segunda-feira, 23 de maio de 2005

Vislumbres da Índia

Quando vivia na Ásia planejei, mais de uma vez, viajar pela Índia, tal viagem nunca se deu por mais de uma razão: desorganização, incompetência, falta de tempo, um certo medo, talvez. O fato é que nunca lá estive. Semana passada comprei, em Florianópolis, este Vislumbres da Índia – Um diálogo com a condição humana - e pus-me a viajar com Octavio Paz. Melhor companheiro de viagem não poderia haver, sobretudo em se tratando desse destino.

O autor conhece bem a Índia pois viveu lá trabalhando, primeiro como segundo secretário na embaixada do México e, anos depois, como Embaixador. Vislumbres da Índia é um pequeno livro, um ensaio de, exatamente, duzentas páginas nessa edição Mandarim de 1996 que adquiri. Octavio Paz explica que escolheu a palavra ‘vislumbres’ por significar ‘indícios’, ‘realidades percebidas entre a luz e a sombras’, o que quer dizer que “esse livro não é para especialistas”. Pode até não ser, mas mesmo os especialistas devem ganhar muito com a leitura dele, é riquíssimo em impressões, análises da cultura, religião, línguas, cozinha, o sistema de castas, política, etc. Eu não desgrudei do livro enquanto não cheguei à última página, ou melhor, só por uns minutos durante um vôo em que Dona Lucrécia se sentou do meu lado e não parou de falar, olhou para a capa do meu livro, perguntou se Octavio Paz era brasileiro, teceu algumas considerações sobre a Índia, meditação e pobreza....mas esta é outra história.

Nas primeiras páginas em que conta a sua chegada à Índia, o autor se pergunta “O que me atraía?” e fala daquele deslumbramento quase ingênuo que temos ao nos ver diante de tanta coisa nova ao mesmo tempo, tanta que não conseguímos discernir. Eu também fiquei assombrada, deslumbrada ao penetrar a Ásia, mais do que ir, visitar o lugar e voltar, considero uma sorte ter podido viver lá ainda que por pouco tempo, menos do que eu gostaria. Na impossibilidade de responder à pergunta sobre o que o atraía, Octavio Paz recorre a T.S. Eliot “O gênero humano não pode suportar tanta realidade.”

Sublinhei vários trechos que chamaram a minha atenção, que eu gostaria de ler melhor depois e que também pensei em colocar aqui....mudei um pouco de idéia quanto a isolá-los assim nesse apanhado rápido, num momento de puro entusiasmo quando acabo de fechar o livro e mal digeri o que li. Descontextualizar pode ser um ato perigoso. Ainda assim vou arriscar uma ou duas citações, a primeira se refere à democracia. Nos Estados Unidos a maioria da população repete essa palavra a torto e a direito, inclusive com ela justificando guerras, mas nunca ou quase nunca, me parecia, indo ao âmago da questão que seria se perguntar de vez em quando, o que é o real significado da palavra e como ela está sendo usada por um político e outro. Sobretudo depois de ter vivido nos Estados Unidos, alguns vocábulos não me deixaram, dois deles são: democracia e liberdade que vivem na boca do povo, do intelectual, do religioso, cada um usando-o a seu modo e a maioria se deixando engambelar. Então, para Octavio Paz:

“Certamente a democracia também pode ser tirânica, e a ditadura da maioria não é menos odiosa que a de uma pessoa ou a de um grupo. Daí a necessidade da divisão de poderes e do sistema de controles. Mas as melhores leis do mundo convertem-se em letra morta se o governante é um déspota, um homem que domina os demais porque é incapaz de dominar-se a si mesmo.”

Como diria a Dona Lucrécia, ‘disse tudo’. Vou até abandonar a outra citação, acho que já é bastante para perceber o quanto essa leitura pode ser valiosa, sobretudo para quem tem um mínimo interesse pela Ásia.



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Um dos epigramas selecionados por Octavio Paz como exemplo da arte literária hindu:

Amor

Admira a arte do arqueiro:
Não toca o corpo e rompe corações
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Vislumbres da India, Octavio Paz, Editora Mandarim.

2 comentários:

Allan Robert P. J. disse...

Quem diria que uma viajadora como você teria desculpas para evitar viajar a algum lugar desse mundo pequeno. Normalmente somos nós quem viajamos nos seus textos.
Ciao

Manoel Carlos disse...

Você demonstra ser uma arguta observadora; não fiquei tão interessado na visão do livro como estaria se fosse você a reproduzir as observações em um Cadernos da Índia; aliás, gostaria de ver um genérico Caderno de Viagens: Canindé, Atlanta, Cingapura, Bruxelas...