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sexta-feira, 20 de junho de 2008

Um conto meu na revista Maria Joaquina

imagem: La petite étagère, Christian Choisy
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Viagem

Eu olhava, da janela, a paisagem, quadros se faziam e se desfaziam. Um eterno café com pão, há quantas horas estava já eu dentro deste trem? Sebastião dormia, conseguiu dormir. Na minha frente, um moleque branco, de olhos mansos. Tão raquítico e coitado que lhe ofereci um pão de queijo, um dos pães de queijo que a mãe de Sebastião preparara para a nossa viagem. O menino olhou para a cara da mãe esperando o sinal de autorização, balançou a cabeça que sim, obrigado. Um cachorro corria com o trem, língua pra fora, passou por nosso vagão sorrindo. Sorrindo, um cão? A viagem era demorada e cansativa, por que decidimos fazê-la de trem se aqui ninguém mais viaja assim? Idéia de Sebastião. Queria experimentar e agora dormia. Experimentar antes que se acabe definitivamente, disse e contente entrou no trem, muito cedo, eu e ele com os pães de queijo, as mochilas e os olhos cansados, mal dormidos. Tudo era estranho olhado deste trem, o lá de fora e o aqui de dentro, as pessoas e as coisas. Um jeito de passado, Sebastião dormia e perdia. Numa estação paramos, entraram pessoas, ciganos, muitos ciganos barulhentos com crianças, mulheres de muitas saias, dentes de ouro. Um dos ciganos, cara de poucos amigos, carregava um gongo, o gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um pio. Blum, blum. Sebastião acordou assustado, disse quê isso? Nem respondi, o cigano olhou para ele desafiador. Quer pão de queijo, Tião? Perguntei para mudar a rota dos pensamentos. Sebastião não quis. Quer outro? Perguntei ao menino. Não queria, tampouco, o cigano e o seu gongo mudara todo o ritmo. Peguei uma de minhas revistas e folheei, folheei sem vontade, olhei de novo para fora e nada tinha mudado, só o cachorro tinha ficado para trás. Vivia em algum daqueles sítios? Por certo.

No trem, pouca coisa acontecia além do barulho dos ciganos, suas risadas, um ajeitar de lenços na cabeça, só o do gongo continuava quieto, respondia a uma ou outro pergunta dos outros. Seria o chefe? Cigano tem chefe? Sebastião deu uma volta pelo trem, esticou-se, voltou a sentar e logo dormia de novo. Eu na contemplação. Mata, casinhas, cachorros, riachos, montes, crianças abanando as mãozinhas.....mais uma parada. O menino e a mãe ficavam ali, timidamente me disseram adeus. Ele a sorrir, pesaroso. Os ciganos se juntaram no fundo do vagão onde agora havia lugar para todos eles.

Tantas horas já. Tantas horas ainda. Era um viajar monótono, era um pensar. Viajar. Pensar. Revirei minha mochila em busca do livro, Noites do sertão, combinava. Mas eu ia conseguir ler nesse ‘virgem Maria que foi isso maquinista?’ E o trem parou mais uma vez, os ciganos desceram fazendo uma algazarra, como de propósito, o cigano do gongo fez novo barulho. Só eu e Sebastião continuávamos nessa viagem. Isso me deu uma estranha sensação, um medo. Se assim fosse, se não parássemos nunca de passar por esses lugares, nada mudasse, tudo se repetisse ad infinitum, se isso fosse uma condenação? Acordei Sebastião e ele me garantiu que em quarenta minutos, não mais. Jura? Eu não fico mais neste trem, não mais que quarenta minutos. Que bobagem, disse Sebastião e voltou a dormir. Sentou-se, na minha frente, um moleque branco, de olhos mansos. Tão raquítico e coitado que lhe ofereci um pão de queijo. Ele olhou para a mãe.

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Revista Maria Joaquina

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Não creio em bruxas, mas...

[Este meu conto está no Portal Literal deste mês. Já foi publicado aqui há muito tempo. Já deu para perceber que não tenho nada novo, não?]

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Lorena, com seu rosto de uma brancura alabastrina, nariz minúsculo e olhos que lembravam dois lagos plácidos comoveu-me à primeira mirada. Sou do tempo em que, para se descrever uma mulher, não temíamos os clichês. Casamo-nos depois de muito verbo, muitos presentes, muita amolação dos meus filhos que não queriam ver a herança escorrendo para mãos alheias. Um dia chego em casa ansioso por beijar minha doce Lorena e a encontro com Letícia, bebendo e rindo. ‘Minha melhor amiga’, disse ao apresentá-la. Semanas seguidas, ao chegar, tinha que fazer face àquela irritante presença. Insisti com Lorena para que fizéssemos uma viagem, ela recusou, não só recusou como explicou que ela e Letícia iam viajar juntas para uma convenção de bruxas, sim, que eu acreditasse, eram bruxas, eu podia esquecer tudo aquilo que conhecia sobre velhas de dentes pretos e nariz cheio de verrugas. Fez até uns truquezinhos para provar. Esperneei, aquilo já era abuso, ela ameaçou anular o casamento e eu cedi porque, apesar de todas as estranhezas, não queria arriscar-me a perdê-la. Por mais de um mês estiveram a viajar, meus filhos aproveitaram o tempo para aporrinhar-me, tratando-me como um velho gagá que tinha abandonado por completo o bom senso. Mas não era o meu senso que os preocupava.

Chegaram as bruxas, sim, chegaram, no plural. Encontrei-as dormindo na sala, livros jogados aqui e ali. ‘E então?’ Resmunguei alto com o claro intuito de acordá-las. Abriram os olhos se espreguiçando como duas gatas, disseram que estavam estudando bruxarias e caíram no sono....Olhei para as capas: Anaïs Nin, Virginia Woolf? Nunca me ocorreu que tivessem sido bruxas. Riram a mais não poder da minha observação e nem se deram o trabalho de explicar a bizarrice. Maldito o dia em que sucumbi, em que olhei para aqueles olhos, estava mesmo senil. Suspirei desanimado e sentei-me no sofá na frente delas. Comovidas pela minha resignação, vieram as duas, sentaram-se cada uma de um lado, passaram as mãos na minha cabeça e perguntaram, com uma doçura que me espantou, se eu estava bem e se desculparam pela risada sem propósito. Vocês são mesmo bruxas? Perguntei. Somos umas bruxinhas amadoras. Foi Letícia que respondeu, com uma voz brincalhona. Olhei para ela e só então percebi como era bonito o seu sorriso. Você vai morar aqui, Letícia? É um convite? Foi sua resposta. Era certo que eu estava perdendo a cabeça. Correu para a cozinha dizendo que ia preparar um banquete para comemorarmos, e preparou mesmo, fazia tempo que eu não comia e bebia tão bem. Preparam ainda meu banho, minha cama, contaram-me histórias até eu dormir, mas, quando acordei, não era em minha cama que Lorena estava. Levantei cedo e lá vieram as duas dar-me bom dia com beijinhos de filhas comportadas, agradecendo por eu ter ‘deixado’ Letícia morar conosco.

Agora nossos dias correm tranqüilos, adequei-me a esse estilo. É faltar uma delas em casa e já fico confuso.

