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quarta-feira, 7 de julho de 2010

Buda - Tailândia

Uma de minhas fotos da Ásia, lá se vão alguns anos, minha viagem à Tailândia deve ter sido em 2oo1, eu me lembro que passei o natal lá e que um conhecido tailandês que nos acompanhava, o meu amigo Marcos e eu, nos disse que festejava pela primeira vez na vida o (suposto)nascimento de Cristo. Ele imaginava que fosse importante para nós - não era - e nos convidou para a festa num hotel onde havia vários ocidentais. Eu me diverti muito, ele era boa companhia e me lembro até hoje de nossas discussões naqueles poucos dias. Ele nos levou para conhecer a família dele, fora de Banguecoque, eles eram todos extremamente gentis e nos encheram de presentes.
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segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Han Yu


"Tudo ressoa, mal se rompe o equilíbrio das coisas. As árvores e as ervas são silenciosas: se o vento as agita, elas ressoam. A água está silenciosa: o ar a move, e ela ressoa. As ondas mugem: é que algo as oprime. A cascata se precipita: é porque falta-lhe solo. O lago ferve: algo o aquece. Os metais e as pedras são mudos, mas ressoam se algo os golpeia. Assim também o homem. Se fala, é porque não pode conter-se. Se se emociona, canta. Se sofre, lamenta-se. Tudo o que sai de sua boca em forma de som se deve a um rompimento do seu equilíbrio... A palavra é o mais perfeito dos sons humanos; a literatura, por sua vez, é a mais perfeita forma de palavra. E assim, quando o equilíbrio se rompe, o céu escolhe entre os homens os que são mais sensíveis e os faz ressoarem".

poeta chinês do século VIII, Han Yu (768-824)

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Han Yu wrote in the Mid-Tang period. He was a prominent intellectual figure of the time, active in prose writing, literary sponsorship and the promotion of Confucianism as well as himself writing poetry. Many of his poems are innovative in both content and language.
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imagem: Dreaming of Immortality in a Thatched Covering - T'ang Yin

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Ganesha e eu e o mau humor

Kuala Lumpur, Batu Caves
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Uma das minhas fotos da Ásia que eu já devo ter postado por aqui.
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Hoje está um dia assim, um saco e nem sei o porquê. Tomara que seja um mau humor passageiro, mau humor que dura ninguém merece, que o diga os pobres coitados que precisam conviver comigo. É triste. Quem sabe eu não devia rezar para o Ganesha aí, com essa cara engraçada dele deve ser um deus bom para espantar mau humor. Lembrei-me de um dia, em Singapura, em que fui com um amigo a um templo da religião dele (esqueci qual, eram tantas diferentes). Eu entrei, antes eu tirei os sapatos, claro, e fiquei sentada no chão com as pernas cruzadas esperando o meu amigo terminar as orações dele. Passado um tempo veio alguém me dizer que eu não podia ficar ali, eu não entendi a razão, mas disse 'ok' e fui esperar meu amigo fora do templo, aí o cara veio me explicar que não estava pedindo para eu sair do templo, eu só não podia ficar ali onde estava. Parece que eu tinha escolhido exatamente o lugar que não podia, o meio do templo. Jamais entendi. Sempre achei difícil entender as nuances das religiões, ou melhor, dos ritos e regras.

Essa semana chega outra estagiária francesa, tomara que não seja mau humorada....cruzes!

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Malásia


Pulau Tioman, Malásia.

Tirei esta foto em 2000, talvez, não me lembro bem. Esta ilha, Tioman, é bastante famosa, desses lugares meio paradisíacos, mas eu, infelizmente, não estava em plena forma quando fui lá e não há paraíso quando não estamos bem. Das crianças de lá eu me lembro com carinho, fotografei muitas delas, era fácil, pediam para ser fotografadas, pulavam na frente da minha máquina. Eram muito gentis. Havia também muitos macacos, alguns acorrentados, odiava ver aquilo, uma natureza tão rica e o animal ali, sem poder desfrutar.

