sábado, 16 de abril de 2005

Quando Carla me visita - Parte I

Isso foi em 1996, não me lembro o mês, mas sei que era verão na Europa. Carla e eu tínhamos trocado algumas cartas, cartas mesmo, das antigas, dentro de envelope e com selos, agora ela vinha, pela primeira vez, à Europa e decidiu começar sua viagem por Bruxelas porque eu estava ali. Aceitei tudo sem refletir muito e sem perguntar exatamente o que ela queria fazer. Estava bastante perdida por essa época. Eu estava perdida, Carla não, estava quase terminando seu doutorado em economia na UNICAMP e isso a realizava em muitos sentidos. Ela tinha namorado uma de minhas amigas, acho que era por isso que eu a conhecia. Essa minha amiga, entretanto, preferia ver o diabo a rever Carla. Não quis saber dos detalhes do gran finale.

Então ela estava chegando naquele 96 e eu estava vivendo em um apartamento pequeno e deprimente. Pertencia a uma família grega que morava no primeiro andar, uma senhora gorda e simpática, um senhor que passava muito do seu tempo na Grécia, um rapaz branco, magro e bobo e uma moça arrogante e não menos boba, só que ela parecia não saber disso. Ficava na rua Gallait, perto da Gare du Nord, certamente um dos piores, ou pelo menos um dos mais tristes lugares da cidade. Era o que minha irmã tinha nos arrumado provisoriamente, enquanto a gente decidia o que fazer da vida. Ela já tinha decidido mais ou menos, de uma hora para outra fez as malas e rumou para Lisboa, ali fiquei, inquilina dos gregos, naquele rua onde o bonde passava cedo fazendo barulho e onde os marroquinos adolescentes e nem-tão-adolescentes se esmurravam de vez em quando. Eu não me importava, só tentava deixar o apartamento limpo e organizado para amenizar a sensação. Que sensação? Vou pensar a respeito.

Contei a Jean-François que ia receber uma amiga brasileira e, para florear um pouco, contei que ela era quase doutora em economia. “Uma economista brasileira, isso eu quero ver!” Não entendi e ele explicou que estava fazendo uma piada, era uma referência à dívida brasileira, depois de explicado eu não achei a menor graça. E não foi por orgulho nacionalista.

Fui esperar Carla no aeroporto, ela apareceu tarde, sem as malas e com um cobertor roubado da KLM entre os jornais. Era para uma amiga que colecionava cobertores das companhias áereas. Explicou. As malas? Estas tinham ficado em Amsterdã, só estariam disponíveis no dia seguinte. Fomos para o tal apartamento e logo perguntei se ela queria tomar uma ducha. Eu tinha essa mania, mal descia do avião e corria para a ducha. Carla disse: “Mais tarde” e continuou a falar. Muito mais tarde, ela falava ainda e perguntei, de novo, se ela queria tomar o banho, “Não”. Na terceira vez ela disse que eu podia ficar sossegada que ela só ia tomar o banho na manhã seguinte. Fiquei sem graça.

No outro dia buscamos a sua mala, visitamos Bruxelas, Bruges e planejamos uma viagem a Paris. Eu estava preocupada com meu visto que estava por vencer e Olivier propôs levar-nos de carro até Lille, lá tomamos o trem para Paris. Fazia calor, fui no banheiro da estação colocar um vestido leve. Carla disse que eu devia usar mais vestidos. Depois fomos para o hotel de terceira categoria que eu tínha reservado, não foi difícil encontrar, perguntando aqui e ali. Como Carla disse que era “muito boa de direção”, eu não prestei atenção nos caminhos e, quando voltamos para o hotel, tarde da noite, tive que sair perguntando de novo, ela não tinha a menor noção do lugar. Descobri que Carla mostrava muita segurança com relação a coisas que não sabia e decidi confiar um pouco menos no seu senso de orientação.

Uma noite decidimos jantar espagueti, Carla colocou todo o parmesão da mesa, que não era pouco, no seu prato e pediu que eu dissesse ao garçon que ela queria mais. Às vezes, o papel de tradutora pode ser embaraçoso. Pela manhã ela quis comprar uma dessas malas de rodinha pois só tinha mochila e suas costas não podiam suportá-la. E procuramos e procuramos…

Depois de vistarmos Paris tomamos um trem e fomos para Montpellier onde ela deveria encontrar uma amiga da Unicamp que estava fazendo parte do doutorado ali. A amiga a esperava com tapetes vermelhos estendidos e ciumenta porque ela tinha ido primeiro em Bruxelas. Não encontrei a amiga tão animada e acolhedora. Porque há gente assim, sempre tão necessitada de exageros? Ter que exagerar no afeto de um na esperança de que outro a queira mais? Não sei como analisar? Carla exagerava em tudo, talvez fosse simplesmente parte de sua natureza. Eu gostava de muitas coisas nela, ela era inteligente, não um gênio, mas inteligente e alegre, ria muito. E, a melhor lembrança, ofereceu-me meu primeiro Saramago, levantado do Chão e também um Neruda.

4 comentários:

Manoel Carlos disse...

Está interessante... mas esta coisa de continuação é fogo, fiquei ansioso pela segunda parte.

Allan Robert P. J. disse...

A gente encontra um monte de "agregados" pela vida. Eles têm a capacidade de serntir-se bem em qualquer situação, mas não chegam a ser parasitas, apenas aceitam todos os convites e acabam vivendo melhor que os outros.
(Continua...)
Ciao

Laura disse...

Leila, estou gostando, espero a continuaçao.
Abs, Laura.

Anônimo disse...

Nem me fale... O dia q eu cheguei aqui, doida por um banho, um frio danado, disseram q nao tinha agua quente. Fui tomar banho assim mesmo, nao estava aguentando... Felizmente, eles estavam enganados e eu tomei banho, e quentinho. :-))