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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O Poema da sexta-feira


Barbara

Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là
Et tu marchais souriante
Épanouie ravie ruisselante
Sous la pluie
Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest
Et je t'ai croisée rue de Siam
Tu souriais
Et moi je souriais de même
Rappelle-toi Barbara
Toi que je ne connaissais pas
Toi qui ne me connaissais pas
Rappelle-toi
Rappelle-toi quand même ce jour-là
N'oublie pas
Un homme sous un porche s'abritait
Et il a crié ton nom
Barbara
Et tu as couru vers lui sous la pluie
Ruisselante ravie épanouie
Et tu t'es jetée dans ses bras
Rappelles-toi cela Barbara
Et ne m'en veux pas si je te tutoie
Je dis tu à tous ceux que j'aime
Même si je ne les ai vus qu'une seule fois
Je dis tu à tous ceux qui s'aiment
Même si je ne les connais pas
Rappelle-toi Barbara
N'oublie pas
Cette pluie sage et heureuse
Sur ton visage heureux
Sur cette ville heureuse
Cette pluie sur la mer
Sur l'arsenal
Sur le bateau d'Ouessant
Oh Barbara
Quelle connerie la guerre
Qu'es-tu devenue maintenant
Sous cette pluie de fer
De feu d'acier de sang
Et celui qui te serrait dans ses bras
Amoureusement
Est-il mort disparu ou bien encore vivant
Oh Barbara
Il pleut sans cesse sur Brest
Comme il pleuvait avant
Mais ce n'est plus pareil et tout est abîmé
C'est une pluie de deuil terrible et désolée
Ce n'est même plus l'orage
De fer d'acier de sang
Tout simplement des nuages
Qui crèvent comme des chiens
Des chiens qui disparaissent
Au fil de l'eau sur Brest
Et vont pourrir au loin
Au loin très loin de Brest
Dont il ne reste rien

Jacques PRÉVERT, Paroles ©1972 Editions Gallimard

........

Eu gosto muito deste poema, eu me lembro que ele fazia parte de um dos métodos de francês pelo qual eu passei. Eu gostei dele desde a primeira leitura, não sabia nada de Brest na época, o poema me deixava curiosa. A cidade foi bombardeada e praticamente arrasada durante a segunda guerra, o que importa no poema é a cidade em si, a Barbara é um pretexto para a homenagem a Brest, ou talvez não seja só um pretexto, pode ser uma das tantas garotas que se despediam do namorado.
É possível escutar o poema aqui.
...
Gosto tanto que estou postando de novo.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Lavoura Arcaica


Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul, violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, o quarto catedral, onde nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiros os objetos do corpo (...) (NASSAR, 1989, p. 9)

Início do romance (romance?) Lavoura Arcaica de Raduan Nassar,que terminei de ler esses dias. Livro que eu já devia ter lido há muito tempo, eu sei.

Outro trecho maravilhoso, mas o livro é todo assim, na verdade, é difícil escolher trechos, mas gosto de discussões sobre o tempo:

O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros (...) (NASSAR, 1989, p. 95)

