida, perdoe, se for o caso.
Blog (ou a blogosfera, é isso?) é um espaço cheio de defeitos, de vaidades, de ingenuidades etc etc etc....muita gente vem apontando isso (até mesmo nos seus próprios blogs), mas é um espaço que nos permite o exercício da escrita e da amizade a distância. Tenho feito bons amigos aqui e sobretudo, é principalmente na internet que tenho conseguido discutir e trocar idéias sobre Literatura. Já é lugar-comum criticar a falta de leitores no Brasil e é um fato, mas, por causa da internet, por vezes me pego pensando ‘Como não tem leitores no Brasil? São inúmeros os sites de literatura, inúmeras pessoas escrevendo em português e dispostas a discutir literatura!’ Mas é verdade também que, quando saio do computador e boto o pé na rua (estou no Brasil agora)eu não encontro mais nada disso...Nada, nada seria injusto e mal expressado, tenho muitos amigos que trabalham com literatura, eu falava do encontro ‘casual’, de ver gente em metrô, em ônibus com um livro na mão. Então, por tudo isso, eu abro meus braços para a internet e para os amigos que encontro através dela, esperando que um dia eu possa ver vocês todos ao vivo e a cores.
Ah, agora tenho também um fotolog, não encontrarão nenhuma foto da minha pessoa lá, nãi fiquem decepcionados, é melhor assim. Brincadeira! Logo chegará a fase ‘narciso’.
Abraços a todos.
Leila
http://fotolog.terra.com.br/diletante
terça-feira, 31 de maio de 2005
Bombons Chineses
Muita gente já conhece esse livro de capa bonita, vermelha com uns caracteres chineses, um seio num quadradinho e o selo da Geração Editorial embaixo.... Quê? Porque é que eu não coloco a foto da capa aqui ao invés de ficar explicando? Ah, muito simples, não sei colocar fotos aqui, juro que não sei e estou morrendo de preguiça de aprender, explicar me cansa menos. Mas há uma solução para esse problema da imagem, clique aqui no blog do Flávio e lá tem a foto, um comentário sobre o livro, uma pequena biografia de Mian-Mian. Foi exatamente por causa do livro que o encontrei e descobri que ele também tem um fraco pelos autores asiáticos.
Na minha opinião o livro carece de uma revisão. Está longe de ser o meu livro favorito, mas valeu a pena as horas dispensadas na leitura. Quase tudo o que conheço da Literatura Oriental data de Mathusalém o que não é verdadeiramente um problema em se tratando de literatura, mas aqui dei de cara com uma chinesa moderna, o que quer dizer, bastante perdida, autodestrutiva, mas com um coração.
Bombons chineses
Mian Mian
Geração Editorial
domingo, 29 de maio de 2005
Um poema antigo
que seja quente
por favor
toda noite fria
termina com um café
expresso a minha dor
deixando as lágrimas
rolarem suaves
nada nesse café
é menos triste
que a minha dor
todas as faces
vincadas de tormento resignado
olhos crispados de desamor
uma angústia silenciosa
ronda cada peito
a mão soberana
ergue uma Stella Artois.
a temperatura lá fora
é sempre a mesma
aqui dentro é sempre outra
(06/03/96, Bruxelas)
Leila Silva
segunda-feira, 23 de maio de 2005
Vislumbres da Índia
O autor conhece bem a Índia pois viveu lá trabalhando, primeiro como segundo secretário na embaixada do México e, anos depois, como Embaixador. Vislumbres da Índia é um pequeno livro, um ensaio de, exatamente, duzentas páginas nessa edição Mandarim de 1996 que adquiri. Octavio Paz explica que escolheu a palavra ‘vislumbres’ por significar ‘indícios’, ‘realidades percebidas entre a luz e a sombras’, o que quer dizer que “esse livro não é para especialistas”. Pode até não ser, mas mesmo os especialistas devem ganhar muito com a leitura dele, é riquíssimo em impressões, análises da cultura, religião, línguas, cozinha, o sistema de castas, política, etc. Eu não desgrudei do livro enquanto não cheguei à última página, ou melhor, só por uns minutos durante um vôo em que Dona Lucrécia se sentou do meu lado e não parou de falar, olhou para a capa do meu livro, perguntou se Octavio Paz era brasileiro, teceu algumas considerações sobre a Índia, meditação e pobreza....mas esta é outra história.
Nas primeiras páginas em que conta a sua chegada à Índia, o autor se pergunta “O que me atraía?” e fala daquele deslumbramento quase ingênuo que temos ao nos ver diante de tanta coisa nova ao mesmo tempo, tanta que não conseguímos discernir. Eu também fiquei assombrada, deslumbrada ao penetrar a Ásia, mais do que ir, visitar o lugar e voltar, considero uma sorte ter podido viver lá ainda que por pouco tempo, menos do que eu gostaria. Na impossibilidade de responder à pergunta sobre o que o atraía, Octavio Paz recorre a T.S. Eliot “O gênero humano não pode suportar tanta realidade.”
Sublinhei vários trechos que chamaram a minha atenção, que eu gostaria de ler melhor depois e que também pensei em colocar aqui....mudei um pouco de idéia quanto a isolá-los assim nesse apanhado rápido, num momento de puro entusiasmo quando acabo de fechar o livro e mal digeri o que li. Descontextualizar pode ser um ato perigoso. Ainda assim vou arriscar uma ou duas citações, a primeira se refere à democracia. Nos Estados Unidos a maioria da população repete essa palavra a torto e a direito, inclusive com ela justificando guerras, mas nunca ou quase nunca, me parecia, indo ao âmago da questão que seria se perguntar de vez em quando, o que é o real significado da palavra e como ela está sendo usada por um político e outro. Sobretudo depois de ter vivido nos Estados Unidos, alguns vocábulos não me deixaram, dois deles são: democracia e liberdade que vivem na boca do povo, do intelectual, do religioso, cada um usando-o a seu modo e a maioria se deixando engambelar. Então, para Octavio Paz:
“Certamente a democracia também pode ser tirânica, e a ditadura da maioria não é menos odiosa que a de uma pessoa ou a de um grupo. Daí a necessidade da divisão de poderes e do sistema de controles. Mas as melhores leis do mundo convertem-se em letra morta se o governante é um déspota, um homem que domina os demais porque é incapaz de dominar-se a si mesmo.”
Como diria a Dona Lucrécia, ‘disse tudo’. Vou até abandonar a outra citação, acho que já é bastante para perceber o quanto essa leitura pode ser valiosa, sobretudo para quem tem um mínimo interesse pela Ásia.
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Um dos epigramas selecionados por Octavio Paz como exemplo da arte literária hindu:
Amor
Admira a arte do arqueiro:
Não toca o corpo e rompe corações.
quinta-feira, 19 de maio de 2005
Perspectiva
A minha vontade foi de ir até o ragazzo e encher-lhe a cara de bolachas. Aquela cena me parecia um atrevimento. Evidente que não o fiz, senão o meu séjour na Malásia poderia ter durado um pouco menos...ou um pouco mais. E não adiantava também torcer o nariz para demonstrar – infantilmente, concordo - a minha contrariedade. Com o meu short e camiseta, eu não passava de um putón. Ele não ia desviar o olhar para o meu nariz.
Enfim, isso foi apenas uma cena e eu posso ter analisado tudo errado, isso acontece. Às vezes a gente anda na rua (pelo menos eu sou assim), vê uma pessoa e imagina o presente, passado e futuro, não? E pode ser tudo completamente o contrário do que a gente imagina. Veja, quem sabe aquela mocinha de ar submisso não era, na verdade, uma jornalista ou uma estudante tentando ‘entrar’ na pele de uma muçulmana tradicional. Queria ver como elas se sentem vestidas de preto sob aquele sol de rachar mamona e aquela umidade própria da região….quem sabe? E o cara que eu tomava por marido podia ser um colega de curso, um outro jornalista, um irmão….sei lá. Mas que ele desempenhava bem o seu papel, ah, desempenhava.
Na verdade não era na Malásia, nem nas muçulmanas, véus e afins que eu estava pensando quando me sentei aqui, eu pensava na cabeleireira brasileira, dona de um salão onde estive outro dia. Uma cabeleireira de um bairro classe média baixa, uma mulher razoavelmente bonita, de menos de quarenta anos, nem magra nem gorda e que tem um filho de 21 anos. Tudo isso eu entendi ouvindo a conversa entre ela e uma cliente que tem mais ou menos o mesmo perfil. Num dado momento, uma das meninas que trabalhava no salão perguntou-me se em Londres (em Londres e não na Inglaterra!) se falava espanhol ou inglês. Nem sei como respondi tal pergunta.
Bom, onde mesmo eu queria chegar? Ah, essa cabeleireira e a outra cliente discutiam um assunto, pelo jeito muito em voga no Brasil, cirurgia plástica: preços, detalhes, nomes de médicos…Conheciam tudo. E era caro!
Bom, daí lembrei-me também de um artigo de uma escritora muçulmana, se não me engano o título era algo como: Prisioneiras do 38. A autora falava do choque das mulheres ocidentais diante do estilo de vida das muçulmanas, sobretudo o pesado símbolo do véu, e concluía que submeter-se a esse padrão ditado por nossa sociedade era, muitas vezes, tão ou mais cruel que usar o véu ou todo aquele apetrecho.
É tudo uma questão de perspectiva.
[A1]: uma saia muito longa, por cima, uma espécie de bata, também longa que desce sobre uma parte da saia, mangas compridas e o véu muito bem fechado no rosto, abaixo do queixo.
quinta-feira, 5 de maio de 2005
Japoneses, Luiza e cafuné
Os japoneses inventaram um aparelho que traduz as emoções dos cachorros.
Adolescentes japoneses se fecham nos seus quartos durante anos a fio. Incomunicáveis.
