sábado, 16 de outubro de 2004

Conto [Damas]

[Este eu ofereço para o Manoel do Agreste - http://www.agrestino.blogger.com.br/-. Foi o início de nossa amizade.]
Damas

_ A coisa mais engraçada que eu acho, sabe o que é ?
_ Não, o quê?
_ E que todo dia, quando dá uma certa hora a gente muda de posição…
_ Quê? Que conversa de doido é essa?
_ De doido não, tu não me espera terminar…é que quando dá uma certa hora a gente passa da posição vertical para a horizontal, entende?
_ Não, não entendo, mas eu entendo que é a sua vez de jogar.
_ Aí vai…como não entende? Todo dia é assim, para uns é às nove horas, para outros é meia noite, mas todo dia, todo mundo se coloca na posição horizontal, fecha os olhos e se entrega, quer dizer, não sei se é se entregar, mas o sono é um estado estranho…e é esquisito estar na vertical e depois passar para a horizontal…estranho, eu estive pensando.
_ Escuta, pra você estar pensando tanta besteira, eu estou achando que você se coloca na posição horizontal, mas não fecha os olhos…
_ Fecho sim…
_ Pode ser que feche, mas não deve realmente passar para esse outro estado, esse que você chamou de ‘entrega’….Será que você anda com medo?
_ Ih, cara, tu tá entendo tudo errado…Eu tô falando que isso é uma coisa esquisita, que quando chega um período do dia todo mundo muda de posição…Não vai querer bancar o psicólogo agora, vai?
_ Todo mundo não, tem gente que tem insônia.
_ Mas até esses ficam lá na posição horizontal, pegam um livro….
_ Quem te falou isso? Você andou fazendo pesquisa?
_ E, de qualquer modo, eu tô falando no geral, insônia é doença, então não conta.
_ Insônia é doença? Joga cara, presta atenção.
_ Ué, deve ser….Pois então…Ah, aqui, comi a tua dama…eu falo mas presto mais atenção que tu. Então, quando dá lá umas tantas horas, todo mundo muda de posição…
_ Pô cara, vai direto ao assunto, você já repetiu umas dez vezes essa coisa de mudar de posição…
_ Ih, tu tá nervoso porque tá perdendo? Então, seja no Japão, nas Filipinas, nos Estados Unidos…..
_ Ok….ok..
_ Em qualquer lugar do planeta, todo mundo muda…digo, vai dormir..vai pra cama, pra rede, pra esteira…
_ Será que em todo lugar do mundo as pessoas dormem mesmo na horizontal? Ah, você esqueceu de comer aqui, fuuuu, soprei…
_ Bosta! Tu me distraíste de propósito…Eu não vejo melhor posição pra dormir do que na horizontal….que povo seria besta o bastante para pensar em dormir em pé?
_ Ah, sei lá, na Africa, talvez?
_ O que é que tu quer dizer com isso? Isso é racismo.
_ Racismo por que? É que na Africa eles têm uns costumes diferentes…
_ Em todo lugar tem gente que tem costume diferente..
_ Não fui eu que falei que quem dorme em pé é besta, foi você…e agora ainda me acusa de racismo?
_ E seria inteligente dormir em pé?
_ Cavalo dorme em pé.
_ E cavalo é inteligente?
_ ……..
_ Pronto…ganhei.
_Oh, merda.


Leila Silva
Bruxelas, 10 de dezembro de 2003.

6 comentários:

Allan Robert P. J. disse...

Há muito tempo escrevi um conto cujo título era "Criança tem cada uma!". Uma das coisas que ouvi de uma criança foi: "Pra onde vai o escuro quando a gente acende a luz?" O papo de cachorro louco do teu personagem me lembra uma criança. Teus textos continuam envolventes. Quando eu crescer quero escrever assim. :)
Ciao.

Euzinha disse...

Muito bom o texto... Concordo com vc, Allan, e eu adoro as crianças e a espontaneidade típica... Vc me fez lembrar uma entrevista que fiz certa vez... A criança, ao invés de responder a minha pergunta, virou e perguntou: "amor tem cor?". Nunca me esqueci, embora não tenha reproduzido isso além da matéria.
Beijocas.
Danizinha

Anônimo disse...

delícia de conto, Leila! invejei, também quero escrever desse jeitinho.
beijo
mariza
http://marizalourenco.blogspot.com

Denise Arcoverde disse...

Maravilhoso, Leila! também quero ser assim quando crescer ;)

Anônimo disse...

Ri muito.....concordo com os outros, finíssimo!

MR

Manoel Carlos disse...

Que surpresa agradável! fiquei sensibilizado.
Você sabe que, na infância, fui campeão de jogo de damas?
No meu jogo não havia sopro, apenas nos jogos dos pixotes :))
Você pode ser pixote no jogo de damas, mas é campeã no jogo de palavras.
Ao contrário do que muita gente pensa, escrever de forma simples, como você o faz, é o que engrandece a narrativa.