terça-feira, 5 de abril de 2005

Biografias

Não resisto, de vez em quando tenho que ler uma biografia de personalidades que respeito, principalmente escritores. Uma amiga que ensina literatura diz que isso é a maior bobagem e outra, que também ensina literatura, diz que é bobagem ler só biografias de personalidades que respeitamos. Ela, por exemplo, quando me contou isso disse que estava lendo a biografia do Ratinho e que isso podia ser importante para o seu trabalho….Felizmente, para mim, a biografia do Ratinho não é relevante.

Estou lendo a biografia de Virgínia Woolf escrita por seu sobrinho Quentin Bell. São dois volumes que dão mais ou menos quinhentas e cinquenta páginas…É verdade, biografias tem um quê de brega mesmo, muitas vezes me pergunto porque não me contento com a leitura das obras. O escritor preferiria isso, eu suponho. Mas é difícil resistir, deve ser o mesmo fenômeno que leva as pessoas a seguirem Big Brother. Ou não.

E o que de tão útil eu já aprendi nas 163 páginas lidas? Vejamos, o que me surpreendeu foi saber que V. Woolf contemplou a possibilidade de casar-se com Lytton Strachey, aliás, ele também, não só pensou como chegou a pedir a mão da moça em casamento, mas, no momento mesmo em que fazia o pedido já começou a se arrepender. Ela percebeu e ajudou-o a sair do embaraço. Lytton Strachey é aquele escritor inglês por quem a pintora Carrington* (do filme homônimo, 1995) foi perdidamente apaixonada, tão apaixonada que não sobreviveu à morte dele. Segundo o sobrinho, a homossexualidade de Lytton, ao invés de representar um problema era mais uma espécie de alívio para Vírginia. Informações interessantes mas não exatamente úteis, não é mesmo? Não se pode negar o lado voyeurístico desse tipo de leitura.

Evidentemente, este é apenas um ponto, há outros como as crises de nervos e as preocupações com as injustiças com relacionadas ao fato de ser mulher. Virgínia foi educada em casa, nunca teve educação formal enquanto os irmãos foram para a escola, se prepararam e foram para Cambridge. Era normal que ela, mulher inteligente, se ressentisse e isso percorre a sua obra.

*Interpretada por Emma Thompson.

Virginia Woolf – A Biography By Quentin Bell


Leila Silva
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“Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres.”

Mário de Andrade
Prefácio Interessantíssimo.

4 comentários:

Allan Robert P. J. disse...

Também gosto de ler biografias de pessoas interessantes. A do Ratinho iria apodrecer na livraria, se dependesse de mim. O problema é que depois fica difícil não considerar a biografia, quando se quer avaliar a obra. Riscos calculados.
Ciao

Leila Couceiro disse...

Oi Leila, estou retribuindo a visita e também gostei de ler o seu blog. O seu comentário irônico sobre não precisar ler a biografia do Ratinho foi hilário.

Eu não sou chegada a ler biografias, prefiro as obras criativas, mas a biografia da Virginia Woolf deve ser fascinante, sim. Recentemente eu peguei o DVD do filme The Hours, que não gostei muito, mas a special feature com a história da vida (e imagens) da Virginia Woolf foi a melhor coisa do DVD. Abraço da sua xará...

Ana Paula disse...

Leila, eu acho que ler as biografias dos escritores nos ajudam a compreender melhor a própria obra deles. O universo em que eles estavam inseridos influenciaram diretamente na composição, eu acho. Minha percepção a respeito de Caio Abreu aumentou depois que li o seu livro de Cartas, onde ele conta muitas situações que geraram seus contos e eu pude conhecer um pouco melhor os elementos que compunham o cotidiano dele. Adoro ler biografias. Para mim, elas são essenciais.

Manoel Carlos disse...

Há biografias e biografias.
Não me refiro à importância do biografado, mas ao enfoque da vida.
Se é, por exemplo, um escritor, o importante é o contexto da produção literária, a importância e influência de pessoas e lugares no processo de criação literária.
Neste sentido, "Intinerário de Pasárgada", de Manuel Bandeira, é uma obra-prima, na qual ele fala das influências literárias e extraliterárias que sofreu.
Apenas para exemplificar: a tuberculose só entrou no relato porque ele precisou falar de quando esteve no sanatório e do conhecimento que travou com Paul Eugène Grindel (isto mesmo, Paul Éluard, primeiro marido de Diakonova, a Gala, mulher de Salvador Dali) e Charles Piker, além do conhecimento que travou com coisas novas na literatura.
Ôxe! isto é um comentário ou o quê?