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Luiza
A minha sobrinha de sete anos, Luiza, é um pequeno demônio…e linda como ela só. Às vezes temos os nossos conflitos porque eu também sei ser infantil e também porque nunca convivi muito com ela e com o seu gênio tenebroso. Mas tenho que reconhecer que ela é uma graça e cada dia me apego mais.
Estávamos no sítio, no ultimo feriado, e a pequena Luiza agora fala tanto que compete com o papagaio que meu pai tem lá. É normal que os adultos cansem as orelhas e parem de prestar atenção. Assim estávamos eu e o irmão dela, dez anos mais velho, no laptop estudando alguma coisa e não dando a mínima para as palavras que ela continuava a soltar apesar de nossa indiferença, de repente escutei:
‘Porque para viver a gente precisa de: água, ar, comida e cafuné.’
Epa, estava ficando interessante, a partir daí eu passei a prestar atenção. Como não?
‘Cafuné, Luiza?’
‘Cafuné, tia Leila!’ Repete professoral e contente por ter, finalmente, encontrado um interlocutor.
‘É assim, tia Leila, cafuné, quer dizer, carinho, né….ser educado, ter paciência…’
‘É mesmo, Luiza, eu concordo, mas parece que agora mesmo eu vi você lançar, com toda a força, uma sandália na cabeça do seu irmão!’
E Luiza ri. Aperto mais um pouco e ela muda o ‘a gente precisa’, lá do início por:
‘Tá bem, EU preciso.’
Ela é boa de discurso, mas quando os argumentos acabam é melhor a gente sair correndo.
terça-feira, 3 de maio de 2005
Ex-Libris da Tugosfera
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Ser um livro? Nunca me imaginei um livro e nem sei que critérios usar, um livro fino, um livro elegante? Bem, nesse momento eu escolheria ser Orlando, de Virgínia Woolf.
Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
Será que ‘apanhadinho’ quer dizer ‘caidinho’? Não, acho que não.
Qual foi o último livro que compraste?
Os de Moacir Lopes que acabei de ler e Patrícia Highsmith, Strangers on a train, que ainda não li.
Qual o último livro que leste?
O Almirante Negro e A Ostra e o Vento de Moacir Lopes.
Que livros estás a ler?
Estou lendo, muito devagar, a biografia de Virgínia Woolf por Quentin Bell, Totem e Tabu de Sigmund Freud, Tu não te moves de ti
Hilda Hilst.
Que livros(5) levarias para uma ilha deserta?
O Evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago, as obras completas de Oscar Wilde, as obras completas do Graciliano Ramos, uma boa tradução da Bíblia (um dia vou ter que encará-la, quem sabe não aproveito a solidão desta ilha), Manuel Bandeira, obras completas. Uf! Nunca pensei que fosse tão útil essas ‘obras completas.’
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?
Eu gostaria de passar a corrente para muita gente, mas me dou conta de que muitos dos meus amigos não usam a internet, não têm blog (nem o meu visitam, alguns nem sabem o que é isso), então, seguindo o padrão ‘manuelino’, deixo aqui os nomes e endereços daqueles que têm blog e que eu sei, apreciam uma boa leitura.
Um personagem: Dani Sorris
Caminhos de papel: Carlos Bruni
Beto Muniz: Beto
Cá onde estou: Mi
Caminhos: Laura
sábado, 30 de abril de 2005
Canindé e os obscuros caminhos da fé
A Canindé alguns vão a pé, percorrem o caminho da redenção de sandálias havaianas, chinelas de couro ou nada, ou seja, plantam no solo árido e seco do sertão a sola do pé curtido pela miséria e trabalho ingrato.
Nós percorremos o caminho de Canindé de carro mesmo, durante o trajeto, Padre Rafael nos explicava que seu Ceará é surreal, ali há pontes sem rio e rio sem pontes. Assim mesmo! Um dia, disse, viajava com um padre europeu e passaram uma ponte, duas pontes, três pontes e nada de água rolando por baixo delas. O europeu conferiu todas pois que tudo olhava atentamente. Chegando no quarto rio ele viu, finalmente, a água mas…não viu a ponte porque ponte não havia ali e tiveram que voltar, suspender o passeio. O europeu coçou a cabeça e riu das pontes sem rio e do rio sem ponte. Como pode? Os outros riram mais ainda e disseram que é assim mesmo, ora!
No caminho, duas mulheres andavam, em sentido contrário ao nosso, uma delas transportava na cabeça, com habilidade e certa elegância, uma grande trouxa, sem a ajuda das mãos; nas paradas dos ônibus, o povo esperava acocorado como os chineses.
O povo de Canindé acredita que São Francisco vive ainda hoje…e ali mesmo, naquele vilarejo, numa casa amarela. E a mancha no dorso do jumento é, para eles, o mijo do menino Jesus. Nem o Padre Rafael, nem ninguém é capaz de provar o contrário.
Na casa dos milagres, ao lado da igreja há um grande mural com fotos de pessoas que esperam ou alcançaram uma graça. Várias crianças nuas e até mesmo adultos mostram as partes do corpo conforme a graça recebida, assim vemos seios expostos, ventres, as pernas com as feridas, só os rostos, uma noiva com ar desconfiado e seu noivo….alguns deixam junto com a foto uma nota explicativa, mas não são muitos. Uma dessas notas trazia um retrato três por quatro à direita, outro à esquerda, uma imagem de Santo Antônio no meio e dizia:
‘Mercearia Santo Antônio – Eu moro em Teresina – PI na rua Bento C. Basto, no São João, e me peguei com São Francisco, para não perder o juizo (não ficar louco) porque eu perdi o meu filho Sérgio, com dezoito anos, num acidente de carro, todos os anos ele viajava para Canindé quando era vivo. Eu fiz a promessa se ficasse bom eu levava meu retrato e o dele e botava na casa dos milagres. Minha mercearia ficou quase acabada, então eu incluí no meu pedido que salvasse o meu comércio que eu levaria uma foto agradecendo, e estou deixando aqui meu testemunho, e agradecimento.
Alcancei a graça
Bendito o que vem em nome de Jesus.
Canindé, 4 de outubro de 2003
Antonio polícia.
Canindé e seus confessionários com ar condicionado que retêm ali as velhas e seus pecadilhos, por horas e horas. Canindé e o São Francisco vivente. Canindé, o simpático Padre Rafael e sua namorada morena. Canindé, minhas impressões de um dia, uma fotografia, um mundo entre nós....
Canindé e os obscuros caminhos da fé.
Escrita para Anjos de Prata.
Leila Silva
quarta-feira, 27 de abril de 2005
A Ostra e o Vento
Confesso que precisei do empurrão do Manoel Carlos para conhecer esta obra, às vezes, durante a leitura eu me perguntava, ‘Como pode um livro destes não ser mais conhecido?’, mas suponho que ele seja bastante conhecido no Brasil, já foi, inclusive adaptado para o cinema(estou procurando o DVD) por Walter Lima Jr., em 1997.
Quem quiser saber mais sobre o autor encontrará informações no Agreste ou no website da Editora Quartet.
A primeira edição do livro data de 1964, eu tenho aqui a sétima edição que é de 2000 e traz um prefácio do pesquisador americano Michael Fody. Copio aqui uma pequena parte deste prefácio:
“Considero importantes todos os romances de Lopes, mas se eu tiver que apontar um como merecedor do título de obra-prima, proporia sem hesitação A Ostra e o Vento.”
A ostra e o vento
Chico Buarque/1998Para o filme A ostra e o vento, de Walter Lima Jr.
Vai a ondaVem a nuvem
Cai a folha
Quem sopra meu nome?
Raia o dia
Tem sereno
O pai ralha
Meu bem trouxe um perfume?
O meu amigo secreto
Põe meu coração a balançar
Pai, o tempo está virando
Pai, me deixa respirar o ventoVento
Nem um barco
Nem um peixe
cai a tarde
Quem sabe meu nome?
Paisagem
Ninguém se mexe
Paira o sol
Meu bem terá ciúme?
Meu namorado erradio
Sai de déu em déu a me buscar
Pai, olha que o tempo vira
Pai, me deixa caminhar ao ventoVento
Se o mar tem o coral
A estrela, o caramujo
Um galeão no lodo
Jogada num quintal
Enxuta, a concha guarda o mar
No seu estojo
Ai, meu amor para sempre
Nunca me conceda descansar
Pai, o tempo vai virar
Meu pai, deixa me carregar o vento
VentoVento, vento
domingo, 17 de abril de 2005
Quando Carla me visita - Parte II
Carla contava histórias do Brasil, de Campinas, relembrava o passado comum mas não senti sua amiga interessada em partilhar das lembranças. Talvez Carla não se importasse, queria relembrar ainda que só, ou talvez não percebesse. Ou sera aque eu estava vendo coisas? Deixei-a com a amiga e voltei para Bruxelas, durante a semana empacotei os poucos pertences e fui para outro apartamento, em um lugar muito mais agradável. Lá tinha aquelas janelas no teto, eu gostava de acordar e ver o céu, quando nevava, eu gostava de ver a neve se acumular.
Quando Carla voltou, o computador ainda estava numa caixa esperando para ser montado, ela explicou que era expert em montar computadores, se eu quisesse….Sugeri que fôssemos a uma boîte ao invés disso. Ela aceitou.
Na Bélgica há mais de quatrocentos tipos de cerveja, Carla queria experimentar todos em seus poucos dias. Virou lenda, até hoje há quem me pergunte a respeito daquela moça que queria experimentar todas. E olha que os belgas são bons de copo.
Chegou o dia de ir embora. Ouvindo-a fazer as malas, dei graças a Allah que a minha vizinha era espanhola e não alemã. Carla passou a noite toda fazendo e desfazendo a bagagem, no dia seguinte ainda me disse: “Como você vai logo ao Brasil e não vai ter muita bagagem, podia levar essas coisas aqui pra mim.” Mas quem disse que eu não teria muita bagagem? Concentrei me: ‘Primeiro Saramago. Primeiro Saramago. Primeiro Saramago.’ “Ok, eu levo.”