domingo, 19 de setembro de 2010

Primo Levi

No feriado de 7 de setembro eu viajei um pouco, mas mais interessante que a viagem foi a leitura de mais um livro de Primo Levi, A Trégua. Neste livro, que é autobiográfico como toda ou quase toda sua obra, ele narra a viagem de volta à Itália depois do final da guerra. Se é que uma guerra termina, num dado momento do livro um dos seus companheiros de desgraça lhe diz, para dar um sacolejo: "Guerra é sempre'. Para os que não sabem, Primo Levi era um judeu italiano, um jovem químico na época do holocausto. O primeiro livro que li dele, há muitos anos, foi emprestado pela minha irmã que o leu no curso de história quando estava fazendo um trabalho sobre memória, chama-se Os Afogados e os Sobreviventes. Já nessa época fiquei muito impressionada e pretendo ler todos os livros dele que encontrar por mais tristes que sejam.
Triste sobretudo depois de eu ter vivido vários anos na Europa e de ter tido contato com tanta gente que, ainda hoje, está marcada pelo holocausto. Historicamente foi 'ontem'. O pai do meu marido era um sobrevivente do holocausto, passou vários anos em campos de concentração, quando saiu não pesava 40 kilos, inúmeros problemas de saúde e problemas psicológicos dos quais nunca se livrou, só na morte. O avó materno das filhas do meu marido, que era alemão e judeu, perdeu a mãe e outros familiares no holocausto.
Um dia, quando vivia em Bruxelas, uma vizinha, uma senhora luxemburguesa, me parou no corredor para reclamar de outro vizinho, um chileno realmente insuportável mal educado e violento, eu ainda não o conhecia direito e resolvi tentar uma defesa tosca, disse 'madame, um pouco de paciência, vai ver que ele foi muito maltratado por Pinochet.....' e tive que ouvir uma hora de aula de história sobre a segunda guerra e tudo que ela e a família tinham passado para me dizer que 'nada' justificava as atitudes do vizinho. Era assim na Europa, às vezes no meio de um jantar o assunto surgia, eu sempre prestava muita atenção, não que o assunto fosse novo, mas a proximidade com vítimas e testemunhos, isso era muito novo. Lendo Primo Levi, aprendo mais ainda e aí me perguntei "sim, conheço um pouco mais sobre a segunda guerra, conheço o testemunho de mais um sobrevivente, isso ajuda em quê? Se amanhã houver algo parecido (ou algo parecido não estaria acontecendo hoje em algum lugar no mundo?) esse conhecimento me ajudaria de que modo? O que eu poderia fazer para ajudar a evitar?" Talvez por eu ser muito pessimista a resposta a que cheguei foi a de que, muito provavelmente, isso não ajudaria em nada. Não somos super heróis. O companheiro da minha irmã é também sobrevivente de uma tragédia política, (ou se lá como chamar isso), é ruandês. Um dia, não falávamos do genocídio no seu país que não é seu assunto preferido, mas sim do holocausto e ele disse que achava que certas coisas era 'melhor tentar esquecer'. Pode ser que tenha razão, mas não consigo aceitar isso e prefiro seguir sabendo, mesmo sendo impotente.

Um trecho de A Trégua:

"Regressávamos mais ricos ou mais pobres, mais fortes ou mais vazios? Não sabíamos: mas sabíamos que nos patamares das nossas casas, para o bem ou para o mal, nos esperava uma prova, e aguardávamo-la com temor."
....
Na foto Primo Levi com seu olhar triste.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Lendo: João do Rio

Estou lendo este livro de contos de João do Rio, seleção de Helena Parente Cunha que ganhei de presente. Um dos contos mais conhecidos deve ser este que publico aí abaixo. Todos os contos (até agora pelo menos) seguem a mesma linha, numa roda de amigos alguém começa a contar uma história sobre si mesmo ou sobre alguém que ele conhece, anuncia sempre algo surpreendente prendendo assim a atenção dos ouvintes (leitor) e prossegue. É interessante notar os costumes da época, a mudança na linguagem, a influência francesa na linguagem (muito) e nos costumes, a cidade do Rio, a maneira como se festejava na época, a maneira como as mulheres eram tratadas, como eram mais dependentes...infelizmente não tenho o livro aqui comigo para citar exemplos e tenho tido pouco tempo de fazer anotações durante as leituras, mal tenho tempo para ler. Leiam o conto abaixo se tiverem paciência de ler na tela e tirem algumas conclusões.

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O BEBÊ DE TARLATANA ROSA


João do Rio


- Oh! uma história de máscaras! quem não a tem na sua vida? O carnaval só é interessante porque nos dá essa sensação de angustioso imprevisto... Francamente. Toda a gente tem a sua história de carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias atrozes. Um carnaval sem aventuras não é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura...

E Heitor de Alencar esticava-se preguiçosamente no divã, gozando a nossa curiosidade.
Havia no gabinete o barão Belfort, Anatólio de Azambuja de que as mulheres tinham tanta implicância, Maria de Flor, a extravagante boêmia, e todos ardiam por saber a aventura de Heitor. O silêncio tombou expectante. Heitor, fumando um gianaclis autêntico, parecia absorto.

- É uma aventura alegre? indagou Maria.
- Conforme os temperamentos.
- Suja?
- Pavorosa ao menos.
- De dia?
- Não. Pela madrugada.
- Mas, homem de Deus, conta! suplicava Anatólio. Olha que está adoecendo a Maria.

Heitor puxou um largo trago à cigarreta.