Bruxas? Não acredito.
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Leila Silva Terlinchamp

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Xantipa


[Um dos meus contos antigos, antigos...como não ando escrevendo e como estou gripada e sem coragem para nada, aí vai]

Xantipa

‘A mesma paisagem
escuta o canto e assiste
à morte da cigarra’

Matsuo Bashô

Aqui dorme-se bem, o colchão é macio, os lençóis alvos e perfumados. Sim, aqui dorme-se muito bem, não é como no meu pequeno e imundo barraco. Eu gostei dessa ilha tranquila e silenciosa, sobretudo agora. Vou partir contrariada, com o coração aos pedaços, diria se fosse um pouco mais dramática. É duro abandonar tanto conforto mas já é tempo. Amanhã pego o barco e vou por aí, deixo todo mundo aqui que eu estou cansada dessa gente. Obrigada pela cama, pela boa comida, pelos vinhos, pela praia, pelo sol, por tudo….Vou-me. Depois de tantos anos, digo-lhes, finalmente, adeus!

Dona Adélia Campos Guimarães, minha patroa, nem responde, os outros também não. Ninguém mais responde e nem ordena: ‘Xantipa vá buscar isso, por favor.’ ‘Xantipa, nós vamos jogar tênis, prepare um lanche para daqui a duas horas, sim?’ ‘Xantipa, vamos jantar às oito horas, prepare os camarões.’

De manhã lhes sirvo café quente, pães, sucos, limpo a mesa, o chão, troco os lençóis, lavo as toalhas, milhões de toalhas que devem estar sempre limpas e cheirosas. Mas tudo isso é pretérito imperfeito, falo no presente por descuido e costume, agora estão todos lá fora, alguns com a boca já cheia de formigas, outros estão ainda na varanda onde lhes servi o camarão bem temperado. Camarão é uma comida estranha e facilmente perecível, eu mesma detesto camarões, sou alérgica, mas eles gostam, digo, gostavam. O Valter não deve ter comido bastante e me deu trabalho. Droga! Esse imbecil bebia tanto que não se importava em comer. Eu devia ter temperado as bebidas também. Da porta vi quando os outros começaram a sentir tonturas, alguns não tiveram a decência de procurar um canto escondido para vomitar e, vendo aquele espetáculo, vomitei também. Não suporto ver gente vomitando, tenho o estômago fraco, ele dá umas reviradas e, como num ato de solidariedade, vomito junto. Valter, que já estava bêbado, não entendia direito aquelas cenas. Alguns correram para o mar procurando, decerto, se refrescar, então, percebendo que não se tratava de uma brincadeira, Valter quis entrar para telefonar, eu empurrei a porta e me tranquei aqui dentro. Ele esmurrou-a e depois tentou as outras portas mas não tinha muita força, desistiu e tentou chegar ao barco, eu o segui e dei-lhe uma cacetada na cabeça. Merda, eu não contava com isso, mas tive que fazê-lo pois com o barco ele poderia, rapidamente, avisar um dos vizinhos. Foi chato isso, pois uma coisa é envenenar comidas, outra é sair distribuindo cacetadas em cabeça de bêbado. Para o envenamento eu tinha me preparado com muita antecedência, tinha estudado e, além disso, era colocar o veneno e esperar agir, já as cacetadas foram todas improvisadas, uma violência. Foi chato, muito chato, mas está feito.

Agora é apagar o que puder dos meus traços, juntar as minhas poucas roupas e desaparecer. Vou amanhã bem cedo antes que os curiosos apareçam por aqui, o telefone tem tocado cada vez mais, os recados preocupados se acumulam na secretária eletrônica. É tempo.

Leila Silva
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imagem:Bouquet di Tulipani, Eva Barberini

sábado, 29 de dezembro de 2007

Doce é a infância.

[Publico aqui um de meus contos antigos, bem antigo mesmo. Aos que já leram peço desculpas....ou releia, se estiver aí só esperando o reveillon. Faça uma blogueira feliz. Na verdade não posso reclamar, não tenho muitos leitores, mas os que tenho são muito fiéis, muitos de vocês me visitam desde 2004. Muito, muito obrigada. Outros leitores apareceram, deixaram comentários super gentis e nenhuma referência, não posso nem agradecer. Quer dizer, agradeço aqui, aos que continuam visitando. É claro que sempre há aqueles desocupados e sem educação que passam por tudo quanto é blog para tentar aporrinhar e deixar comentário mal educado. Esses eu finjo que nem existem e logo desaparecem.


Um abração para todos vocês, um feliz 2008 e muito obrigada mesmo.]
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Conto

Doce é a infância



Na frente da casa, do outro lado da rua, ficava a cadeia. Um dia Lídia, ainda tão pequenina, caminhava sob os mangueirais quando o seu olhar cruzou-se com o de um prisioneiro à janela, as pernas e os braços livres, enfiados na grade. Podia vê-lo muito bem, a cadeia não era cercada por muros. O encontro durou poucos segundos, ela continuou os seus passos lentos, chutou algumas folhas e, decerto, desviou o olhar. Foi então que o prisioneiro disse: ‘Não precisa ter medo.’ Ela chutou mais algumas folhas e continuou a andar olhando para o chão. Não tinha medo, raciocinou, afinal, ele estava do outro lado da grade e ela de fora. Mas quem era ele? Nessa altura, já tinha aprendido que aquela casa amarela não era uma moradia de gente ‘de bem’, muito embora não compreendesse o exato significado disso. Sabia, entretanto, que se a mãe chegasse ao portão e a visse dirigindo a palavra a um prisioneiro ela estaria frita. Não, não respondeu e se perguntou o que teria ele feito para merecer estar ali a observar as mangueiras por detrás daquelas grades enferrujadas. Abandonou o homem à contemplação, atravessou a rua e entrou em casa. Passou direto pela porta da cozinha onde a mãe estava ocupada com as panelas e foi para o fundo do quintal, subiu em alguns tijolos que já estavam estrategicamente postos ali e espreitou o vizinho mudo que passava os seus dias a limpar a casa. Limpava tanto que o chão refletia. Pelo muro ela, as irmãs e primas costumavam observar o mudo e o alpendre reluzente e riam sem saber porquê. O mudo tinha um mico preso por uma corrente e um papagaio. E o papagaio falava. Pois é.

O mudinho, diziam, ia com meninos para o meio do mato. E daí que o mudinho fosse para o mato com os meninos? Ninguém era proibido de andar no mato. Ou a ele isso era proibido só porque era mudo? Mais um dos muitos mistérios. ‘O mudinho vai para o mato com os meninos’. Até a prima viera lhe dizer isso esperando que confessasse a sua ignorância mas ela só fez arregalar bem os olhos como se a revelação a tivesse impressionado muito.

Desceu num pulo dos tijolos quando ouviu a voz nervosa da mãe e, na pressa, arranhou os dedos no muro. A mãe mandou-a comprar verduras e advertiu que não perdesse o dinheiro como tinha feito da última vez. ´Essa menina parece que vive no mundo da lua!` Ouviu a mãe dizer e apertou as notas. Quando voltava, andando devagar e distraída, pela rua seis, a principal, deixou tudo cair por terra. Na sua frente apareceu um menino que ela conhecia de vista do catecismo. Assustou-se com aquela presença, o menino era um demônio que vivia atormentando as irmãs e as meninas, juntava-se a outros e balançava violentamente a corda do sino que retinia desesperado e sem propósito. As irmãs acudiam apressadas, levantando os longos vestidos e ameaçando chamar o padre. Nada disso assustava aquele moleque que, dependurado na corda, gargalhava fazendo blém…blém…blém… e só corria quando as irmãs já estavam bem próximas.


