quinta-feira, 4 de novembro de 2004

Era uma vez um letrado chinês: Pu Songling

[Essa resenha e tradução do conto de Pu Songling foram publicados na Verbo21 há algum tempo atrás. Espero que gostem. Alguns de vocês, eu sei, já o leram quando foi publicado.].


Era uma vez um letrado chinês: Pu Songling


Um dia estava eu revirando uma livraria em Bruxelas à caça de alguma coisa da literatura asiática, qualquer que fosse, mas de preferência, chinesa - estava me preparando para viver na Ásia e não queria chegar no continente completamente ignorante da sua literatura. Assim, deixei que o acaso me guiasse pois não contava com muitos outros meios e o acaso levou-me ao livro “Chroniques de l’étrange” de Pu Songling(1640-1715), contos traduzidos do chinês e apresentados pelo sinólogo André Levy.

Certamente que li a contracapa antes de passar no caixa e empenhar os meus francos (o euro ainda nao existia). Ali o tradutor explicava que esta era uma das obras maiores da literatura chinesa e que a literatura mundial não oferecia nenhum equivalente. Trata-se de uma obra do século XVII mas que só foi largamente difundida na segunda metade do século XVIII e apareceu bem mais tarde no Ocidente, no final do século XIX através de traduções de traduções, evidentemente aproximativas, fragmentárias ou redundantes, como coloca o autor do prefácio e tradutor. Pronto, decidi que os meus francos estariam bem empregados.

Hoje há muitas traduções desse livro de estórias de raposas (seres sobrenaturais), demônios, reencarnação, críticas aos abusos sociais, costumes, etc… Infelizmente não há ainda uma tradução para o português.

No conto O Cão adúltero, Pu Songling narra a estória de uma mulher cujo marido, por conta de suas atividades comerciais, viajava por longo período, chegava a ficar ausente por um ano. Então, para satisfazer as necessidades da carne a mulher ensina alguns truques ao cachorro. Um belo dia o marido chega em casa e o cachorro não gosta daquilo. Quando o marido vai para a cama com a mulher, ele irrompe no quarto, avança no homem, mata-o e toma o lugar que já considerava seu. No vilarejo, todos ficam indignados com a estranha morte e denunciam o caso às autoridades. A mulher vai presa como suspeita, é convenientemente torturada mas nada confessa. Embora o juiz ainda não tenha entendido o X da questão, pensa que ali tem adultério. As penas para adultério eram extremamente severas nessa época (sobretudo para as mulheres), morte lenta e atroz.
O juiz tem a idéia de trazer o cachorro para perto da mulher (baseado lá em algum instinto de juiz). Quando o cachorro a vê, saudoso como estava, já corre pra cima dela. Assim o delito é descoberto. As leis sobre adultério não incluíam nada sobre cachorro, evidentemente. Não sabendo bem o que fazer, deixam o cachorro na prisão junto com a mulher enquanto aguardam decisão dos superiores. Centenas de pessoas subornavam os guardas para que colocassem mulher e animal na mesma cela e oferecessem o espetáculo carnal.
Finalmente o tribunal apresenta a decisão: a mulher e o cachorro são condenados à morte por decepagem.

Como já foi dito antes, a temática é muito variada e esse é apenas um exemplo do que pode ser encontrado no livro de Pu Songling. Alguns outros títulos de contos: O cadáver animado, Wang, o amigo de um humilde pescador, Pelo roubo de um pêssego, O encantador de serpents, o bibliômano, Yingning, a moça que ria …


Para ilustrar melhor o livro, deixo aqui a tradução de um conto, La fresque, feita a partir das traduções francesa e inglesa.

