sexta-feira, 20 de novembro de 2009

o poema da sexta-feira


Preso
na cascata
um instante:
o verão



matsuo bashô

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O Sena


Toby Vandenack

O Poema da sexta-feira

As Adam, early in the morning,
Walking forth from the bower, refresh’d with sleep;
Behold me where I pass—hear my voice—approach,
Touch me—touch the palm of your hand to my Body as I pass;
Be not afraid of my Body.


(Walt Whitman 1819-1892)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Moi


Vou aproveitar que alguém, a Tati, fez umas perguntas sobre mim aí nos últimos comentários e, quem sabe, até não economizo algumas horas do analista.

Vamos ver, sim sou professora de francês, por sorte na minha própria escola, em Curitiba. Sou professora e coordenadora do curso. Estudei Letras (português-francês) long...longtime ago. Vivi em Bruxelas durante vários anos e lá eu ensinava português, seria muita ousadia ensinar francês para francófonos, fiz também muitos trabalhos de tradução o que, na época, eu adorava porque podia trabalhar em casa, de pijama, trabalho perfeito para o inverno. Trabalho ainda com tradução, às vezes, mas não sou tradutora juramentada e aqui no Brasil eu acho meio chato porque é muito comum as pessoas reclamarem do preço, eu odeio discutir preço como cliente ou oferecendo serviços. Muita gente aqui tem dificuldade em entender o trabalho de tradução, é um trabalho difícil, requer muitas horas, não basta saber a língua (as duas línguas, no caso) e ir passando de uma para a outra, é preciso pesquisar (ninguém domina todos os assuntos, nem mesmo na língua materna), é preciso revisar, é preciso tempo, as pessoas chegam e dizem: 'pra ontem', na maior cara de pau. Em Bruxelas nunca ninguém discutiu o valor de uma tradução comigo. Essa é a minha experiência, talvez outras pessoas tenham outra por conhecer melhor o meio aqui, as pessoas que vivem exclusivamente de tradução, por exemplo. Eu não conheço, só conheço as pessoas que telefonam na escola ou que passam por aqui.

Trabalho só com adultos, já trabalhei, antes de morar fora do Brasil, com preparatório para vestibular, escolas estaduais e particulares, centros de línguas de universidade e universidade. Comecei a trabalhar cedo, por isso a vasta experiência, ok?

Enfim, é isso, mantenho este blog, bem ou mal, há uns cinco anos e são quase sempre as mesmas pessoas que me acompanham, por incrível que pareça. Eu não verifico (já fiz isso, mas não faço mais)contador, não sei quantas pessoas entram aqui por dia ou como chegaram aqui, algumas poucas deixam comentários, de vez em quando alguém me escreve. O blog é assim paradinho, mas já me rendeu bons encontros, boas amizades, às vezes tenho vontade de parar, preguiça mesmo, mas aí lembro dessas coisas, das pessoas que já encontrei (encontrei mesmo, no mundo real) por causa dele ou mesmo as que nunca encontrei, mas com quem mantenho bom relacionamento virtual. E ainda o nlog me oferece essa possibilidade de desabafar de vez em quando, já perceberam, não? Dá para reclamar da vida, do tempo, da tpm, o máximo que vai acontecer é a pessoa sair do blog rapidinho pensando 'ô coisa chata!' ou deixar um comentário desaforado que, se eu quiser, posso apagar depois. Voilà!

E aproveito para agradecer a paciência de todos neste tempo...na verdade, pensando bem, são mais de cinco anos.

That's all folks!

...
"A melhor demonstração de como Caetano (não) leu o antropólogo não aparece em sua resenha (ele já o tinha citado - mais ou menos como Gil citou a física quântica - em uma de suas letras). A prova de que Caetano, se leu, não entendeu nada de Levi-Strauss não é sua entrevista, embora patética. É sua declaração sobre a gramática de Lula."

Leia o artigo na íntegra aqui, Da Arte de Chutar.

domingo, 8 de novembro de 2009

Sunday


Que bom ter um domingo para descansar! oh la la...

Foi uma semana desgracenta, com tpm e todo tipo de stress, essa que se inicia será melhor, primeiro porque não haverá mais tpm, segundo (ou será por causa disso) relaxei e decidi que pouca coisa poderá me contaminar nos próximos dias.

Não acrescentou nada ao meu stress a milésima asneira que o Caetano disse (está em vários blogs), diga quantas mais quiser, defenda ACM, vote em evangélica, esperneie, só não quero pensar que fui a dois shows dele na vida. Ou foi só um, sei lá. Só estou me lembrando de um, em Bruxelas, fui com uma amiga belga, ainda me lembro dela (minha amiga) insistindo para que minha irmã fosse ao show com a gente e nem posso escrever aqui a resposta dela, só digo que ela não foi e me pergunto se não tinha razão no final das contas.

Ok, eu gosto da voz dele, gosto de algumas composições, mas como é chaaato. Cruzes!

Fez calor em Curitiba a semana toda. Sim, às vezes faz calor aqui, com isso parece que fiquei mais cansada ainda. Foi tanto o meu cansaço que vou ao médico essa semana, vou fazer uns exames, ver se é normal se cansar tanto assim.

E dormi pouco também, o calor, o cansaço, a angústia...enfim, então revi alguns filmes, dentre eles Pulp Fiction, fazia muito tempo que eu tinha visto, tinha me esquecido daqueles diálogos deliciosos, do John Travolta que estava tão engraçado e gostei de rever a atriz portuguesa, Maria de Medeiros com aquele rosto interessante. Ela fez também o filme Henry and June, baseado nos diários de Anaïs Nin, faz o papel da própria Anaïs. Já a vi interpretar em francês (bastante), inglês e, claro, português.

Li pouco, nem conseguia me concentrar, continuo lendo
Los detectives Salvajes, me arrependi um pouco de ter tomado emprestado esse livro tão grande, agora me sinto obrigada a ler só ele (não costumo ler um livro só de cada vez) para terminar logo e devolver. Não quero mais livros emprestados, a não ser que sejam de no máximo 100 páginas. Não quero emprestado, mas aceito doações. Um amigo nosso doou, não para mim, para a escola, vários livros em francês e em português, títulos excelentes. Inspirada talvez por ele, uma de nossas alunas que foi professora de espanhol na UFPR doou também outros tantos em espanhol e em português, excelentes títulos também. Isso é ótimo, estou (eu ou a escola) sempre recebendo livros, se você também estiver com problemas de espaço aí no seu apartamento, se quiser se desfazer dos seus livros por qualquer razão que seja, já sabe.

Como sempre o cachorro quer o passeio dele, estivemos o dia inteiro fora, coitado, ficou só, não está acostumado, passa o tempo todo na escola, sempre tem alguém para acariciá-lo, para brincar com ele...Alguns dos nossos alunos (uns anjos!) chegam ao cúmulo de vir mais cedo para a aula para poder levá-lo para um passeio. Toda semana! Sim, porque se alguém o leva para passear UMA vez, a pessoa fica marcada, quando chega aqui o cachorro faz um escândalo. É um cão de sorte, não pode reclamar muito da vida, o problema é que neste exato momento está chovendo, pouco, mas está. Que fazer? Já sentiram o cheiro de cachorro molhado, não é nada agradável, nem mesmo para quem, como eu, adoro o bicho. Vou tentar dialogar com ele.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Cecília Meireles




Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu em 7 de novembro de 1901. Foi criada pela avó, D. Jacinta Garcia. Seu pai faleceu três meses antes do seu nascimento, e sua mãe antes que ela completasse três anos.


Noturno


Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?

E que valem as árvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?


Que vale o pensamento humano,

esforçado e vencido,

na turbulência das horas?


Que valem a conversa apenas murmurada,

a erma ternura, os delicados adeuses?


Que valem as pálpebras da tímida esperança,

orvalhadas de trêmulo sal?


O sangue e a lágrima são pequenos cristais sutis,

no profundo diagrama.


E o homem tão inutilmente pensante e pensado

só tem a tristeza para distingui-lo.


Porque havia nas úmidas paragens

animais adormecidos, com o mesmo mistério humano:

grandes como pórticos, suaves como veludo,

mas sem lembranças históricas, sem compromissos de viver.


Grandes animais sem passado, sem antecedentes,

puros e límpidos,

apenas com o peso do trabalho em seus poderosos flancos

e noções de água e de primavera nas tranqüilas narinas

e na seda longa das crinas desfraldadas.


Mas a noite desmanchava-se no oriente,

cheia de flores amarelas e vermelhas.

E os cavalos erguiam, entre mil sonhos vacilantes,

erguiam no ar a vigorosa cabeça,

e começavam a puxar as imensas rodas do dia.


Ah! o despertar dos animais no vasto campo!

Este sair do sono, este continuar da vida!

O caminho que vai das pastagens etéreas da noite

ao claro dia da humana vassalagem!




Cecília Meireles

..................................

