segunda-feira, 4 de outubro de 2004

Cadernos da America do Norte-Diário USA[parte III]

Novembro 2001

Carteira de motorista. Aulas de informática. I’m very busy now. “Disseram que eu voltei americaniZada”….
ainda não voltei. Voltar pra onde?

10/11
Concerto de Taj-mahal. Blues, brother! O cantor ousou oferecer uma música para Bin Laden….Mama mia! É bem verdade que ele é um negro ops! Afro-americano muçulmano, como muitos por aqui. O público também era um espetáculo, nada do que eu esperava encontrar nos USA.

Lixo!
Perguntaram a um ministro chinês em visita aos Estados Unidos o que mais o impressionara por aqui e ele respondeu: O LIXO.
Deveras impressionante, senhor ministro.

11/11
Money! Money! Money! Money! Money! Money! Money!

Hoje encontramos um casal brasileiro. Ele engenheiro, ela, arquiteta. Classe média alta. Ele chamou Lula de “O Barbudo”, falou dos filhos, das casas que possui e da casa que pretende comprar aqui. Já viveram também na Europa e Canadá. A arquiteta preparou uma deliciosa sopa de cebolas. Talvez seja o nosso último encontro.

12/11
Mais um avião cai do ar em Nova York. Pânico! Ninguém entende nada.

13/11
Maldito seja quem inventou a necessidade do carro! Maldito seja este país onde não se pode andar, onde as pernas são as rodas. Maldita seja a dor de cabeça.

Americano é tão bonzinho!

Depois de amanhã is Thanksgiving. Feriadão nacional. Ninguém sabe ao certo a razão mas é um dia de tradição. Mas que bobagem estou dizendo, desde quando uma tradição precisa ser explicada?

A minha professora do curso de computação fez algumas perguntas sobre Singapura (com S, decidi que é melhor) e lembrou-se do garoto americano que recebeu uma surra por lá por causa dos ‘atos de vandalismo’.. Lembrou-se também de que a venda de chiclete é proibida em Singapura e concluiu que ‘esse é um povo muito louco’. Então falamos também da pena de morte…..em Singapura e a professora se perguntou triste e desanimada “Eu me pergunto como é que a pessoa que aplica essas penas, o que aplica a surra e o que mata, pode dormir em paz? Que povo louco.” I’ll say! Que povo louco. Será que os americanos aprendem essas táticas na escola?

Thanksgiving “Happy Turkey’s day”! Alguém me disse. E eu nem comi peru no dia. Em contrapartida fui a New Orleans. Festa, festa, barulho, cheiro de cerveja, de cigarro, prostitutas, música. Alguns pastores chamam New Orleans de ‘Sodoma e Gomorra’, as duas ao mesmo tempo. Além de muita festa, há também muita pobreza na Louisiana, muita corrupção, muitos analfabetos, muitos negros (ops..afro-americanos) nas prisões, muita violência. Nem tudo é perfeito nos Isteitis.
Na volta para Atlanta, engarrafamento infernal e a rodovia não era pavimentada com queijos.

Henry Miller
Quando estava em Paris, Henry Miller escreveu, em carta a seu amigo americano, que a única coisa que ele lamentava era não ter ido para a Europa mais cedo. Ele sabia que “nunca seria um europeu, mas pelo menos ele não era mais um americano, thanks god!”
Hoje toda a nação parece “Proud to be an American”.

27/11
Jantar com um galego e um ítalo-belga. Nada melhor do que encontrar europeus para (por assim dizer) desabafarmos sobre a vida nos Estados Unidos.

Amanhã já é dezembro. Feliz navidad! Feliz navidad! Ouço todos os dias no rádio, mas não estou no México, ainda estou nos Estados Unidos. No supermercado (ou venda?) mais próximo de casa nem se pode pensar em inglês, é sempre ‘buenos dias!’ ‘Son quatro dólares.’ ‘Muchas gracias’.
E porque não? O único problema é que lá não encontro quase nada de que preciso, não há frustas frescas, não há leite desnatado….em contrapartida há muitas bijuterias, doces e muitas velas com a cara do cristo e da virgem de Guadalupe. La navidad la pasaré en el avião a caminho do Brasil. Que me importa la navidad, contanto que eu chegue, que a virgem de Guadalupe nos proteja e ajude o piloto a desviar das torres que por ventura apareçam pela frente.

Já é tarde, P. está na Europa e Günter Grass me espera ansioso com o seu Tambor.

Dezembro
Sábado americano: compras, tv, carro, ginástica, lavanderia. Encontrei Fred, da Indonésia, na lavanderia e combinamos um jantar para sexta.


Mais uma semana já se foi entre computadores, trânsito, sanduiches, correção de pronúncia, biblioteca, um filme - Paris Texas - alguma leitura (O Tambor que vai lento, lento pois preciso dedicar meu tempo livre às leituras em inglês).
Encontrei na biblioteca pública uma antiga edição de Tropic of Cancer com prefácio de Anaïs Nin. Até agora Henry só falou de ‘cunt’. Se continuar assim, não terei que recorrer muitas vezes ao dicionário.

Encontrei outra vez Christine, outra estudante da Indonésia, e desta vez pude apresentá-la ao P. Conversamos por muito tempo no business Center do condomínio. Quando saímos P. me mostrou dois cockers e Christine nos disse “Na Indonésia, os cachorros nós os comemos”. Perguntei se ela já tinha experimentado e ela respondeu “Sometimes” e riu. Perguntei ainda se ela sabia preparar e ela disse que sim. Não pedi a receita.

Leila Silva
leilaterlinc@yahoo.com.br


5 comentários:

Claudio Costa disse...

Por contágio, cheguei aos seus Cadernos via Allan (Cartas da Itália). Li os últimos posts e ficarei mais assíduo. Seu olhar estrangeiro são bem repassados para a linguagem escrita, o exercício difícil que você desempenha muito bem: asssim, fui tomando carona em sua "viagem"... até que acordei, de repente, aqui diante do meu computador. Obrigado. Cláudio.

Allan Robert P. J. disse...

Leila,
Interessante ler esse diário nos States de tanto tempo faz. 2001 parece ter acontecido num filme muito, muito tempo atrás... Mas, quando é que você volta?
Ciao
http://cartadaitalia.blogspot.com

Manoel Carlos disse...

Duas observações.
1.
Como se sente aquela senhora ao saber das torturas praticadas pelos seus compatriotas no Iraque?
2.
Diz-se que em Brasília as pessoas têm cabeça, tronco e rodas.

Anônimo disse...

Muito interessante, uma viagem em si!

Anônimo disse...

"Paris, Texas" é outra grande dica, apesar de me renovar péssimas lembranças...rs.

Camaleão Vazio