sábado, 2 de julho de 2005

Fado

Se tem uma coisa que eu odeio são esses caras que ficam dando voltinhas inúteis para abrir a porta do carro pra gente. O meu pai era desses galantes, dava quantas voltas fosse preciso por causa de uma mulher, mas não pra minha mãe, isso não, era só até conquistar, um teatro, entende? Aliás, a coisa é toda um teatro mesmo, que mulher não consegue abrir e fechar a porta de um carro? Para a coitada da minha mãe, o que sobrava era um lado nada poético. Também não quero dizer que era em poesia que as outras estavam interessadas, sabe? Poesia? Eu, quando estou de bode, só vou soltando besteiras, nem preste atenção. O velho estava longe, muito longe de ter qualquer coisa que beirasse o lírico. Em dinheiro não podia ser que as patetas estivessem interessadas, a não ser que ele mentisse muito bem, não tinha onde cair morto. Devia mentir, tem gente que acredita em qualquer lenga-lenga. Uma coisa eu ouvi dizer, que ele era muito bonito. Quando falo em patetas, incluo aí a minha mãe. A mais pateta das patetas, na verdade.

Diz a tal Carmem que l’amour est un oiseau rebelle, e deve ser mesmo, uma puta duma rebeldia pra deixar uma mulher assim cega. Era amor mesmo o que mamãe sentia? Quatorze vezes ele a deixou grávida, quatorze não, dezesseis vezes. Dezesseis sim, tem sentido? Dois morreram, já nem sei como. Sete? Sete filhos tanta gente tem, não é mesmo? Sete homens e sete mulheres foi o que eles fabricaram. Parece conta feita. Então era assim, o bonitão desaparecia por uns tempos, vinha e bimba, um filho, sumia por mais um tempo, voltava e a mãe lá firme, com o barrigão firme. Lá vinha mais um pra viver a pobreza escolhida pela minha mãe. Foi por conta desse amor aí, desse ‘oiseau rebelle?’

Um dia a professora mandou a gente ler um tal de Éramos seis e veio perguntar, justo pra mim, “Marina, o que foi que você achou do livro?” “Não achei nada, professora.” Respondi. “Como assim, nada? Você leu o livro?” “Eu li, professora, mas não vi graça na choradeira porque, se a senhora quiser saber, lá em casa somos Quatorze.” Pra bom entendedor um pingo é letra, ela não me encheu mais o saco, viu que precisa mais do que seis pra me impressionar….Amor, amor! Eu tô por aqui com amor, sabe? Nem me deixo levar por esse fátuo fado que engabelou a minha mãe. Então, quando um cara vem abrir a porta do carro pra mim eu já fico de butuca, já sei que ali tem. Podem pensar que estão me enganando, não estão….estão se enganando. Eu sei onde piso e piso com jeito. Fiquei esperta só de observar os trejeitos do velho em casa. Assim, podem abrir porta a vontade - já sei que hoje os homens não saem mais por aí abrindo porta de carro, que isso é da época do meu pai, entenda como metáfora, está bem?- Não adianta abrir portas, não adianta flores….Falando em flores, o safado nunca viu tantas, está lá no salão, agora, coberto delas. Com licença que eu também vou dar o meu adeus. Adeus que eu gostaria de ter dado há muito tempo.

Leila Silva

Publicado em Anjos de Prata

8 comentários:

Laura disse...

Que beleza, adorei. Eu sempre gosto de tudo que vc escreve, mas este me tocou, achei engraçado, conheci uma figura assim bem de perto. Agora é engraçado.:) Bj laura.

Anônimo disse...

Muito bem, dona Leila Silva. O meu queridíssimo Manoel Carlos sabe o que indica. O seu espaço é uma pequena pérola literária na rede; parabéns mesmo.
Quanto a brir porta de carro, faço-o desde a mais tenra juventude, com o mesmo carinho e delicadeza. Mas, antes de abrir a porta, abri o coração às pessoas que me deram a alegria e a honra de sua companhia, quando não, também um pouco do seu amor. Gentilezas, buquês, carinhos, existem no mundo. Algumas vezes, raras, contudo, vêm realmente do fundo da alma dos homens.

Thimóteo Rosas

Manoel Carlos disse...

Você tem uma incrível capacidade de transmutação; e cada vez parece autobiográfico, de tão autêntico e natural. Cada palavra que você usa é pertinente. Parabéns!

Márcia disse...

Que beleza, Leila! sarcástico e cru como ele só. Um soco. Ainda mais escrito na primeira pessoa, o que confere uma força maior ao texto.
Agora, aqui pra nós, ficar sentada dentro do carro esperando o outro vir abrir a porta é o fim da piacada. ;) Dá pra mim não.

Beijo daqui.

rosangela disse...

O Manoel tem razão. Mais natural não podia ser. Gostei muito! Abraço,

Giorgia disse...

Parece mesmo autobiográfico. Muito, muito bom!

Olha, agora quanto a abrir a porta do carro... sempre faço isso (ou melhor, fazia). Pra homem, mulher, criança... e senti muito quando troquei de carro: essas travas elétricas tiram toda a possibilidade de gentileza! rs

Abração,
Giorgia

Allan Robert P. J. disse...

Ah, Leila. Como é bom ler um texto assim.
Ciao

Flávio Rafael disse...

Belíssimo texto mesmo Leila!