sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Um conto meu


Mundinho

A árvore cumpria a sua história, o seu dever era proporcionar aquela sombra, balançar vez ou outra provocando uma brisa – ou balançar sob o efeito da brisa? – enfeitar a vista de Raimundo quando, de manhã, ele abria a janela. Tarefas aparentemente simples que a árvore desempenhava à perfeição desde o nascimento de Raimundo, mais conhecido como Mundinho. E ele nunca tinha parado para pensar nisso. Nem na árvore nem nele mesmo. Se esse era o papel da árvore, qual seria o dele? Ali tinha nascido e dali nunca tinha saído. Sair para quê e para onde? Mas ele, afinal de contas, não era uma árvore. Não tinha, por dever, descobrir coisas? Ir, um dia, até São Paulo, por exemplo que nem era tão longe. Mas para quê? Seu pai tinha lhe deixado aquelas terras e tinha dito que ele era a continuação daquilo. Então, ali se fincou, em outro lugar não podia ser. Raimundo nunca quis mulher ou filhos. Ou quis e já se esquecera? Tinha gostado da Ruth, muito, mas não deu certo, além disso, mulher era trabalho que não acabava mais, bastava olhar para o seu irmão com aquela chata sempre no encalço. Não, ele não necessitava dessas complicações. Ruth tinha preferido um vadio, um sem eira nem beira que apareceu do nada, sem raiz, sem nome de família. ‘Sem eira nem beira, mas com coragem, e é isso que eu quero, um homem com coragem, não um borra-botas como você que nem para pedir a minha mão serviu depois destes anos todos.’ Borra-botas! E lá se foi com o corajoso, contrariando todo mundo, pai, mãe, irmãos. Fez ele muito bem em ficar por ali, vivia na sua vidinha parada de árvore, fumava seus cigarrinhos e, é verdade, vez ou outra acordava assim, com a cabeça cheia de perguntas, depois passava, como tudo na vida. Um bom café, uma visita ao vizinho que podia até render um carteado e pronto, desanuviava. Sua vida era aquela mesmo, cada um nasce para uma coisa determinada. São Paulo pra quê? Poluição, enchente, medo. Já tinha ido lá quando tinha uns….quantos mesmo? Uns dezoito ou dezenove anos. Bastava. Não tinha nenhuma necessidade disso e nem dinheiro sobrando.

‘Mundinho!’ ‘Que é, Isaura?’ Desde o infarto que a irmã não o deixava em paz, toda manhã estava ali, Mundinho mede a pressão, Mundinho não esquece do remédio. ‘Isaura, que é que foi feito da Ruth?’ ‘A Ruth, mas eu já te falei mais de uma vez, casou-se com o Otávio.’ ‘Que ela se casou com o tal Otávio eu já sei, né, Isaura, eu quero saber do depois.’ ‘O depois também eu já te falei, Mundinho, foram para São Paulo, Otávio virou um advogado famoso, vivem nos Jardins, num apartamento enorme, têm três filhos e um netinho. Pronto.’ ‘Ah, é? Você não tinha me falado, já é avó, é?’ ‘É, Mundinho, já te falei sim.’ ‘E você viu ela avó?’ ‘Vi, isso também eu te falei.’ ‘Isaura, o que é um borra-botas?’ ‘Um borra-botas, no meu entender….’ ‘É claro que é no seu entender, Isaura, se eu tô perguntando pra você, vai ser no entender de quem? No meu eu já sei, né!’ Mas era mal-humorado esse Mundinho, tinha feito muito bem a Ruth de se casar com o Otávio. Ficou chateada com ela na época por largar o irmão assim de uma hora pra outra, mas o tempo provou que tinha razão e voltaram a ser amigas. Mundinho, com a idade, só fazia piorar, ranzinza que só ele. Coitado, era seu irmão, fazer o quê, tinha que ajudar. ‘Mundinho, olha, deixa a Ruth lá no lugar dela, toma os seus remédios e mede a sua pressão.’ ‘Mania de medir pressão, Isaura, todo dia a mesma novela.’ ‘Raimundo, faça do jeito que quiser, então, eu tenho que ir, o aparelho está ali e já te ensinei como é que se faz, eu vou pra escola.’ Quando a Isaura dizia Raimundo é que já estava perdendo a paciência. Lá se foi no fusquinha dela. Quando é que ia se aposentar, essa coitada? Já estava em tempo. Dizia que gostava de dar aulas, quem podia gostar de dar aulas, passar cinco horas ou mais agüentando aqueles moleques barulhentos e mal educados? Só a Isaura mesmo, uma santa, era até irritante. Irritante também era essa mania de falar feito professora mesmo em casa, ‘no meu entender!’ No final das contas ela só tentava ajudar, ele é que era muito impaciente, perdia fácil as estribeiras.

Raimundo se levanta, toma o remédio e, encostado na janela olha de novo para a árvore. Quer dizer que ele ia morrer e ela ia ficar? Muito bem, pensou, me viu nascer e vai me ver morrer. E foi ali, debaixo dela que ele e a Ruth começaram a namorar, ali que trocaram algumas carícias rápidas, havia sempre alguém por perto. Macias as mãos de Ruth, cheiroso o seu cabelo, quando a brisa dava nele Mundinho respirava mais fundo. Nunca, nunca perdia a calma com Ruth e nunca perderia se ela tivesse esperado, se tivesse aceitado ficar ali. Aquele não era o mundo da Ruth e nem para a Ruth, tinha nascido no lugar errado e foi procurar o lugar certo. Assim são as coisas.

Mundinho sai da janela, vai até a cozinha, serve-se do café que a irmã deixou na garrafa térmica. Da porta contempla de novo a árvore, caminha devagar até ela. O caminho, outrora tão curto, agora parecia terrivelmente longo. Mas Mundinho não tinha pressa, sentia uma calma que nunca experimentara antes em sua vida. Alcança a árvore, toca o tronco áspero com sua mão tremente, a outra mão aperta o peito do lado esquerdo, por onde um mistério o invade. Deita-se ali, apoia a cabeça no tronco e fecha os olhos para descansar.

Sob o cedro, Raimundo repousa em paz.
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2 comentários:

Manoel Carlos disse...

Eu já havia lido este conto, com a bem retratada a tristeza de Mundinho que carregou o peso de uma vida não vivida.

Narizinho disse...

Agora é cara a cara!

Daniela Mendes de cara limpa!
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