segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Lendo: Travels With Charley

Estou quase acabando de ler este livro sobre uma viagem que J. Steinbeck empreendeu por 40 estados dos Estados Unidos com seu cachorro, Charley. Algumas passagens são muito engraçadas, assim que terminar falo mais sobre ele.

...

Este fim de semana fui para o litoral catarinense, Itapoá, bem perto de Curitiba. Não conhecia, aliás conheço bem pouco este litoral. Ótimo, vou explorar com calma, assim consigo ficar mais quieta por aqui. Fomos a um restaurante português bastante simples, mas aconchegante, vendo as fotos penduradas na parede percebemos que por ali passaram Tonia Carrero, Fernanda e Fernando Montenegro, Chacrinha, A. Botafogo e outros igualmente conhecidos. Eu me pergunto o que essas pessoas tão conhecidas vão fazer num lugar deste? Só pode ser uma coisa, se esconder.
....

Harold Bloom - Gênio, Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura no RoseLivros por Kovacs.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Malásia


Pulau Tioman, Malásia.

Tirei esta foto em 2000, talvez, não me lembro bem. Esta ilha, Tioman, é bastante famosa, desses lugares meio paradisíacos, mas eu, infelizmente, não estava em plena forma quando fui lá e não há paraíso quando não estamos bem. Das crianças de lá eu me lembro com carinho, fotografei muitas delas, era fácil, pediam para ser fotografadas, pulavam na frente da minha máquina. Eram muito gentis. Havia também muitos macacos, alguns acorrentados, odiava ver aquilo, uma natureza tão rica e o animal ali, sem poder desfrutar.

Tenho mais fotos aqui.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Feriado de carnaval


Fui para o sítio lá nas Minas Gerais, a mil kms de Curitiba. Chovia e chovia, de modo que li uns 3 livros, comi, vi televisão, ouvi o coaxar dos sapos, brinquei com o cachorro, vi muitos tucanos. Depois a chuva parou um pouco e nós fomos visitar a Isabel. Levamos conosco dois americanos de nome até fácil desta vez, Mara e Emile que, para facilitar um pouco mais dizia logo que era ‘Emílio’. Falam espanhol, todos os dois, e se comunicaram com facilidade com os ‘campesinos’ que já se acostumaram um pouco com a gringaiada que eu levo. Isabel e Divino, os dois vizinhos do sítio onde vive meu pai e minha mãe, têm entre 60 e 70 anos. Nunca tiveram filhos, não puderam e vivem lá, sós com os cachorros e algumas vacas. Isabel fala muito e Divino não fala quase nada, quando cumprimenta a gente, ele mal toca nossas mãos, daquela forma bem relaxada, sem firmeza. A energia elétrica só chegou na casinha deles há uns dois ou três anos. Toda a família da Isabel vive por ali, o pai dela foi dono de todas as terras da região, o sítio do meu pai, o dela e de muitos outros, quando ele morreu a terra foi dividida entre os filhos, alguns deles venderam um pedaço para sobreviver ou para fazer festa. Sei lá. Dizem, dizem muitas coisas. Um fala do outro e depois minha mãe ou meu pai me contam. São histórias escabrosas, às vezes. As pessoas ‘da cidade’ nem imaginam. Tudo aquilo que Nélson Rodrigues escreveu, tudo aquilo que Woody Allen filmou, acontece também no campo ou nas cidades pequenas em volta, cunhado que deseja a cunhada, cunhada que dorme com cunhado e ainda tem filhos com ele. Humanos. Às vezes eu tenho vontade de escrever sobre as histórias deles, mas me falta alguma coisa. Coragem para sentar e escrever, talvez. Outra coisa que não falta na família da Isabel são loucos, loucos de pedra e loucos mais leves. Um dos sobrinhos dela vive o tempo todo sob medicação é a pessoa mais gentil do mundo, dizem, mas quando dá os 'cinco minutos' tenta estrangular até o pai. A mãe que é só um pouquinho menos louca, usa da doença do filho para conseguir do marido o que quer. Faz mais ou menos assim: ‘Quero ir para a cidade hoje’, se o marido responde ‘Hoje não vai dar’ ela manda o rapaz louco, que é enorme, agredir o pai e ele toma rapidinho o rumo da cidade.