- Não há quem não saia no Carnaval disposto no excesso, disposto aos transportes da carne e às maiores extravagâncias. O desejo, quase doentio é como incutido, infiltrado pelo ambiente. Tudo respira luxúria, tudo tem da ânsia e do espasmo, e nesses quatro dias paranóicos, de pulos, de guinchos, de confianças ilimitadas, tudo é possível. Não há quem se contente com uma...
- Nem com um, atalhou Anatólio.
- Os sorrisos são ofertas, os olhos suplicam, as gargalhadas passam como arrepios de urtiga pelo ar. É possível que muita gente consiga ser indiferente. Eu sinto tudo isso. E saindo, à noite, para a pornéia da cidade, saio como na Fenícia saíam os navegadores para a procissão da Primavera, ou os alexandrinos para a noite de Afrodita.
- Muito bonito! ciciou Maria de Flor.
- Está claro que este ano organizei uma partida com quatro ou cinco atrizes e quatro ou cinco companheiros. Não me sentia com coragem de ficar só como um trapo no vagalhão de volúpia e de prazer da cidade. O grupo era o meu salva-vidas. No primeiro dia, no sábado, andávamos de automóvel a percorrer os bailes. Íamos indistintamente beber champagne aos clubes de jogo que anunciavam bailes e aos maxixes mais ordinários. Era divertidíssimo e ao quinto clube estávamos de todo excitados. Foi quando lembrei uma visita ao baile público do Recreio. - "Nossa Senhora! disse a primeira estrela de revistas, que ia conosco. Mas é horrível! Gente ordinária, marinheiros à paisana, fúfias do pedaços mais esconsos da rua de S. Jorge, um cheiro atroz, rolos constantes..." - Que tem isso? Não vamos juntos?"

Com efeito. Íamos juntos e fantasiadas as mulheres. Não havia o que temer e a gente conseguia realizar o maior desejo: acanalhar-se, enlamear-se bem. Naturalmente fomos e era desolação com pretas beiçudas e desdentadas esparrimando belbutinas fedorentas pelo estrado da banda militar, todo o pessoal de azeiteiros das ruelas lôbregas e essas estranhas figuras de larvas diabólicas, de íncubos em frascos de álcool, que têm as perdidas de certas ruas, moças, mas com os traços como amassados e todas pálidas, pálidas feitas de pasta de mata-borrão e de papel-arroz. Não havia nada de novo. Apenas, como o grupo parara diante dos dançarinos, eu senti que se roçava em mim, gordinho e apetecível, um bebê de tarlatana rosa. Olhei-lhe as pernas de meia curta. Bonitas. Verifiquei os braços, o caído das espáduas, a curva do seio. Bem agradável. Quanto ao rosto era um rostinho atrevido, com dois olhos perversos e uma boca polpuda como se ofertando. Só postiço trazia o nariz, um nariz tão bem-feito, tão acertado, que foi preciso observar para verificá-lo falso. Não tive dúvida. Passei a mão e preguei-lhe um beliscão. O bebê caiu mais e disse num suspiro: - ai que dói! Estão vocês a ver que eu fiquei imediatamente disposto a fugir do grupo. Mas comigo iam cinco ou seis damas elegantes capazes de se debochar mas de não perdoar os excessos alheios, e era sem linha correr assim, abandonando-as, atrás de uma freqüentadora dos bailes do Recreio. Voltamos para os automóveis e fomos cear no clube mais chic e mais secante da cidade.
- E o bebê?
- O bebê ficou. Mas no domingo, em plena Avenida, indo eu ao lado do chauffeur; no burburinho colossal, senti um beliscão na perna e urna voz rouca dizer: "para pagar o de ontem". Olhei. Era o bebê rosa, sorrindo, com o nariz postiço, aquele nariz tão perfeito. Ainda tive tempo de indagar: aonde vais hoje?
- A toda parte! respondeu, perdendo-se num grupo tumultuoso.
- Estava perseguindo-te! comentou Maria de Flor.
- Talvez fosse um homem... soprou desconfiado o amável Anatólio.
- Não interrompam o Heitor! fez o barão, estendendo a mão.

