segunda-feira, 12 de setembro de 2005

Na livraria

de Regina Igel


Numa dessas livrarias modernosas, onde se pode sentar como em biblioteca, ler à vontade, comprar ou não comprar, ainda ir até o café e lá uma rubiácea saborear... pois foi numa dessas, em SP, que isto aconteceu. Coisa banal, mas... à falta de outra coisa mais interessante, vou contar.Peguei uma revista importada, daquelas que falam de fofocas reais européias, que custam uns 30 reais, mas como ler é de graça, aproveitei... E me fui sentar num daqueles recantos com cadeiras confortáveis, onde outros já estavam aboletados, cada qual com seu livro ou revista ou jornal. Mais parecia mesmo uma biblioteca do que uma livraria. Mas, pra quê indagar os porquês. Uma boa idéia não se discute. E fui lá me sentar. Olhei tudo na tal revista, vi princesas e príncipes, descansei a cuca das minhas atividades normais e cansativas - principalmente quando exagero, o que faço com relativa freqüência - pois então, depois de descansar o meu fatigado cérebro einsteniano, fechei a revista, fechei os olhos e ali continuei por um bom espaço de tempo. Tempo e espaço, não são coisas de Einstein? Então.. não é à-toa que me canso tanto...Mas, abri os olhos e olhei ao redor. E dei com uma figura masculina ali bem perto. Sentado na cadeira justamente ao meu lado, estava lendo. Interessante exemplar da espécie masculina! Homem de seus 45 ou poucos mais de idade, barba limpa e bem aparada, cabelos meio crespos, castanhos, perfil de nariz afilado. Mãos claras, do tipo que só conhecem o exercício de virar páginas, bater dedinho em celular, levantar copo de vinho... O homem lia, compenetrado. E o mais interessante em toda a figura, para mim, eram seus óculos. Dourados. Aros auricolores e hastes douradas. Não dava para ver a cor das lentes, mas imaginei serem transparentes, claro, ali não fazia sol, embora houvesse uma linda vegetação plantada em vasos. Jardim de inverno, sem dúvida, mais ainda porque o inverno paulistano estava mais vociferante do que nunca, com um frio de fazer gritar. E me fixei nos óculos do cidadão. O homem todo era um quadro digno de ser olhado. Tenho disto, esta apreciação estética pelo ser humano. Não existe pessoa feia pra mim. Todo o mundo tem algo bonito, até mesmo o... bom, não vou dizer o nome do político que acho o mais feio que já vi. (Não é o Valério, mesmo porque até a careca dele tem sua brilhante beleza.)Enfim, para quem está me acompanhando até agora, uma revelação. Gosto de olhar as pessoas e posso ficar muito tempo praticando este esporte, principalmente se meu foco de visão permanecer inalterado. Era o caso do leitor barbudo de óculos dourados. Ele permanecia impassível, parecia que nem sequer virava as páginas. Talvez estivesse dormindo, fingindo que lia, não saberia dizer. Mas estava ali. Um quadro bom pra ser olhado. E, de repente, ele levanta o rosto do livro, gira a cara em minha direção e me diz, à queima-roupa:-- Se você continuar olhando pra mim deste jeito, vou começar a ficar nervoso.Levei um susto daqueles. Parecia que uma estátua tivesse começado a falar. Devo ter ficado supervermelha, que é a minha reação - como me revelam - quando levo susto ou fico sem-graça. Na ocasião, foram as duas coisas. Fiquei sem fala. Minha honesta intenção estética em olhar pro moço tinha sido notada por ele, mas terá visto que era honesta? Logo que me recuperei, lhe disse:-- Estava admirando seus óculos. São diferentes. Sorrindo, ele os retirou e os estendeu para mim, dizendo:-- São da Holanda.-- Ah, parecem mesmo .... (Como é que fui dizer isto? Por acaso conheço outros óculos holandeses, pra fazer tal comparação?) - Peguei-os na mão, ainda quentes do contato com o rosto do seu dono. Eram bonitos. Dourados, pesados, suas lentes eram transparentes, límpidas e grossas. Devolvi-os, perguntando, só para dizer alguma coisa:-- Foram comprados aqui em S.Paulo ou na Holanda?-- Nem aqui nem na Holanda. Em Pernambuco. De um amigo que levou receita do meu médico e comprou-os em Amsterdão. Lá em Pernambuco somos meio doidos por coisas holandesas. -- Ah bom. E têm sua razão - disse eu, filosofando historicamente. - É o legado holandês. Foram quase 25 anos de convivência com os ... neerlandeses.-- Bom, mas eu não estava lá... no século 17! Devo ser descendente de um deles, porque gosto das coisas holandesas. Infelizmente a única vez que cheguei perto de súdito holandês, foi de uma vaca holandesa, lá num sítio, no interior de Pernambuco...A conversa foi andando. O homem escreve, mas não publica (é por isto que o Brasil não vai pra frente -quem escreve, não publica; quem publica, não escreve). E fomos tomar um café, e trocamos cartão, e ficou tudo por isto mesmo. Foi uma boa tarde na livraria-biblioteca-café. Uma tarde esteticamente perfeita. E interessante (para mim, pelo menos). E, por isto, estou contando aqui.

6 comentários:

Anônimo disse...

Election commissioner to speak on blogging
David Mason, a federal election commissioner and Claremont McKenna College graduate, will speak at the college Wednesday.
Nice content! We'll visit often...

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Meanwhile, keep up the gerat blogging!

carlos bruni disse...

Duas considerações, Leila: "quem escreve, não publica; quem publica, não escreve". Genial!
A outra: ainda hoje (e mais do que nunca)me pergunto se não deveríamos ter ficado com os holandeses e despachado os portugueses de volta.

Sonia disse...

quem escreve, não publica; quem publica, não escreve Não é bem assim, Leila.
Quanto ao comentário do Carlos Bruni, os holandeses foram colonizadores dos mais cruéis. Se está pensando em Nassau, ele foi demitido do cargo justamente porque se interessou mais pelo apromiroamento da colônia do que pelos lucros da Companhia.

TMara disse...

e contaste muito bem. descontrai ler. Bjs e;)

Márcia disse...

Rindo aqui, Leila. Ainda mais por ser, eu também de Pernambuco. Sei dessa afeição por coisas holandesas, não. Mas, uma vez, ganhei uma vaca holandesa do pai de uma paciente minha. Só que ganhei na teoria, porque onde ia eu guardar uma vaca no jardim? ;)

Adorei a história e fiquei curiosíssima pra saber quem é mais esse pernambucano que escreve e não publica.

Agora, vez em quando, só vez em quando, a gente publica. Quando sopra um vento especial e acontece como agora: dia 14 de outubro, a editora Bagaço, top de linha daqui, lança um livro meu na Bienal. Ando rindo á toa, de feliz.

Quando tiver o convite, mando pra vc.

Beijo grande.

Manoel Carlos disse...

Por um momento parecia-me que o texto era seu.
De fato, em Pernambuco há mais que olhos verdes como resquícios da presença holandesa.
Muito boa crônica.