E Carla se foi.
sábado, 16 de abril de 2005
Quando Carla me visita - Parte I
Então ela estava chegando naquele 96 e eu estava vivendo em um apartamento pequeno e deprimente. Pertencia a uma família grega que morava no primeiro andar, uma senhora gorda e simpática, um senhor que passava muito do seu tempo na Grécia, um rapaz branco, magro e bobo e uma moça arrogante e não menos boba, só que ela parecia não saber disso. Ficava na rua Gallait, perto da Gare du Nord, certamente um dos piores, ou pelo menos um dos mais tristes lugares da cidade. Era o que minha irmã tinha nos arrumado provisoriamente, enquanto a gente decidia o que fazer da vida. Ela já tinha decidido mais ou menos, de uma hora para outra fez as malas e rumou para Lisboa, ali fiquei, inquilina dos gregos, naquele rua onde o bonde passava cedo fazendo barulho e onde os marroquinos adolescentes e nem-tão-adolescentes se esmurravam de vez em quando. Eu não me importava, só tentava deixar o apartamento limpo e organizado para amenizar a sensação. Que sensação? Vou pensar a respeito.
Contei a Jean-François que ia receber uma amiga brasileira e, para florear um pouco, contei que ela era quase doutora em economia. “Uma economista brasileira, isso eu quero ver!” Não entendi e ele explicou que estava fazendo uma piada, era uma referência à dívida brasileira, depois de explicado eu não achei a menor graça. E não foi por orgulho nacionalista.
Fui esperar Carla no aeroporto, ela apareceu tarde, sem as malas e com um cobertor roubado da KLM entre os jornais. Era para uma amiga que colecionava cobertores das companhias áereas. Explicou. As malas? Estas tinham ficado em Amsterdã, só estariam disponíveis no dia seguinte. Fomos para o tal apartamento e logo perguntei se ela queria tomar uma ducha. Eu tinha essa mania, mal descia do avião e corria para a ducha. Carla disse: “Mais tarde” e continuou a falar. Muito mais tarde, ela falava ainda e perguntei, de novo, se ela queria tomar o banho, “Não”. Na terceira vez ela disse que eu podia ficar sossegada que ela só ia tomar o banho na manhã seguinte. Fiquei sem graça.
No outro dia buscamos a sua mala, visitamos Bruxelas, Bruges e planejamos uma viagem a Paris. Eu estava preocupada com meu visto que estava por vencer e Olivier propôs levar-nos de carro até Lille, lá tomamos o trem para Paris. Fazia calor, fui no banheiro da estação colocar um vestido leve. Carla disse que eu devia usar mais vestidos. Depois fomos para o hotel de terceira categoria que eu tínha reservado, não foi difícil encontrar, perguntando aqui e ali. Como Carla disse que era “muito boa de direção”, eu não prestei atenção nos caminhos e, quando voltamos para o hotel, tarde da noite, tive que sair perguntando de novo, ela não tinha a menor noção do lugar. Descobri que Carla mostrava muita segurança com relação a coisas que não sabia e decidi confiar um pouco menos no seu senso de orientação.
Uma noite decidimos jantar espagueti, Carla colocou todo o parmesão da mesa, que não era pouco, no seu prato e pediu que eu dissesse ao garçon que ela queria mais. Às vezes, o papel de tradutora pode ser embaraçoso. Pela manhã ela quis comprar uma dessas malas de rodinha pois só tinha mochila e suas costas não podiam suportá-la. E procuramos e procuramos…
Depois de vistarmos Paris tomamos um trem e fomos para Montpellier onde ela deveria encontrar uma amiga da Unicamp que estava fazendo parte do doutorado ali. A amiga a esperava com tapetes vermelhos estendidos e ciumenta porque ela tinha ido primeiro em Bruxelas. Não encontrei a amiga tão animada e acolhedora. Porque há gente assim, sempre tão necessitada de exageros? Ter que exagerar no afeto de um na esperança de que outro a queira mais? Não sei como analisar? Carla exagerava em tudo, talvez fosse simplesmente parte de sua natureza. Eu gostava de muitas coisas nela, ela era inteligente, não um gênio, mas inteligente e alegre, ria muito. E, a melhor lembrança, ofereceu-me meu primeiro Saramago, levantado do Chão e também um Neruda.
quinta-feira, 14 de abril de 2005
Lendo: Mutarelli
De Lourenço Mutarelli. Desenhista, recebeu 12 vezes o prêmio HQMix, mais importante prêmio da HQ brasileira. Do mesmo autor já li: O cheiro do ralo, seu primeiro livro (2002) que será transformado em filme, roteiro de Marçal Aquino. Mutarelli participa ainda, com suas ilustrações, do filme Nina de Heitor Dhalia.
Leila Silva
domingo, 10 de abril de 2005
Cadernos do Oriente - Uma “concubina macho”
Publico aqui mais um conto de Pu Songling. Já publiquei uma pequena biografia do autor em 11-04-2004, juntamente com a tradução de outro conto, o Mural, muito diferente deste que publico agora. O Mural é um conto fantástico e muito lindo, na minha opinião, este que publico aqui é, no mínimo curioso e engraçado.
Uma “concubina macho”
Pu Songling (1640-1715)
Um homem estava tentando comprar uma concubina em Yanghou. Visitou várias famílias e não encontrou nenhuma moça a seu gosto. Um dia, ele encontrou uma velha senhora tentando vender a filha adolescente, ela era linda e habilidosa em diferentes artes. O homem ficou satisfeito com ela e pagou um alto preço à senhora.
À noite, sob a coberta, ele sentiu que a pele da moça era extremamente suave e lisa, tocou suas partes inferiores e percebeu, surpreso, que sua nova concubina era, na verdade, um garoto. A velha trapaceira tinha comprado um bonito menino e o vestira de menina. Pela manhã ele mandou seus empregados procurarem pela velha, mas ela não foi encontrada. O homem estava muito frustrado e não sabia como resolver o problema dessa ‘concubina macho’.
Ele contou essa história a um amigo de Zhejiang que tinha acabado de passar nos exames imperiais e ia se tornar um oficial do império. Este homem deu uma olhada no garoto e comprou-o pelo mesmo preço que o outro pagara à velha trapaceira.
In Strange Tales from the Liaozhai Studio by Pu Songling.
People’s China Publishing House.
terça-feira, 5 de abril de 2005
Biografias
Estou lendo a biografia de Virgínia Woolf escrita por seu sobrinho Quentin Bell. São dois volumes que dão mais ou menos quinhentas e cinquenta páginas…É verdade, biografias tem um quê de brega mesmo, muitas vezes me pergunto porque não me contento com a leitura das obras. O escritor preferiria isso, eu suponho. Mas é difícil resistir, deve ser o mesmo fenômeno que leva as pessoas a seguirem Big Brother. Ou não.
E o que de tão útil eu já aprendi nas 163 páginas lidas? Vejamos, o que me surpreendeu foi saber que V. Woolf contemplou a possibilidade de casar-se com Lytton Strachey, aliás, ele também, não só pensou como chegou a pedir a mão da moça em casamento, mas, no momento mesmo em que fazia o pedido já começou a se arrepender. Ela percebeu e ajudou-o a sair do embaraço. Lytton Strachey é aquele escritor inglês por quem a pintora Carrington* (do filme homônimo, 1995) foi perdidamente apaixonada, tão apaixonada que não sobreviveu à morte dele. Segundo o sobrinho, a homossexualidade de Lytton, ao invés de representar um problema era mais uma espécie de alívio para Vírginia. Informações interessantes mas não exatamente úteis, não é mesmo? Não se pode negar o lado voyeurístico desse tipo de leitura.
Evidentemente, este é apenas um ponto, há outros como as crises de nervos e as preocupações com as injustiças com relacionadas ao fato de ser mulher. Virgínia foi educada em casa, nunca teve educação formal enquanto os irmãos foram para a escola, se prepararam e foram para Cambridge. Era normal que ela, mulher inteligente, se ressentisse e isso percorre a sua obra.
*Interpretada por Emma Thompson.