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Guggenheim Museum, New York City

Bill Perlmutter


'A vida muda rápido, a vida muda num instante, você senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente'.
....

Joan Didion em seu último livro, O Ano do Pensamento Mágico que eu ainda não li. Ainda.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

O Poema da sexta-feira

Death
(William Butler Yeats)

Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Many times he died,
Many times rose again.
A great man in his pride
Confronting murderous men
Casts derision upon
Supersession of breath;
He knows death to the bone -
Man has created death.

Morte
(Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos)

Medo não tem, nem esperança,
Um animal a agonizar:
Aguarda um homem o seu fim,
Tudo a temer, tudo a esperar;
Já muitas vezes morreu ele,
As muitas vezes retornando.
Em seu orgulho, um grande homem,
Homens que matam enfrentando,
Sobre a substituição da vida
Atira um menosprezo forte;
Sabe ele a morte até os ossos
- Foi o homem quem criou a morte.

...

Fonte: Mundo de K.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Amsterdam
Richmond

domingo, 25 de outubro de 2009

Esperança para as vítimas de mutilação genital feminina

"Há alguma esperança para as vítimas de mutilação genital feminina – isto se você for cidadã de um país como a França ou os Estados Unidos. A Newsweek reporta o trabalho da Drª. Marci Bowers, que realiza operações reconstrutivas em mulheres que sofreram ablação do clitoris; 80% das mulheres que se submeteram à operação viram os seus sentimentos de prazer restaurados.

Continua aqui em Sexismo e Misoginia.
...
imagem: Fleur, Matisse.

My Baby Shot Me Down


....
Bang Bang…
My Baby Shot Me Down

Nancy Sinatra

I was five and he was six
We rode on horses made of sticks
He wore black and I wore white
He would always win the fight

Bang bang
He shot me down, bang bang
I hit the ground , bang bang
That awful sound, bang bang
My baby shot me down

Seasons came and changed the time
When I grew up, I called him mine
He would always laugh and say
Remember when we used to play

Bang bang
I shot you down, bang bang
You hit the ground , bang bang
That awful sound, bang bang
I used to shoot you down

Music played and people sang…
Just for me the church bells rang…

Now he's gone I don't know why
And till this day some times I cry
He didn't even say goodbye
He didn't take the time to lie

Bang bang
He shot me down, bang bang
I hit the ground , bang bang
That awful sound, bang bang

sábado, 24 de outubro de 2009

O poema da sexta-feira

    TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Há anos eu dedicava muito tempo à internet, nos últimos meses a coisa mudou. Entro rapidamente, leio meus e-mails (muitas vezes ao dia, mas por pouco tempo), nem sempre respondo imediatamente o que me irrita um pouco, detesto pensar que 'devia' ter respondido a tal e tal e-mail. Resolvi relaxar...e, além disso, andei estressada e meio doente.

Os blogs também eu tenho lido menos, entro sempre nos mesmos, leio, raramente deixo comentários.

Televisão eu praticamente não assisto, não tenho cabo, não tenho nada, na verdade, nem rede globo eu sei achar ali. Trabalho até tarde e quando me sento prefiro ler ou ver um filme ou para a internet. Só vejo tv quando estou no sítio com minha família o que tem acontecido raramente, duas vezes por ano mais ou menos. Ah, algumas vezes vejo uma ou outra coisa na tv na academia, MTV ou Ana Maria Braga, dependendo do horário.

Neste momento estou lendo Roberto Bolaño, Los detectives Salvajes, meu primeiro livro do autor que foi emprestado por um amigo chileno. E soube, então, que Bolaño nasceu no Chile e foi para o México bem jovem, adolescente, acho. Eu pensava que ele fosse mexicano...não conheço nada dele, na verdade. Há milhares de coisas que quero ler, mas gosto de desviar de vez em quando do caminho que tracei e 'descobrir' coisas com os amigos, sobretudo quando temos algumas afinidades de leituras, como é o caso aqui com o chileno. Claro que algumas vezes dá tudo errado, um amigo que você adora garante que tal livro é bom, você lê e acha uma porcaria. Por isso eu escrevi 'afinidades de leitura'. Uma vez uma amiga, muito amiga mesmo, me indicou....well...Da Vinci Code. Acontece que o livro ainda não era conhecido, a gente vivia nos Estados Unidos e o livro estava começando a aparecer, essa minha amiga ainda me garantiu que valia a pena comprar o livro, nas primeiras linhas eu já senti que não era pra mim, felizmente eu consegui amortizar o valor empregado porque meu marido o leu durante uma viagem (em poucas horas) e outras pessoas acabaram lendo também, não tenho a mínima ideia onde o livro anda agora, não senti falta dele.

Enfim, o cachorro, como sempre está aqui reclamando o passeio dele, vou ter que ir.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

o poema da sexta-feira

Dialética
 


É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...


Vinícius de Moraes
19/10/13 - 09/07/80

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O poema da sexta-feira

Andorinha

Manuel Bandeira (nasceu em 19/04/1886)


Andorinha lá fora está dizendo:
— "Passei o dia à toa, à toa!"


Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa . . .

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Eu também me pergunto porque não fecho logo este espaço ao invés de ficar aqui enrolando. Será que já deu o que tinha que dar? Pode ser. Pode ser também um cansaço momentaneo.
Ahn, você nem percebeu que eu me ausentei por vários dias? chiii...bem feito pra mim.
...
Bom, teve um acidente com perda total (só material), uma semana de dor disso e dor daquilo, noites mal dormidas, olheiras, burocracia, cadê o papel tal do carro, quem estava certo, quem estava errado, assine aqui, assine ali. Tudo isso já passou, só espero dormir muito, descansar, rir com os amigos e voilà.
...
Li L´élégance du hérisson (A elegância do ouriço), Muriel Barbery, assunto do momento na França e transformado em filme, estava entrando em cartaz em agosto, quando eu estava lá, não vi. Uma professora aqui da escola me emprestou o livro e, como era emprestado, li bem rapidinho. É a história de uma senhora que é zeladora em um prédio de ricos, apaixonada por literatura, passa o tempo tentando esconder a sua verdadeira natureza dos habitantes do prédio, prefere ser vista simplesmente como uma zeladora e ser deixada em paz com seus livros...até que um dia. A outra personagem é uma menina de 12 anos, moradora do prédio e muito inteligente, não se integra naquele ambiente e planeja se matar no dia dos seus 13 anos. Grosso modo é isto.
...
Li outras coisas também, vou me lembrar depois.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O Poema da sexta-feira

Para fazer uma campina
basta um só trevo e uma abelha.
Trevo, abelha e fantasia.
Ou apenas fantasia
Faltando a abelha.

Emily Dickinson

Tradução de Idelma Ribeiro de Faria

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O Poema da sexta-feira

A Frescura

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros,
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que'eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
E tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

Álvaro de Campos

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Jill Bolte Taylor



.
..
Jill Bolte Taylor é uma cientista americana, neuroanatomista que teve um derrame aos 38 anos. Estou terminando de ler o livro que ela escreveu sobre essa experiência, A Cientista que curou seu próprio cérebro. Não é meu tipo de leitura preferido, mas é bastante interessante, nessa palestra aí acima ela explica muito do que aconteceu e do que está no livro.

Para colocar a legenda em português basta clicar aí no lado esquerdo e escolher a língua.

"No primeiro momento, fiquei aflita. Depois, pensei: quantos cientistas têm a oportunidade de estudar as funções cerebrais de dentro para fora?"
Jill B. Taylor

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

UNICEF Tap Project’s “Desperate”

Mulheres pelo mundo

Kartika Shukarno foi condenada a 6 chicotadas por beber em público.
Castigo foi suspenso temporariamente no mês religioso muçulmano

Uma modelo malaia de 32 anos, condenada a receber seis chicotadas por ter bebido cerveja em público, teve a pena suspensa de maneira temporária nesta segunda-feira (24) durante o período de Ramadã, o mês de jejum muçulmano.

Kartika Sari Dewi Shukarno, que vive há 15 anos em Cingapura, foi condenado em julho a receber seis chicotadas e a pagar uma multa de 5.000 ringgits (US$ 1.400) por ter bebido álcool em uma discoteca do estado malaio de Pahang, o que é proibido pela lei islâmica.

Continua aqui: G1

...
Sudanese woman fined for wearing trousers
KHARTOUM (Reuters) – A Sudanese woman was found guilty of indecency and fined on Monday for wearing trousers in a case that has attracted worldwide attention, but she will be spared lashes, an official who attended the trial said.

The woman, Lubna Hussein, was arrested at a party in July with 12 other women and had faced the possibility of 40 lashes for wearing trousers deemed indecent. The court ordered her to pay a fine of 500 pounds ($209) or face a month in jail.

Hussein's case was seen as a test of Sudan's Islamic decency regulations, which many women activists say are vague and give individual police officers undue latitude to determine what is acceptable clothing for women.
Continua aqui yahoo notícias.

