quinta-feira, 6 de outubro de 2005

Duas meninas


Melaka, Malasia,
foto por Leila S.


Marina, mas que lugar é esse? Um jardim secreto, Lídia. Não precisa ter medo, é um secreto bom. É só uma brincadeira, brincadeira de duas meninas de 13 anos, nem adultas, nem crianças, Lídia. Calma, calma, é aqui, pronto, é só isso, agora deitamos na relva, sim, isto se chama relva, se quiser pode chamar também de grama, mas eu prefiro relva. Eu achei relva uma palavra bonita, vi num poema outro dia, acho que foi naquele livro que você me emprestou. Eu também tenho lido muitos livros Lídia, muitos, mas quantos significa muito? Lídia, seu nome é tão bonito, quem escolheu foi seu pai ou sua mãe. Foi minha mãe. Sua mãe também é linda, Lídia. E você é uma doll, lembra-se o que é doll? É boneca. Isso mesmo. Você não acha que parece uma doll? Não sei. O Rodrigo não disse isso a você, é Rodrigo mesmo o nome dele, não? Deixe de ser boba, Marina. Eu não sou boba, eu vi, ele vive olhando pra você. E daí? Daí nada, ele está apaixonado por você. E você, você está apaixonada por ele? Eu não estou. Mas sabia que ele te olhava, não sabia? Esqueça isso, Marina, eu não quero falar do Rodrigo, está bem? Hum hum, você gostou do jardim secreto? Era da minha avó, ela morreu, coitadinha, agora ninguém cuida dele, enquanto meus tios estiverem se esfaqueando por causa da herança vai ficar assim, abandonado e triste. Nada mais triste que um jardim abandonado. Minha avó era um anjo com muitos defeitos, sabe, Lídia? Você se lembra dela? Eu me lembro, ela era muito chique. Ela me chamava assim: Marina Morena! Porque tem mais Marinas na minha família, sabe? Não é por causa da música? Ah, é, tem a música também. Quando eu era pequena eu não queria que ninguém morresse. E agora você quer? Não, não é isso, quer dizer, se a professora de matemática morresse eu não ia me importar. Será que no ano que vem nós vamos estudar na mesma classe, Marina? Vamos. Como você pode saber? Eu sei sabendo, Lídia, eu repito tanto o seu nome porque o acho lindo, linda Lídia. Viu que eu quase fiz um poema? Você chama a isso de poema? Está bem, era muito pobre, depois vou fazer um pra você, bem bonito.Você faz poemas? Não, mas vou fazer um pra você. Você escreve naquele diário que eu te dei? Sim, toda noite. E essa noite, o que você vai anotar? Ora, ainda não sei. Lídia, eu posso te dar um beijo?
Leila Silva
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Conto publicado no Bestiário

9 comentários:

Allan Robert P. J. disse...

Lindo! Posso te mandar um beijo?

carlos bruni disse...

Sua sensibilidade, aliada a uma sutileza que passa a léguas de qualquer insinuação que não a poética, leva-a a produzir textos maravilhosos como esse. Parabéns!

Manoel Carlos disse...

Este eu já havia lido e relido, como fiz agora.
Dá vontade de lê-lo muitas vezes, para seguí-la pelo cambiante caminho ao jardim secreto.

marcelo disse...

A técnica a serviço da sensibilidade poética, toda em discurso indireto livre. Que beleza, Leiloca. Bjão.

TMara disse...

o efeito "jardim secreto" dá o tom ao conto, elaborado na inocência e no despertar das meninas-mulheres. Bjs e ;)

Márcia disse...

Eu também já tinha lido e relido. Hoje de novo. É de uma doçura que me encanta e dá vontade de não parar de ler.

Beijo daqui.

Guilherme disse...

Ah, legal aqui hem.

Entre no blog de meu querido irmão: www.minhaodisseia.blogspot.com
lá é muito bom, bom também.

Até mais, belos contos.

Sonia disse...

Quanta doçura em um conto! Prosa poética da melhor qualidade nesse jardim secreto.

Laura disse...

Que lindo!
Caetano diz:
"Você é linda
Mais que demais
Vocé é linda sim..."
lembrei. bj laura