Pois esse mesmo menino estava ali, na sua frente e, num gesto inesperado, ajudou-a a recolher os legumes. Com a cara rubra, pressentindo o pior, balbuciou, timidamente: ‘obrigada’. Ele riu alto e repetiu a última frase da piada do elefante e da formiguinha: ´Obrigado nada, pode ir descendo a calcinha`. Lídia fugiu apavorada deixando para trás umas batatinhas.

Como foi boba, por um segundo acreditou na pureza daquele gesto, por um segundo aquele menino tinha mudado aos seus olhos, não podia ser o diabo que pintavam. Pode ser… pode ser que, por um segundo, a sua intenção tenha sido a de ajudá-la, mas, no último instante, ao olhar para aquele passarinho frágil não tenha resistido à tentação de dar uma pedrada.





Bruxelas, inverno de 2003.





segunda-feira, 16 de julho de 2007

Budapeste




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Um campo de girassóis no caminho de Budapeste


O campo de girassóis me comove e num instante já é passado, a imagem na minha cabeça persiste. Girassóis nunca se apagam. Antes das cinco da manhã entrei neste trem que nos leva de Viena a Budapeste. Ao meu lado um cara redondinho, todo de preto, dorme e ronca. Desce em Györ, uma garotinha e a mãe ocupam seu lugar, paro de escrever, presto atenção na língua enquanto o Danúbio se transforma em Duna. E tudo é outra coisa.
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A viagem eu contei aqui.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

A Engrenagem

[Um conto antiguíííssimo para cobrir a minha falta de tempo. Logo volto.... Será?]

A Engrenagem

Cleide abriu os olhos, esticou os braços lentamente, jogou o lençol para o lado e, com os pés, procurou as chinelas havaianas que, àquela hora, já deveriam estar esperando pelo gesto. Andou a passos de tartaruga até o espelho sujo do banheiro e não ficou contente com o que viu. Por que teria que envelhecer? De que adiantava nascer se, com menos de quarenta anos, já começava a ficar velha? Merda. Grita pela filha e descarrega o desgosto. ‘Porque esse banheiro tá sujo desse jeito? O que é que você esteve fazendo que ainda não limpou isso? Você parece uma lesma. Onde estão os seus irmãos?’ Diabo de vida. Nascer, procriar, criar rugas. Marido? Era bom nem falar. Esse, nem para enfeite servia. E o médico vem lhe dizer que a razão de tanta dor de cabeça é que ela não está contente com a vida que leva. ‘E mesmo, doutor? O que mais o senhor tem para me contar?’ Então era para isso que a gente pagava médico, para nos dizer o óbvio? À puta que o pariu. Para isso passam cinco, seis, sete, sabe-se lá quantos anos na universidade? Não deixou por menos, disse-lhe poucas e boas.


Lavou o rosto, espalhou cuidadosamente o creme na pele, debaixo para cima como prescrevia a revista feminina. Olhou para os cabelos ralos - mas isso não era efeito dos anos, sempre foram assim- escovou-os mas de nada adiantava, não melhorava o efeito. Na raiz estavam completamente pretos e nas pontas, loiros. Um horror. Tocou delicadamente os cabelos e, num repente, tomou uma decisão corajosa, ou melhor, não tomou uma decisão, fez uma promessa, raparia a cabeça para que deus a ajudasse a conservar o que ainda lhe restava de juventude. Não ia ser fácil, mas faria isso. Seria alvo de atenção durante um mês pelo menos, mas não tinha importância, já estava acostumada a isso. A cidade era pequena demais, não tinham o que fazer, que falassem dela. ‘Kátia, o café tá pronto?’ Perguntou à filha. Tomou o café e foi dizendo que queria frango para o almoço e que a partir daquele momento não se comeria mais carne vermelha em casa pois lera que isso pode contribuir para o envelhecimento da pele. ‘Quando você quiser carne de porco ou vaca, vai na casa da sua avó. Explique isso aos seus irmãos.’ Kátia pensou em perguntar ‘ E o papai?’, mas não teve coragem. Cleide terminou o café, levantou-se, trocou de roupa, passou o batom e disse à filha. ‘Kátia, eu vou sair. Vai lá fora e vê se a jabiraca da Rita já tá na rua. Eu não tô com vontade de ver a cara dela hoje.’ Rita era a vizinha que no dia anterior viera lhe dizer que surpreendera Fernando, o seu filho de nove anos e Leandro, o filho de Cleide de dez anos atrás da casa experimentando ‘prazeres proibidos’. Palavras da vizinha. Explicara nervosamente o que vira, e dissera que seu filho seria severamente punido. Cleide nem respondeu, e nem precisava, todos a conheciam e sabiam que o filho podia esperar pelo pior. Foi até onde estava Leandro, no fundo do quintal, já esperando pela hora fatal. Ainda assim, quando viu a mãe se aproximar, tentou resistir. Ela gritou: ‘ Vem aqui agora ou vai ser pior...eu vou te arrancar o couro, seu moleque safado. Quanto mais você esperar mais vai aumentar a minha raiva e a sua vergonha porque eu vou gritar tanto que todo mundo vai ouvir. Eu não quero saber de viado nessa casa, ouviu? vem cá, agora.’ Além de arrancar-lhe o couro, como prometido, Cleide aplicou uma boa dose de pimenta nos órgãos genitais do pobre Leandro. ‘É de pequenino que se torce o pepino.’ Costumava dizer. Queria dar-lhe uma lição exemplar para que depois não dissessem que saira errado por sua culpa.