...
...
Encontrei a mesma notícia na Folha:

"Não vou pagar a multa, prefiro ir para a cadeia", declarou Lubna à agência de notícias France Presse. No entanto, os advogados de defesa afirmaram que tentarão convencer a cliente a pagar a quantia.

Lubna foi detida em julho por policiais quando estava em um restaurante vestida com uma calça comprida e uma blusa larga.

Dez mulheres detidas na mesma ocasião foram convocadas mais tarde pela polícia e receberam 10 chicotadas. Lubna Ahmed al Hussein poderia ter recebido a mesma punição, mas contestou as acusações e iniciou uma campanha pública para abolir a polêmica lei em que as autoridades se basearam para o indiciamento.

sábado, 29 de agosto de 2009

Parece uma boa notícia

Novartis diz que vacina para gripe estará disponível em outubro

da Efe, em Genebra

A farmacêutica suíça Novartis informou hoje que entregará as primeiras doses de sua vacina contra a nova gripe em outubro, após ter conseguido desenvolver, em parte, um processo mais rápido que os tradicionais para produzi-la.

Folha,29/08/2009 - 11h36 Continua....
....
Em princípio a notícia parece excelente, eu digo 'parece' porque com a indústria farmacêutica nunca se sabe.
Duas de nossas alunas foram contaminadas pelo vírus, passaram por maus momentos, mas estão bem agora. Eu não sou paranóica, mas é claro que é necessário tomar cuidado, não quero ser obrigada a passar dez dias ou mais em casa, isolada e tremendo de febre. Mesmo sem ser paranóica os números de mortos em consequência da gripe assustam um pouco, ainda mais quando se lê que 40% desses mortos eram adultos com boa saúde.
...
  • Lendo ainda Everyman, P. Roth. Pretendo acabar a leitura hoje, estou nas últimas páginas e só não terminei durante a semana porque o tempo foi curto, curto.
  • Um episódio de True Blood durante a semana.
  • Aulas.
  • Passeios com o cachorro.
  • Preguiça.
  • Cólica.
  • Academia.
  • Preguiça.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Bruges




Algumas fotos de Bruges que visitei agora em agosto com minha irmã e meu sobrinho de dois anos e meio, foi ótimo, tomamos o barco e o pequeno adorou.
Bruges é conhecida como a Veneza do Norte, uma linda cidadezinha flamenga onde às vezes você é melhor atendido se optar por falar inglês ao invés de francês. Nem tudo é perfeito. São as briguinhas linguísticas tão difíceis de entender, sobretudo para nós que vivemos num país continental e onde se pode usar a mesma língua do norte ao sul, do leste ao oeste.
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Lendo: Everyman, P. Roth.
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domingo, 23 de agosto de 2009

Domingo com True Blood

Está frio hoje em Curitiba, não horrivelmente frio, apenas frio e estou também com uma dorzinha de cabeça, leve, mas insistente, desde que me levantei. Não tenho nada contra remédios, não quis tomar hoje porque, como disse, é uma dor leve e pensei que talvez passasse. Fiz duas coisas que não devia, que não ajudam a melhorar dor de cabeça (pode ser que seja só com relação a enxaqueca, não sei), duas não, três:
  • Comi chocolate,
  • comi queijo e
  • tomei um copo de leite.
Não ajuda, isso é certo, na hora não pensei, só agora que tudo já está ali misturado no meu estômago. Too late!
Então nos reunimos aqui e fomos assistir os últimos episódios de True Blood, está muito bom, mas agora vamos ter que esperar uns dias para ver o próximo, não tenho a mínima idéia de quando passa, só sei que é da HBO e que é bem 'animado'. Bom, é a série sobre os vampiros, se eu conheço todo mundo já conhece porque em se tratando de tv eu sou mais por fora que umbigo de vedete.
A abertura e a música do seriado são ótimas, vejam aqui:
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quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Tempo tempo tempo



Desde que cheguei ao Brasil minha vida foi só trabalho, tenho que pagar a viagem, c´est la vie. Por isso a falta de tempo para o blog, mas aqui vão algumas fotos de Villefranche de Conflent, a primeira é a casa da minha amiga Violaine e dos pais dela, a família que tão gentilmente me acolheu e me proporcionou uma semana de vivência num vilarejo medieval, muito autêntico. Jamais vou esquecer.
A segunda foto é a da loja dos pais da Violaine, bem do lado da casa deles, são artesãos.
E a última foto eu tirei do alto das muralhas de Villefranche.
Logo vou postas as fotos de Bruges que alguém pediu.
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Acabei de ler Um Copo de Cólera, muito muito bom. Uma vez, há muito tempo, vi o filme e confesso que achei muito esquisito. Talvez não fosse o dia certo ou o filme certo para o dia ou talvez o filme não seja bom mesmo. Enfim, o livro é bom.

Ao trabalho!
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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Voltando para casa

Ja estou me preparando para voltar, organizando as malas, falando Au revoir para os amigos...Nao posso reclamar, tive mais de um mês de férias, ou quase férias (teve o curso).





Passei uns dias em Paris e foi uma excelente viagem apesar de eu ter ficado muito cansada tentando fazer coisas demais em pouco tempo. Essa foto acima eu fiz em Versalhes e foi sobretudo esse o meu erro, a visita a Versalhes. Eu ja tinha visitado antes, os jardins, parte do castelo e desta vez tentei ver Versalhes e o Trianon, nao sabia que era tao longe um do outro, ainda por cima coloquei os sapatos errados. So existe um tipo de sapato para essas visitas, eu imagino, tênis, mas eu estava sentindo muito calor e resolvi calçar umas sapatilhas que torturam os meus pés.





Eu tive que visitar tudo so, na verdade quase todas as visitas que fiz durante esta viagem foram assim porque meus amigos estavam trabalhando, eu visitava de dia e ficava com eles à noite. Em Paris também fiquei na casa de uma amiga, uma professora de francês que trabalhou conosco em Curitiba, agora esta indo para o México. O objetivo dela era voltar para o Brasil, mas como o visto para trabalhar no Brasil é bem mais complicado do que para o México...





Uma noite nos fomos juntas ao Théâtre de la Huchette ver uma peça de Ionesco que eu ja tinha visto ha uns dez anos ou mais...no mesmo teatro, La Cantatrice Chauve. Na verdade duas peças de Ionesco estao em cartaz neste teatro ha mais de 50 anos. Nao é inacreditavel que duas peças consigam sobreviver por tanto tempo num mesmo lugar. Era a terceira vez que eu ia a este teatro, ja vi as duas peças mais de uma vez com anos de intervalo e espero rever ainda.



Ontem (re)visitei Bruges, uma cidadezinha linda aqui da Bélgica, conhecida como a Veneza do norte. Quando tiver tempo vou tentar postar uma fotos de la.

Desculpem a falta dos acentos, nao da para procurar, eu ia demorar demais.

Leitura destes ultimos dias (releituras, alguns): La métamorphose (Kafka), Antéchrista (Nothomb), Le Pigeon (P. Suskind), L'immoraliste (Andé Gide), todos livros bem pequenos. Agora estou lendo Comment parler des livres que l'on n'a pas lus que ganhei da minha irma de presente de aniversario.

Tempo de terminar as malas.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Murais em Bruxelas









Ha mais de 40 murais espalhados pela cidade, cada mais bonito que o outro. Acho que sao todos, ou quase todos inspirados em Historias em Quadrinhos.

domingo, 26 de julho de 2009

Algumas fotos de Bruxelas

Casa em Les Marolles

Théâtre Royale de la Monnaie
Perto da Grand Place

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Bruxelas

Ja (re)visitei a Grand Place, bonita como sempre, mas, repleta de turistas. E verao, tempo de turismo.

Ja comprei muitos livros, para mim, para a escola, para os amigos. Alguns dos autores, M. Yourcenar, Dino Buzzati, Amoz Oz.

Andei muito, muito e achei que Bruxelas esta meio decadente. Nao a parte turistica, mas o bairro onde mora minha irma (nada turistico), onde mora um amigo que é artista plastico e outros lugares por onde andei por andar, para redescobrir, relembrar.

Ontem fez um calor infernal, hoje esta um pouco chuvoso.

Amanha vou ao museu, hoje à noite vou rever amigos.

