terça-feira, 7 de junho de 2005

Mosaico de horas

Conto escrito para Anjos de Prata



Eu e essa estrada, faz anos que é assim, tantos que ela já é quase uma pessoa. Uma pessoa, é isso, a gente vai rodando rodando nessa solidão e começa a racionar besteiras, uma estrada vira uma pessoa, já se ouviu de tudo, quer dizer, na verdade ninguém ouviu porque eu tô matutando sozinho. Mas, se tivesse alguém aqui eu ia mostrar o tanto que conheço bem esse caminho, daqui a uns quinze ou vinte minutos vou passar por aquela árvore grande que tá pendendo pra esquerda, uma de galhos engraçados, parece que quer abraçar, vamos ver, vou marcar no relógio, se alguém tivesse aqui ia ver como estou certo. Bom, ia ver ia ver e de quê isso ia servir? De nada porque de nada serve saber que em tal lugar dessa estrada tem isso ou aquilo, não serve de nada a não ser para pontuar essa solidão. É que tenho que manter a cabeça ocupada, essa vida de estrada é muito das esquisitas se a gente analisar, estrada, estrada e mais estrada, ninguém imagina o que é isso, nem eu imaginava que um dia ia ser assim, que a solidão pudesse ser tão vasta, que ia ter que treinar a minha própria cabeça para não ficar doido, vou pensando numas coisas e tentando não pensar noutras, às vezes pulo assim de um assunto (o assunto que assunto cá comigo) pra outro, mudo completamente de rumo, de propósito. Lá está a tal da árvore, vamos ver, dezessete minutos contados, nem quinze, nem vinte mas dezessete que está no meio. Olha lá, dá até vontade de abanar a mão pra ela. Veja o que a solidão faz com um homem, estrada vira gente, árvore vira gente...Um dia escutei no rádio uma história estranha, era sobre as sereias, essas também foram uma invenção da solidão do homem. Ficavam os marinheiros a marear por longos meses, anos, quem sabe, naquela solidão absoluta, quer dizer, só não era mais absoluta que a minha nesse caminhão porque lá eles tinham outros homens pra conversar, mas sempre os mesmos...não sei, em todo caso, mulher é que não viam a miúdo, daí a imaginação desses coitados transformou um peixe - um peixe que consegue sair da água por uns instantes – na mais bela criatura fêmea que havia, uma criatura fêmea, mas não mulher, mulher só pela metade. Solidão é isso, invenção. Estrada, minha estrada, até quando seremos nós dois?
De noite leio umas pagininha do bang-bang, escuto as notícias no rádio e durmo, umas vezes o sono vem rápido, outras demora, quando demora é o diabo, esticar essa solidão diurna é pagar os pecados que a gente nem tem tempo de cometer. Na manhã seguinte, a estrada está lá esperando a minha marca, é quase infinitamente assim, um dia não há de ser mais porque até o que parece infinito tem que ter um fim. É.


Leila Silva

5 comentários:

Denise Arcoverde disse...

MA-RA-VI-LHO-SO, Leila!

Manoel Carlos disse...

Amiúde digo que você escreve bem, mas desta vez ficou excepcionalmente bom.

marcelo d´ávila disse...

Oi, Leila!
Belíssimop texto. Estamos te esperando lá na OE.
Beijo,

Anônimo disse...

Excelente!!!!!!!!!!!!

Laura disse...

Menina, gostei muito, diferente do que havia lido de vc. bj laura