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O mural

Originário de Jiangxi, Meng Longtan se encontrava na capital em companhia do letrado Zhu. Um dia caminhavam os dois sem destino certo por ruas e pequenas travessas quando encontraram um mosteiro com quartos para meditação de dimensão modesta. O lugar estaria completamente deserto não fosse a presença de um velho monge que, mal os viu entrar, compôs respeitosamente as roupas e, cumprimentando os dois visitantes, ofereceu-se para lhes mostrar o seu pequeno refúgio.A sala principal do templo abrigava uma imagem do mestre zen Bhaozhi(1), as paredes laterais eram cobertas por pinturas de uma delicadeza tão fina que se podia tomar por verdadeiras as figuras humanas ali representadas. Na parede da direita, ao leste, estava representada a lenda budista “Ninfas celestes espalhando pétalas”; dentre as ninfas havia uma que especialmente comoveu o coração de Zhu, os cabelos soltos desciam-lhe até a linha fina da cintura (2), as mãos esguias e de dedos longos seguravam uma flor, mas o que mais impressionava o jovem letrado era o sorriso encantador dos seus lábios de cor de cereja e os olhos cintilantes que pareciam endereçar-lhe os mais amáveis e tentadores convites.Tão concentrado estava a contemplar o mural que Zhu não percebeu que perdia o controle de si mesmo; os seus pensamentos tornaram-se tão abstratos que entrou numa espécie de transe. Sentiu o corpo tomar uma nova consistência, como se flutuasse num estranho nevoeiro. Subitamente estava dentro do mural. A profusão das salas e pavilhões fez com que ele compreeendesse que não se encontrava mais no mundo dos mortais. Um velho monge, do alto de uma plataforma, pregava o Dharma a uma multidão de religiosos cujos trajes deixavam à mostra o ombro direito. Zhu misturou-se à multidão. Pouco depois, sentindo que o puxavam furtivamente pela manga, virou-se: Ali estava a jovem dos longos cabelos soltos a lhe sorrir. Ela afastou-se repentinamente e ele a seguiu de perto pelas galerias sinuosas até uma pequena casa, uma vez ali, Zhu hesitou, não ousava entrar. Ela, delicadamente, voltou-se, ergueu a flor e acenou de forma tão convidativa que Zhu não pode resistir. Como não havia ninguém no quarto ele tomou-a imediatamente nos braços sem que ela oferecesse muita resistência. Em seguida ela lhe concedeu os favores mais íntimos. Satisfeita, levantou-se, fechou as cortinas e, avisando-o que não deveria emitir sequer um som, saiu prometendo que voltaria quando a noite caísse. E assim foi, ela voltou nessa noite, na noite seguinte e na outra... até que as suas companheiras aperceberam-se e, combinadas, tanto procuraram que acabaram por descobrir Zhu."Cresce já um pequeno ser no teu ventre, mas tu ainda deixas o teu cabelo flutuar livremente como se fosses uma donzela", disseram elas entre risinhos de troça. Imediatamente lhe ofereceram alfinetes, brincos e fizeram-na arranjar o cabelo à maneira das mulheres casadas. Ela fez-lhes a vontade, envergonhada, sem dizer uma palavra. Depois, uma das jovens comentou com malícia: "Irmãs, vamo-nos porque, evidentemente, estamos aqui a mais". E, rindo, partiram.
Zhu contemplou a sua amada, experimentou a macieza daquela nuvem perfeita de cabelos e admirou a curvatura dos brincos de fénix que lhe pendiam das orelhas. Parecia-lhe ainda mais encantadora do que quando trazia os cabelos soltos. Ninguém no horizonte, entregaram-se ardentemente à intimidade embriagados pela fragância do almíscar e das orquídeas. De repente, antes mesmo que chegassem ao termo, ouviu-se lá fora, no meio de vozes exaltadas, os passos fortes de botas de couro juntamente com um tilintar de correntes. A jovem levantou-se apavorada e espreitou pela janela: era um oficial completamente equipado, a face negra como a laca, correntes numa mão e uma clava na outra. À sua volta estavam todas as donzelas. "Estão aqui todas presentes?", perguntou o oficial. "Sim, estamos aqui todas", responderam. "Se alguma de vós esconde um homem do mundo inferior será melhor que o denuncie. Não criem problemas dos quais ninguém vos poderá defender". "Não há ninguém", retorquiram elas em uníssono. O oficial olhou em volta e, com o seu olhar de águia parecia prestes a dar busca no esconderijo. Tão aterrorizada estava a jovem que a sua face tornou-se mais pálida que a cinza, só teve tempo de dizer: "Rápido, esconde-te debaixo da cama". Quanto a ela, abriu uma porta secreta na parede e desapareceu num ápice. O jovem letrado escondeu-se e ficou prostado, mal se atrevendo a respirar. Não tardou a ouvir o som pesado das botas do oficial a entrar e, pouco depois, a sair do pequeno quarto. Lentamente Zhu voltou a si, recuperando a compostura. Lá fora, o barulho das vozes ia esmorecendo pouco a pouco. Contudo, ele não tinha coragem para sair do seu esconderijo. Passado algum tempo, os ouvidos estremeciam com o som ininterrupto de campaínhas e os olhos ardiam-lhe como dois tições. Apesar do medo e do desconforto destas sensações, não tinha outro remédio senão esperar muito quieto pelo regresso da jovem pois, tão toldado se encontrava seu espírito, que já não sabia de onde tinha vindo...Ao aperceber-se do súbito desaparecimento de seu amigo, Meng Longtan, perplexo, perguntou ao velho monge o que se passara. "Foi ouvir os ensinamentos do Buda", respondeu o monge com um sorriso irônico nos lábios. "Onde?", perguntou Meng. "Não foi longe", atalhou o monge dirigindindo-se ao mural. Chegando-se à pintura o velho bateu na parede com um dedo e perguntou: "Porque te demoras tanto, meu bom patrono?" Imediatamente surgiu no mural a imagem de Zhu, a face descomposta pelas emoções, a cabeça ligeiramente inclinada como se estivesse a ouvir alguma coisa. "Há muito tempo teu companheiro te espera”, prosseguiu o monge. Nesse momento Zhu caíu do mural e ficou prostado no chão, os olhos esbugalhados e as pernas tremendo como bambús. Assustadíssimo, Meng perguntou-lhe o que sucedera. O amigo não sabia o que responder; na verdade, estava debaixo da cama quando ouvira um enorme fragor, como se mil homens tocassem a um só tempo um tambor gigantesco. Apavorado, saíra a correr da câmara para tentar descobrir o que se passava.Os dois amigos voltaram-se para o mural. A jovem continuava de flor na mão mas agora ao invés dos longos cabelos soltos ela trazia um elegante coque, elevado em espiral. Surpreso, Zhu voltou-se para o velho monge e perguntou-lhe a razão. "A ilusão nasce do espírito humano. Que outra explicação poderia lhe oferecer esse humilde servidor?"
Zhu sentiu-se extremamente abatido, Meng estava confuso e abalado. Ambos se levantaram e desceram as escadas que conduziam à saída.

(1) Eminente monge da meditação que viveu durante as dinastias nortistas e sulista (420-589)
(2) Os fato de não levar os cabelos atados significa que ela não era casada.

Leila Silva

Leila Silva

Bruxelas, 31 de Janeiro de 2004

2 comentários:

Manoel Carlos disse...

Não é por acaso que você faz parte do meu universo bloguístico.
Sim. Eu havia lido, mas foi bom reler.

Nora Borges disse...

Estive aqui... li devagar os contos, o museu-casa de Van Gogh e adoro sua forma de escrever. Agora, com mais tempo, vou voltar mais vezes.
Sabe o que descobri? O blog muito interessante. Chama-se Casa dos Espelhos. Vá lá. (www.casadosespelhos.blogspot.com)
Um beijo