Heitor acendeu outro gianaclis, ponta de ouro, continuou:
- Não o vi mais nessa noite e segunda-feira não o vi também. Na terça desliguei-me do grupo e cai no mar alto da depravação, só, com uma roupa leve por cima da pele e todos os maus instintos fustigados. De resto a cidade inteira estava assim. É o momento em que por trás das máscaras as meninas confessam paixões aos rapazes, é o instante em que as ligações mais secretas transparecem, em que a virgindade é dúbia e todos nós a achamos inútil, a honra uma caceteação, o bom senso uma fadiga. Nesse momento tudo é possível, os maiores absurdos, os maiores crimes; nesse momento há um riso que galvaniza os sentidos e o beijo se desata naturalmente.
Eu estava trepidante, com uma ânsia de acanalhar-me, quase mórbida. Nada de raparigas do galarim perfumadas e por demais conhecidas, nada do contato familiar, mas o deboche anônimo, o deboche ritual de chegar, pegar, acabar, continuar. Era ignóbil. Felizmente muita gente sofre do mesmo mal no carnaval.
- A quem o dizes!... suspirou Maria de Flor.
- Mas eu estava sem sorte, com a guigne, com o caiporismo dos defuntos índios. Era aproximar-me, era ver fugir a presa projetada. Depois de uma dessas caçadas pelas avenidas e pelas praças, embarafustei pelo S. Pedro, meti-me nas danças, rocei-me àquela gente em geral pouco limpa, insisti aqui, ali. Nada!
- É quando se fica mais nervoso!
- Exatamente. Fiquei nervoso até o fim do baile, vi sair toda gente, e saí mais desesperado. Eram três horas da manhã. O movimento das ruas abrandara. Os outros bailes já tinham acabado. As praças, horas antes incendiadas pelos projetores elétricos e as cambiantes enfumadas dos fogos de bengala, caiam em sombras - sombras cúmplices da madrugada urbana. E só, indicando a folia, a excitação da cidade, um ou outro carro arriado levando máscaras aos beijos ou alguma fantasia tilintando guizos pelas calçadas fofas de confete. Oh! a impressão enervante dessas figuras irreais na semi-sombra das horas mortas, roçando as calçadas, tilintando aqui, ali um som perdido de guizo! Parece qualquer coisa de impalpável, de vago, de enorme, emergindo da treva aos pedaços... E os dominós embuçados, as dançarinas amarfanhadas, a coleção indecisa dos máscaras de último instante arrastando-se extenuados! Dei para andar pelo largo do Rocio e ia caminhando para os lados da secretaria do interior, quando vi, parado, o bebê de tarlatana rosa.
Era ele! Senti palpitar-me o coração. Parei.
- "Os bons amigos sempre se encontram" disse.
O bebê sorriu sem dizer palavra. Estás esperando alguém? Fez um gesto com a cabeça que não. Enlacei-o. - Vens comigo? Onde? indagou a sua voz áspera e rouca. - Onde quiseres! Peguei-lhe nas mãos. Estavam úmidas mas eram bem tratadas. Procurei dar-lhe um beijo. Ela recuou. Os meus lábios tocaram apenas a ponta fria do seu nariz. Fiquei louco.
- Por pouco...
- Não era preciso mais no Carnaval, tanto mais quanto ela dizia com a sua voz arfante e lúbrica: - "Aqui não!" Passei-lhe o braço pela cintura e fomos andando sem dar palavra. Ela apoiava-se em mim, mas era quem dirigia o passeio e os seus olhos molhados pareciam fruir todo o bestial desejo que os meus diziam. Nessas fases do amor não se conversa. Não trocamos uma frase. Eu sentia a ritmia desordenada do meu coração e o sangue em desespero. Que mulher! Que vibração! Tínhamos voltado ao jardim. Diante da entrada que fica fronteira à rua Leopoldina, ela parou, hesitou. Depois arrastou-me, atravessou a praça, metemo-nos pela rua escura e sem luz. Ao fundo, o edifício das Belas-Artes era desolador e lúgubre. Apertei-a mais. Ela aconchegou-se mais. Como os seus olhos brilhavam! Atravessamos a rua Luís