Foi um carnaval na mais santa paz. Acabei falando demais da Isabel e não falei das minhas leituras...fica para outro post.
...
Resenha de O Despertar, Kate Chopin, por mim no RoseLivros.
...
Foto minha, tirada no sítio, já a publiquei aqui antes.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Escola joga livros no lixo

É incrível, não sei se viram esta notícia por aí...E não são 10 livros, são mais ou menos 400 obras e ali no meio tem Machado de Assis, Guimarães Rosa, etc. Não dá pra entender.
Leia a notícia aqui.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

The Awakening


Li, há algumas semanas, esta novela de Kate Chopin, O DESPERTAR, em português. Até então, só tinha lido um conto de Chopin, The Storm, fazia parte daquele livro Erotic Stories by Women, falei dele aqui.

O Despertar é a história de Edna, uma mulher casada e mãe de dois filhos, e a descoberta de si mesma através de uma paixão 'proibida' na sociedade da época que tinha a mulher mais como um ornamento do que como um ser humano. O livro mais conhecido de Kate Chopin trouxe-lhe muitos dissabores, tantos que ela não escreveu mais nada depois dele. Hoje ainda é muito lido é discutido nos Estados Unidos, sobretudo em meio de grupos feministas.
....
Resenha aqui.

domingo, 27 de janeiro de 2008

O dia em que Manneken pis se vestiu de capoeirista

Quem já passou por Bruxelas deve ter visto o famoso Manneken Pis numa esquina perto da Grand Place, quem nunca se aventurou por lá, talvez não tenha ouvido falar dele. É um moleque de mais ou menos 50 cms que passa o dias a urinar, ou seja, é uma fonte.O nome Manneken Pis significa exatamente 'moleque que mija'.
Este molequinho veste tradicionalmente, em ocasiões especiais, roupas que lembram alguma profissão ou personalidade importante, Elvis Presley, por exemplo. Ano passado, no sete de setembro, vestiram-no de capoeirista, foi a primeira vez que vestiu um 'traje típico brasileiro', segundo a BBC. Eu só fiquei sabendo disso há pouco tempo.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

(Lendo) A Mulher que Escreveu a Bíblia

Moacyr Scliar

A idéia do livro é bastante interessante:
"O crítico americano Harold Bloom deu a deixa para que o romancista gaúcho Moacyr Scliar criasse um empolgante romance. A Mulher que Escreveu a Bíblia (Cia. das Letras, 224 págs., R$ 21) é baseado numa hipótese levantada por Bloom de que a primeira versão da Bíblia teria sido escrita por uma mulher, “uma pessoa altamente sofisticada, culta e irônica, destacada figura da elite do rei Salomão”. Com essa informação, Scliar colocou sua cabeça de fabulista para funcionar a todo vapor, criando uma narrativa envolvente."Heitor Ferraz.

....mas, não é meu livro preferido do M. Scliar.


Trecho: "Bastava-me o ato de escrever. Colocar no pergaminho letra após letra, palavra após palavra, era algo que me deliciava. Não era só um texto que eu estava produzindo; era beleza, a beleza que resulta da ordem, da harmonia. Eu descobria que uma letra atrai outra, essa afinidade organizando não apenas o texto como a vida, o universo. O que eu via, no pergaminho, quando terminava o trabalho, era um mapa, como os mapas celestes que indicavam a posição das estrelas e planetas, posição essa que não resulta do acaso, mas da composição de misteriosas forças, as mesmas que, em escala menor, guiavam minha mão quando ela deixava seus sinais sobre o pergaminho."(p.41)
...


terça-feira, 22 de janeiro de 2008

PESSOA



TABACARIA (15-1-1928 )

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
(....)
...
A catedral de Fernando Pessoa por Antonio Caetano.
"Hoje, dia 15 de janeiro, Tabacaria faz 80 anos de criação."
No
RoseLivros.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Amar e adorar