Kátia viera dizer que não vira a vizinha na rua. Cleide montou em sua velha bicicleta e percebeu que o sol já dominava cada canto descoberto. ‘Porcaria, tão cedo e já esse calor. Esse sol não é bom para a pele.’ Pensou. Quando chegou na esquina avistou Rita e mais três mulheres a conversar animadamente. ‘ Oi Cleide!’ Disseram em uníssono abanando as mãos. Cleide respondeu ao cumprimento sem sorrir. ‘Saco, ô mulherada à toa.’ Pedalou mais rápido e parou em frente à barbearia do Seu Zeca. ‘Oi, seu Zeca, tudo bem?’ ‘Tudo bem, Cleide, e a sua mãe, como vai?’ Nem perguntou pelo pai pois sabia que ele e a filha não se falavam há anos. ‘Vai bem, seu Zeca, eu vim aqui para o senhor rapar a minha cabeça.’ Disse-lhe sem mais. ‘Quê?’ Perguntou o pobre homem assustado. ‘Rapar a minha cabeça, seu Zeca. O senhor não é barbeiro? Pois então, por isso vim aqui. Quero no zero.’ Com os olhos assustados, seu Zeca lhe respondeu que aquilo ele não podia fazer. ‘Porque não pode? O senhor é barbeiro ou não é?’ Perguntou irritada. ‘Eu sou, minha filha, mas nunca rapei cabeça de mulher. Não posso, aqui é só pra homem.’ Afirmou com convicção. ‘Pois então, até logo, eu vou noutra freguesia.’ Pegou a bicicleta e saiu pedalando com raiva. Parou em frente à outra barbearia. ‘Seu Tito!’ Gritou da porta pois não viu ninguém no salao. O barbeiro gritou do bar, do outro lado da rua. ‘ Cleide, eu tô aqui. O que é que foi?’ Perguntou ele de longe. Sem coragem de explicar ao que viera assim na frente de todo mundo, ela fez, com a mao, um sinal para que ele se aproximasse. Ele atravessou a rua lentamente com um cigarro na boca. ‘Seu Tito, eu vim aqui para o senhor rapar a minha cabeça.’ ‘A sua?’ Perguntou atrapalhado o seu Tito. ‘A minha mesmo, seu Tito, quem mais o senhor tá vendo aqui?.’ ‘Ah, minha filha, a sua eu não posso.’ Diz ele. ‘E não pode porque?’ Insistiu ela. ‘É que... seu cabelo tá muito comprido, não dá para rapar.’ Tentou argumentar o barbeiro. ‘Ah é? Então espera aqui um pouquinho.’ Cleide voltou a sua casa e, diante do olhar assustado da filha, pegou a tesoura e cortou os cabelos. ‘Mãe, porque você está fazendo isso?’ Perguntou, timidamente, Kátia. ‘Não é da sua conta.’ Foi o que recebeu como resposta. Apresentou-se assim, com o cabelo tosado na frente do barbeiro que não encontrou outra desculpa. Vai rapando e reclamando. ‘Porque eu? Porque você não foi noutro barbeiro?’ ‘Eu fui mas o seu Zeca foi mais esperto que o senhor e disse que não cortava cabelo de mulher.’ Disse ela sorrindo. ‘É, foi mesmo, mas eu sou amigo do seu pai.’ ‘ Mas que medo todo mundo tem do meu pai, credo.’ Provocou Cleide. ‘ Não é medo não, minha filha, é respeito. Pelo menos não conta pra ele que fui que rapei a sua cabeça.’ ‘Eu não vou dizer, seu Tito, porque o senhor sabe que eu não converso com ele mas até parece que o senhor não mora nessa cidade. Na hora em que eu subir ali na minha bicicleta ele já vai estar sabendo’. ‘E verdade,’ concordou resignado ‘espero que ele não fique com raiva de mim’ ‘Não vai ficar não, seu Tito, ele me conhece.’Consolou ela. ‘Pronto, ai está, carequinha como você queria? Gostou?’ Perguntou o barbeiro mostrando-lhe o espelho. ‘Não gostei não, seu Tito, mas não é para gostar. Quanto foi?’ ‘Três reais.’ Respondeu ele. ‘Isso é o que o senhor cobra dos homens?’ ‘E claro.’ ‘Então devia cobrar mais barato de mim, eu sou mulher.’ ‘E porque, se isso só me traz mais chateação?’ ‘Ai, seu Tito, o senhor só faz reclamar.’ ‘Olha quem tá falando!’ ‘Bom, eu esqueci o dinheiro mas mando o Leandro trazer mais tarde.’ ‘Ah. O coitado já está andando?’ ‘Coitado por que? Eu também não deixei o menino aleijado, que exagero.’ ‘Você é muito brava com esses meninos, minha filha.’ ‘Eu sou brava, e o meu pai, o que era então?’ ‘Era bravo também, e você não vivia criticando ele? Agora faz pior.’ ‘Pior não. Bom, seu Tito, o papo tá muito bom mas eu vou andando, ou melhor, pedalando.’ Quando saiu do salão todos os homens pararam de falar e vieram à porta do boteco, ficaram olhando estarrecidos por um minuto, sem nada dizer. Cleide levantou a cabeça careca, pedalou a bicicleta e foi para casa. Finalmente um dos homens falou ‘Mas essa Cleide é mesmo maluca, coitado do Francisco e da Arlete, o que fizeram para merecer uma filha dessas?’ ‘Filho não é questão de merecimento, a gente põe no mundo e pronto, eles saem do jeito que saem, não é culpa da gente.’ Opinou outro. ‘Vai ver que foi promessa.’ Emendou mais um. ‘Ou piolho.’ Disse outro e se puseram a rir.


Cleide chegou em casa e correu para o espelho, olhou para a imagem refletida e não se reconheceu. ‘Que horror, meu Deus!’ Pensou e chorou. Despiu-se e, ainda chorando foi para debaixo da ducha, pegou o shampoo e, quando se lembrou de que não precisava mais dele, lançou-o com força ao chão. Sentiu uma estranha sensação ao passar as mãos na cabeça. ‘Bom, eu quis rapar e rapei, não se pensa mais nisso, cabelo cresce de novo e inclusive, dizem que cresce mais saudável.’ Analisou.


Às seis horas Kátia foi esperar pelo pai na esquina para preveni-lo. Ele entrou em casa e, furioso, perguntou a mulher ‘Cleide, você ficou louca?’ ‘Eu não fiquei louca, eu sou louca, não é o que todo mundo diz?’ ‘Porque é que você fez isso?’ ‘Não-é-da-sua-conta.’ ‘Não acredito, só faz matar a gente de vergonha.’ ‘Vergonha porque? Tá com vergonha de mim, é?’ ‘Tô, tô com vergonha sim, tô morrendo de vergonha de sair na rua e escutar as piadinhas.’ ‘E você se importa com que os outros dizem?’ ‘Eu me importo sim.’ ‘Então é problema seu, meu filho.’ Gritou ela e o deixou-o plantado ali na cozinha. Ele passou a mão no cabelo, sacudiu a cabeça e disse para si mesmo: ‘Porcaria!’ ‘Voce quer tomar banho, pai?’ Perguntou Kátia e foi buscar a sua roupa limpa. Ele entrou no banheiro e passou muito tempo debaixo da água fria. Vestiu a camisa branca que Kátia escolheu para ele, pegou a bíblia e, sem dizer nada, saiu para a igreja.


Que armação do destino a teria um dia a uniu a esse ser tão diferente dela? Cleide tentava se lembrar mas tudo parecia tão longe. A juventude veio-lhe à cabeça como uma coisa besta, apressada. Foi aí que ela pôs tudo a perder. E foi por iniciativa dela mesma, nem podia acusar o pobre diabo do marido. Ele teria esperado mais tempo, o casamento provavelmente, mas ela queria experimentar e tanto fez que conseguiu. Um dia, ao invés de ir ao curso noturno foi para um canto escuro, não muito longe da colégio. Aquilo doera, não era bem o que esperava mas, ainda assim, voltou outras vezes ao mesmo lugar. Não precisou ir muitas vezes para que a menstruação atrasasse e os problemas começassem. Desesperados marcaram o casamento para a primeira data disponível e o evento com que tanto sonhara passou a ser uma corrida contra o tempo, um nervosismo, um não poder falar do que todos sabem, indiscrições dos vizinhos, ‘Mas a mais nova é que vai se casar primeiro?’ ‘Mas já? Eu nunca ouvi você falando em casamento.’ . Agora ali estava sem cabelo, sem paciência, sem vontade de continuar. Algumas vezes pensara em acabar com tudo tomando uns remédios de matar rato. Quer dizer, remédio não, veneno, né. Aposentara de vez essa idéia. Não podia pois afinal tinha tido filhos e agora precisava ir em frente, por bem ou por mal. Além disso, dizem, era contra a lei de Deus e, embora não tivesse muita fé, tinha algum temor. Nem gostava de pensar muito nisso pois se perdia. Há muitos mistérios nessa vida, por exemplo, por que é que uns nasciam no Rio de Janeiro e outros nasciam ali? Nunca tinha visto uma praia assim ao vivo e a cores, só na televisão. Falando em Rio de Janeiro a novela já devia estar começando. Ligou a televisão, sentou-se no sofá. Ia ver todas, das seis, das sete, das oito, das dez, quantas tivesse e esperava que a mãe não aparecesse para lhe aborrecer por causa do cabelo.