de Camões, ficamos bem embaixo das sombras espessas do Conservatório de Música. Era enorme o silêncio e o ambiente tinha uma cor vagamente ruça com a treva espancada um pouco pela luz dos combustores distantes. O meu bebê gordinho e rosa parecia um esquecimento do vicio naquela austeridade da noite. - Então, vamos? indaguei. - Para onde? - Para a tua casa. - Ah! não, em casa não podes... - Então por aí. - Entrar, sair, despir-me. Não sou disso! - Que queres tu, filha? É impossível ficar aqui na rua. Daqui a minutos passa a guarda. - Que tem? - Não é possível que nos julguem aqui para bom fim, na madrugada de cinzas. Depois, às quatro tens que tirar a máscara. - Que máscara? - O nariz. - Ah! sim! E sem mais dizer puxou-me. Abracei-a. Beijei-lhe os braços, beijei-lhe o colo, beijei-lhe o pescoço. Gulosamente a sua boca se oferecia. Em torno de nós o mundo era qualquer coisa de opaco e de indeciso. Sorvi-lhe o lábio.
Mas o meu nariz sentiu o contato do nariz postiço dela, um nariz com cheiro a resina, um nariz que fazia mal. - Tira o nariz! - Ela segredou: Não! não! custa tanto a colocar! Procurei não tocar no nariz tão frio naquela carne de chama.
O pedaço de papelão, porém, avultava, parecia crescer, e eu sentia um mal-estar curioso, um estado de inibição esquisito. - Que diabo! Não vás agora para casa com isso! Depois não te disfarça nada. - Disfarça sim! - Não! procurei-lhe nos cabelos o cordão. Não tinha. Mas abraçando-me, beijando-me, o bebê de tarlatana rosa parecia uma possessa tendo pressa. De novo os seus lábios aproximaram-se da minha boca. Entreguei-me. O nariz roçava o meu, o nariz que não era dela, o nariz de fantasia. Então, sem poder resistir, fui aproximando a mão, aproximando, enquanto com a esquerda a enlaçava mais, e de chofre agarrei o papelão, arranquei-o. Presa dos meus lábios, com dois olhos que a cólera e o pavor pareciam fundir, eu tinha uma cabeça estranha, uma cabeça sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão, uma cabeça que era alucinante - uma caveira com carne...
Despeguei-a, recuei num imenso vômito de mim mesmo. Todo eu tremia de horror, de nojo. O bebê de tarlatana rosa emborcara no chão com a caveira voltada para mim, num choro que lhe arregaçava o beiço mostrando singularmente abaixo do buraco do nariz os dentes alvos. - Perdoa! Perdoa! Não me batas. A culpa não é minha! Só no Carnaval é que eu posso gozar. Então, aproveito, ouviste? aproveito. Foste tu que quiseste...
Sacudi-a com fúria, pu-la de pé num safanão que a devia ter desarticulado. Uma vontade de cuspir, de lançar apertava-me a glote, e vinha-me o imperioso desejo de esmurrar aquele nariz, de quebrar aqueles dentes, de matar aquele atroz reverso da Luxúria... Mas um apito trilou. O guarda estava na esquina e olhava-nos, reparando naquela cena da semitreva. Que fazer? Levar a caveira ao posto policial? Dizer a todo o mundo que a beijara? Não resisti. Afastei-me, apressei o passo e ao chegar ao largo inconscientemente deitei a correr como um louco para a casa, os queixos batendo, ardendo em febre.
Quando parei à porta para tirar a chave, é que reparei que a minha mão direita apertava uma pasta oleosa e sangrenta. Era o nariz do bebê de tarlatana rosa...
Heitor de Alencar parou, com o cigarro entre os dedos, apagado. Maria de Flor mostrava uma contração de horror na face e o doce Anatólio parecia mal. O próprio narrador tinha a camarinhar-lhe a fronte gotas de suor. Houve um silêncio agoniento. Afinal o barão Belfort ergueu-se, tocou a campainha para que o criado trouxesse refrigerantes e resumiu:
- Uma aventura, meus amigos, uma bela aventura. Quem não tem do Carnaval a sua aventura? Esta é pelo menos empolgante.