Tenho mais fotos aqui.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Pescador

Weihai, cidade portuária da província de Shandong, China.
Se não me falha a memória foi em agosto de 2001 que fiz a foto.
Mais aqui.

domingo, 17 de junho de 2007

Buda (detalhe)

Fiz esta foto em um templo de Banguecoque, no ano de 2000 e qualquer coisa, a única vez que estive na Tailândia e já contei aqui sobre a aventura.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Não cuspa


Eu tirei esta foto em um restaurante em algum lugar da Malásia. Está escrito em três línguas para que o cliente entenda bem que não deve cuspir no interior do restaurante. E têm razão, eu já vi gente fazendo isso em Cingapura, não em um bom restaurante, mas ainda assim, era um lugar de comer.
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quinta-feira, 19 de abril de 2007

Pulau Tioman

Tioman é uma ilha da Malásia, no mar da China, um lugar turístico e bastante bonito. É uma ilha que vive essencialmente do turismo. De Tioman eu me lembro das crianças, muitas crianças que olhavam para a minha máquina e começavam a fazer poses, brigavam para aparecer nas fotos. Tenho várias. Estas duas meninas estavam quase nos tapas, a menor queria aparecer em todas, aí parece que ela está de má vontade, mas é porque a outra tinha brigado com ela.
Eu me lembro também que algumas pessoas mantinham macacos, ou micos, presos em correntes. Achei muito triste, eu estava passando por uma estradinha, chovia e um destes macaquinhos acorrentados tentava se proteger atrás de um poste bem fino. Odiei a cena. Eu estava mal nestes dias, ver animais tratados desta maneira não ajudava...De modo que eu estava numa ilha que todo mundo chama de 'paradisíaca', mas não estava no paraíso. Não mesmo.
Para chegar lá tomamos um barco em Johor Bahru que foi à toda, chegando lá pegamos o primeiro quarto livre num bangalô não muito cheiroso, como não é caro, decidimos simplesmente abandonar este e arrumar outro quarto.
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Mais fotos minhas aqui

terça-feira, 13 de março de 2007

Malásia - Kuala Lumpur


Tirei esta foto em Batu Caves, havia um festival e eu dei sorte de ir lá neste dia. As crianças são lindas e estão sempre prontas para uma foto.
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Mais fotos minhas em diletante

sábado, 10 de março de 2007

Thaipusam - Singapore



Thaipusam é uma manifestação religiosa hindu. Eu tinha, em Singapura, um amigo que seguia esta religião. Ele garantia que as pessoas não sangravam e nem ficavam com cicatrizes depois disso que estão vendo aí nas fotos. Muitos perfuram também as costas em vários lugares.
Mais sobre o festival aqui.
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sexta-feira, 9 de março de 2007

Singapura





Essas fotos foram tiradas em Singapura num parque do bairro chamado Jurong, onde morei durante um tempo. Eu saía com minha primeira maquininha digital, comprada em Singapura mesmo. Hoje os pixelzinhos dela são risíveis, mas na época....bem, na época eu fiquei entusiasmada com aquela novidade e não sobrava nada, um click atrás do outro. Uma pena que muitas das fotos da minha 'época asiática' foram perdidas nas bagunças dos computadores. E na minha desorganização, claro.
Às vezes eu me pergunto se vou andar por este parque de novo, se vou passear de novo pela Orchard road, folhear livros em Takashimaya ouvindo música japonesa, vagar por Little India sentindo o perfume de tantos condimentos misturados, arregalar os olhos diante dos inúmeros deuses representados nas paredes do templo, presenciar mais um Thaipusam...e se eu pudesse viver tudo isso de novo, seria a mesma coisa? E Singapura nem é tão interessante assim. O interessante mesmo talvez seja a memória das coisas, neste caso é melhor ficar aqui e relembrar. Será assim?

Mais fotos minhas em diletante

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Veredas que se bifurcam no Roselivros.
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sábado, 10 de fevereiro de 2007

Escultor

Obs: Já publiquei esta foto aqui antes, mas, como gosto muito dela, publico de novo.
Uma das minhas fotos preferidas da Ásia, Taiwan (Formosa). Uma pena que não anotei e esqueci o nome da cidade onde foi tirada. Não dá para contar sempre com a memória.