Na verdade estou meio preguiçosa hoje, deve dar para ver nestas frases curtas.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

SOUP OPERA Cabeça de Papel


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"Um caldeirão de referências cozidas e servidas pelo Cabeça de Papel Melhor minuto do mês de junho 2009 (Festival do Minuto em 30 Cidades)"
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Artes do meu irmao.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Pireneus

Ainda estou aqui no meio das montanhas. Ontem tomei o famoso (pelo menos aqui) train jaune-trem amarelo, o caminho que percorri foi o de Villefranche de Conflent até Mont-Louis. E um caminho lindo, na volta tomei o ônibus, o caminho é igualmente bonito visto do ônibus.
Mont-Louis é também classificado patrimônio mundial, o que ha ali de mais interessante é um famoso forno solar, o primeiro do mundo. Mont-Louis tem 292 habitantes, ou seja, é mais populoso que Villefrance de Conflent. Imagine passar a vida num lugar assim...Eu encontrei em Villefranche mais de uma pessoa que nasceu e sempre viveu aqui, nao é o caso da familia da minha amiga, eles vivem aqui ha seis anos.
Uma senhora que é vizinha (quer dizer, todo mundo aqui é vizinho, mas essa mora aqui do ladinho) estava me contando de um filme que foi feito aqui em Villefrance, quase todos os habitantes foram figurantes, o nome do filme é Le Bossu. Perguntei a ela de quando era o filme, ela disse 'ihhh, faz muito tempo, acho que foi em 75...'. Nao foi, na verdade foi nos anos 50. Ela teve que fazer um mundo de contas, lembrar da data de nascimento dos filhos e varias coisas para chegar nos anos 50.
Amanhã vou para Carcassonne, outra cidade medieval, esta eu ja visitei ha muitos anos, de la tomo um voo para Bruxelas (mais barato que o trem) e passo alguns dias com minha irmã.

Vou ficar com saudades de Villefranche e todos esses vilarejos que visitei por aqui. Os pais da minha amiga sao muito gentis e acolhedores, espero que um dia eles possam ir ao Brasil. Nao conhecem nada fora da Europa.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

villefranche de conflent


villefranche de conflent é onde me encontro agora, um vilarejo de 200 e poucos habitantes plantado nos Pireneus. Ja falei do lugar aqui neste blog, é onde vive minha amiga Violaine e a familia, aquela com quem viajei para o Chile no começo deste ano. Os pais da minha amiga sao artesaos e ela, Violaine, trabalha como guia no castelo, patrimônio classificado pela Unesco. Ontem visitei o castelo com meu amigo espanhol que mora em Barcelona, ha duas horas e pouco daqui. Ele veio com o irmao me encontrar a visitar a regiao. A cidade mais perto daqui, a maior, é Perpignan, foi ali que cheguei de trem, sai de Vichy 12:45, troquei em Lyon e pouco antes das 19 horas estava em Perpginan. Muita gente deve conhecer a frase de Dali "A estaçao de Perpignan é o centro do mundo!" Voilà, passei pelo "centro do mundo". Aparentemente Dali tinha uma relaçao forte com a cidade, ainda nao descobri a razao.
Ontem subi com meus amigos os mais de 800 degraus que levam ao castelo forte....e estou viva e sem dores nas pernas. Sera o ar dos Pireneus? Estou aé pensando em subir de novo hoje ou amanha.
Hoje fomos a outro vilarejo, beeeem maior que aqui, uns 6000 habitantes, chama se Prades. Para mim é quase uma viagem no tempo.
Terminei de ler Memorial do Convento e passei o livro para meu amigo espanhol que lê também em português e gosta de Saramago. Durante o trajeto Vichy Perpignan li L'Immoraliste de André Gide que eu ja tinha lido no curso de Letras...ja fazia um tempinho, claro.
Agora vou ler um pouquinho mais sobre a regiao, depois vou visitar a igreja que nao visitei ontem, tomar um café....
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sexta-feira, 10 de julho de 2009

O poema da sexta-feira

A Ponte Mirabeau

Sob a ponte Mirabeau desliza o Sena
E os nossos amores
É bom lembrar, vale a oena.
Que a alegria sucede aos dissabores

A noite vem passo a passo
Os dias se vão eu não passo

As mãos nas mãos estamos face a face
Enquanto passa
Sob a ponte de nossos braços
A onda lenta de um eterno cansaço

A noite vem passo a passo
Os dias se vão eu não passo

O amor se vai como esta água barrenta
O amor se vai
Como a vida é lenta
E como a esperança é violenta

A noite vem passo a passo
Os dias se vão eu não passo

Passam-se os dias passam-se as semanas
Nada do que passou
Volta de novo à cena
Sob a ponte Mirabeau desliza o Sena

A noite vem passo a passo
Os dias se vão eu não passo

Tradução de Ferreira Gullar

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Le Pont Mirabeau

Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Et nos amours
Faut-il qu'il m'en souvienne
La joie venait toujours après la peine

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure

Les mains dans les mains restons face à face
Tandis que sous
Le pont de nos bras passe
Des éternels regards l'onde si lasse

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure

L'amour s'en va comme cette eau courante
L'amour s'en va
Comme la vie est lente
Et comme l'Espérance est violente

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure

Passent les jours et passent les semaines
Ni temps passé
Ni les amours reviennent
Sous le pont Mirabeau coule la Seine

Vienne la nuit sonne l'heure
Les jours s'en vont je demeure

Guillaume Apollinaire, Alcools (1913)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Vichy

Eu conheço bastante bem a França, mas nunca tinha vindo a Vichy. A cidade é pequena, so para dar uma ideia, nao me perdi nenhuma vez, é um fato inédito. Nao so nao me perdi como até ja indiquei caminho. Eu mesma nao acredito, mas é verdade.
O meu curso continua muito bom, so o primeiro dia foi meio chato, talvez eu estivesse muito cansada, ou nao tive empatia nenhuma com uma professora e logo procurei outro rumo.
Uma das minhas colegas africanas se chama Princesse, outro se chama Influence, sim, Princeza e Influência....O pai do meu sobrinho é africano também, mas ao meu sobrinho deram o nome de Daniel. Nao sei se minha irma impôs ou se o meu cunhado é menos criativo.
La vou eu de novo....

domingo, 5 de julho de 2009

La France

Passei uns dias, poucos, com minha irma em Bruxelas, agora estou em Vichy onde vou fazer o curso para professores de francês, começa amanha. E nao pensem que por isso estou esquecendo o portugues, so nao estou me entendendo bem com os teclados aqui, entretanto os usei por muitos anos....
Eu vim de carro de Bruxelas para ca, minha familia belga estava vindo para a França de ferias e gentilmente sairam um pouco do caminho para me deixarem aqui ontem. Saimos de Bruxelas por volta de 4 e meia da manha, so de pensar me da sono de novo. Mas a viagem foi divertida , pudemos conversar, dormir, rir, comer e no final das contas houve menos engarrafamento do que temiamos. E o mês das ferias, todo mundo sai ao mesmo tempo na Europa.
Vou andar um pouco mais pela cidade, tomar mais café, ver se ha livrarias abertas....
Infelizmente esqueci o cabo da minha maquina e nao vou poder transferir as fotos.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O Poema da sexta-feira

Lisbon Revisited

Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me náufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...

Álvaro de Campos

Fernando Pessoa

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Viagem

Ainda em Curitiba, malas abertas e bagunça pra todo lado. Saio amanhã.
Escolhi, para ler no trajeto, Memorial do Convento. Leio e depois deixo lá para minha irmã ler. Tentei salvar alguns livros no ipod (para ouvir em inglês)meu aluno me emprestou, só consegui salvar um, o livro do Obama e quando fui tentar os outros o ipod ficou bloqueado, o computador também entrou num clima estranho, tive que reiniciar e ainda por cima não sabia como desbloquer o ipod. Depois de muito apertar botões procurei na internet e descobri em quais exatamente eu tinha que apertar e por quanto tempo, 10 segundos. Importante esses 10 segundos porque eu já tinha apertado naqueles botões, no caso, o do menu e o do meio...se você algum dia tiver o mesmo problema, já sabe.
Ainda tenho que ir ao médico hoje, depilar se der tempo, escolher alguns presentes, dar as últimas aulas e voilà.

Felizmente consegui terminar a leitura de Os Irmãos Karamázov antes da viagem, não queria levar aquele livro tão grande comigo, mas também não queria abandoná-lo aqui antes de terminar. Este eu vou repassar para meu irmão assim que nos encontrarmos, já viram que eu gosto de repassar livros, não? Claro que um dia eu vou querer reler alguns deles, mas estarão em família ou com amigos, na pior das hipóteses, eu compro outro, é melhor do que deixar ali parado na estante por dez anos.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

TEORIA DOS CONJUNTOS

Cada corpo tem
sua harmonia e
sua desarmonia

em alguns casos
a soma das harmonias
pode ser quase
enjoativa

em outros
o conjunto
de desarmonias
produz algo melhor
do que a beleza

Mário Benedetti

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Neda´s Voice

Neda Agha Soltan é a iraniana que foi assassinada estes dias durante os conflitos no Irã. Morreu nos braços do pai, como se pode ler no texto abaixo. Alguém filmou tudo, é terrível, mas o vídeo está circulando o mundo todo e talvez Neda esteja se tornando um símbolo. Eu vi o vídeo no blog do Pedro Doria onde tenho acompanhado um pouco os acontecimentos, leio também o que vem publicando André de Leones que está em Israel.

