domingo, 17 de abril de 2005

Quando Carla me visita - Parte II

Lembro-me de ter passado por Avignon e de lá ter tomado um trem que saiu atrasado, o fato não teria me marcado não fosse uma lição antiga de francês cujo diálogo eu ainda tinha na memória e que se passava ali, naquela mesma cidade. Era mais ou menos assim: Um italiano, dentro do trem, pergunta as horas para um francês e este lhe diz educadamente as horas e ainda acrescenta que o trem está partindo na hora certa…. ‘como sempre’, o italiano, resignado como eu nunca encontrei na vida real, responde “Não é como no meu país, então”. ‘Esses franceses e seus métodos de ensino!’ Pensei enquanto ouvia o alto-falante anunciar o atraso….E assim, pouco a pouco, fui percebendo a diferença entre a França real e a França das aulas de línguas. O processo pode ser chamado de desmistificação.

Carla contava histórias do Brasil, de Campinas, relembrava o passado comum mas não senti sua amiga interessada em partilhar das lembranças. Talvez Carla não se importasse, queria relembrar ainda que só, ou talvez não percebesse. Ou sera aque eu estava vendo coisas? Deixei-a com a amiga e voltei para Bruxelas, durante a semana empacotei os poucos pertences e fui para outro apartamento, em um lugar muito mais agradável. Lá tinha aquelas janelas no teto, eu gostava de acordar e ver o céu, quando nevava, eu gostava de ver a neve se acumular.

Quando Carla voltou, o computador ainda estava numa caixa esperando para ser montado, ela explicou que era expert em montar computadores, se eu quisesse….Sugeri que fôssemos a uma boîte ao invés disso. Ela aceitou.

Na Bélgica há mais de quatrocentos tipos de cerveja, Carla queria experimentar todos em seus poucos dias. Virou lenda, até hoje há quem me pergunte a respeito daquela moça que queria experimentar todas. E olha que os belgas são bons de copo.

Chegou o dia de ir embora. Ouvindo-a fazer as malas, dei graças a Allah que a minha vizinha era espanhola e não alemã. Carla passou a noite toda fazendo e desfazendo a bagagem, no dia seguinte ainda me disse: “Como você vai logo ao Brasil e não vai ter muita bagagem, podia levar essas coisas aqui pra mim.” Mas quem disse que eu não teria muita bagagem? Concentrei me: ‘Primeiro Saramago. Primeiro Saramago. Primeiro Saramago.’ “Ok, eu levo.”

E Carla se foi.

6 comentários:

Manoel Carlos disse...

Você tem um jeito especial de escrever, pois a sua escrita demonstra grande perspicácia; cada detalhe sutilmente revelado...

carlos bruni disse...

Delicioso de ler, pois cada linha cria uma expectativa a ser resolvida na linha seguinte, e na seguinte... Em suma, prende-nos do começo ao fim.

carlos bruni disse...

Delicioso de ler, pois cada linha cria uma expectativa a ser resolvida na seguinte, e na seguinte... Em suma, prende-nos do começo ao fim.

Allan Robert P. J. disse...

Divertido. O texto não nos deixa pular uma palavra, sequer. Ainda bem que amigas como Carla são poucas (e já são muitas!)
Ciao

rosangela disse...

Oi Leila, o texto realmente cria uma expectativa... Carla ainda aparece por aqui?

Anônimo disse...

Conheco tambem uma Carla!
Excelente