Gosto muito de tirar fotos das pessoas, nem sempre o faço porque é chato fazer sem pedir, algumas vezes fico com certo receio de pedir também, sei lá se o outro vai imaginar que o estou considerando um ‘ser exótico’.

No caso desse escultor nem tinha como ‘pedir’ realmente....como? Em que língua lá nos confins de Taiwan? Balbuciei alguma coisa em inglês fazendo de conta que é mesmo uma língua universal, ele continuou seu trabalhou e eu cliquei umas duas vezes e agradeci.
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"UM VIAJANTE DEVE TER OLHOS DE FALCÃO, ESTÔMAGO DE AVESTRUZ, LOMBO DE CAMELO; DEVE CARREGAR DOIS SACOS, UM CHEIO DE PACIÊNCIA, OUTRO CHEIO DE DINHEIRO." (JOHN FLORIO)

Frase retirada de Dicionário do Viajante Insólito - Moacyr Scliar

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sábado, 27 de janeiro de 2007

Malásia

Kuala Lumpur (1)
Mesquita - Kuala Lumpur (2)

Malásia - em algum canto perdido (3)

A primeira foto eu fiz da janela do meu apartamento em Kuala Lumpur. Era um lugar muito bonito com todo esse verde que se pode ver aí. Na segunda foto uma mesquita que, infelizmente, não ficava muito longe de casa o que significa que às cinco horas da manhã (madrugada, eu diria) éramos acordados com o som de ALLAH, AKBAR! o chamado para a primeira oração do dia. E eu com isso, né? Nada, mas tinha que escutar do mesmo jeito, quem estava na terra deles era eu. É verdade, terra deles (há isso, terra de alguém? Bom mesmo é se tudo fosse de todos), já a religião muçulmana não é lá muito 'deles' segundo Naipaul num dos seus excelentes livros Beyond Belief: Islamic Excursions Among the Converted People, o islã é imperialista, não é a religião 'natural' desta parte Ásia. Entretanto, o maior país muçulmano hoje é a Indonésia e um dos mais fanáticos também.

Na última foto eu escrevi 'em um canto perdido da Malásia' porque estávamos realmente perdidos. Saímos um fim de semana para passear de carro e nos perdemos, não encontrávamos ninguém que falasse inglês...mas foi bom, perder-se também é uma forma de conhecer. E sabíamos que não estávamos tão longe de Kuala Lumpur.
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sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

Saudades de Singapura?

[Começo de ano, difícil resistir às listas, às análises do ano que passou, àquele balanço...Li pouco, muito menos do que devia ou queria. Claro, isso de muito ou pouco é relativo, mas gostaria de ter lido mais. Um dos problemas é que leio devagar. Uma vez até tentei um destes cursos de leitura dinâmica...não me lembro de nada, acho que só fui no primeiro dia. O professor era um americano. Dependendo do livro ou artigo eu até invento a minha leitura rápida, mas daqueles de que gosto mesmo, que leio com prazer, levo muitas horas...Além disso, infelizmente, muito infelizmente, sou uma leitora tardia e às vezes penso que nunca vou recuperar o tempo perdido. Morro de inveja dessas pessoas que ficam se gabando de que aos dez anos já tinham lido 769 clássicos. Eu, nos meus dez anos acho que só conhecia o Irene no céu do Manuel Bandeira e Marcelino Pão e vinho. Há um detalhe, mais importante do que sair lendo tudo é ser capaz de digerir o que se lê...Não sei mais onde li isso: “Ele leu tudo, mas não digeriu nada”. (Um jeito de me conformar, decerto).
Ler, finalmente, não é passar os olhos numa página e poder citar nomes de livros e autores. Penso que uma boa leitura nos transforma em algum sentido. Diz Roland Barthes no seu O Rumor da língua, que ‘A leitura é infinita (...) o leitor não decodifica, ele sobrecodifica.’ E ele compara a leitura a uma hemorragia. Gosto dessa figura. Pois é, não vou fazer o tal balanço, vim aqui para deixar uma crônica que escrevi para Anjos de Prata, tema escolhido por Lady Mhel, Saudade.]
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Saudades de Singapura?