Essa semana estava dando uma aula de francês quando deparei-me com um problema de semântica. Um aluno disse:"Professora, aqui no livro o verbo ADORER está acima do AIMER".
Havia uns sinais mostrando a gradação. Eu disse que sim, existia aquela gradação, assim como em português e ele disse: "Em português não!"
Fiz uma enquete em sala e todos concordaram com ele, uma aluna que é professora de português disse que entendia a minha dúvida, mas que as coisas tinham mudado nos últimos anos. É verdade que eu tenho ouvido muito o verbo AMAR de uma forma diferente de há uns 10 anos, as pessoas dizem 'eu aaaamo isso, eu aaamo aquilo". O adorar tem a conotação religiosa, ou talvez seja melhor dizer sagrada, e por isso, inatingível. Uma das alunas até disse que se o marido disser que a adora ao invés de dizer que a ama, ela o joga pela janela. Será regional isto ou será que eu estou assim tão por fora? Em francês é claro que o JE T'AIME é muito forte quando dito a uma pessoa, mas o adorar ainda é muito usado. Dizer que se adora uma coisa é mais forte do que dizer AIMER, 'jaime le chocolat' e 'j'adore le chocolat', por exemplo, o segundo não deixa dúvidas. Esse mesmo aluno que fez a observação disse que em italiano também amare e adorare têm a mesma gradação do português (brasileiro), ou seja, amar é mais que adorar. (Allan, se você passar por teste post, esclareça a minha dúvida, per favore.)
...
O Allan até já me mandou a resposta dele:
"O problema, acho eu, é que ambos os verbos foram banalizados. Na realidade os italianos têm preferido evitar as duas formas: "ti amo" e "ti adoro" podem ser usadas igualmente, apesar da última opção "ti adoro" indicar mais um momento de paixão que uma condição de amor, mesmo. Portanto, sim, "ti adoro" soa mais forte que "ti amo", mas quando querem demonstrar um sentimento forte, o italiano prefere dizer "ti voglio tanto bene".
Mas isso também não serve como um regra.
Desculpe ter confundido mais que esclarecido."
Obrigada, Allan.
......
A catedral de Fernando Pessoa por Antonio Caetano.
"Hoje, dia 15 de janeiro, Tabacaria faz 80 anos de criação."

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Dias


Muitas visitas de dezembro para cá, muitas mesmo. Tem sido agradável, mas o tempo ficou curto. Nem sei quantas pessoas passaram por aqui até agora, minha casa e minha escola (de línguas) mais parece um albergue. Felizmente todas (ou quase) as pessoas que recebemos são bastante independentes e entendem que não posso sair visitando a cidade com todos os que passam por aqui. Recebemos muitos americanos que não falam mais que duas palavras em português, às vezes é preciso ajudar em uma coisinha ou outra, mas mesmo estes se viram.

E com tantas visitas americanas minha estante tem aumentado muito na parte 'English'. O Fun Home, por exemplo, foi trazido por uma das visitas, na verdade foi uma encomenda minha, mas há vários livros que vieram de forma espontânea, alguns autores eu nem conheço, outros são ótimos, outros são curiosidades modernas, nem tive tempo catalogar ainda, joguei todos na prateleira. Depois falo deles aqui....


Tenho aproveitado o começo do ano também para ver alguns médicos que espero ver de novo só daqui a dois anos, de um modo geral estou em ótima forma e não quero gastar meu tempo em consultórios folheando Caras. Quando escrevi aí 'ótima forma' eu não quis dizer que estou magrinha e dentro dos padrões (só agora percebi o que escrevi), eu quis dizer que 'estou saudável' em quase todos os sentidos. Perfeição não existe, não é? Tenho lá meus probleminhas, mas estão sob controle.


Well, sentei aqui, percebi que há dias não atualizava o blog e fui escrevendo. Espero que não tenha saído muita besteira.


Abraços a todos.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

FUN HOME


Fun Home
Uma Tragicomédia em Família
Alison Bechdel
Editora: Conrad



Fun Home foi lançada no Brasil no final de 2007, pela Conrad, eu tinha lido em algum lugar que seria em 2008. Será que adiantaram? Pode ser, a HQ já estava a toda nos Estados Unidos, onde foi lançada em 2006, e também na Europa. Trata-se da biografia de Alison Bechdel, uma moça corajosa e honesta, pelo menos é isso que ela passa através da história, a sua história e a do seu pai, principalmente. A mãe também está bastante presente, mas a prioridade é dada à figura do pai, um homossexual que nunca teve coragem de sair do armário, que mantinha relações com o baby-sitter dos filhos ou seus próprios alunos. Alison conta tudo, é a impressão que temos. A história não é linear, num momento ela trata da infância, no quadrinho seguinte já está na universidade lendo uma carta do pai com quem a autora tinha muitas afinidades intelectuais. Ela e o pai são leitores compulsivos, a história está repleta de referências literárias: Proust, Wilde, Joyce, Colette e uma longa lista. Referências são sempre um risco, pode resvalar certo pedantismo. Não é o caso aqui, são bem colocadas, são irônicas e verdadeiras e todo mundo que gosta de literatura se diverte encontrando ali os autores, citações, capas de livros.