domingo, 1 de abril de 2007

A japonesa

Comprei, em um museu de Washington D.C, uma gravura representando uma
japonesa de cabeleira negra, rosto redondo, sobrancelhas finas, a boca, um pontinho vermelho e delicado, o nariz é um traço quase invisível, da mesma cor do fundo e apenas mais escuro que o rosto, a mão também pequena, de dedos finíssimos, os três do meio dobrados, levantando uma parte da roupa, o ‘mindinho’ livre. A outra mão está completamente escondida na manga do kimono. Esta japonesa vem me acompanhando há algum tempo e, por força de tanta viagem e maltrato terminou por ficar meio amassada. De vez em quando eu desenrolava o cartucho e a contemplava, mas só agora tive tempo e vontade para mandar emoldurá-la. ‘Uma moldura simples e não muito cara.’ Pedi pensando que não valeria a pena investir já que a gravura apresentava imperfeições.

Uma vez emoldurada percebi que os amassados se tornaram quase imperceptíveis, mas não me arrependi de ter optado por aquele acabamento simples, caía bem, a moldura não roubava a atenção. Pude apreciar melhor a minha japonesa, congelada naquele movimento lento, meio de lado, a boquinha suave de um pontinho só...Ela me fez pensar em outra japonesa, aquela pintada por Van Gogh, de um certo modo parecida com esta só que virada para a esquerda e muito mais colorida, os cabelos num arranjo exagerado e os olhos parecem sorrir de um jeito meio cínico, como se estivesse a zombar da gente ou como se tivesse feito uma travessura. Em tudo isso, muito diferente desta que tenho aqui.

Pendurei a gravura no meu quarto, à noite estava a contemplar esta delicadeza, aqueles olhinhos que não sabemos para onde olham, os pezinhos que não se deixam nem adivinhar, os tecidos finos cobrem tudo, que trabalhe a imaginação! Levanto-me da cama e me aproximo da gravura para ler as referências. Descubro, com espanto, que a linda japonesa é, na verdade, um homem:
‘Actor portraying a woman, Japanese painting, Edo (Kambun Period 1661- 73)Ukiyoe School.
Volto para a cama meio magoada com a minha japonesa por ter se dissimulado durante tdo esse tempo, depois percebo, claro, que eu é que não quis ver a realidade que estava estampada ali...Enfim, sem razão, mas ainda assim meio contrariada, durmo.

Pela manhã o primeiro gesto, erguer a mão e alcançar aquilo que parece uma parte do meu corpo, os óculos, com eles no rosto contemplo, uma vez mais, a graciosa e dissimulada. Sonolenta reflito, ou melhor, repito, ‘Há mais mistérios entre o céu e a terra....’ e decido que isso é bom, ‘Fiat lux’.

Abro a janela e vislumbro o novo dia.

Afinal, que me importa o sexo escondido sob aquele kimono?
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Leila Silva
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Obs: Crônica escrita para
Anjos de Prata, já a publiquei aqui antes, agora re-publico com a imagem correspondente.
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sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Um conto meu


Mundinho

A árvore cumpria a sua história, o seu dever era proporcionar aquela sombra, balançar vez ou outra provocando uma brisa – ou balançar sob o efeito da brisa? – enfeitar a vista de Raimundo quando, de manhã, ele abria a janela. Tarefas aparentemente simples que a árvore desempenhava à perfeição desde o nascimento de Raimundo, mais conhecido como Mundinho. E ele nunca tinha parado para pensar nisso. Nem na árvore nem nele mesmo. Se esse era o papel da árvore, qual seria o dele? Ali tinha nascido e dali nunca tinha saído. Sair para quê e para onde? Mas ele, afinal de contas, não era uma árvore. Não tinha, por dever, descobrir coisas? Ir, um dia, até São Paulo, por exemplo que nem era tão longe. Mas para quê? Seu pai tinha lhe deixado aquelas terras e tinha dito que ele era a continuação daquilo. Então, ali se fincou, em outro lugar não podia ser. Raimundo nunca quis mulher ou filhos. Ou quis e já se esquecera? Tinha gostado da Ruth, muito, mas não deu certo, além disso, mulher era trabalho que não acabava mais, bastava olhar para o seu irmão com aquela chata sempre no encalço. Não, ele não necessitava dessas complicações. Ruth tinha preferido um vadio, um sem eira nem beira que apareceu do nada, sem raiz, sem nome de família. ‘Sem eira nem beira, mas com coragem, e é isso que eu quero, um homem com coragem, não um borra-botas como você que nem para pedir a minha mão serviu depois destes anos todos.’ Borra-botas! E lá se foi com o corajoso, contrariando todo mundo, pai, mãe, irmãos. Fez ele muito bem em ficar por ali, vivia na sua vidinha parada de árvore, fumava seus cigarrinhos e, é verdade, vez ou outra acordava assim, com a cabeça cheia de perguntas, depois passava, como tudo na vida. Um bom café, uma visita ao vizinho que podia até render um carteado e pronto, desanuviava. Sua vida era aquela mesmo, cada um nasce para uma coisa determinada. São Paulo pra quê? Poluição, enchente, medo. Já tinha ido lá quando tinha uns….quantos mesmo? Uns dezoito ou dezenove anos. Bastava. Não tinha nenhuma necessidade disso e nem dinheiro sobrando.

‘Mundinho!’ ‘Que é, Isaura?’ Desde o infarto que a irmã não o deixava em paz, toda manhã estava ali, Mundinho mede a pressão, Mundinho não esquece do remédio. ‘Isaura, que é que foi feito da Ruth?’ ‘A Ruth, mas eu já te falei mais de uma vez, casou-se com o Otávio.’ ‘Que ela se casou com o tal Otávio eu já sei, né, Isaura, eu quero saber do depois.’ ‘O depois também eu já te falei, Mundinho, foram para São Paulo, Otávio virou um advogado famoso, vivem nos Jardins, num apartamento enorme, têm três filhos e um netinho. Pronto.’ ‘Ah, é? Você não tinha me falado, já é avó, é?’ ‘É, Mundinho, já te falei sim.’ ‘E você viu ela avó?’ ‘Vi, isso também eu te falei.’ ‘Isaura, o que é um borra-botas?’ ‘Um borra-botas, no meu entender….’ ‘É claro que é no seu entender, Isaura, se eu tô perguntando pra você, vai ser no entender de quem? No meu eu já sei, né!’ Mas era mal-humorado esse Mundinho, tinha feito muito bem a Ruth de se casar com o Otávio. Ficou chateada com ela na época por largar o irmão assim de uma hora pra outra, mas o tempo provou que tinha razão e voltaram a ser amigas. Mundinho, com a idade, só fazia piorar, ranzinza que só ele. Coitado, era seu irmão, fazer o quê, tinha que ajudar. ‘Mundinho, olha, deixa a Ruth lá no lugar dela, toma os seus remédios e mede a sua pressão.’ ‘Mania de medir pressão, Isaura, todo dia a mesma novela.’ ‘Raimundo, faça do jeito que quiser, então, eu tenho que ir, o aparelho está ali e já te ensinei como é que se faz, eu vou pra escola.’ Quando a Isaura dizia Raimundo é que já estava perdendo a paciência. Lá se foi no fusquinha dela. Quando é que ia se aposentar, essa coitada? Já estava em tempo. Dizia que gostava de dar aulas, quem podia gostar de dar aulas, passar cinco horas ou mais agüentando aqueles moleques barulhentos e mal educados? Só a Isaura mesmo, uma santa, era até irritante. Irritante também era essa mania de falar feito professora mesmo em casa, ‘no meu entender!’ No final das contas ela só tentava ajudar, ele é que era muito impaciente, perdia fácil as estribeiras.

