domingo, 10 de fevereiro de 2008

Feriado de carnaval


Fui para o sítio lá nas Minas Gerais, a mil kms de Curitiba. Chovia e chovia, de modo que li uns 3 livros, comi, vi televisão, ouvi o coaxar dos sapos, brinquei com o cachorro, vi muitos tucanos. Depois a chuva parou um pouco e nós fomos visitar a Isabel. Levamos conosco dois americanos de nome até fácil desta vez, Mara e Emile que, para facilitar um pouco mais dizia logo que era ‘Emílio’. Falam espanhol, todos os dois, e se comunicaram com facilidade com os ‘campesinos’ que já se acostumaram um pouco com a gringaiada que eu levo. Isabel e Divino, os dois vizinhos do sítio onde vive meu pai e minha mãe, têm entre 60 e 70 anos. Nunca tiveram filhos, não puderam e vivem lá, sós com os cachorros e algumas vacas. Isabel fala muito e Divino não fala quase nada, quando cumprimenta a gente, ele mal toca nossas mãos, daquela forma bem relaxada, sem firmeza. A energia elétrica só chegou na casinha deles há uns dois ou três anos. Toda a família da Isabel vive por ali, o pai dela foi dono de todas as terras da região, o sítio do meu pai, o dela e de muitos outros, quando ele morreu a terra foi dividida entre os filhos, alguns deles venderam um pedaço para sobreviver ou para fazer festa. Sei lá. Dizem, dizem muitas coisas. Um fala do outro e depois minha mãe ou meu pai me contam. São histórias escabrosas, às vezes. As pessoas ‘da cidade’ nem imaginam. Tudo aquilo que Nélson Rodrigues escreveu, tudo aquilo que Woody Allen filmou, acontece também no campo ou nas cidades pequenas em volta, cunhado que deseja a cunhada, cunhada que dorme com cunhado e ainda tem filhos com ele. Humanos. Às vezes eu tenho vontade de escrever sobre as histórias deles, mas me falta alguma coisa. Coragem para sentar e escrever, talvez. Outra coisa que não falta na família da Isabel são loucos, loucos de pedra e loucos mais leves. Um dos sobrinhos dela vive o tempo todo sob medicação é a pessoa mais gentil do mundo, dizem, mas quando dá os 'cinco minutos' tenta estrangular até o pai. A mãe que é só um pouquinho menos louca, usa da doença do filho para conseguir do marido o que quer. Faz mais ou menos assim: ‘Quero ir para a cidade hoje’, se o marido responde ‘Hoje não vai dar’ ela manda o rapaz louco, que é enorme, agredir o pai e ele toma rapidinho o rumo da cidade.

Foi um carnaval na mais santa paz. Acabei falando demais da Isabel e não falei das minhas leituras...fica para outro post.
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Resenha de O Despertar, Kate Chopin, por mim no RoseLivros.
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Foto minha, tirada no sítio, já a publiquei aqui antes.

5 comentários:

rosangela disse...

Que gracinha das pombinhas. E o feriado com chuva, bons livros e muitas histórias das gerais. Delícia pura, mesmo quando as histórias às vezes são de arrepiar...

abraço pro 'cê!

Laura disse...

As histórias... queria um louco assim na minha vida, iam me tratar melhor hihihi
um dia vc senta e escreve, sairá uma bela estória.
bjs laura

Fernando Sampaio disse...

Um tio meu com sítio perto de Mariana tinha várias histórias de fantasmas e discos voadores! As Gerais são um mundo como diria Guimarães Rosa...

Sonia disse...

As pessoas tendem a mitificar a vida na roça, como se fosse um céus sem nuvens. São nuvens diferentes talvez, mas nuvens.
Eu já ia dizendo "tá esperando o quê? comece logo a escrever". Depois lembrei que escrever não tá valendo muito a pena não.

Anônimo disse...

Ah, Leila, você tem material e talento, bote no papel.
Manoel Carlos