Leiam o texto e visitem a página NEDA'S VOICE. Há textos belíssimos ali e talvez ajude a conhecer melhor um pouco do horror pelo qual estão passando.

"Yesterday I wrote a note, with the subject line “tomorrow is a great day perhaps tomorrow I’ll be killed.” I’m here to let you know I’m alive but my sister was killed…I’m here to tell you my sister died while in her father’s hands
I’m here to tell you my sister had big dreams…
I’m here to tell you my sister who died was a decent person… and like me yearned for a day when her hair would be swept by the wind… and like me read “Forough” [Forough Farrokhzad]… and longed to live free and equal… and she longed to hold her head up and announce, “I’m Iranian”… and she longed to one day fall in love to a man with a shaggy hair… and she longed for a daughter to braid her hair and sing lullaby by her crib…

my sister died from not having life… my sister died as injustice has no end… my sister died since she loved life too much… and my sister died since she lovingly cared for people…"

sábado, 20 de junho de 2009

Minha querida Sputnik - trecho

“Então me ocorreu que, apesar de sermos companheiras de viagem maravilhosas, no fundo, não passávamos de duas massas solitárias de metal em suas próprias órbitas separadas. À distância, parecem belas estrelas cadentes, mas, na realidade, não passam de prisões, em que cada uma de nós está trancada, sozinha, indo a lugar nenhum. Quando as órbitas desses dois satélites se cruzam, acidentalmente, podemos estar juntas. Talvez, até mesmo, abrir nossos corações uma à outra. Mas só por um breve momento. No instante seguinte, estaremos na solidão absoluta. Até nos queimarmos completamente e nos tornarmos nada.”

Trecho de ‘Minha querida Sputnik’ – Haruki Murakami

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Li há algum tempo já este livro de Haruki Murakami e não gostei tanto quanto eu esperava. Minha expectativa era muito grande, tinha lido muito sobre o autor e os resumos da história também prometiam muito. Além disso eu estava lendo muitos autores japoneses na época, Tanizaki e Kawabata, sobretudo. Depois de Minha querida Sputnik não li mais nada do autor, dizem que Kafka à beira mar é muito bom, acho que vou tentar. Ele lançou um novo livro,1q84, e está vendendo aos montes no Japão.
Encontrei na internet este trecho de Minha Querida Sputnik e achei bonito. Sputnik significa companheiro de viagem em russo, aqui nessa história são duas mulheres viajando juntas e Sumirê está completamente apaixonada pela outra, mais velha, cujo nome eu me esqueci. Elas vão para a Grécia e....
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sexta-feira, 19 de junho de 2009

O Poema da sexta-feira

ANNABEL LEE

Edgar Allan Poe

Foi há muitos e muitos anos já,
Num reino de ao pé do mar.
Como sabeis todos, vivia lá
Aquela que eu soube amar;
E vivia sem outro pensamento
Que amar-me e eu a adorar.

Eu era criança e ela era criança,
Neste reino ao pé do mar;
Mas o nosso amor era mais que amor --
O meu e o dela a amar;
Um amor que os anjos do céu vieram
a ambos nós invejar.

E foi esta a razão por que, há muitos anos,
Neste reino ao pé do mar,
Um vento saiu duma nuvem, gelando
A linda que eu soube amar;
E o seu parente fidalgo veio
De longe a me a tirar,
Para a fechar num sepulcro
Neste reino ao pé do mar.

E os anjos, menos felizes no céu,
Ainda a nos invejar...Sim, foi essa a razão (como sabem todos,
Neste reino ao pé do mar)
Que o vento saiu da nuvem de noite
Gelando e matando a que eu soube amar.

Mas o nosso amor era mais que o amor
De muitos mais velhos a amar,
De muitos de mais meditar,
E nem os anjos do céu lá em cima,
Nem demônios debaixo do mar
Poderão separar a minha alma da alma
Da linda que eu soube amar.

Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos
Da linda que eu soube amar;
E as estrelas nos ares só me lembram olhares
Da linda que eu soube amar;
E assim 'stou deitado toda a noite ao lado
Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado,
No sepulcro ao pé do mar,
Ao pé do murmúrio do mar.

Tradução: Fernando Pessoa
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Annabel Lee

Edgar Allan Poe

It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of Annabel Lee;
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me.

I was a child and she was a child,
In this kingdom by the sea;
But we loved with a love that was more than love-
I and my Annabel Lee;
With a love that the winged seraphs of heaven
Coveted her and me.

And this was the reason that, long ago,
In this kingdom by the sea,
A wind blew out of a cloud, chilling
My beautiful Annabel Lee;
So that her highborn kinsman came
And bore her away from me,
To shut her up in a sepulchre
In this kingdom by the sea.

The angels, not half so happy in heaven,
Went envying her and me-
Yes!- that was the reason (as all men know,
In this kingdom by the sea)
That the wind came out of the cloud by night,
Chilling and killing my Annabel Lee.

But our love it was stronger by far than the love
Of those who were older than we-
Of many far wiser than we-
And neither the angels in heaven above,
Nor the demons down under the sea,
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful Annabel Lee.

For the moon never beams without bringing me dreams
Of the beautiful Annabel Lee;
And the stars never rise but
I feel the bright eyes
Of the beautiful Annabel Lee;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
Of my darling- my darling- my life and my bride,
In the sepulchre there by the sea,
In her tomb by the sounding sea.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Nina Simone em Vale a pena ouvir de novo

My Baby just cares for me.
...
My baby don't care for shows
My baby don't care for clothes
My baby just cares for me
My baby don't care for cars and races
My baby don't care for high-tone places

Liz Taylor is not his style
And even Lana Turner's smile
Is somethin' he can't see
My baby don't care who knows
My baby just cares for me

Baby, my baby don't care for shows
And he don't even care for clothes
He cares for me
My baby don't care
For cars and races
My baby don't care for
He don't care for high-tone places

Liz Taylor is not his style
And even Liberace's smile
Is something he can't see
Is something he can't see
I wonder what's wrong with baby
My baby just cares for
My baby just cares for
My baby just cares for me

terça-feira, 16 de junho de 2009

St-Mark-s-Basilica-Venice-Italy


domingo, 14 de junho de 2009

A Teus pés

Reli estes dias o livro de Ana Cristina César, A Teus pés

é bem pequeno no formato e também no número de páginas, pouco mais de 100. Gosto muito de alguns textos, outros me tocam menos, ou não entendendo, sei lá. Um dos meus preferidos é este:

Olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas.


Mas há outros, mais longos e que me dá preguiça de digitar agora. Foi interessante reler este livro pelo que ele oferece, entretanto, fora da leitura, o que me ocorreu foi uma reflexão sobre este volume que está aqui comigo. Ele me foi oferecido por uma antiga colega de trabalho, éramos amigas também...estávamos tentando uma amizade, acho. Faz muito tempo já. Mas o livro não me foi oferecido assim como um presente ‘normal’, na verdade ela tinha recebido de presente de uma ex amiga e, como tinham se desentendido feio ela não quis conservar o livro, repassou. Ainda tem aqui a dedicatória que a ex amiga escreveu para ela, um texto ingênuo, mal escrito, mas com ar de sinceridade, de admiração pela pessoa a quem está oferecendo o livro.

Minha amiga e eu nos desentendemos também no final das contas, isso deve ter sido lá pelo ano de 1996, nunca mais nos falamos, eu voltei para a Europa com (licença, Roberto Carlos) ‘a cabeça cheia de problemas’ (não por causa dela, problemas maiores) e me voilà, tantos anos depois percebo que pouco pensei no assunto. O livro eu não repassei. Nossa amizade não tinha se solidificado, é verdade. É estranho pensar no caminho de um livro, não é?

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Gostaria de agradecer muitíssimo a uma leitora, Tati, que deixou um comentário no post sobre E o Vento levou sugerindo que eu virasse o DVD para ver o restante do fime. Nem imaginava que existisse isso de virar dvd, queimei meus neurônios tentando descobrir onde estaria a outra metade daquele filme. Que vergonha! Obrigada mesmo.


Agradeço também a Sônia que, mesmo tendo deixado o blog dela de lado, sempre passa por aqui e deixa comentários simpáticos, lê meus contos no outro blog, comenta aqui. É muita gentileza.


Agradeço a todos os que acompanham o meu blog, alguns não têm blog e não posso retribuir, os outros eu tento visitar e comentar na medida do possível. Há blogs que acompanho há anos e talvez eu nunca encontre as pessoas por detrás deles. É estranho quando se pensa.

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Dentro de alguns dias vou para a Europa por um mês e pouco, como já disse aqui antes, vou fazer um curso para professores de Francês em Vichy, vou visitar a minha amiga (aquela com quem fui para o Chile) no Sul da França, minha irmã em Bruxelas, talvez um amigo em Barcelona porque está bem pertinho do Sul da França. Ainda estou decidindo, só decido na última hora. Enquanto isso muitas coisinhas chatas para resolver por aqui...