Virginia Woolf – A Biography By Quentin Bell
Leila Silva
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Mário de Andrade
segunda-feira, 28 de março de 2005
Conto: As coisas tangíveis
As coisas tangíveis
Bom dia, doutor. Como vai? Eu? Vou bem, muito bem. Cadeira confortável, doutor, gostei. Ahn? Não precisa chamar o senhor de doutor? E como eu vou chamar, então?Wagner? Bonito nome, doutor, quer dizer, seu Wagner, nome forte. Bom, o que me disseram era que o senhor era assim uma espécie de doutor das almas, sabe? Mas está certo, o senhor é uma pessoa humilde, a gente logo vê, daí que não se importa com isso de ser chamado de doutor, admiro o senhor. Olha seu Wagner, eu tenho que lhe dizer uma coisa, com todo o respeito, foram as minhas duas filhas e a minha mulher que me mandaram aqui, o senhor já viu mulher quando mete uma idéia na cabeça, não? Pois é, então, sem querer desmerecer a profissão do senhor, eu acho que eu não preciso, sabe? Acho não, tenho certeza. Eu sou uma pessoa de muitos amigos, muitos, inúmeros e, quando eu preciso conversar eu alugo a orelha deles, que amigo serve pra isso também, né? Inclusive é até melhor, com todo o respeito, porque eu conto um pedacinho pra um, depois outro pedaço pra outro, depois dou uma remendada…Às vezes a gente se esquece de uns pedaços e depois, noutra conversa vai e lembra. Só que agora a mulherada lá de casa resolveu que eu tinha que vir aqui conversar com o senhor. O porquê? Bom, doutor, eh, seu Wagner, o senhor, nesse caso, tinha que chamar era elas aqui pra conversar….O que é que ‘eu’ acho? Sei lá, minhoca que elas botaram na cabeça. Disseram que eu ando estranho, agora, seu Wagner, eu me pergunto e pergunto pro senhor, na minha idade, eu não tenho direito a umas estranhezas? Ah, então o senhor concorda comigo? Olha, eu trabalhei duro, fui e sou um bom pai, pode perguntar lá para as minhas filhas que elas não vão negar isso. Elas foram para a universidade, todas duas, me encheram de orgulho, claro….Assim como o pai do senhor também deve ter ficado orgulhoso em ver o filho doutor. Que pai não fica feliz? Mas é isso, e aí, agora, juntaram lá as três pra pegar no meu pé. Mulher, às vezes, pensa demais. Pra quê? Veja, se eu tô estranho, espera passar…Não, não aconteceu nada. Nada, nada, só imaginação demais, sabe? É só um papel sem importância que a minha mulher achou nas minhas coisas, acho que é por isso que elas andam assim em polvorosa. Tempestade em copo d’água, seu Wagner, um bilhetinho sem importância. Nem era bem um bilhetinho, umas palavras que me deu vontade e eu escrevi assim…Me dá até vergonha de falar disso, seu Wagner. Isso eu não conversei nem com amigo nem com ninguém. Virou esse escarcéu por umas palavrinhas de nada, doutor, eu lhe juro. Pra quem eram essas palavras? Pra mim mesmo, ora, mas elas estão achando que é pra alguém, pra uma mulher…Sabe o que é, seu Wagner, já que eu comecei mesmo esse assunto, eu escrevi sim, é verdade, para você, meu amor e pus um nome, mas é o nome que eu chamava a minha mulher quando a gente ainda era novo, só que ela se esqueceu e eu não quero mais falar disso com elas, assunto encerrado, não sei porque tanto barulho por causa de umas rimas. Acredite em mim, seu Wagner. Ciumenta, a minha mulher? Nunca foi e nem é agora…só está curiosa. Quer entender, entender o quê…que ela não tem mais memória? No final das contas não tem nada, o senhor sabe da capacidade das mulheres pra inventarem uma história, pois foi isso, por causa de uns versinhos bobos fizeram isso…Se a minha mulher sentisse um ciumezinho, seu Wagner, até que ia ser bom, só que ela ia estar com ciúmes dela mesma, ciúmes do que ela foi e se esqueceu que foi, entendeu?
Leila Silva
sexta-feira, 18 de março de 2005
Senso
Tomei chuva em Seattle, em Minas, em São Paulo…. Chovia pra todo lado, só nesse meu blog é quem tem chovido pouco. Paciência, caros, parcos, mas valiosos leitores!
É amigos! (que a maioria já se tornou amigo)….
Pois bem, amigos, andei por aí encasquetada com problemas de toda ordem e de ordem nenhuma, viajando, reformulando conceitos, reafirmando crenças e não-crenças. Andei apertada mesmo e nessas horas a gente (gente assim que nem eu) pensa: ‘Porra, até que ia ser bom se existisse mesmo esse tal de deus, podia até ser o Ganesha que eu não tenho nada contra aquela aparência, aprendi um pouco a conviver com ele na Ásia, bem intimamente até. Por uns meses dividimos apartamento com um rapaz malaio que rezava para Ganesha, punha incensos, bananas…Podíamos comer a banana, se quiséssemos, contanto que pedíssemos autorização a Ganesha. P. não gostava muito porque dizia que a banana ficava com o gosto da fumaça do incenso. Outra coisa que o rapaz malaio nos avisou e que não se podia ficar pelado na frente do deus. Não sei por que razão mas ele não gostava. Então, o que eu ia dizendo, seria ótimo se, em certas horas a gente pudesse colocar tudo nas mãos de deus e descansar, não é? Mas, pensando bem, eu não sei se Ganesha é esse tipo de deus que aceita que a gente jogue tudo nas mãos dele…
O fato é que não posso colocar nada nas mãos de deus nenhum porque meu ateísmo é quase uma religião e quanto mais deuses vejo, menos acredito em um.
O pior de tudo é que esse blog não nasceu pra isso, não era para eu abrir aqui meu coração. Queria a ficção mais pura. Existe?
E aqui termino esse texto sem Sexus, Plexus, Nexus. Amém.
Leila
domingo, 13 de março de 2005
La Cucaracha
Já ouvi dizer que fizeram duas versões deste livro, uma com a foto, muito realista, da barata e uma edição, soit disant, feminina, sem a barata. A edição que eu tinha, há uns 15 anos, era com a bendita barata, alguém me deu de presente ou me repassou o livro, não me lembro mais e, tampouco, sei onde o livro se encontra hoje. A edição que estou lendo agora e que meu irmão comprou no sebo (vai ver é o mesmo livro dando voltas) traz também a barata horrorosa. Isto para dizer que nunca nunca vi essa edição sem a barata….
O livro é bacana, engraçado e por vezes triste. Foi escrito quando Henfil estava nos Estados Unidos procurando um tratamento por causa da famosa hemofilia, em 1973.
Bom, aqui encontrei uma das melhores explicações para Thanksgiving, eu também tinha dificuldades em entender esse dia, como todos os estrangeiros. Segundo Henfil:
“Impressiona mesmo é ver este traço da forte e preservada cultura Americana. A história parece que começou no tempo dos pioneiros, que, um dia, vendo que finalmente tinham conquistado e dominado a terra (dos índios), resolveram das graças a Deus. Isto há mais de um século. Aí fizeram um festão e foram convidar quem? Os Indios. Que, Segundo a gravura dos livros escolares, estavam ressabiados olhando a alegria religiosa dos novos senhores da terra. E, nessa primeira festa, o peru foi acompanhado por uma frutinha vermelha que serviu muitas vezes de alimento para os pioneiros esfomeados. Pois bem, Zé, esta frutinha nativa foi conservada no hábito da festa e até hoje é comida junto com o peru. Mas é ruim, quase intragável.”
Bom, a tal frutinha a que ele se refere é cranberry, a fruta em si não é ruim* mas o modo como a preparam para o tanquisguívim* é mesmo quase intragável.
É isso, volto à minha leitura.
*Bem, me parece que hoje em dia existe no Brasil
*Grafia de Henfil.
leilasilva100@hotmail.com
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005
Ai, que preguiça!
Hoje a dor foi menor, quase inexata.
Honra é um harakiri bem feito, debaixo para cima e com coragem.
Ontem poderia ter sido. Hoje estou bem.
O mundo é um lugar dos mais estranhos, tem impostos para pagar e muitas regras para serem seguidas. Tem-se carro para andar mais depressa mas para isso tem-se que perder horas e horas, dias, às vezes, escolhendo um carro, tirando carteira, trabalhando para comprar o carro, para pagar o mecânico….paga-se multas se nos enganamos quanto às regras a serem seguidas. Muitas.Todo dia dormimos e quando não dormimos é pior ainda. Isso não é uma regra, é uma lei da natureza.
Assim é o mundo. Ai, que preguiça!
leilasilva100@hotmail.com
domingo, 13 de fevereiro de 2005
Balaio de Textos - SESC
Estou de novo nos Estados Unidos, Seattle, desta vez. Pensei que ia demorar muito a botar os pes aqui de novo mas 'coisas acontecem'.
Bom, a cidade de Seattle 'e aquela que tem o space needle, tinha Nirvana e outras coisas de que falaremos depois, agora eu so queria deixar uma mensagem para dizer que nessa proxima quinta, dia 17, vou estar de novo no Balaio de Textos do Trevisan, desta vez com um poema, FORMAS, que alguns de voces ja devem ter lido aqui. Por favor, os que estiverem livres no horario do debate, oito horas, entrem para participar, bater nas minhas costas, dar um oi, o que quiserem.
Vou colar aqui o caminho tal qual o Trevisan me enviou:
O poema estará exposto no Fórum do Balaio, onde é possível conferir tb as opiniões deixadas. Vc poderá entrar no site pelos endereços:
http://www.sescsp.org.br/sesc/convivencia/oficina/frabalaio.htm ou
poderá entrar na sala do Balaio pela home page do UOL http://www.uol.com.br/; clicar em Bate Papo; a seguir, clicar em Variados; aí descer até Parceiros e rolar a barra até Oficina de Leitura ou SESC-on line, Sala 1.
Conto com sua presença.
Abraço do
João Silvério Trevisan
COORDENADOR DO BALAIO DE TEXTOS
O Poema:
Formas
So Sorry !
Disse ela sem parecer.
A sua ausência criou o tédio.
Do tédio fiz um poema
Triste e singelo.
Por demais singelo.
Então fiz as malas e fui para Avalovara
Andei por todas as vielas sem guia
A cada vez que me perdia me achava
Fosse a vida quadrada
Eu percorria os quatro cantos
Mas não !
É redonda como um O
E o fim se confunde com o começo.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005
Cadernos do Oriente [India]
...................................................................................................Mahabarata, India
leilasilva100@hotmail.com
terça-feira, 1 de fevereiro de 2005
É carnaval
É o carnaval rosado,
o passo cadenciado
o sorriso largo como a avenida
coxas, peitos, bocas,
bundas e orelhas
dançam todas as cores
Evoé, Bandeira!
Só dentro de mim náo há festa
[Antigo, antigo: 16/02/96]
leilasilva100@hotmail.com
quinta-feira, 27 de janeiro de 2005
Cadernos do Oriente
Era uma vez um homem rico que vivia numa enorme mansão, ao lado da estrada. Atrás da casa havia uma majestuosa amoreira. Durante os dias quentes de verão ele costumava ir sentar-se à sombra dela para apanhar o fresco que ali se fazia sentir.
Um belo dia, um pobre coitado foi deitar-se à sombra da árvore e o homem rico, assim que o viu pôs-se a gritar:
_ Hei, tu! Não podes deitar aí! Vá! Vai-te embora! Desaparece!