O título é bastante interessante, o FUN remete primeiramente à idéia de uma casa divertida, mas é também uma alusão à casa funerária, Funeral Home, que era propriedade de sua família e que eles costumavam chamar de Fun Home. Quem já viu a série Six feet under, não vai deixar de perceber uma relação. Sobretudo que Alison é gay, assim como um dos personagens de Six feet under. Ela, ao contrário do pai, sai logo do armário, antes de ter a sua primeira relação já vai abrindo o jogo para a família e colegas de universidade.

Alison Bechdel nasceu em 1960, na Pensilvânia, é também autora de Dykes To Watch Out For, já recebeu um prêmio Eisner.Não é pouco.

Aqui dá para ler uma parte.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Henri Cartier Bresson




Henri Cartier Bresson (1908-2004) no youtube

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Sidarta - Herman Hesse

Encontrei este Sidarta (que talvez seja meu mesmo, ou não) na casa da minha irmã. Eu o li, como muita gente, lá pelos dezesseis anos, o que quer dizer que faz um bom tempo.

Queria alguma coisa para ler nas esperas da Gol, pensei, 'vou reler este livro'. Não foi (re)leitura planejada, não pensava em reler Sidarta embora este livro tenha me marcado de algum modo. Não é o livro mais interessante do mundo, mas foi legal reler, uma viagem no tempo. Ainda me lembro quem o recomendou e que talvez tenha me emprestado o livro naquela época, foi um amigo que hoje é psiquiatra. Sei que ele me disse assim: "Leila, dizem que estes dois livros podem mudar a sua vida." Que coisa mais engraçada, não? Éramos ingênuos, eu sei. O pior é que me esqueci qual era o 'outro livro' que supostamente poderia mudar os nossos rumos.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Pink Martini - Hey Eugene


Uma delícia essa música: Pink Martini - Hey Eugene
.....
FELIZ ANO NOVO A TODOS!!!

sábado, 29 de dezembro de 2007

Doce é a infância.

[Publico aqui um de meus contos antigos, bem antigo mesmo. Aos que já leram peço desculpas....ou releia, se estiver aí só esperando o reveillon. Faça uma blogueira feliz. Na verdade não posso reclamar, não tenho muitos leitores, mas os que tenho são muito fiéis, muitos de vocês me visitam desde 2004. Muito, muito obrigada. Outros leitores apareceram, deixaram comentários super gentis e nenhuma referência, não posso nem agradecer. Quer dizer, agradeço aqui, aos que continuam visitando. É claro que sempre há aqueles desocupados e sem educação que passam por tudo quanto é blog para tentar aporrinhar e deixar comentário mal educado. Esses eu finjo que nem existem e logo desaparecem.


Um abração para todos vocês, um feliz 2008 e muito obrigada mesmo.]
......

Conto

Doce é a infância



Na frente da casa, do outro lado da rua, ficava a cadeia. Um dia Lídia, ainda tão pequenina, caminhava sob os mangueirais quando o seu olhar cruzou-se com o de um prisioneiro à janela, as pernas e os braços livres, enfiados na grade. Podia vê-lo muito bem, a cadeia não era cercada por muros. O encontro durou poucos segundos, ela continuou os seus passos lentos, chutou algumas folhas e, decerto, desviou o olhar. Foi então que o prisioneiro disse: ‘Não precisa ter medo.’ Ela chutou mais algumas folhas e continuou a andar olhando para o chão. Não tinha medo, raciocinou, afinal, ele estava do outro lado da grade e ela de fora. Mas quem era ele? Nessa altura, já tinha aprendido que aquela casa amarela não era uma moradia de gente ‘de bem’, muito embora não compreendesse o exato significado disso. Sabia, entretanto, que se a mãe chegasse ao portão e a visse dirigindo a palavra a um prisioneiro ela estaria frita. Não, não respondeu e se perguntou o que teria ele feito para merecer estar ali a observar as mangueiras por detrás daquelas grades enferrujadas. Abandonou o homem à contemplação, atravessou a rua e entrou em casa. Passou direto pela porta da cozinha onde a mãe estava ocupada com as panelas e foi para o fundo do quintal, subiu em alguns tijolos que já estavam estrategicamente postos ali e espreitou o vizinho mudo que passava os seus dias a limpar a casa. Limpava tanto que o chão refletia. Pelo muro ela, as irmãs e primas costumavam observar o mudo e o alpendre reluzente e riam sem saber porquê. O mudo tinha um mico preso por uma corrente e um papagaio. E o papagaio falava. Pois é.