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sexta-feira, 12 de junho de 2009

O Poema da sexta-feira

Antes do começo

Ruídos confusos, claridade incerta.
Outro dia começa.
Um quarto em penumbra
e dois corpos estendidos.
Em minha fronte me perco
numa planície vazia.
E as horas afiam suas navalhas.
Mas a meu lado tu respiras;
íntima e longínqua
fluis e não te moves.
Inacessível se te penso,
com os olhos te apalpo,
te vejo com as mãos.
Os sonhos nos separam
e o sangue nos reúne:
Somos um rio que pulsa.
Sob tuas pálpebras amadurece
a semente do sol.
                            O mundo
No entanto, não é real,
                          o tempo duvida:
Só uma coisa é certa,
o calor da tua pele.
Em tua respiração escuto
as marés do ser,
a sílaba esquecida do Começo.

Octavio Paz

Tradução Antônio Moura

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Pró-vida?

É a coisa mais incoerente, defender a vida matando pessoas. Vejam a reportagem, é assustador, um verdadeiro movimento terrorista, organizado. Encontrei o vídeo aqui: sexismo e misoginia.

terça-feira, 9 de junho de 2009

AMOR

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domingo, 7 de junho de 2009

E o Vento Levou

13 graus, meus pés estão gelados. Agora acabei de ligar um aquecedor ultramoderno que temos aqui (foi ironia, nunca vi aquecedores dignos do nome no Brasil, deve haver, mas nas casas dos ricos). Muita gente pensa que eu não devia sentir frio já que morei tantos anos na Europa, no norte além do mais, mas eu sinto, sinto mais frio aqui do que lá quando estou dentro de casa. Eu gosto mais do frio do que do calor, mas prefiro assim, vamos dizer, uma temperatura entre 15° e 25°. Um professor aqui da escola, francês, disse que ele também já sentiu mais frio aqui do que na França. Quem mandou a gente se enfiar no Sul? O Brasil é grande e cá estamos nós...Brincadeira, ainda estou de bem com a cidade, e prefiro passar por isso a sentir aquele calor infernal o ano todo, me dá até dores de cabeça.

Ontem à noite eu e o cachorro nos colamos no aquecedor e ficamos assistindo E o vento levou, acredite se puder, foi a primeira vez na vida que vi este filme...ainda assim não sei se vi inteiro, todo mundo diz que o filme é muito longo, não foi. O filme chegou lá numa parte, aquela famosa da Scarlett dizendo:

As God is my witness, as God is my witness they're not going to lick me. I'm going to live through this and when it's all over, I'll never be hungry again. No, nor any of my folk. If I have to lie, steal, cheat or kill. As God is my witness, I'll never be hungry again.

Depois disso veio uma mensagem, não me lembro o quê, entendi que era um intervalo e fiquei esperando, não queria sair de perto do aquecedor por nada, finalmente fui lá, peguei o controle que eu tinha deixado longe, tentei passar para a frente....nada, niente, rien...procurei para ver se havia um segundo DVD na caixa, não havia. Será que é tudo? Será que comprei gato por lebre? Eu já tinha visto pedaços deste filme muitas vezes, claro, quem não conhece algumas das cenas desse clássico? Eu tenho uma amiga que já o viu não sei quantas vezes e disse que a cada vez chora. Até onde eu vi não deu para chorar, mas eu gostei bem mais do que pensava. É que morei bem ali naquela região, Atlanta, Geórgia e gostei de ver a cidade representada na época da guerra. E mostra também como as pessoas são estúpidas, festejando quando a guerra é declarada, parece que vão para um campo de férias, sem a menor noção e quando alguém tenta ponderar um pouco é visto como um desmancha prazeres, um vendido. Tomara que as coisas tenham mudado de lá para cá, mas não foi o que se viu quando da guerra (invasão) contra o Iraque.
Outro filme que se passa em Atlanta, este bem mais bonito (eu acho) é Conduzindo Miss Daisy. Eu o tinha visto há muitos e muitos anos, mas o revi quando estava em Atlanta. A primeira vez que o vi não tinha idéia nenhuma do contexto e do papel de Atlanta vista como capital do sul.

...
Aqui a famosa cena de Scarlett dizendo que nunca mais vai passar fome:

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Ainda a polêmica em torno do livro de Tezza

Eu tinha reproduzido aqui parte de uma reportagem sobre o estardalhaço que algumas professoras do estado de Santa Catarina fizeram a respeito da escolha do livro de C. Tezza para trabalho com alunos, se não me engano, entre os 15 e 17 anos, ou seja, bem grandinhos. Nem todo mundo concordou comigo que é exagero a retirada dos livros e leram uma pequena parte da obra que foi publicada em algum jornal. Esse extrato era realmente bem "pesado" (por falta de palavra melhor agora), eu também o tinha lido, mas, como o autor e como uma professora de Santa Catarina (e esta leu o livro todo) eu achava que era difícil julgar a obra de 142 páginas por aquele trechinho. Não chamo de censura, concordo que existe livro mais ou menos adequado para certas pessoas/idades....sei lá. Os professores também têm que se sentir confortáveis, claro, mas eu ficaria contente se aproveitassem para rever as suas práticas antes de condenarem um livro e de subestimarem a capacidade dos alunos.

Texto de C. Tezza sobre a proibição do seu livro:

“Entre os danos materiais, está o dano moral do autor ao ver um trecho de seu próprio livro, duas ou três linhas, ser reproduzido nos jornais como se fosse um hai-kai, e não parte de um romance de 142 páginas, em que cada palavra se relaciona com o todo e é voz de um narrador-personagem capaz de dar significado à sua linguagem. Notem: não faço uma apreciação de valor. É simplesmente um dado técnico para o leigo entender como uma narrativa produz sentido."

O resto do texto pode ser lido aqui:

Gazeta do Povo

...

Aqui o comentário que a professora deixou lá no post:

Sou professora do ensino médio e garanto a vocês que o livro está adequado sim para os alunos. Li o livro na íntegra, não podemos justificar nossa opinião se apenas lemos um trecho. Inadequada é a postura de muitos educadores que negam ou ignoram nossa realidade social e perdem a chance de fazer um ótimo trabalho com os alunos. Em uma pesquisa que fiz com minhas turmas, constatei 80% deles têm acesso diário a sites pornográficos. A função da escola é ensinar o aluno a questionar essa realidade em vez de fingir que isso não acontece. Considero que o livro é muito profícuo para levantar tais questionamentos. Uma sociedade de ignorantes é também uma sociedade perigosa. A decisão foi arbitrária, pois a maioria dos professores não teve acesso aos livros.

Sylvia Plath

"Quando eles perguntavam a qualquer velho filósofo romano como ele queria morrer, dizia que rasgaria as veias, num banho quente. Achei que seria fácil, deitada na banheira e vendo a vermelhidão florir dos meus pulsos, jorro após jorro penetrando na água limpa, até que eu me afundasse no sono sob a superfície rubra como papoulas. Mas quando cheguei às vias de fato, a pele do meu pulso parecia tão branca e indefesa que não consegui nada. Era como se o que eu quisesse matar não estivesse naquela pele ou naquele pulso magro e azulado que latejava sob o meu polegar, mas sim em algum outro lugar, mais profundo, mais secreto, e muito mais difícil de ser alcançado."

Trecho do livro
A Redoma de Cristal (The Bell Jar) que o Kovacs resenhou lá no seu mundo.

o poema da sexta-feira

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
alomoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte _
será arte?

Ferreira Gullar

quarta-feira, 3 de junho de 2009

I Put a Spell On You


...


I put a spell on you
cause youre mine

You better stop the things you do
I aint lyin
No I aint lyin

You know I cant stand it
Youre runnin around
You know better daddy
I cant stand it cause you put me down

domingo, 31 de maio de 2009

Livro de Cristovão Tezza é proibido em escolas de Santa Catarina

Mais de 130 mil exemplares do romance Aventura Provisória foram recolhidos

A Gerência Regional de Educação da Região Carbonífera, no Sul de Santa Catarina, concluiu nesta semana o recolhimento de 6.236 exemplares da obra Aventuras Provisórias, do autor catarinense Cristovão Tezza. Em todo o Estado, foram recolhidos mais de 130 mil exemplares.

A determinação partiu da Secretaria de Estado da Educação há cerca de duas semanas. O motivo teria sido o uso de palavras inadequadas, segundo avaliação de professores que tiveram acesso ao título antes da distribuição aos alunos do ensino médio da rede estadual. O conteúdo descreve, por exemplo, trechos de relações sexuais (leia trecho abaixo).

Segundo nota divulgada nesta quinta-feira, pela secretaria, a "aquisição (dos livros) deu-se pelo processo licitatório nº 088/08 ao custo unitário de R$ 11,75".