Singapura não é, por assim dizer, aquele lugar que deixa as pessoas nostálgicas e que as leva a correrem à agência de viagens mais próxima para prepararem a viagem. É um lugar artificial, um oriente meio falso e um ocidente mais falso ainda já que ocidente nunca será, apesar dos esforços de alguns nesse sentido.

O inusitado de Singapura começa pelo símbolo, uma coisa chamada Merlion, o nome vem de mermaid e lion – sereia e leão em inglês. A parte de cima é o leão, representando a força, a parte debaixo é um rabo de sereia. O caso do rabo nunca ficou muito claro para mim, aparentemente tem algo a ver com o fato de Singapura ser uma ilha. Um leão com rabo de sereia! Estranho símbolo. Não conseguia ver os dois como uma combinação possível. Imagine-se um leão de cara brava, urrando quase, daí você olha para baixo e dá de cara com um rabo de sereia. Digo ‘rabo de sereia’ porque me disseram que é assim, poderia ser igualmente um ‘fishlion’, metade leão, metade peixe. Outra justificativa para parte deste símbolo é o próprio nome, Singapura que vem do sânscrito Singh, leão e Pura, cidade. Antigamente a ilha era chamada Temasek (cidade do mar) e a infeliz mudança deve-se à miopia de um princípe samatra que jurava ter visto um leão na ilha. Ninguém além do princípe viu este animal ali em toda a história de Singapura mas o nome ficou.

Não é bem saudade o que sinto com com relação a Singapura, guardo em mim uma terna lembrança dos passeios com Misako, minha doce amiga japonesa. Misako ainda vive? Não sei, apesar de jovem, o câncer pode tê-la levado. Caminhar devagar com ela pelo jardim botânico, pela Orchard road, tomar capuccinos juntas, escutar as histórias da sua família, correr da chuva, ter certeza de que da sua bolsa sairia uma sombrinha….Tudo lembranças. Mas guardo, sobretudo, aquele sentimento de descoberta, do primeiro olhar sobre as ruas e as pessoas, da fala e dos gestos. Rio, hoje, da forma ingênua e irritante com que os chineses te cobrem de perguntas: Quantos filhos tem? Por que não tem? Lembro-me dos passeios de bicicleta perto do canal, em Jurong, de quase cair ao tentar pedalar observando as casas e o velho chinês de cabelos longos e brancos, atados no alto da cabeça.

São muitas as lembranças, algumas para sempre congeladas em fotos que não dizem tudo, mas complementam.

Carrego, para sempre, uma Ásia em mim, uma Ásia que começou em Singapura.

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Obs: Singapura, em português oficial, até onde sei, se escreve com S. Em todo caso eu prefiro assim.

Foto: Dragão do mar. Sentosa, Singapura.
Leila Silva

domingo, 26 de junho de 2005

Banguecoque: Singh e uma mulher sem olhos

Num dia de dezembro, pouco antes do natal, eu e um amigo descemos no aeroporto de Banguecoque vindos de Singapura. Ao apresentarmos os nossos passaportes brasileiros o funcionário da imigração disse que devíamos ir ao controle sanitário – ou algo parecido -, indignado o meu amigo perguntou a razão daquilo, o homem, sempre calmo e educado disse que era porque entrávamos com passaporte brasileiro. “Tem certeza?” Insiste o meu amigo. Sempre sereno o funcionário consulta a sua lista de países que devem passar pelo tal controle, “Sim”, reafirma, já meio constrangido, “é um país tropical, é preciso”, continua ele. “Mas nem estamos chegando do Brasil”. Tenta mais uma vez o meu amigo porque já era tarde e alguém nos esperava na chegada. Enfim, não havia nada a fazer senão nos apresentarmos a este controle. Fomos com o sentimento de sermos os seres mais piolhentos do planeta e como se a vacina ainda não tivesse sido descoberta no Brasil...O que fariam conosco? Nos obrigariam a tomar um banho com detergente, nos examinariam, raspariam os nossos cabelos? Agora rindo, apesar da preocupação com o tempo, meu amigo ainda lançou “Eu queria era só ver se aquela tal de rainha das padarias chegasse aqui e tivesse que passar por isso. Bom, ela nunca viria a um lugar desses.” Rainha das padarias? “Sim, uma dessas nouveau-riche do Brasil, vi numa revista.”

