terça-feira, 15 de junho de 2010

QUINQUILHARIAS NAKANO


Terminei a leitura de QUINQUILHARIAS NAKANO, é um livro bem pequeno (sobretudo se comparado a La Montagne Magique que acabei de ler outro dia), 284 páginas, tradução de Jefferson José Teixeira.

Gostei bastante do livro, da leveza, não acontece quase nada, acompanhamos os personagens no seu dia a dia, Hitomi, uma jovem que trabalha na Quinquilharias Nakano(sim, o título do livro é o nome da loja), o patrão, senhor Nakano, Takeo, outro funcionário da loja, Masayo, a irmã do senhor Nakano e ainda outros envolvidos emocionalmente com estes . Esse 'não acontece quase nada', é uma aparente banalidade, os personagens têm sua complexidade, o universo, de um modo geral é aquele da loja, clientes que entram, compram, vendem, saem, não compram, reclamam, as saídas do senhor Nakano para encontrar a amante, as angústias de Hitomi, sua solidão, seu interesse por Takeo e as dificuldades para se comunicar com ele que é um tanto bizarro.

Como já disse antes, não conhecia a autora, Hiromi Kawakami, ela é jovem ainda, nasceu em 1958 em Tókio. Dos autores japoneses contemporâneos acho que só tinha lido até aqui Banana Yoshimoto, Haruki Murakami, Kazuo Ishiguro, desses só não gostei de Haruki Murakami, o mais famoso deles, na verdade. Uma vez li uma crítica (opinião, talvez) de outro escritor japonês cujo nome não me ocorre agora, dizendo qe na verdade Murakami não é exatamente um escritor japonês, quer dizer, ele é japonês, mas sua literatura não é japonesa e que a isso mesmo que se deve seu sucesso no ocidente, mas devo acrescentar que só li um livro dele, Minha querida Sputnik, já me aconselharam a tentar outro.

Trecho do QUINQUILHARIAS NAKANO:

— Diga, Hitomi, você considera o desejo sexual algo
importante? — perguntou Masayo bruscamente.
— Como?
— Tudo se torna desinteressante quando não há desejo,
não concorda?
Sem saber o que responder, mordi e engoli em silêncio
a massa da torta.
— Você, Hitomi, ainda deve ter um desejo sexual intenso.
Como a invejo! — declarou Masayo cheia de admiração enquanto
debicava com o garfo o merengue fofo e leve da torta
de limão. — A propósito, não acha que nos últimos tempos o
sabor dos doces do Poésie vem decaindo um pouco? — prosseguiu
ela num tom indiferente.
— Em geral não como muito, não saberia dizer — respondi
num tom educado.
— Entendi — replicou Masayo, colocando na boca
um grande pedaço de torta. — Mas hoje está deliciosa.
Seria em razão de minha condição física? De fato é duro
envelhecer.
Masayo o disse de modo jovial. “Desejo sexual”, procurei
repetir para mim mesma. Pareceu-me ter uma ressonância
curiosamente alegre, semelhante ao tom usado por Masayo.
“E eu não aprecio tanto assim as tortas de cereja”, pensei.
Mesmo assim, eu as acabo escolhendo, totalmente enfeitiçada
pelo vermelho parecendo molhado.
O aroma da manteiga da massa da torta espalhou-se pelo
interior de minha boca. O queixo de Masayo se agitava ao
devorar a torta de limão.
....

Um comentário:

_Diz disse...

Que belo trecho vc copiou- adorei.
Tão real, tão a vida da gente. Bj qrda, Laura