Continua aqui.
...
Eu não li o livro em questão, mas não importa, acho de uma ingenuidade enorme, senão burrice, o que essas professoras (infelizmente só vi nome de mulheres ali) estão fazendo. Os alunos para quem os livros seriam destinados estão na faixa dos 14 aos 18 anos....ora, por favor. Honestamente não sei o que se passa na cabeça dessas pessoas, o que será que esperam dos alunos? E o que é literatura para esses professores? Querem oferecer aos alunos um manual de boas maneiras?
Leiam aqui:

"— O vocabulário é exagerado e essas palavras queremos extingui-las da boca dos alunos, banir do ambiente escolar. O aluno não está preparado para receber esse conteúdo — avalia Maria Gorete.
"

Julgam um livro pelo número de palavrões e descrições eróticas que não devem ser novidade nenhuma para as supostas 'crianças'. Não é com professores assim que os alunos vão aprender a gostar de ler, isso é certo. Mas eu conheço um pouco o gênero, já trabalhei em escolas assim, nem tinha saído da universidade ainda quando fui dar aulas de português - durou dois meses - em uma escola do estado que tinha uma equipe deste naipe. A coordenadora me odiava, nunca entendi bem o porquê. Os alunos, em compensação me adoravam. Eu me lembro da hipocrisia das professoras, na sala dos professores contavam coisas escabrosas e na frente dos alunos pareciam umas carolas. Não digo que deviam fazer confidências aos alunos, mas não achava aquela postura coerente, era muito fingimento, aquela coisa do 'faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço'.
Bom, o Cristovão Tezza não saiu sapateando, foi super elegante, preferiu ficar neutro e disse que os professores devem decidir se adotam seu livro ou não. O que ele pode fazer?

Só sei de uma coisa, agora estou com vontade de ler este livro....já que passei dos 18 acho que posso.

sábado, 30 de maio de 2009

Passe os livros adiante

Por Arlete Salvador

Há sempre alguém sentado sozinho numa mesa para quatro pessoas na praça de alimentação lotada. Os outros clientes, com a bandeja de comida na mão, rodopiam pelos corredores como Charles Chaplin em cena do filme Tempos Modernos. Eu me espanto com essa cena no Brasil. Fora daqui, não haveria constrangimento em dividir a mesa com desconhecidos. Aqui vale a cultura da individualidade. Cada um na sua.

A história se repete quando se trata de livros. Preferimos guardá-los em casa e expô-los nas estantes como troféus de erudição em vez de dividí-los. É comum ouvir gente dizendo que não gosta de emprestar livros para quem não os devolve. E para quê devolver? Não seria melhor passá-los adiante, fazê-los circular, deixá-los encantar outras pessoas? Considero a doação de livros um dos gestos mais generosos de quem quer contribuir para o desenvolvimento do país e da Educação.

Em boa parte das bibliotecas das escolas, quando há bibliotecas e livros, a lista de itens inúteis costuma ser longa, todos doados por alguma alma “bondosa”. Encare a verdade. O que doamos? Livros antigos e desatualizados. Livros desinteressantes, principalmente os que recebemos de brinde no final do ano. São aqueles impressos com dinheiro da Lei Rouanet cujo conteúdo só interessa a quem captou o dinheiro e seus financiadores. Na primeira oportunidade, passamos para os mais pobres. Além de egoístas, somos hipócritas. Se não os lemos, por que os meninos os leriam? Tratamos as doações como uma forma de nos livrarmos sem culpa do lixo da biblioteca de casa.

Muitos governos também preferem dar livros para cada um dos estudantes em vez de investir na biblioteca. Assim, não há dinheiro que chegue. É puro marketing político. O governante garante votos nas próximas eleições e os meninos guardam seus presentes em casa. Num país onde o livro é caro e há milhares de estudantes carentes, é preciso investir em soluções coletivas. Em bibliotecas públicas. Com políticas de valorização do uso coletivo de livros e com doações privadas - daquelas verdadeiras, de livros de qualidade - dá para acreditar em mudar o futuro dos estudantes brasileiros.

Arlete Salvador é jornalista e autora dos livros A Arte de Escrever Bem e Escrever Melhor, ambos publicados pela Editora Contexto.

Retirei do site Educar para Crescer. Gostei muito por isso me permiti reproduzi-lo aqui. Nesse site tem também um teste delicioso: Que livro você é? Cheguei a ele através do blog da Laura, Caminhar. Por coincidência eu sou o mesmo livro que ela, A Paixão Segundo GH. Horror dos horrores, nunca li o livro, mas gosto de tudo o que li de Clarice até hoje. Acho que eu nunca li A Paixão Segundo GH porque a tal barata sempre me assustou. Sei que é ridículo.
...
imagem: Renoir

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O Poema da sexta-feira

IRMANDADE

Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.

Octavio Paz

tradução: Antônio Moura


quinta-feira, 28 de maio de 2009

"A CABEÇA DO FUTEBOL"



"A CABEÇA DO FUTEBOL"


Organização: Carlos Magno Araújo,

Samarone Lima e Gustavo de Castro

Brasília: Casa das Musas, 2009.

ISBN 9788598205526



O que pode resultar da tabelinha entre três amigos, jornalistas apaixonados por futebol e por literatura? Um gol de placa e a modéstia adormecida no fundo das redes. Trivela para cá, lançamento para lá, um voleio indefensável acolá, Gustavo de Castro, poeta, professor da UnB, e jornalista radicado em Brasília, Samarone Lima, jornalista e escritor no Recife, e Carlos Magno Araújo, jornalista em Natal, também cartolas temporários neste sonho de reunir craques do jornalismo e da literatura para falar do mais passional dos esportes, mataram a tarefa no peito e agora jogam para a torcida - sem firulas. Não esperam a glória fútil de um Motoradio, a entrevista útil na boca do túnel ou o destaque na resenha da noite. Foi tudo por amor ao futebol – sem preço que pague. (trecho da apresentação)


O que passa na cabeça do brasileiro quando o assunto é futebol? Foi com a intenção de descrever e investigar a emoção, a imaginação e a racionalidade futebolística que Gustavo de Castro, Samarone Lima e Carlos Magno Araújo decidiram organizar a coletânea


"A CABEÇA DO FUTEBOL"

Editora Casa das Musas, 2009,

R$ 25,00

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Dentre os autores a nossa cara Elianne Diz de Abreu do Caminhar.

Silviano Santiago

"Um homem ambicioso ao extremo e sem princípios éticos, que no final da vida faz seu balanço, serve de metáfora da cara do Brasil nos últimos 60 anos. Este é o enredo de Heranças, de Silviano Santiago. Na dica de Leituras, pontos de renovação da prosa de língua portuguesa com O Dom, de Jorge Reis-Sá e Peixe Morto, de Marcus Freitas. (Disponível até 07/06/09)"

Entrevista na TV Senado.

sábado, 23 de maio de 2009

Down and Out in Paris and London

Decidi pela pausa entre o volume 1 e o 2 de Os irmãos Karamázov e li, quer dizer, estou terminando de ler este Down and out in Paris and London* de George Orwell. Estava planejando ler este livro há algum tempo, desde a última vez que estive em Londres (há quase dois anos, talvez) e o marido da minha prima, um inglês, me falou do livro. Ele gosta muito de G. Orwell, como ele ainda estava lendo o livro eu não ousei pedir e também não comprei o livro naquela ocasião, não sei o porquê, decerto que não tinha mais tempo ou já tinha acabado a minha quota de livros. Agora acabo de receber uma visita dos Estados Unidos e o encomendei, deve ter custado no máximo 5 dólares, é usado e foi comprado pelo site da Amazon. É possível também ler online aqui.

O livro foi publicado em 1933, um dos primeiros trabalhos publicados de G. Orwell, ao que parece o livro foi recusado muitas e muitas vezes. O livro que é considerado biográfico (ou semibiográfico) começa com um relato da época em que Orwell estava vivendo uma vida de miséria em Paris, quando chegou dava aulas de inglês, depois o seu único aluno desaparece e ele se vê cada vez mais à deriva, descreve o hotel onde vivia, os arredores, o momento em que não tem mais dinheiro nem para pagar o quarto horrível onde vive, a fome, a vida dos outros tão miseráveis quando ele. Finalmente Orwell consegue um trabalho como plongeur em um hotel muito rico (ele nunca escreve o nome) na cidade. Plongeur é a pessoa que lava pratos num restaurante, trabalha até 15 horas por dia, o autor mesmo descreve este trabalho como sendo o pior de todos na hierarquia, um plongeur é o 'escravo do escravo'. A vida de um plongeur se resume a 3 coisas: sobreviver ao dia de trabalho, comer alguma coisa, dormir algumas horas. É horrivelmente triste. O cansaço e a falta de tempo mata qualquer desejo, qualquer possibilidade de mudança, qualquer reflexão, desumaniza. Além disso ficamos sabendo dos bastidores também, o hotel chiquérrimo na frente e nos fundos a porcaria total, comida preparada sem nenhum cuidado, pouca importava a higiene contanto que o prato estivesse apresentável, bonito. O autor até conta que uma vez foi lavar as mãos antes de pegar na manteiga e os outros riram dele. Li que os donos de hotéis parisienses reclamaram muito quando o livro foi finalmente publicado. Eu os entendo perfeitamente.