O mudinho, diziam, ia com meninos para o meio do mato. E daí que o mudinho fosse para o mato com os meninos? Ninguém era proibido de andar no mato. Ou a ele isso era proibido só porque era mudo? Mais um dos muitos mistérios. ‘O mudinho vai para o mato com os meninos’. Até a prima viera lhe dizer isso esperando que confessasse a sua ignorância mas ela só fez arregalar bem os olhos como se a revelação a tivesse impressionado muito.

Desceu num pulo dos tijolos quando ouviu a voz nervosa da mãe e, na pressa, arranhou os dedos no muro. A mãe mandou-a comprar verduras e advertiu que não perdesse o dinheiro como tinha feito da última vez. ´Essa menina parece que vive no mundo da lua!` Ouviu a mãe dizer e apertou as notas. Quando voltava, andando devagar e distraída, pela rua seis, a principal, deixou tudo cair por terra. Na sua frente apareceu um menino que ela conhecia de vista do catecismo. Assustou-se com aquela presença, o menino era um demônio que vivia atormentando as irmãs e as meninas, juntava-se a outros e balançava violentamente a corda do sino que retinia desesperado e sem propósito. As irmãs acudiam apressadas, levantando os longos vestidos e ameaçando chamar o padre. Nada disso assustava aquele moleque que, dependurado na corda, gargalhava fazendo blém…blém…blém… e só corria quando as irmãs já estavam bem próximas.


Pois esse mesmo menino estava ali, na sua frente e, num gesto inesperado, ajudou-a a recolher os legumes. Com a cara rubra, pressentindo o pior, balbuciou, timidamente: ‘obrigada’. Ele riu alto e repetiu a última frase da piada do elefante e da formiguinha: ´Obrigado nada, pode ir descendo a calcinha`. Lídia fugiu apavorada deixando para trás umas batatinhas.

Como foi boba, por um segundo acreditou na pureza daquele gesto, por um segundo aquele menino tinha mudado aos seus olhos, não podia ser o diabo que pintavam. Pode ser… pode ser que, por um segundo, a sua intenção tenha sido a de ajudá-la, mas, no último instante, ao olhar para aquele passarinho frágil não tenha resistido à tentação de dar uma pedrada.





Bruxelas, inverno de 2003.





quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Entrevista com A. Lobo Antunes



Muito interessante esta entrevista com A. Lobo Antunes no Globo.
Esta aí um escritor completamente 'virgem' para mim. Infelizmente ainda não li nada da obra dele, devia ter lido, certamente, mas há muita coisa que eu devia ter lido e que ainda não li. C'est la vie. Nesta entrevista ele conta que é descendente de brasileiros do Pará, que é primo de Edu Lobo, fala do gosto pela literatura brasileira, que o Jorge Amado é injustiçado no Brasil e etc e tal. Vale a pena escutar.
"Quer escrever prosa? Leia poesia." A.L.A.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

BOAS FESTAS !


Feliz Natal a todos!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Os 100 livros essenciais da Bravo


Acabei não resistindo, mesmo sabendo que não se deve dar tanta importância a listas desse tipo, comprei a revista Bravo com os 100 melhores títulos de literatura. Alguns títulos, muitos, são óbvios e não poderiam falta a nenhuma lista do gênero, outros não sei julgar. Em todo caso, fiquei contente por encontrar aí o autor japonês Junichiro Tanizaki, por exemplo, embora o livro citado não seja o meu preferido. Adoro J. Conrad, não só este livro, mas tudo o que já li dele, adoro Lolita, não me lembro de ter lido outro Nabokov, mas ainda vou ler. Li muitos dos franceses aí da lista no curso de Letras (ou depois), Oscar Wilde é também um dos meus autores preferidos. Gosto mais da longa carta que ele escreveu na prisão, De Profundis, etc, etc, etc...
E você, o que achou da lista?