_ Vou-me embora, por quê? Estou bem aqui. _retrucou o outro.
_ Essa árvore_ explicou o rico _ fui eu quem a plantou e eu quem a tenho regado. Por ter tratado dela é que agora ela está assim tão grande, e por isso a sombra dela é minha.
_ Se assim é, cede-me a tua sombra que eu pago-te bom dinheiro por ela.
A palavra “dinheiro” ressoou como uma bela melodia nos ouvidos do homem rico.
_ Hã! Assim está bem! respondeu.Assim cedo-te a minha sombra.
Após três ou quatro encontros, feitos por meio de intermediários, concordaram com o valor a pagar e firmaram o negócio.
Desde então aquele pobre vinha, todos os dias, deitar-se à sombra da árvore. Quando a sombra se estendia para o pátio da casa do rico, ele ia deitar-se ali; quando ela entrava para a cozinha, era para lá que ele ia; quando penetrava pelo salão adentro, até mesmo para ali ele ia deitar-se. Em resumo, para onde quer que a sombra se estendesse, ele seguia-a sempre. Por vezes estava sozinho, mas outras vezes convidava os amigos para virem apanhar o frescor debaixo daquela que era a sua sombra e chegavam a trazer consigo os seus burros e outros animais.
O rico estava a perder a paciência e, um dia, explodiu a sua fúria:
- Mas que é isto? Quem é que te deu ordem de vir para o meu pátio, de entrar na cozinha da minha casa ou no meu salão? Proíbo-te que volte a pôr os pés aqui.
- Então, mas eu não te comprei a sombra da amoreira?_ respondeu ele._ Ora, como ela me pertence, ninguém me pode impedir de vir repousar onde quer que ela esteja.
Tal resposta fez aumentar ainda mais a raiva do homem rico, mas a verdade e que ele não podia fazer nada.
Um dia o senhor tinha visitas em casa. Ora, nesse mesmo dia o dono da sombra entrou pela casa adentro com ar de muito à vontade e deitou-se no chão sem se importar com os convidados que ali estavam. Tudo isto lhes pareceu muito estranho e, quando souberam da historia da venda da sombra, desataram a rir escancaradamente.
Isto já era demais para o homem rico! Ele não podia viver ali por mais tempo e por isso mudou-se para outra aldeia.
E assim aquele “Zé-ninguém” tornou-se o propietário da mansão e, no lugar onde o rico guardava o seu cavalo, ele punha agora o seu burro.
A partir de então, nunca mais ninguém foi admoestado pelo fato de vir deitar à sombra da amoreira.
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Conto chines
sexta-feira, 14 de janeiro de 2005
Sylvia Plath
ESPELHO
Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.
Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.
Sylvia Plath
sábado, 8 de janeiro de 2005
Cadernos do Oriente
Antes de ir aos contos, reproduzo uma frase retirada da apresentação do livro ´Cuentos extraordinários de la China Medieval´, Antologia del Soushenji:
“Fique sabendo, leitor, se já não o sabe, que esta obra não é nenhuma gota de mar senão um mar em si mesmo. Figura entre os clássicos de uma literatura tão vasta quanto fascinante, notavelmente mais rica que todas as nossas literaturas românicas peninsulares juntas, em treze ou quatorze séculos mais dilatada que elas e, lamentavelmente muito pouco conhecida entre nós: a literatura chinesa.”
Contos:
(1)
O inhame (ou “batata dos montes”, segundo outra denominação) tem uma raiz que é boa tanto para remédios como para simples comida de verão. Os lambriegos a chamam ‘autóctone’. Para desenterrá-la, há que se cavar, com movimentos muito suaves e sem dizer seu nome: do contrário, será impossível. A raiz do inhame se parecerá com a pessoa que o tenha plantado.
(2)
No ano 326, o primeiro do período Xianhe da dinastia Jin, um homem chamado Xu partiu para uma viagem muito longa durante a qual sonhou que dormia com sua mulher; ela ficou grávida e, quando ele regressou, ao final de um ano, já tinha dado à luz uma criança…
E contou-lhe que tinha tido o mesmo sonho que ele.
Liu Jingshu, dinastia Nan Chao (420-589)
sexta-feira, 7 de janeiro de 2005
A internet e os blogs
Por isso mesmo, vale a pena ser lido.
Leila
quarta-feira, 5 de janeiro de 2005
“A aids é uma arma biológica.”
Cazuza:
“Às vezes fico pensando que a aids parece mesmo coisa da CIA misturada com o Vaticano.
Sei que é um pouco de loucura pensar isso, mas faz sentido, faz. Faz muito sentido.”
Wangari Maathai, Nobel da Paz 2004:
“A aids é uma arma biológica.”
“Alguns dizem que essa enfermidade veio dos macacos, mas eu duvido. Vivemos com os macacos desde tempos imemoriais. Na verdade, o vírus foi criado por cientistas para guerra biológica. Por que há tantos segredos sobre a aids? Isso me traz muitos questionamentos.”
“Nós, negros da África, morremos de aids mais do os outros povos do planeta.”
quarta-feira, 22 de dezembro de 2004
Cadernos do Oriente
(Liu Zongyuan – 773-819, China)
Não havia jumentos em Guizhou, até que alguém pôs um num barco e o transportou para lá. Porém, não sabendo bem o que fazer com ele, deixou-o solto nas montanhas. Um tigre, ao ver aquele bicho disforme, pensou que fosse um ser divino. Primeiro, bem escondido, observou-o atentamente. Depois ousou aproximar-se, mantendo ainda uma respeitável distância.
Um dia o jumento zurrou. O tigre se assustou e, com medo de ser mordido, fugiu apavorado. Mas voltou para dar mais uma olhada e decidiu que a criatura, afinal, não era assim tão temível. Acostumando-se com os zurros, chegou mais perto. Já colado praticamente no outro, e agora tomando muitas liberdades, o tigre passou a azucrinar o jumento com repetidos avanços. Esse, enfim, perdendo a paciência, deu-lhe um coice.
“Ah, pois então é só isso que ele consegue fazer”, pensou o tigre entusiasmado que, ato contínuo, pulou sobre o jumento, cravou-lhe os dentes no pescoço, devorou-o o quanto pôde e prosseguiu o caminho.
Pobre jumento! Seu tamanho lhe dava uma aparência de força, seu zurro inspirava medo. Caso ele não tivesse mostrado tudo de que era capaz, o tigre, apesar de tão feroz, provavelmente não teria se arriscado a atacá-lo. Mas tal foi, lamente-se, o intempestivo fim do jumento.
terça-feira, 21 de dezembro de 2004
Insomnia
Uma noite foi diferente, esperou, esperou e o sono, sempre tão certo, não veio. sem experiência, não sabia onde buscá-lo, só sabia que, no dia seguinte, às seis da manhã, tinha que estar de pé. Ocorreu-lhe então experimentar a mais popular das receitas: contar carneirinhos. Contou e dormiu….
e sonhou que carneiros furiosos a perseguiam.
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“Todos somos locos,
los unos y los otros”.
Quevedo
segunda-feira, 6 de dezembro de 2004
Molière, o impostor!
Molière impostor, quem diria? Bom, aparentemente muita gente, pelo menos é o que diz um artigo que acabo de ler na revista ‘Magazine Littéraire’, n. 433. As maiores peças de Molière não teriam sido escritas por Corneille? O debate nem parece novo, Pierre Louys já tinha levantado a hipótese baseado numa intuição em função das semelhanças de estilo, de língua e de situações.
Hoje um historiador, Pierre Boissier, volta ao antigo tema e vai ainda mais longe que seus predecessores, afirmando que Molière nunca escreveu uma única peça em toda a sua vida. No seu livro l’affaire Molière, o historiador trata Molière como ‘Le comédien’ (o ator) e nunca como escritor. Os fatos são, no mínimo, perturbadores – diz a revista – pois Molière trabalhou em inúmeras peças de Corneille e foi quando este parou de escrever que o talento de Voltaire desabrochou.
Apesar da séria documentação já levantada, alguns consideram que ainda é cedo para se tirar conclusões. Por que Corneille teria feito isso sem deixar nenhuma pista, uma confissão, uma carta que pudesse ser lida depois de sua morte? É uma questão importante a ser respondida, acredita o autor do artigo.
Charles Bukowski
sábado, 4 de dezembro de 2004
Cenas repetidas
Entre Atlanta e Nova York
Sob a ducha ainda pensei que essa era uma vida das mais estranhas, em menos de seis meses estava eu ali de novo, dizendo adeus a mais um apartamento. Branco e vazio. Adios Atlanta! A água daquele chuveiro lavava-me pela última vez, pela última vez, uma hora depois eu fecharia a porta daquele apartamento, meia hora depois eu abraçaria Aufra esperando que não fosse a última vez e depois percorreria a highway que nos levaria ao aeroporto. Pela última vez, talvez. Talvez não.
Agora, triste e confessional, contemplo ora as nuvens, ora o grafite deste lápis que desliza na folha. Uma aeromoça nervosa e apressada serve-me uma água com gás e recolhe de má vontade o pacotinho de pretzel que eu recusei. Em alguns instantes Nova York se apresentará num relance, entre um aeroporto e outro. Bye! Bye! A outra aeromoça – longa, de unhas também longas (coitada!) – serve com menos pressa. Mas essa não caiu para mim. [Aprecio o grafite no papel]
………………………………………………………..
[La Guardia airport to JFK]
O nervosismo das grandes cidades. O motorista que nos leva de um aeroporto a outro se aposentará dentro de 54 dias – é o que diz o cartaz postado no painel do ônibus– nem por isso ele está menos irritado, passou um sabão em todos os que se levantaram das poltronas antes da hora. Antes disso já tínhamos suportado o humor tenebroso do rapaz que conferia os bilhetes, irritou-se porque algumas pessoas (eu e P. inclusive) estavam entregando o seu bilhete e o dos acompanhantes ao mesmo tempo. (It confuses me! It confuses me!)Disse e repetiu num inglês muito interessante. Eu ri muito, sem disfarçar. Tanto nervosismo é hilário. É interessante como algumas pessoas levam tão a sério a vida, os bilhetes, as horas, todas as regrinhas. Tudo que é sério demais é risível.