Raimundo se levanta, toma o remédio e, encostado na janela olha de novo para a árvore. Quer dizer que ele ia morrer e ela ia ficar? Muito bem, pensou, me viu nascer e vai me ver morrer. E foi ali, debaixo dela que ele e a Ruth começaram a namorar, ali que trocaram algumas carícias rápidas, havia sempre alguém por perto. Macias as mãos de Ruth, cheiroso o seu cabelo, quando a brisa dava nele Mundinho respirava mais fundo. Nunca, nunca perdia a calma com Ruth e nunca perderia se ela tivesse esperado, se tivesse aceitado ficar ali. Aquele não era o mundo da Ruth e nem para a Ruth, tinha nascido no lugar errado e foi procurar o lugar certo. Assim são as coisas.

Mundinho sai da janela, vai até a cozinha, serve-se do café que a irmã deixou na garrafa térmica. Da porta contempla de novo a árvore, caminha devagar até ela. O caminho, outrora tão curto, agora parecia terrivelmente longo. Mas Mundinho não tinha pressa, sentia uma calma que nunca experimentara antes em sua vida. Alcança a árvore, toca o tronco áspero com sua mão tremente, a outra mão aperta o peito do lado esquerdo, por onde um mistério o invade. Deita-se ali, apoia a cabeça no tronco e fecha os olhos para descansar.

Sob o cedro, Raimundo repousa em paz.
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sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

[Uma crônica antiga, já devo ter publicado aqui antes....aproveitando o paradão do começo de ano e a falta de tempo para escrever, publico de novo]
Canindé e os obscuros caminhos da fé

A Canindé alguns vão a pé, percorrem o caminho da redenção de sandálias havaianas, chinelas de couro ou nada, ou seja, plantam no solo árido e seco do sertão a sola do pé curtido pela miséria e trabalho ingrato.

Nós percorremos o caminho de Canindé de carro mesmo, durante o trajeto, Padre Rafael nos explicava que seu Ceará é surreal, ali há pontes sem rio e rio sem pontes. Assim mesmo! Um dia, disse, viajava com um padre europeu e passaram uma ponte, duas pontes, três pontes e nada de água rolando por baixo delas. O europeu conferiu todas pois que tudo olhava atentamente. Chegando no quarto rio ele viu, finalmente, a água mas…não viu a ponte porque ponte não havia ali e tiveram que voltar, suspender o passeio. O europeu coçou a cabeça e riu das pontes sem rio e do rio sem ponte. Como pode? Os outros riram mais ainda e disseram que é assim mesmo, ora!

No caminho, duas mulheres andavam, em sentido contrário ao nosso, uma delas transportava na cabeça, com habilidade e certa elegância, uma grande trouxa, sem a ajuda das mãos; nas paradas dos ônibus, o povo esperava acocorado como os chineses.

O povo de Canindé acredita que São Francisco vive ainda hoje…e ali mesmo, naquele vilarejo, numa casa amarela. E a mancha no dorso do jumento é, para eles, o mijo do menino Jesus. Nem o Padre Rafael, nem ninguém é capaz de provar o contrário.

Na casa dos milagres, ao lado da igreja há um grande mural com fotos de pessoas que esperam ou alcançaram uma graça. Várias crianças nuas e até mesmo adultos mostram as partes do corpo conforme a graça recebida, assim vemos seios expostos, ventres, as pernas com as feridas, só os rostos, uma noiva com ar desconfiado e seu noivo….alguns deixam junto com a foto uma nota explicativa, mas não são muitos. Uma dessas notas trazia um retrato três por quatro à direita, outro à esquerda, uma imagem de Santo Antônio no meio e dizia:
‘Mercearia Santo Antônio – Eu moro em Teresina – PI na rua Bento C. Basto, no São João, e me peguei com São Francisco, para não perder o juizo (não ficar louco) porque eu perdi o meu filho Sérgio, com dezoito anos, num acidente de carro, todos os anos ele viajava para Canindé quando era vivo. Eu fiz a promessa se ficasse bom eu levava meu retrato e o dele e botava na casa dos milagres. Minha mercearia ficou quase acabada, então eu incluí no meu pedido que salvasse o meu comércio que eu levaria uma foto agradecendo, e estou deixando aqui meu testemunho, e agradecimento.
Alcancei a graça
Bendito o que vem em nome de Jesus.
Canindé, 4 de outubro de 2003
Antonio polícia.

Canindé e seus confessionários com ar condicionado que retêm ali as velhas e seus pecadilhos, por horas e horas. Canindé e o São Francisco vivente. Canindé, o simpático Padre Rafael e sua namorada morena. Canindé, minhas impressões de um dia, uma fotografia, um mundo entre nós....

Canindé e os obscuros caminhos da fé.

sábado, 14 de outubro de 2006

Meu último conto - Anjos de Prata

Music and Literature by William M. Harnett


Concepção

Estou aqui de mãos vazias, Ida. Escute este desconhecido antes de mandá-lo de volta para o lugar de onde veio. Sou um homem triste e sombrio, mas não sou perigoso, observe o meu perfil e escute. Ida, você não é santa, eu te fiz assim, estou te fazendo assim. Venha à luz, por deus, pelo diabo que seja, não quero me revelar não, Ida, não tenha medo. Hoje você foi a escolhida, será esculpida a cinzel ou desenhada a crayon. Culpas tenho muitas e de nada me servem. Minto, serve-me, é assim que crio, por causa dela e com ela. É assim que te concebo, Ida. Daqui a pouco você estará pronta, paciência com o pobre Lúcio, molde-se, apareça, evolua. Vou à cozinha, tomarei um copo d´água. Ou dois, tudo dependerá da minha garganta, e quando eu voltar estarei pronto para você e espero que esteja pronta para mim. Sentarei de novo aqui nesta mesma cadeira e esperarei que meus dedos deslizem ágeis, que você me procure antes de eu procurá-la, que você se construa espontaneamente. Eu, Lúcio, estou cansado, Ida, já lhe dei um nome, a feição não importa muito. Se eu morresse agora, se eu morresse a caminho da cozinha, antes do copo d´água? Eu te amo tanto, Ida. Você nem está pronta e eu já te amo, porque preciso de você com um futuro, um passado, com suas veias e suas vias. Sou tão só, dependo tanto de você neste momento. Eu vou, então à cozinha....
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Resenha minha no Rose

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Meu conto da Anjos de Prata

Um animal morto no meio do meu caminho

O animal jazia ali. Fedido, coitado, umas moscas a sobrevoá-lo. Morto e desenterrado, atravessado no meu caminho. Olho para ele enojada, com pena do seu fim, uma pena que se estende a todos os fins, ao meu também. Um pobre animal de patas estiradas, teso, daqui a pouco será só ossos. Ossos podem durar uma eternidade. E o que é ‘uma eternidade’? Um animal, um sustantivo se decompondo, transformando-se até não ser mais, até outra coisa. Ossos. A metamorfose não levará mais que algumas semanas. Terá morrido de velhice ou de picada de cobra? De fome não foi, ninguém morre de fome aqui. Minha irmã me alcança. Ai, que nojo! Tampa o nariz e vira o rosto. Ordena com voz fanhosa, vamos por aquele caminho.

