terça-feira, 24 de agosto de 2004

[Cadernos da América do Norte]

Óleo sobre tela

....e como era aquele tempo em que as pessoas não tinham fotografias amareladas para ver ? aquela chinesa ali, tão grávida, que parou para descansar [o marido americano segura a bolsa enquanto isso. bolsa de mulher] tem em casa uma foto antiga da mãe na China.

da sua boca sairá uma filha que ela quererá perfeita e, quem sabe, cristã. mas aquele outro casal que passa, ele chinês, ela chinesa, observa sem pudor a que ali descansa o seu ventre já quase maduro e o marido que segura ternamente a bolsa feminina. A bolsa outra, dia desses, rebentará e uma menina muito linda e mista verá a luz. mas o olhar do outro casal lançou uma sombra na boca da grávida? a boca mensageira, corrosiva ou libertária, a boca que recriará uma avó chinesa, uma língua chinesa e os parques da China tão mais vastos e verdes que este americano e plástico. a graça imperfeita da China parecerá tão distante e a foto da avó desdentada e camponesa será uma irrealidade. a mãe entoará berceuses em chinês. deve existir berceuses em chinês. sim.

Leila Silva

leilaterlinc@yahoo.com.br


3 comentários:

Anônimo disse...

Vim na esperança que vc tivesse acrescentado algo!!!
Beijocas.

Allan Robert P. J. disse...

Estava de férias e voltei hoje. A primeira coisa que li foi o seu post. Foi um ótimo final de férias! Obrigado.
Ciao.

Manoel Carlos disse...

Você tem apurado o estilo.
Quero ir à noite de autógrafos.