Um dia Orwell deixa a vida de plongeur em Paris e volta para Londres, um amigo tinha lhe arrumado um trabalho, quando chega a Londres entretanto, outra decepção, ia ter que esperar um mês pelo menos para começar o trabalho e aí começa a outra etapa, a vida de mendigo que ele descreve em detalhes, as caminhadas de um abrigo a outro (não se podia dormir no mesmo abrigo mais de uma vez), a sujeira, as doenças, a ignorância, a fome outra vez...

Eu não sei se Orwell decidiu viver essa experiência só para narrar depois, tem gente que diz que sim. Mesmo depois de ser um escritor já reconhecido ele vivia uma vida extremamente simples, como se tivesse feito um 'voto de pobreza' alguns amigos dizem.

O verdadeiro nome de Orwell é Eric Arthur Blair, ele nasceu em Londres, no dia 25 de junho de 1903 e morreu em 1950. Seus trabalhos mais conhecidos são Animal Farm** e 1984.

*Na Pior em Paris e Londres (no Brasil) e Na Penúria em Paris e Londres (em Portugal)
**A Revolução dos Bichos.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

O Poema da sexta-feira

Psicografia

Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto

Ana Cristina César

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Snowy-Landscape
Ando Hiroshige

O Poema da sexta-feira

Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.

Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie e terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus olhos.

Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora e;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?

Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.

E por que não? Se as fontes geram tal tristeza
Através da existência -curto dia-,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.

Lord Byron

Tradução de Castro Alves

terça-feira, 12 de maio de 2009

Os Irmãos Karamázov

Estou terminando o volume 1 de Os Irmãos Karamázov, uma das minhas melhores leituras dos últimos meses (a pior foi certamente aquele Travesuras de la Niña Mala). Estou contente também com esta edição - Editora 34 - que escolhi, é um livro bonito, bem cuidado, bem ilustrado. Mais importante ainda é a tradução que parece ser uma das melhores feitas até hoje. Algumas edições antigas foram feitas a partir do francês. Imagine, se o tradutor é um traidor, traduzindo de uma tradução vira o quê? Li essa semana na Folha que o tradutor desta edição, Paulo Bezerra, recebeu um prêmio da ABL pelo conjunto de sua obra. Deve ter merecido.

A parte que eu estava lendo ontem, uma conversa entre os irmãos Ivan e Alyosha era sobre crença, crença e descrença se se pode dizer assim. Alyosha parece ser o personagem principal, mas Ivan é o mais interessante até agora. Nessa longa conversa entre os dois irmãos, Ivan que é mais velho fala a Alyosha que é extremamente religioso, sobre suas dúvidas, basicamente ele rejeita a existência de Deus com o argumento de que não é possível aceitar um ser supremo, com poder absoluto e que permita tanto sofrimento na terra. Ivan usa, para ilustrar seu argumento, o sofrimento das crianças, esses seres que não tiveram 'nem tempo de pecar.' Aparentemente os casos citados por Ivan são baseados em histórias reais que aconteceram na época em que o autor vivia. Um deles é sobre uma garotinha de 5 anos que é torturada pelos próprios pais por não se comportar do modo como eles esperam. Outro caso se refere a um garoto de 8 anos, filho dos servos de um tal senhor que tem inúmeros cães, um dia um dos cães está mancando e o homem quer saber a razão, dizem-lhe que o garoto em questão lançou sem querer uma pedra e o cão foi atingido, o senhor ordena então que prendam o garoto durante toda a noite e pela manhã ordena que soltem o garoto e deixa que os cães o estraçalhem na frente da mãe. Alyosha que é religioso fica desesperado diante dos casos ilustrativos do irmão.

Eu pensei em terminar o volume 1 e fazer uma pausa, ler outra coisa antes de iniciar o volume 2. Vamos ver. Se continuar interessante assim não vou conseguir parar.
...


sábado, 9 de maio de 2009

Will Self ironiza as religiões no romance "O Livro de Dave"

[Já tinha lido sobre este livro em algum blog, agora li esta reportagem na Folha, estou curiosíssma a respeito]

RAQUEL COZER
da Folha de S.Paulo

Prega a Bíblia que não se deve cobiçar a mulher do próximo. Em "O Livro de Dave", a ordem é simplesmente não cobiçar a mulher. Nenhuma delas.

Esse é apenas um dos preceitos religiosos que passam a reger a humanidade depois de um colapso da natureza, segundo a imaginação de Will Self, 47, um dos maiores escritores britânicos da atualidade.
No romance, que sai agora no Brasil pela Alfaguara, uma Inglaterra pós-catástrofe ambiental aparece quase toda submersa, com habitantes vivendo sob os ensinamentos de Dave Rudman, taxista loser da Londres contemporânea.

Como o personagem passa de motorista a profeta é algo que Self revelará nos detalhes mais espinhosos. Após perder a guarda do filho para a ex-mulher, Dave escreve e enterra um volume com ideias sobre como o mundo deveria ser --homens e mulheres vivendo separados, com guarda de filhos dividida, é um exemplo. Séculos depois, o livro é encontrado na ilha de Ham (que um dia foi Hamsptead) e vira a nova Bíblia.

O romance explicita a visão do autor sobre como a necessidade de uma religião --um "bálsamo metafísico", nas palavras dele-- pode fazer as pessoas aceitarem normas "sem sentido". "Não penso que toda religião seja ruim", diz Self à Folha por e-mail, "mas o conteúdo de um livro sagrado é menos importante que a busca do ser humano pela doutrina religiosa".


Continua....

Le Pont Neuf
Edouard Boubat

sexta-feira, 8 de maio de 2009

O Poema da sexta-feira

Uma arte


Elisabeth Bishop

tradução Paulo Henriques Britto

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

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One art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

Elizabeth Bishop

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Para ouvir o poema clique aqui.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Mensagem de adeus de Stefan Zweig

Encontrei esta carta de despedida numa página francesa dedicada ao autor e procurando por aí achei a versão em português neste site da casa Stefan Zweig. Na verdade não sei em que língua ele redigiu sua mensagem, suponho que tenha sido em alemão. Faz pouco tempo reli um livro de Zweig, O Jogador de Xadrez, uma história bem curtinha e muito boa de um campeão de xadrez, um cara bronco, vaidoso, mas que joga muito bem. Um dia encontra um oponente à altura, mas fora dos campeonatos, esse oponente é que é a peça interessante da história, ele aprendeu a jogar durante o tempo em que esteve só, preso numa cela, ali encontrou um livro que descrevia várias jogadas, para não ficar louco na prisão ele foi guardando na memória as várias possibilidades.
.....
Declaração Stefan Zweig
Antes de deixar a vida, de livre vontade e juízo perfeito, uma última obrigação se me impõe: agradecer do mais íntimo a este maravilhoso país, o Brasil, que propiciou a mim e à minha obra tão boa e hospitaleira guarida. A cada dia fui aprendendo a amar mais e mais este país, e em nenhum outro lugar eu poderia ter reconstruído por completo a minha vida, justo quando o mundo de minha própria língua se acabou para mim e meu lar espiritual, a Europa, se auto-aniquila.Mas depois dos sessenta anos precisa-se de forças descomunais para começar tudo de novo. E as minhas se exauriram nestes longos anos de errância sem pátria. Assim, achei melhor encerrar, no devido tempo e de cabeça erguida, uma vida que sempre teve no trabalho intelectual a mais pura alegria, e na liberdade pessoal, o bem mais precioso sobre a terra.Saúdo a todos os meus amigos! Que ainda possam ver a aurora após a longa noite! Eu, demasiado impaciente, vou-me embora antes.
Stefan ZweigPetrópolis, 22. II. 1942

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O BROTHER WHERE ART THOU - - Song of the Sirens


....
Adoro as músicas de O Brother where art thou. Na verdade o filme é feito de música, não? Quase todo mundo já deve ter visto, passou bastante na tv, é bem divertido.

sábado, 2 de maio de 2009

Feriado

Não fiz quase nada do meu feriado, o que foi ótimo. Descansei, estava um caco...naqueles dias, if you see what I mean. Precisava mesmo de descanso, dormir até tarde, andar um pouquinho com o cachorro (se bem que isso eu faço todo dia), ler Os Irmãos Karamazov, ir ao cinema ver Wolverine, tomar um capuccino num café bacana com uma livraria ao fundo, folhear livros, bater papo. Tudo isso eu fiz. Estava muito tensa, só agora está passando. Dormi, dormi bastante, o friozinho ajudou. Está quase tudo no lugar agora, as idéias, digo. Pelo menos na medida do possível.
...

Acabei de ver na Folha de São Paulo que Augusto Boal morreu nesta madrugada.