Aeroporto JFK – Espera de mais de três horas – Compro The New Yorker, tomo café…..Singapore airlines me oferece uma orquídea.
No avião, pedaços de filme. Sono.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2004
Deus [Teresa Filósofa]
Em: Teresa Filósofa
Anônimo do século XVIII
Um dos maiores clássicos eróticos da Literatura Mundial
L&PM pocket
quinta-feira, 2 de dezembro de 2004
O longo caminho entre Bruxelas e Budapeste
15/07/2004
[Bélgica]
Humores alterados. P. terribilis. Malas rápidas. M. sem trousse de toilette, só escova de dentes. Vai sobrar pra mim!
Única voz no carro, Otis Taylor, Truth is not fiction. Não? O caminho será longo, entretanto, mas a citröen é très confortable e os discos são muitos. O grafite (esse que que desliza na folha) pode acabar e o apontador ficou esquecido em cima do escritório.
Um exercício bom de se fazer em viagem é pensar numa cidade e deixar que algo relacionado a ela venha naturalmente.Poderia propor o joguinho a M. e P., quem sabe o clima não melhora? Ou piora? Por exemplo:
Praga=Kafka,
Barcelona=Gaudí,
Viena=Freud,
Dublin=James Joyce e assim vai.
Algumas cidades se prestam mal ao exercício pois são tantas as coisas que vêm ao espírito que não fica nada em específico: Londres, Paris…
Budapeste é engraçado, a primeira coisa que me veio à cabeça foi Chico Buarque e depois Paulo Rónai. A ordem deveria ter sido alterada mas não é um exercício que deva depender da razão. A atualidade falou mais alto.
15 horas [Bélgica ainda]
Coníferas e nuvens. P. de bode ainda. Mesmo disco.
15:30 – Alemanha
M. reclamou que o disco já rodou muito tempo. Agora com vocês Marisa Monte, primeiro disco. [I heard it trough the grapevine….]
[…………………………………………………………………………………..]
Now, CCR (Credence Clearwater revival).
Now The Kingston Trio.
P. soltou uma frase, disse que a França está logo ali, atrás da Forêt Noire, l’Alsace.
18:40 Como criança que está aprendendo a ler, leio todas as palavras em alemão que vejo nos caminhões, placas….e P. tem que dizer se a pronúncia está certa. Deve ser chato pra ele.
Passamos por uma Trabant e P. se entusiasma. Nostalgia do Oriente.
19:30 Baviera – Parte católica da Alemanha.
A questão de ordem é: que campo de concentração visitar?
Parada para um sanduíche frio e sem graça. O meu é constituído de queijo, presunto, 1 rodela de pepino e uma folhinha de alface.
Rosenheim – a cidade da alemã do filme Bagdá Café. Aqui vamos dormir num hotelzinho simples e limpinho.
Dia 16
9:30 terminando o café da manhã: pãezinhos quentes, queijo, presunto, suco (?), café com leite.
Aqui, as torres das igrejas cristãs me fazem pensar em minaretes.
10:30Áustria – Salzburgo. Visita relâmpago. Havaianas nas vitrines a 20 euros, 25 com bandeirinha brasileira, 30 com plataforma.
Visita a igreja de estilo barrôco.
14:10 Caça ao almoço, tarde demais para os padrões austríacos. Somos servidos de má vontade.Pizza (Pizzera Rimini). Procurando pelos toilettes, quase fui dar nos quartos dos proprietários. Estamos em Linz, cidade onde Hitler nasceu.
Enquanto como, lembro-me que Hund é cachorro em alemão, é o nome do cachorro mecânico em Farenheit 451.
15:00 passando pelo Danúbio que, Segundo M. está mais para verde do que para azul.
M. escolheu visitar o Campo de concentração e extermínio de Mauthausen. (Memorial). Não tenho vontade de comentar, nada pode dar a dimensão de um erro tão grande, nem mesmo a visita a este campo agora limpo e preparado para os curiosos ou os que querem preservar a memória ou os que tentam entender. Eu também tento entender, também penso que a memória deve ser preservada para que os erros do passado sejam evitados. E são? Os americanos se gabam de que ajudaram os europeus a vencer o nazismo, por exemplo. Sei lá…tudo é triste.
Outra coisa terrível: acreditei que eu não fosse capaz de entrar numa camera de gaz. E fui.
Perto de Viena, uma lavoura de girassóis.
[Luiz Gonzaga nos diverte]
Cansados, nos concentramos num filme francês na TV5. (bosta de filme!)
17/07 VIENA
10:00 café da manhã. Eu e M. não entendemos nada do cardápio, deixamos que P. escolha. Feito crianças.
Eu e M. visitamos o Museu Leopold: Anton Kolig, Herbert Boeck, Hans Böhler, Robert Kohl, Jean Egger, Egon……
Visitamos o centro da cidade. Meus pés doem muito e páro para ver esses espetáculos bobos na rua: gente pulando, se fazendo de estátua… aqui, como não poderia deixar de ser, temos muitos Motzarts. Um casal aproveita a lua de mel para apresentar show de equilíbrio e dança….
Noite: Jantamos num restaurante italiano. Cedo para ir dormir mas temos que tentar pois amanhã tomamos o trem antes das seis da manhã para Budapeste. Faz calor e eu me esqueci das sandálias. Devia ter comprado uma daquelas havaianas.
Domingo em Budapeste
18/07 Levantamo-nos às 5:30 e tomamos o trem para a Hungria. Tivemos que deixar o carro em Viena e tomar o trem porque o seguro não inclui a Hungria.
No caminho, campos e campos de girassóis, milharais…Ao meu lado um cara redondinho, todo vestido de preto, dorme e ronca.
Já fomos controlados 4 vezes: 2 vezes o passaporte e duas vezes o bilhete.
8:40 Paramos em Györ, muitos passageiros sobem, temos duas novas companheiras, uma garotinha e a mãe. Vou prestar atenção na língua.
O Danúbio agora é Duna e o euro não é usado por aqui.
15:30 Visitamos, almoçamos, agora descansamos deitados na grama em frente ao Hotel Four Seasons, um prédio magnífico. E rimos. Muito calor. Lindas americanas em flor, deitadas ao lado, também riem.
Depois do descanso visitaremos Peste. Músicos tocam sob o sol terrivelmente quente, P. deitado na grama, dança o pé. Um rapaz, do outro lado da rua dança animado e bate palmas, aproveita o ritmo e bate na bunda de uma moça do grupo que leva um susto. Os meus, agora dormem. A música lembra os filmes de Kusturica, sobretudo Black cat White cat.
Peste. Festival de Cinema Húngaro, em frente ao parlamento, dois telões. Eu e M. assistimos a uma parte do filme em preto e branco e em Húngaro. Ninguém ri.
A noite voltamos para Viena, pegamos o carro e vamos procurar um hotel na Estrada. Só encontramos um às três da manhã, ainda na Austria.
12:20 Atravessamos Munique (Münch)
Almoço em Ulm (15:18)salada. Visita a igreja/mosteiro. Crianças italianas contrariam a ordem e pegam as moedas de um mendigo que, ajoelhado, estendia o seu chapéu. Não resta outra alternativa ao pobre homem senão rir daqueles capetinhas….os pais aparecem irritados e envergonhados. Isso não nos impede de rir.
Caminho: vaquinhas brancas, rolos de feno, reatores nucleares.
Home sweet home.
sábado, 27 de novembro de 2004
Silêncio
Agora está tudo pronto, já vendi a moto e comprei o que precisava. Já reuni, inclusive, a coragem. Eu quero o silêncio, só isso. Você vai se assustar, não, mamãe, vai se assustar com isso de eu querer o silêncio. Justo eu que botava a esguelada da Janis no máximo. Quem a chamava de esguelada era você. Pois é, mamãe, acabou. Quase. Quando você chegar da sua viagem, tudo estará acabado. É triste mas é assim e não é culpa de ninguém, só desse demônio que me ronda. É simples, eu não nasci para viver, fui carregando até aqui mas não dá mais. Até parece desprezo para com o seu esforço hein, mãe? Você que me disse tantas vezes que eu te devo a vida….mas, honestamente, eu nunca me senti devedora, eu nunca gostei do mundo, eu não pedi nada, eu não existia quando você tomou a decisão. Quem existia era você e sua vontade de ser mãe, de gerar um ser que cuidasse de você na velhice, que te desse netos, que falasse doce, que fosse uma mulher moderna mas não excêntrica e eu vim assim, estranha, parece que vim para te contrariar. Sinto muito, dona Gertrudes. Netos? Ainda que eu gostasse de homem – e você já sabe que não - ainda que eu gostasse, eu nunca ia gerar filhos, never, ever. Como, se não sei cuidar nem de mim? Não, não tive filhos para não deixar-lhes a herança da miséria humana. É assim mesmo a tal da frase?
Eu estou aqui (e quando você ler isso será ‘eu estava aqui’. Engraçado isso de escrever pensando que, quando você estiver lendo estas linhas o presente já não será mais presente. Raciocínio besta, é claro que não, ainda que eu, porventura estivesse viva quando esse papel caísse nas suas mãos, ainda assim, esse momento não seria presente. Ai, acho que já bebi demais, mãe. Mas eu não pretendo estar viva quando você estiver lendo, por isso eu poderia escrever o que quisesse, mas eu tenho um coração, mãe, tenho sim e estou morrendo de pena de quando você chegar e deparar com a minha carcaça ali ou aqui, ainda não escolhi. Não tem outro jeito, não sofra demais.)então eu estou aqui tentando fazer a coisa bem feita. Eu sempre soube que quando o fizesse eu o faria bem feito.