1. Ilíada, Homero

2. Odisséia, Homero

3. Hamlet, William Shakespeare

4. Dom Quixote, Miguel de Cervantes

5. A Divina Comédia, Dante Alighieri

6. Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust

7. Ulysses, James Joyce

8. Guerra e Paz, Leon Tolstoi

9. Crime e Castigo, Dostoiévski

10. Ensaios, Michel de Montaigne

11. Édipo Rei, Sófocles

12. Otelo, William Shakespeare

13. Madame Bovary, Gustave Flaubert

14. Fausto, Goethe

15. O Processo, Franz Kafka

16. Doutor Fausto, Thomas Mann

17. As Flores do Mal, Charles Baldelaire

18. Som e a Fúria, William Faulkner

19. A Terra Desolada, T.S. Eliot

20. Teogonia, Hesíodo

21. As Metamorfoses, Ovídio

22. O Vermelho e o Negro, Stendhal

23. O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald

24. Uma Estação No Inferno, Arthur Rimbaud

25. Os Miseráveis, Victor Hugo

26. O Estrangeiro, Albert Camus

27. Medéia, Eurípedes

28. A Eneida, Virgilio

9. Noite de Reis, William Shakespeare

30. Adeus às Armas, Ernest Hemingway

31. Coração das Trevas, Joseph Conrad

32. Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

33. Mrs. Dalloway, Virgínia Woolf

34. Moby Dick, Herman Melville

35. Histórias Extraordinárias, Edgar Allan Poe

36. A Comédia Humana, Balzac

37. Grandes Esperanças, Charles Dickens

38. O Homem sem Qualidades, Robert Musil

39. As Viagens de Gulliver, Jonathan Swift

40. Finnegans Wake, James Joyce

41. Os Lusíadas, Luís de Camões

42. Os Três Mosqueteiros, Alexandre Dumas

43. Retrato de uma Senhora, Henry James

44. Decameron, Boccaccio

45. Esperando Godot, Samuel Beckett

46. 1984, George Orwell

47. Galileu Galilei, Bertold Brecht

48. Os Cantos de Maldoror, Anais Nin

49. A Tarde de um Fauno, Mallarmé

50. Lolita, Vladimir Nabokov

51. Tartufo, Molière

52. As Três Irmãs, Anton Tchekov

53. O Livro das Mil e uma Noites

54. Don Juan, Tirso de Molina

55. Mensagem, Fernando Pessoa

56. Paraíso Perdido, John Milton

57. Robinson Crusoé, Daniel Defoe

58. Os Moedeiros Falsos, André Gide

59. Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis

60. Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

61. Seis Personagens em Busca de um Autor, Luigi Pirandello

62. Alice no País das Maravilhas, Lewis Caroll

63. A Náusea, Jean-Paul Sartre

64. A Consciência de Zeno, Italo Svevo

65. A Longa Jornada Adentro, Eugene O'Neill

66. A Condição Humana, André Malraux

67. Os Cantos, Ezra Pound

68. Canções da Inocência/ Canções do Exílio, William Blake

69. Um Bonde Chamado Desejo, Teneessee Williams

70. Ficções, Jorge Luis Borges

71. O Rinoceronte, Eugène Ionesco

72. A Morte de Virgilio, Herman Broch

73. As Folhas da Relva, Walt Whitman

74. Deserto dos Tártaros, Dino Buzzati

75. Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez

76. Viagem ao Fim da Noite, Louis-Ferdinand Céline

77. A Ilustre Casa de Ramires, Eça de Queirós

78. Jogo da Amarelinha, Julio Cortazar

79. As Vinhas da Ira, John Steinbeck

80. Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar

81. O Apanhador no Campo de Centeio, J.D. Salinger

82. Huckleberry Finn, Mark Twain

83. Contos de Hans Christian Andersen

84. O Leopardo, Tomaso di Lampedusa

85. Vida e Opiniões do Cavaleiro Tristram Shandy, Laurence Sterne

86. Passagem para a Índia, E.M. Forster

87. Orgulho e Preconceito, Jane Austen

88. Trópico de Câncer, Henry Miller

89. Pais e Filhos, Ivan Turgueniev

90. O Náufrago, Thomas Bernhard

91. A Epopéia de Gilgamesh

92. O Mahabharata

93. As Cidades Invisíveis, Italo Calvino

94. On the Road, Jack Kerouac

95. O Lobo da Estepe, Hermann Hesse

96. Complexo de Portnoy, Philip Roth