Eu vou e o animal fica às moscas.

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Imprudência



Separei, sempre, o joio do trigo e, muitas vezes, fiquei com o joio. Não foi a sorte ou o azar, foi a imprudência. Eu podia ter escolhido o Luís, mas não, fiquei com o Lazinho. Imprudência! Está vendo minha cara quebrada? Significa que fiquei com o joio, entendeu, doutor? Uma lástima. Claro que não foi a primeira vez, nem a segunda, nem a terceira. Olha também aqui na minha coxa, viu? Estragar umas coxas dessas, doutor? Modéstia à parte...Um dia o desgraçado quase me arrebentou a cabeça, está aí escrito, dei queixa. A imprudência me fez voltar. Daí, doutor, respondendo à sua pergunta, foram sete facadas de raiva, de dor, de medo. Imprudência pura. Devia ter dado um tiro.
Leila Silva
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imagem: Modigliani

sábado, 27 de maio de 2006

Mini Conto


Margaridas

Chegou com flores para enfeitar a casa. Margaridas. Adorava margaridas. O carro já na garagem era uma surpresa. Caminha pelo longo corredor. A porta do escritório fechada era outro fato inusitado.
Pelo buraco da fechadura vislumbra mãos e nádegas. Dá a volta na casa, espia pela janela. A boca de Maurício, gulosa, engolia uma língua, seus dedos roçavam um pescoço roliço. Outras mãos abriram seu fecho-éclair e acolheram o membro duro. Ela apertou as coxas, sentiu o líquido descer quente, como há muito não sentia. Maurício, disse num suspiro e seu olhar encontrou o do rapaz, reconheceu o aluno de Maurício.

Seu pé vacilou sobre a pedra ao sentir que uma língua lhe lambia as pernas.

Era o cachorro.
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Logo volto com mais assuntos belgas, cinema desta vez. Por enquanto deixo meu mini-conto.
Ilustração:
Miriam Terlinchamp.

segunda-feira, 17 de abril de 2006

A Janela

A janela do seu quarto, grande e elegante, dava para a única praça da cidade. Minúsculo consolo. Meninas desinteressantes, risinhos falsamente tímidos. Do outro lado os meninos e rapazes de braços bem torneados pelo trabalho manual, no meio das brincadeiras sempre arranjavam um jeito de se tocarem, até mesmo quando falavam das meninas. Ele também tinha lembranças boas desses anos agora tão longínquos. As meninas nunca lhe interessaram senão como confidentes. Hoje seu mundo era uma janela e espera. Quem mandou voltar para essa cidade, o pai bem que teria preferido vê-lo longe dali.

Às vezes ia para a sacada observar melhor, um dia escutou: Olha lá a bichinha! Cidade besta e triste. No meio dos garotos viu Jorge, com a sua camiseta e calça apertadas lhe lembrava um daqueles marinheiros de gravura. Não falava muito, mas as meninas gostavam dele. No final da noite estava sempre aos beijos com uma delas, algumas deixavam as mãos passearem um pouco, outras fingiam mais recato. Da janela ele tudo via e esperava.

Jorge era o último a deixar a praça e era na sua porta que vinha bater. Nem precisava, estava sempre aberta àquela hora.
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Painting by Lucien Freud
Interior in Paddington

quinta-feira, 6 de abril de 2006

Releitura de Conto de Pu Songling



[Obs:História baseada no conto ‘La Fresque’ retirado do livro “Chroniques de l’étrange” de Pu Songling (1640 – 1715), autor chinês que já foi traduzido para todas as línguas latinas exceto o português.]


O quadro

Virgílio, originário de uma cidade do interior, encontrava-se na capital em companhia de seu amigo Pietro. Um dia caminhavam os dois sem destino certo por ruas e travessas quando avistaram um pequeno museu. O lugar estaria completamente deserto não fosse a presença de um velho empregado que cochilava no momento em que eles entraram. Mal os viu, o homem compôs respeitosamente as roupas e, cumprimentando os dois visitantes, ofereceu-se para lhes mostrar o que considerava seu pequeno refúgio. A sala principal abrigava máscaras e estátuas de personalidades ligadas à literatura, as paredes laterais eram cobertas por quadros pintados com tal delicadeza que se podia tomar por verdadeiras as figuras humanas ali representadas. Em um destes quadros via-se Ariadne sorridente, a palma da mão levantada, rodeada de outras mulheres de beleza quase comparável à dela. Sua figura, porém, se destacava e comoveu o coração de Virgílio. O olhar de Ariadne parecia um convite. Tanto concentrou-se na contemplação do quadro que perdeu o controle de si, seus pensamentos tornaram-se tão abstratos que entrou numa espécie de transe, sentiu o corpo tomar uma nova consistência, como se flutuasse num estranho nevoeiro - Subitamente estava dentro do quadro.Assustado, Virgílio compreendeu que se encontrava em outro mundo, ainda atordoado sentiu que o puxavam furtivamente pela manga, virou-se: Ali estava Ariadne a lhe sorrir. Ela afastou-se repentinamente e ele a seguiu de perto pelas galerias sinuosas até a porta de um quarto, uma vez ali, ele hesitou, não ousava entrar. A moça voltou-se e acenou de forma tão convidativa que Virgílio não pode resistir. Percebendo que não havia ninguém no quarto tomou-a imediatamente nos braços sem que ela oferecesse resistência. Horas mais tarde, satisfeita , ela se levantou, fechou as cortinas e, depois de avisar que ele não deveria emitir sequer um ruído, saiu prometendo que voltaria quando a noite caísse. E assim foi, voltou nessa noite, na noite seguinte e outras até que numa dessas vezes ouviu-se lá fora, no meio de vozes exaltadas, passos fortes juntamente com um tilintar de correntes. Ariadne levantou-se apavorada e espreitou pela janela: era um dos guardas do palácio. À sua volta se encontravam todas as outras moças. “Onde está Ariadne?", perguntou o homem. "Estava indisposta, está descansando", respondeu uma em nome de todas tentando acobertar a moça que elas tanto amavam e a quem tanto apreciavam escutar. "Se alguma de vós estiver escondendo algo importante será pior para todas. Não criem problemas dos quais ninguém vos poderá defender". O oficial, com o seu olhar de águia, parecia prestes a dar busca no esconderijo. Ariadne só teve tempo de dizer: "Rápido, esconde-te debaixo da cama". Quanto a ela, abriu uma porta secreta na parede e desapareceu num segundo. Virgílio mal se atrevia a respirar. Lá fora, o barulho das vozes ia esmorecendo. Apesar do medo e do desconforto não tinha outro remédio senão esperar, muito quieto, pelo regresso da jovem pois, tão toldado se encontrava seu espírito, que já não sabia de onde tinha vindo...