Eu tentei, tenho mais de trinta anos, não caibo em lugar nenhum, juro que tentei. Quem sabe se fosse outro século, um século mais certinho, onde tudo estivesse definido, em que a gente não estivesse a par de todas essas facetas do ser humano, tudo está escancarado e não é bonito de ver, não, não aqui da minha perspectiva. Ou, quem sabe, um século clean como dos filmes de ficção científica….Tudo lenga-lenga, né? Deve ser mesmo. Eu desejo o silêncio mais profundo que há, o nada. Você já reparou que as pessoas têm medo de mim? E eu nem entendo o porquê. Sabe como me chamam lá na universidade? Lana Joplin. E eles pensam que eu não sei, tudo nas costas, riem os babacas. Que se riam! A caravana passa. Fico um pouco curiosa sobre o depois, o que vão pensar, se vão me detestar. Há muitos anos, um amigo que estudava medicina disse que com um tiro na boca, bem no céu da boca, não há jeito de errar Eu não vou errar, não desta vez. Já errei tanto.
Leila Silva
(28/09/2004)
terça-feira, 23 de novembro de 2004
Elegia
Confiram, vale a pena. Titulo do conto: Elegia.
Sobre o autor: VIVALDO LIMA TRINDADE é editor da Verbo21 www.verbo21.com.br
sítio literário, e contista. Tem dois livros inéditos, Todo Sol mais o Espírito Santo e O Supermercado da Solidão.
domingo, 21 de novembro de 2004
Cadernos do Oriente
Na prefeitura de Yangxian, deu-se o caso de um homem chamado Xu que atravessava as montanhas levando nas costas uma gaiola de gansos quando encontrou um estudante no caminho. O rapaz estava caído e perguntou-lhe se podia ser carregado na gaiola porque tinha os pés machucados. Xu não o levou a sério e ainda ria quando o rapaz entrou na jaula sem diminuir de tamanho e sem que a jaula aumentasse de volume, ajeitou-se entre dois gansos sem causar-lhes nenhum incômodo ou medo.Xu voltou a carregar a gaiola pois, apesar da sobrecarga, não sentiu que ela pesava mais. Percorreram um trecho até chegarem a uma árvore baixa e ali Xu decidiu parar para descansar.
O estudante saiu da jaula e disse:
- Se não houver nenhum inconveniente, gostaria de preparar para nós uma comida simples.
- Claro! Respondeu, encantado, o viajante.
O estudante sacou, então, da sua boca uma grande caixa de cobre e de dentro da caixa foi tirando um prato depois do outro, já preparados. Um infindável e delicioso banquete.
- Queria dizer-lhe – disse o estudante depois de uns tantos copos de licor de arroz – que a verdade é que não viajo só, trago comigo uma mulher escondida e gostaria de convidá-la a sentar-se conosco, se isto lhe convier.
- Claro! Disse, mais uma vez, Xu.
O rapaz tirou da boca uma moça, vestida com uma elegância extraordinária e mais bela que todas as mulheres. Continuaram a comer e a beber até que o estudante, sentindo-se cansado e embriagado, deitou-se num canto e dormiu. A mulher aproveitou para dizer a Xu:
- Queria dizer-lhe que, ainda que eu seja sua mulher, detesto este homem. Por isso, não vou só, trago comigo um homem escondido. Agora que meu marido está dormindo pesado, gostaria de vê-lo. Não dirá nada a meu esposo, não é mesmo?
- Claro que não. Respondeu Xu.
Ela tirou, então, da sua boca, um homem de uns vinte e três ou vinte e quatro anos, inteligente e amável, que esteve conversando animadamente com Xu, até que o estudante pareceu despertar. A moça tirou rapidamente um biombo da sua boca e atrás dele escondeu o amante. Ao mesmo tempo foi chamada pelo marido que, langoroso, puxou-a para deitar-se ao seu lado. O amante aproveitou para dizer a Xu:
- Queria dizer-lhe que, ainda que seja uma mulher de bom coração, o meu amor não é só para ela, por isso não vou só, mas trago comigo uma mulher escondida. Agora que a outra está dormindo, gostaria de vê-la, você guardará segredo?
- Claro! Respondeu Xu.
Tirou da boca uma mulher de uns vinte anos de idade e continuaram bebendo, comendo e conversando os três até que ouviram ruídos vindo do lado onde estava o outro casal. Rapidamente o rapaz engoliu a mulher. No mesmo instante, a esposa do estudante saiu de detrás do biombo e disse:
- Meu marido está a ponto de acordar. Engoliu rapidamente o amante e ficou a conversar com Xu.
O marido acordou, finalmente, e disse:
- Acabei por dormir muitas horas. Desculpe tê-lo deixado só, você deve ter se aborrecido bastante. Bom, já está quase noite, teremos que nos despedir.
Colocou na boca a mulher e também todos os pratos, talheres, vasilhas. Só não engoliu uma grande bandeja de cobre:
- Como não tenho nada de valor a oferecer-lhe, deixo-lhe isto como lembrança do nosso encontro. Disse o estudante a Xu.
.............................
Muito mais tarde, exatamente no ano 376, Xu foi elevado ao posto de bibliotecário imperial e teve ocasião de mostrar a bandeja ao vice-ministro Zhang. Este, examinando o objeto, descobriu uma inscrição que indicava ter sido ele fundido em 58, durante a dinastia Han.
quarta-feira, 17 de novembro de 2004
Elizabeth Bishop
Ela vai descrevendo tudo o que encontra pelo caminho na sua ida ao botequim para comprar leite. É muito interessante e é sempre bom – eu acho – observar o olhar do ‘outro’ sobre o Brasil.
Um exemplo desse olhar atento de Bishop:
“Aqui há um excesso de cascatas; os rios amontoados/ correm depressa demais em direção ao mar,/ e são tantas nuvens a pressionar os cumes das montanhas/ que elas trasbordam encosta abaixo, em câmara lenta,/ virando cachoeiras.”
Mas qual foi a origem dessa relação tão duradoura com o Brasil?
Bishop estava de passagem pelo Rio onde conheceu Lota de Macedo Soares a arquiteta idealizadora do aterro do flamengo, por quem se apaixonou e foi correspondida. Isso a introdução deste livro não explica claramente, nao sei porquê. Há, entretanto, um livro sobre as duas escrito por Carmen L. Oliveira, Flores raras e banalíssimas, da editora Rocco e que já foi traduzido para o inglês. Acho até – já li sobre isso em algum lugar – que pretendem fazer um filme baseado nessa biografia com Emma Thompson no papel de Bishop. Só espero que seja melhor que o filme baseado na vida de Sylvia Plath…
domingo, 14 de novembro de 2004
Londres 95
a todo instante
vejo um aviao no céu de Londres
A nuvem do verão de Londres é igual à do Brasil
Os velhos de Londres, são mal humorados
Os velhos indianos de Londres, não são não
Os jovens fazem seus beds nas streets de Londres
_Cigarette, please!
Os italianos de Londres, são como os italianos da Itália.
São?
Não sei não.
Leila Silva
Londres, agosto 1995
[Para my dear dear Dani]
terça-feira, 9 de novembro de 2004
quinta-feira, 4 de novembro de 2004
Era uma vez um letrado chinês: Pu Songling
Era uma vez um letrado chinês: Pu Songling
Um dia estava eu revirando uma livraria em Bruxelas à caça de alguma coisa da literatura asiática, qualquer que fosse, mas de preferência, chinesa - estava me preparando para viver na Ásia e não queria chegar no continente completamente ignorante da sua literatura. Assim, deixei que o acaso me guiasse pois não contava com muitos outros meios e o acaso levou-me ao livro “Chroniques de l’étrange” de Pu Songling(1640-1715), contos traduzidos do chinês e apresentados pelo sinólogo André Levy.
Certamente que li a contracapa antes de passar no caixa e empenhar os meus francos (o euro ainda nao existia). Ali o tradutor explicava que esta era uma das obras maiores da literatura chinesa e que a literatura mundial não oferecia nenhum equivalente. Trata-se de uma obra do século XVII mas que só foi largamente difundida na segunda metade do século XVIII e apareceu bem mais tarde no Ocidente, no final do século XIX através de traduções de traduções, evidentemente aproximativas, fragmentárias ou redundantes, como coloca o autor do prefácio e tradutor. Pronto, decidi que os meus francos estariam bem empregados.
Hoje há muitas traduções desse livro de estórias de raposas (seres sobrenaturais), demônios, reencarnação, críticas aos abusos sociais, costumes, etc… Infelizmente não há ainda uma tradução para o português.
No conto O Cão adúltero, Pu Songling narra a estória de uma mulher cujo marido, por conta de suas atividades comerciais, viajava por longo período, chegava a ficar ausente por um ano. Então, para satisfazer as necessidades da carne a mulher ensina alguns truques ao cachorro. Um belo dia o marido chega em casa e o cachorro não gosta daquilo. Quando o marido vai para a cama com a mulher, ele irrompe no quarto, avança no homem, mata-o e toma o lugar que já considerava seu. No vilarejo, todos ficam indignados com a estranha morte e denunciam o caso às autoridades. A mulher vai presa como suspeita, é convenientemente torturada mas nada confessa. Embora o juiz ainda não tenha entendido o X da questão, pensa que ali tem adultério. As penas para adultério eram extremamente severas nessa época (sobretudo para as mulheres), morte lenta e atroz.
O juiz tem a idéia de trazer o cachorro para perto da mulher (baseado lá em algum instinto de juiz). Quando o cachorro a vê, saudoso como estava, já corre pra cima dela. Assim o delito é descoberto. As leis sobre adultério não incluíam nada sobre cachorro, evidentemente. Não sabendo bem o que fazer, deixam o cachorro na prisão junto com a mulher enquanto aguardam decisão dos superiores. Centenas de pessoas subornavam os guardas para que colocassem mulher e animal na mesma cela e oferecessem o espetáculo carnal.
