quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005

Cadernos do Oriente [India]

Os gémeos Asvin são, no princípio do mundo, divindades menores que não podem beber soma – a droga perfeita dos deuses – e passam grande parte da sua existência entre os mortais. Ora, um dia os dois irmãos surpreendem no banho a bela princesa Sukanya e por ela se inflamam. São, porém, debaldes as suas tentativas de usufruir da beldade da princesa e dos seus modos naturalmente gentis: ela é fiel ao seu marido, um velho asceta de nome Cyavana. Mas os deuses, de tão surpreendidos por sua beleza e resistência, mais interessados ficam no que pensavam seria uma rotineira conquista. E por isso propõem uma troca: devolverão a juventude e a beleza ao marido, mas depois ela terá de escolher de novo um marido entre os três.O casal sabe que os Asvin preparam uma armadilha mas, confiando no amor mútuo, confiando cegamente um no outro, aceitam o jogo. Os seus temores não se revelaram infundados: quando Cyavana sai rejuvenescido das águas de um lago mágico, vem exactamente idêntico aos divinos gémeos. Como poderia agora a princesa perceber quem era o seu adorado marido? Sem dificuldade e fazendo fé na sua intuição, Sukanya descobre e escolhe o preferido. Ganha o coração sobre a luxúria. Bons perdedores, os Asvin preparam-se para bater em retirada.Mas Cyavana está longe de ser um ingrato - afinal, ganhara belos traços e uma nova juventude - e diz aos gémeos: “Vou fazer de vós bebedores de soma, apesar da oposição do rei dos deuses”. Sabedor dos segredos, prepara a beberagem, e mal estava pronta a bebida sagrada preparava-se para a servir aos dois incompletos deuses, de modo a fazer deles plenos participantes de todo e qualquer amplexo divino.Eis que estava pronta a servir quando intervém Indra, rei dos deuses, manifestando o seu desgrado e prestes a fulminar a mão de Cyavana, que segurava o cálice repleto do precioso soma. O asceta recorre então aos seus argumentos e através da “força da austeridade” cria um gigantesco monstro, cujas mandíbulas se abrem do céu à terra e que ameaça tudo engolir: é o monstro Mada (Embriaguez). Indra não resiste e capitula. Os Asvin bebem o soma e Cyavana tem de destruir o seu monstro. Corta-o em quatro partes e coloca cada uma num local muito específico: respectivamente, na bebida, nas mulheres, nos dados e na caça.
...................................................................................................Mahabarata, India

leilasilva100@hotmail.com

Um comentário:

Manoel Carlos disse...

Desde então "mulher é chave de cadeia"... entendi :))