97. Reparação, Ian MacEwan

98. Desonra, J.M. Coetzee

99. As Irmãs Makioka, Junichiro Tanizaki

100 Pedro Páramo, Juan Rulfo

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Exército americano e suicídio


[Eu já tinha lido sobre os suicídios dos soldados americanos, o número é tão elevado que, em princípio acreditei que fosse um exagero. Parece qu enão é. Esse texto abaixo eu retirei do Briteiros.]

No exército americano também há suicidas

George W. Bush costuma dizer que só os terroristas se suicidam; que os terroristas suicidas “não são como os nossos; não dão valor à vida como nós damos”. Santa ironia, santa ignorância. Uma investigação da CBS News revela que, em 2005, se suicidaram 6.256 efectivos que haviam participado nas guerras do Iraque e do Afeganistão. Uma média de 120 por semana, sete em cada dia. E isso num só ano: quase o dobro dos que caíram em mais de quatro anos de conflito. A investigação da CBS News durou cinco meses. Reuniu informações de várias fontes oficiais, consultou especialistas e comparou as taxas de suicídios dos ex-combatentes com as do resto da população. Padeciam do chamado stress pós-traumático, uma generalidade que pode englobar muitas coisas: horrores do combate, crimes cometidos ou vistos cometer, desilusões da “liberdade e democracia” que era suposto levarem a esses países, angústias, pesadelos, remorsos, ... Um outro estudo, publicado pela Reuters revela que mais de 25 por cento dos efectivos em actividade e 50 por cento dos reservistas, que regressaram a casa, apresentam sintomas de perturbações mentais. Penny Coleman, viúva de um veterano do Vietname, escreveu um artigo difundido nesta 2ª Feira pelo Independent Media Institute — um organismo que apoia o jornalismo independente — “Há algo de superioridade, tão arrogante, na maneira como falamos nos atacantes suicidas e nas culturas que os produzem. E assoma um sentimento inquietante: Em 2005, 6.256 veteranos americanos puseram fim à vida. Nesse mesmo ano, houve cerca de 130 mortes documentadas de atacantes suicidas no Iraque. Façam as contas. A proporção é de 50 para 1. Quem são então os mais eficazes na criação de uma cultura do suicídio e do martírio? Se George Bush tem razão quando diz que é o desespero, o desleixo e a pobreza, que impele essa gente a cometer tais actos, não são os americanos quem mais se pode gabar de um melhor desempenho nessa matéria?”. E neste caso, não são fiéis do Islão nem árabes, que W. tanto despreza, mas sim — à excepção dos psicopatas que sempre existem — pessoas que se alistaram por pobreza ou à procura de oportunidades de carreira... e não porque queriam matar civis.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

In the mood for love


Um dia desses vi esse filme que eu 'estava para ver' há muito, mas muito tempo mesmo. Desde a época que o filme saiu uma amiga me indica...é bonito, adorei. Uma história de amor e amantes, toda enrolada, cheia de não-ditos e tentativas. Silêncios e olhares. E muitas cores bonitas também.
...
E meu blog tão abandonado. Não é só o blog, é da internet de um modo geral que estou afastada por causa de trabalho, preguiça. Preguiça de internet? Não sei, preguiça de tudo que às vezes me bate e que um dia tentarei explicar melhor. Explicar para quem? Para mim, inclusive.
....
Mas tenho visto muitos filmes que queria ver e tenho lido, menos do que gostaria, mas tenho lido e tenho sido 'social'. Mais 'social' do que eu gostaria. O que isso de 'ser social'? É ter que fazer o que em inglês se chama de 'small talk'.
Mas está tudo sob controle. E agora vi que tem mas demais aqui...que pena!