domingo, 1 de abril de 2007

A japonesa

Comprei, em um museu de Washington D.C, uma gravura representando uma
japonesa de cabeleira negra, rosto redondo, sobrancelhas finas, a boca, um pontinho vermelho e delicado, o nariz é um traço quase invisível, da mesma cor do fundo e apenas mais escuro que o rosto, a mão também pequena, de dedos finíssimos, os três do meio dobrados, levantando uma parte da roupa, o ‘mindinho’ livre. A outra mão está completamente escondida na manga do kimono. Esta japonesa vem me acompanhando há algum tempo e, por força de tanta viagem e maltrato terminou por ficar meio amassada. De vez em quando eu desenrolava o cartucho e a contemplava, mas só agora tive tempo e vontade para mandar emoldurá-la. ‘Uma moldura simples e não muito cara.’ Pedi pensando que não valeria a pena investir já que a gravura apresentava imperfeições.

Uma vez emoldurada percebi que os amassados se tornaram quase imperceptíveis, mas não me arrependi de ter optado por aquele acabamento simples, caía bem, a moldura não roubava a atenção. Pude apreciar melhor a minha japonesa, congelada naquele movimento lento, meio de lado, a boquinha suave de um pontinho só...Ela me fez pensar em outra japonesa, aquela pintada por Van Gogh, de um certo modo parecida com esta só que virada para a esquerda e muito mais colorida, os cabelos num arranjo exagerado e os olhos parecem sorrir de um jeito meio cínico, como se estivesse a zombar da gente ou como se tivesse feito uma travessura. Em tudo isso, muito diferente desta que tenho aqui.

Pendurei a gravura no meu quarto, à noite estava a contemplar esta delicadeza, aqueles olhinhos que não sabemos para onde olham, os pezinhos que não se deixam nem adivinhar, os tecidos finos cobrem tudo, que trabalhe a imaginação! Levanto-me da cama e me aproximo da gravura para ler as referências. Descubro, com espanto, que a linda japonesa é, na verdade, um homem:
‘Actor portraying a woman, Japanese painting, Edo (Kambun Period 1661- 73)Ukiyoe School.
Volto para a cama meio magoada com a minha japonesa por ter se dissimulado durante tdo esse tempo, depois percebo, claro, que eu é que não quis ver a realidade que estava estampada ali...Enfim, sem razão, mas ainda assim meio contrariada, durmo.

Pela manhã o primeiro gesto, erguer a mão e alcançar aquilo que parece uma parte do meu corpo, os óculos, com eles no rosto contemplo, uma vez mais, a graciosa e dissimulada. Sonolenta reflito, ou melhor, repito, ‘Há mais mistérios entre o céu e a terra....’ e decido que isso é bom, ‘Fiat lux’.

Abro a janela e vislumbro o novo dia.

Afinal, que me importa o sexo escondido sob aquele kimono?
...

Leila Silva
...

Obs: Crônica escrita para
Anjos de Prata, já a publiquei aqui antes, agora re-publico com a imagem correspondente.
...

9 comentários:

Manoel Carlos disse...

"Cadernos do Oriente". é muito curioso como você escreve; de uma forma que lembra os orientais.

Anônimo disse...

Tantas coisas q a gente acha q importa, Dear, Dear... Mistérios, mistérios...

Allan Robert P. J. disse...

O Manoel tem razão: às vezes você escreve como um oriental, só que com mais poesia.
Ciao

Laura disse...

Como escreve bem, gosto demaissssssss.
Gosto do teu olhar sobre as coisas tbm.
bj, laura

Gaspar VS disse...

Belo texto descritivo.

kovacs disse...

Parabéns, belo texto.

daniela mendes disse...

textualmente falando eu tiraria o texto a aprtir daqui: "Sonolenta reflito, ou melhor, repito, ‘Há mais mistérios entre o céu e a terra....’ e decido que isso é bom, ‘Fiat lux’.

Abro a janela e vislumbro o novo dia.

Afinal, que me importa o sexo escondido sob aquele kimono?
"

Pessoalmente eu gostaria de ter minha casa toda decorada assim.

bisous

marcelo d´ávila disse...

Leiloca: saudade! Viste que tem um concurso de contos eróticos? É só procurar no Garganta da Serpente. Beijão.

Manoel Carlos disse...

O que você disse, sem escrever, é que deve querer se fixar onde está, afinal emoldurar "a japonesa" pode ser um indicador.