Finalmente o tribunal apresenta a decisão: a mulher e o cachorro são condenados à morte por decepagem.
Como já foi dito antes, a temática é muito variada e esse é apenas um exemplo do que pode ser encontrado no livro de Pu Songling. Alguns outros títulos de contos: O cadáver animado, Wang, o amigo de um humilde pescador, Pelo roubo de um pêssego, O encantador de serpents, o bibliômano, Yingning, a moça que ria …
Para ilustrar melhor o livro, deixo aqui a tradução de um conto, La fresque, feita a partir das traduções francesa e inglesa.
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O mural
Originário de Jiangxi, Meng Longtan se encontrava na capital em companhia do letrado Zhu. Um dia caminhavam os dois sem destino certo por ruas e pequenas travessas quando encontraram um mosteiro com quartos para meditação de dimensão modesta. O lugar estaria completamente deserto não fosse a presença de um velho monge que, mal os viu entrar, compôs respeitosamente as roupas e, cumprimentando os dois visitantes, ofereceu-se para lhes mostrar o seu pequeno refúgio.A sala principal do templo abrigava uma imagem do mestre zen Bhaozhi(1), as paredes laterais eram cobertas por pinturas de uma delicadeza tão fina que se podia tomar por verdadeiras as figuras humanas ali representadas. Na parede da direita, ao leste, estava representada a lenda budista “Ninfas celestes espalhando pétalas”; dentre as ninfas havia uma que especialmente comoveu o coração de Zhu, os cabelos soltos desciam-lhe até a linha fina da cintura (2), as mãos esguias e de dedos longos seguravam uma flor, mas o que mais impressionava o jovem letrado era o sorriso encantador dos seus lábios de cor de cereja e os olhos cintilantes que pareciam endereçar-lhe os mais amáveis e tentadores convites.Tão concentrado estava a contemplar o mural que Zhu não percebeu que perdia o controle de si mesmo; os seus pensamentos tornaram-se tão abstratos que entrou numa espécie de transe. Sentiu o corpo tomar uma nova consistência, como se flutuasse num estranho nevoeiro. Subitamente estava dentro do mural. A profusão das salas e pavilhões fez com que ele compreeendesse que não se encontrava mais no mundo dos mortais. Um velho monge, do alto de uma plataforma, pregava o Dharma a uma multidão de religiosos cujos trajes deixavam à mostra o ombro direito. Zhu misturou-se à multidão. Pouco depois, sentindo que o puxavam furtivamente pela manga, virou-se: Ali estava a jovem dos longos cabelos soltos a lhe sorrir. Ela afastou-se repentinamente e ele a seguiu de perto pelas galerias sinuosas até uma pequena casa, uma vez ali, Zhu hesitou, não ousava entrar. Ela, delicadamente, voltou-se, ergueu a flor e acenou de forma tão convidativa que Zhu não pode resistir. Como não havia ninguém no quarto ele tomou-a imediatamente nos braços sem que ela oferecesse muita resistência. Em seguida ela lhe concedeu os favores mais íntimos. Satisfeita, levantou-se, fechou as cortinas e, avisando-o que não deveria emitir sequer um som, saiu prometendo que voltaria quando a noite caísse. E assim foi, ela voltou nessa noite, na noite seguinte e na outra... até que as suas companheiras aperceberam-se e, combinadas, tanto procuraram que acabaram por descobrir Zhu."Cresce já um pequeno ser no teu ventre, mas tu ainda deixas o teu cabelo flutuar livremente como se fosses uma donzela", disseram elas entre risinhos de troça. Imediatamente lhe ofereceram alfinetes, brincos e fizeram-na arranjar o cabelo à maneira das mulheres casadas. Ela fez-lhes a vontade, envergonhada, sem dizer uma palavra. Depois, uma das jovens comentou com malícia: "Irmãs, vamo-nos porque, evidentemente, estamos aqui a mais". E, rindo, partiram.
Zhu contemplou a sua amada, experimentou a macieza daquela nuvem perfeita de cabelos e admirou a curvatura dos brincos de fénix que lhe pendiam das orelhas. Parecia-lhe ainda mais encantadora do que quando trazia os cabelos soltos. Ninguém no horizonte, entregaram-se ardentemente à intimidade embriagados pela fragância do almíscar e das orquídeas. De repente, antes mesmo que chegassem ao termo, ouviu-se lá fora, no meio de vozes exaltadas, os passos fortes de botas de couro juntamente com um tilintar de correntes. A jovem levantou-se apavorada e espreitou pela janela: era um oficial completamente equipado, a face negra como a laca, correntes numa mão e uma clava na outra. À sua volta estavam todas as donzelas. "Estão aqui todas presentes?", perguntou o oficial. "Sim, estamos aqui todas", responderam. "Se alguma de vós esconde um homem do mundo inferior será melhor que o denuncie. Não criem problemas dos quais ninguém vos poderá defender". "Não há ninguém", retorquiram elas em uníssono. O oficial olhou em volta e, com o seu olhar de águia parecia prestes a dar busca no esconderijo. Tão aterrorizada estava a jovem que a sua face tornou-se mais pálida que a cinza, só teve tempo de dizer: "Rápido, esconde-te debaixo da cama". Quanto a ela, abriu uma porta secreta na parede e desapareceu num ápice. O jovem letrado escondeu-se e ficou prostado, mal se atrevendo a respirar. Não tardou a ouvir o som pesado das botas do oficial a entrar e, pouco depois, a sair do pequeno quarto. Lentamente Zhu voltou a si, recuperando a compostura. Lá fora, o barulho das vozes ia esmorecendo pouco a pouco. Contudo, ele não tinha coragem para sair do seu esconderijo. Passado algum tempo, os ouvidos estremeciam com o som ininterrupto de campaínhas e os olhos ardiam-lhe como dois tições. Apesar do medo e do desconforto destas sensações, não tinha outro remédio senão esperar muito quieto pelo regresso da jovem pois, tão toldado se encontrava seu espírito, que já não sabia de onde tinha vindo...Ao aperceber-se do súbito desaparecimento de seu amigo, Meng Longtan, perplexo, perguntou ao velho monge o que se passara. "Foi ouvir os ensinamentos do Buda", respondeu o monge com um sorriso irônico nos lábios. "Onde?", perguntou Meng. "Não foi longe", atalhou o monge dirigindindo-se ao mural. Chegando-se à pintura o velho bateu na parede com um dedo e perguntou: "Porque te demoras tanto, meu bom patrono?" Imediatamente surgiu no mural a imagem de Zhu, a face descomposta pelas emoções, a cabeça ligeiramente inclinada como se estivesse a ouvir alguma coisa. "Há muito tempo teu companheiro te espera”, prosseguiu o monge. Nesse momento Zhu caíu do mural e ficou prostado no chão, os olhos esbugalhados e as pernas tremendo como bambús. Assustadíssimo, Meng perguntou-lhe o que sucedera. O amigo não sabia o que responder; na verdade, estava debaixo da cama quando ouvira um enorme fragor, como se mil homens tocassem a um só tempo um tambor gigantesco. Apavorado, saíra a correr da câmara para tentar descobrir o que se passava.Os dois amigos voltaram-se para o mural. A jovem continuava de flor na mão mas agora ao invés dos longos cabelos soltos ela trazia um elegante coque, elevado em espiral. Surpreso, Zhu voltou-se para o velho monge e perguntou-lhe a razão. "A ilusão nasce do espírito humano. Que outra explicação poderia lhe oferecer esse humilde servidor?"
Zhu sentiu-se extremamente abatido, Meng estava confuso e abalado. Ambos se levantaram e desceram as escadas que conduziam à saída.
(1) Eminente monge da meditação que viveu durante as dinastias nortistas e sulista (420-589)
(2) Os fato de não levar os cabelos atados significa que ela não era casada.
Leila Silva
Leila Silva
Bruxelas, 31 de Janeiro de 2004
Van Gogh
Em agosto deste ano visitei uma casinha perdida numa das regiões mais feias e mais pobres da Bélgica, Le Borinage. Nessa casinha viveu Vincent Van Gogh nos anos em que meteu na cabeça de ser pastor, como o pai. Lá tentou ajudar os pobres mineiros e desenhou. Não há pintura dessa época e a casinha fica realmente onde o Judas perdeu as botas(1), deve receber pouquíssimos visitantes, honestamente, não há muito que ver e este museu – por assim dizer – é completamente dependente do de Amsterdã, inclusive, as gravuras vendidas ali vêem com o carimbo do museu Van Gogh de Amsterdã com o detalhe de custarem muito menos, às vezes menos da metade do preço. Só me arrependi do que não comprei, aquela japonesa, que deixei para trás, por exemplo não me sai da cabeça. Não há muito que ver, é certo, mas ali viveu Vincent e vale a pena a parada.A mulher que toma conta desse pequeno museu vive ali mesmo na casa, na parte de cima. Nessa ocasião ela nos mostrou uma foto com os familiares de Van Gogh, na foto havia um rapaz de cachos dourados chamado Théo Van Gogh, não o famoso irmão de Vincent mas um sobrinho-bisneto e ela nos informou que ele vivia em Amsterdã e trabalhava para a televisão holandesa.
Ontem ouvi no noticiário da TV5 que esse Théo Van Gogh foi assassinado, muito provavelmente por um marroquino extremista por causa de um documentário que ele fez mostrando os maltratos a que eram sujeitas muitas mulheres nos países muçulmanos.
(1)Uma amiga espanhola sempre entrava em conflito comigo por causa dessa expressão: Onde o Judas perdeu as botas, dizia que em espanhol é 'onde Jesus perdeu as sandalias' e que e' muito mais lógico assim, que Judas não usava botas naquela época.
Leila Silva