E foi sentar-se ao piano.

sábado, 7 de agosto de 2010

Salman Rushdie

"O bom dos deuses é que eles são descartáveis, viram mitos", disse. E depois: "Não estou interessado nas pessoas que têm respostas. É muito mais interessante ter dúvidas".


Salman Rushdie, na Folha, 06/08/2010

terça-feira, 22 de junho de 2010

Lendo:

Caim
José Saramago.

Trecho:


"Quando o senhor, também conhecido como deus, se apercebeu de que a adão e eva, perfeitos em tudo o que apresentavam à vista, não lhes saía uma palavra da boca nem emitiam ao menos um simples som primário que fosse, teve de ficar irritado consigo mesmo, uma vez que não havia mais ninguém no jardim do éden a quem pudesse responsabilizar pela gravíssima falta, quando os outros animais, produtos, todos eles, tal como os dois humanos, do faça-se divino, uns por meio de mugidos e rugidos, outros por roncos, chilreios, assobios e cacarejos, desfrutavam já de voz própria. Num acesso de ira, surpreendente em quem tudo poderia ter solucionado com outro rápido fiat, correu para o casal e, um após outro, sem contemplações, sem meias-medidas, enfiou-lhes a língua pela garganta abaixo. Dos escritos em que, ao longo dos tempos, vieram sendo consignados um pouco ao acaso os acontecimentos destas remotas épocas, quer de possível certificação canónica futura ou fruto de imaginações apócrifas e irremediavelmente heréticas, não se aclara a dúvida sobre que língua terá sido aquela, se o músculo flexível e húmido que se mexe e remexe na cavidade bucal e às vezes fora dela, ou a fala, também chamada idioma, de que o senhor lamentavelmente se havia esquecido e que ignoramos qual fosse, uma vez que dela não ficou o menor vestígio, nem ao menos um coração gravado na casca de uma árvore com uma legenda sentimental, qualquer coisa no género amo-te, eva. Como uma coisa, em princípio, não deveria ir sem a outra, é provável que um outro objectivo do violento empurrão dado pelo senhor às mudas línguas dos seus rebentos fosse pô-las em contacto com os mais profundos interiores do ser corporal, as chamadas incomodidades do ser, para que, no porvir, já com algum conhecimento de causa, pudessem falar da sua escura e labiríntica confusão a cuja janela, a boca, já começavam elas a assomar. Tudo pode ser. Evidentemente, por um escrúpulo de bom artífice que só lhe ficava bem, além de compensar com a devida humildade a anterior negligência, o senhor quis comprovar que o seu erro havia sido corrigido, e assim perguntou a adão, Tu, como te chamas, e o homem respondeu, Sou adão, teu primogénito, senhor. Depois, o criador virou-se para a mulher, E tu, como te chamas tu, Sou eva, senhor, a primeira dama, respondeu ela desnecessariamente, uma vez que não havia outra. Deu-se o senhor por satisfeito, despediu-se com um paternal Até logo, e foi à sua vida. Então, pela primeira vez, adão disse para eva, Vamos para a cama."

domingo, 20 de junho de 2010

1933 foi um ano ruim


Essa semana li 1933 foi um ano ruim, de John Fante e gostei muito. O livro é, pelo menos em parte, autobiográfico, como quase toda literatura de Fante, ao que parece, não o conheço muito bem.

Em 1933 foi um ano ruim o narrador, Dominic Molise, tem 17 anos, é filho de um pedreiro, imigrante italiano, sem trabalho naquele momento e de uma dona de casa também de origem italiana, católica, frustrada, meio resignada, tem também a avó, italiana, claro, que só fala italiano, reclama de tudo e de todos, sobretudo de ter ido parar nos Estados Unidos, terra de perdição. Fiquei com muita pena dela, uma dessas imigrantes que ficam completamente desorientadas no novo lugar, sonhando com sua aldeia natal, sem raízes, sem língua, parecendo um fantasma.

Dominic Molise sonha em deixar o Colorado onde vive com a família na pobreza, em ir para a Califórnia, tornar-se jogador profissional de baseball, um arremessador graças à força que tem no braço, esse braço ele trata muito bem, dialoga com ele, massageia, aplica um óleo fedorento para proteger do frio mesmo sabendo que pode ser colocado para fora da sala de aula por causa das reclamações dos outros alunos. Nada interessa, só tem uma ideia em mente, ir para longe. Tem um amigo, um garoto rico com quem divide o interesse pelo esporte e os sonhos de se tornar um jogador famoso e ganhar dinheiro.


Eu li o livro em português mesmo, foi emprestado por uma aluna (uma das poucas que lê), mas vou deixar aqui uma citação em inglês que copiei de um site, o livro eu já devolvi, ou melhor, repassei para outro professor, colega meu, que também queria ler.


"Oh, God, help me! And I walked faster, my thoughts pursuing me, and I began to run, my frozen shoes squealing like mice, but running didn't help, the thoughts to the left and right and behind me. But as I ran, The Arm, that good left arm, took hold of the situation and spoke soothingly: ease up, Kid, it's loneliness, you're all alone in the world; your father, your mother, your faith, they can't help you, nobody helps anybody, you only help yourself, and that's why I'm here, because we are inseperable, and we'll take care of everything.
"
John Fante (1933 Was a Bad Year)

John Fante era americano de origem italiana, nasceu no Colorado em 1909 e morreu em Los Angeles em 1983.