Ao aperceber-se do súbito desaparecimento de seu amigo, Pietro, perplexo, perguntou ao velho o que se passara. "Foi ouvir as histórias de Ariadne", respondeu com um sorriso irônico nos lábios. "Onde?" "Não foi longe", atalhou o outro dirigindo-se ao quadro. Chegando-se à pintura bateu com um dedo e perguntou: "Por que demoras tanto?" Imediatamente surgiu no quadro a imagem de Virgílio, a face descomposta pelas emoções, a cabeça ligeiramente inclinada como se estivesse a ouvir alguma coisa. "Há muito tempo teu companheiro te espera”, prosseguiu o homem. Nesse momento ele caíu do quadro e ficou prostrado no chão, os olhos esbugalhados e as pernas a tremer. Assustadíssimo, Pietro perguntou-lhe o que acontecera. O amigo não sabia o que responder; na verdade, estava debaixo da cama quando ouvira um enorme fragor, como se mil homens tocassem a um só tempo um tambor gigantesco. Apavorado, saíra a correr da câmara.

Os dois amigos voltaram-se para o quadro; a jovem continuava ali diante das outras, mas sua mão, agora, segurava o véu sobre o rosto. Surpreso, Virgílio voltou-se para o velho e perguntou-lhe a razão daquela mudança. "A ilusão nasce do espírito humano. Que outra explicação poderia lhes oferecer esse humilde servidor?"

Virgílio sentiu-se extremamente abatido, Pietro estava confuso. Ambos se levantaram e desceram as escadas que conduziam à saída.
Leila
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Imagem:
Ariadne
John Williams

domingo, 12 de março de 2006

Janaína, a rainha do bar


Boa noite, tudo bem? Prazer, sou Janaína, mais conhecida como ‘Janaína, a rainha do bar’. Engraçado, não? Janaína é a rainha do mar, caso você não saiba. Não deve ter entendido o trocadilho, hein? Posso me sentar aqui um momentinho ou você está esperando alguém? Não se preocupe, é só um minutinho até eu te contar essa história do meu nome, você não se incomoda, né? Você é bem calado, hein? Não tem importância, eu falo por dois…quando bebo, então. Falando em beber, meu copo está vazio, posso servir um pouco dessa sua cerveja? Bom, quem cala consente. (Caramba, esse sujeito é mudo ou o quê?) Posso ver a capa do seu livro? Ah, capito, você é gringo. Como é que a gente vai se entender? Amanda, vem cá tentar me ajudar, o cara aqui é gringo, não tá entendo nada do que eu falo, olha aqui o livro dele, nem sei que língua é essa. Vem cá que eu quero tascar esse gringo hoje, me ajuda, cacete! Ei, ei onde é que você vai? A Amanda já vem traduzir pra gente….Ahn, você é brasileiro? E porque não falou logo, filho de uma égua, e eu me expondo desse jeito, que vergonha. Vai pro caralho, vai, vai caçar macho. Deixa prá lá, Amanda, que o idiota era brasileiro mesmo e já se foi, o boiola. Não tem importância, deixa prá lá.
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em Anjos de Prata
Leila Silva
Imagem: Edward Hopper - Nighthawks

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Mini Conto


Glenda

Contempla, da janela, a baía e pensa novamente em Glenda. Glenda em alguma parte do mundo, buscando não se sabia bem o quê, acrescentando máscaras às suas máscaras. Queria tanto a Glenda.

O seu mundo de escritor era aquela biblioteca, uma janela de onde podia ver o vôo das gaivotas e os barcos. Um mundo infinito. Sim. Um daqueles barcos traria Glenda de volta, aquele mesmo que a levara. Quem sabe? E quando ela passasse pela porta ele estaria mais inteiro que antes, tudo seria recomeço.

Depois que terminasse o café e aquela gaivota preguiçosa alçasse novo vôo, ia sentar-se à escrivaninha e escrever mais um carta a Glenda. Só não sabia para onde enviá-la.
Leila Silva
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Foto Pulau Langkawi -
Malásia 2001

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Dois mini-contos

[Retirados do blog rapidinhas que comporta contos de no máximo 120 palavras. O primeiro é do Rubens da Cunha e o segundo do Marcelo d'Ávila. Excelentes.]
Morte Súbita

"Basta!" Gritou e morreu no meio da calçada. Foi recolhido ao IML.
Até agora, seis dias depois, não reclamaram o corpo. Tudo indica que será enterrado como
indigente, diz o funcionário asséptico. Dentro da boca do defunto, uma mosca pede socorro.

Rubens
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Olhos de gato

Preciso tirar esse peso das pálpebras, essa areia dos olhos: um gole e mais outro comprimido. A estrada some na luz dos faróis, uma cobra negra rebolando à minha frente. Maldita areia nos olhos. Mais um gole. Preciso tirar a bigorna das pálpebras. A cabeça oscila como uma vara de pesca. Um gole. Preciso. Um gato gigante de olhos de fogo em minha direção. Preciso comprar cebolas para os peixes. Um comprimido. Os olhos do gato estão piscando. A cabeça cai. Preciso. (seis pessoas da mesma família mortas em acidente na 101, envolvendo um Astra de Caxias e uma carreta com placas de Palhoça. A Polícia Rodoviária acredita que o motorista da carreta tenha dormido ao volante).

Marcelo d'Ávila

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Conto - Anjos de Prata

Florinda

Florinda, só mais esta vez, tenha piedade, minha flor. Eu prometo, juro que paro de beber, por tudo que é mais sagrado, pela minha mãe. Flô, fala comigo, larga essa porra dessa mala. Não posso viver sem você, bar é coisa do passado. Fala comigo, Florzinha, tenha piedade, não fique aí calada. Faz um café amargo pra mim que eu melhoro e a gente conversa tranqüilo, vai meu bem. Flôoooo, vem aqui!

……

Alô, mãe, a Florinda, aquela egoísta foi embora...bebendo, eu? Mais sóbrio impossível, mãe, só saí com os amigos, ela não pode entender uma coisa dessas? Umas duas ou três cervejas, só isso. Mãe, liga pra ela, por favor, a gente precisa pelo menos conversar, ela ficou surda e muda de repente. Liga pra ela, ela vai te ouvir, com você é diferente. Não vai telefonar por quê? Que é isso hoje, complô contra mim? Inferno! Desculpa, mãe, não queria falar palavrão. Eu que tenho que ligar? Eu sei disso, mas se eu tô falando pra senhora que ela não me ouve, eu falei…falei e ela pegou a malinha, nem respondeu. Bateu a porta e foi embora. Bem feito pra mim?

……

Alô, pai? Não, não muito bem, a Florinda foi embora, nem quis conversa….hein, ligar mais tarde? Ah, tá ocupado? Tá bem, então você liga, vou ficar esperando.

…..

Alô, Jorge, tudo mal, cara, tô precisando conversar, não quer me encontrar lá no bar? Ah, está com visitas? Mais tarde, então? Como? Quem? A Flô, mas o que é que ela tá fazendo aí? É melhor explicar muito bem mesmo….Alô! Alô!


Leila Silva

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Ficçoes

Conto meu na revista portuguesa FicÇões .

Abraços