Não era tão óbvio assim esse tal lugar e meus sapatos novos me incomodavam. Finalmente encontramos um balcão com uns papeizinhos que deviam ser preenchidos com x aqui e ali, nada demais, não havia médico, não havia ninguém para nos informar. E, se fosse o caso, podíamos mentir a vontade.

Singh, um rapaz tranquilo, gordinho e sorridente nos apresentou Banguecoque, a sua família, a sua cadelinha. Quando nos conduzia à casa de sua família, explicou-nos, pedindo desculpas por isso, que não devíamos tocar, abraçar ou beijar os seus...Ele mesmo não se importava em cumprimentar do modo ocidental porque estava acostumado, mas eles, que não viviam exatamente na capital, iam ficar constrangidos, “I am sorry!”. Tão delicado este rapaz que me inquiria sobre o cristianismo e falava do seu budismo, que insistia em pagar as contas mesmo tendo, sem dúvida, salário mais baixo que os nossos. A mãe e as irmãs de Singh não falavam uma só palavra de inglês, sorriam muito, de um jeito terno e, com as duas mãos juntas na frente do peito, abaixando a cabeça nos cumprimentaram. Imitamos. O cachorrinho veio e saltou em todos nós como fazem os cachorros em qualquer lugar do planeta. Nos ofereceram uma espécie de bolo, uma bebida de côco, e quando partimos levávamos tanta comida e bebida, por insistência da mãe, que não pudemos levar tudo para casa, tivemos que deixar um pouco no hotel.

Naquele vinte e quatro de dezembro Singh, para nos acompanhar – imaginando decerto que isso fosse importante para nós – festejou pela primeira vez um natal, ele mesmo escolheu o hotel onde muitos ocidentais que ali viviam iam com a família comemorar a data. Já nem me lembro que histórias Singh teria contado, só sei que bebi um pouco e que ria até quase às lágrimas. E essa era a primeira vez que eu via aquele rapaz, infelizmente foi também a última.

Banguecoque para mim é Singh e sua família sorridente, meninas magras e serenas, um príncipe bonito estampado em fotos enormes em muitos lugares, templos silenciosos, um dourado sem fim...mas é, sobretudo, uma mulher sem olhos, encostada a um muro. O que fazia ali, pedia, vendia flores ou simplesmente esperava? Nada havia no lugar destinado aos olhos, nem cílios, nem sobrancelhas, nem buraco nem nada, a parte era lisa, coberta por pele, como se a natureza tivesse esquecido de construir aquela área, assim como, às vezes dá um dedo a mais a alguns. Não pude olhar muito para a mulher sem olhos, mesmo sabendo que ela não podia me ver e nem pensei em tirar uma foto, apenas registrei essa imagem de uma rua de Banguecoque, uma estranheza que não era exatamente cultural. Nem pude ver se ela sorria como os outros, parece que não.

Leila Silva

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005

Cadernos do Oriente [India]

Os gémeos Asvin são, no princípio do mundo, divindades menores que não podem beber soma – a droga perfeita dos deuses – e passam grande parte da sua existência entre os mortais. Ora, um dia os dois irmãos surpreendem no banho a bela princesa Sukanya e por ela se inflamam. São, porém, debaldes as suas tentativas de usufruir da beldade da princesa e dos seus modos naturalmente gentis: ela é fiel ao seu marido, um velho asceta de nome Cyavana. Mas os deuses, de tão surpreendidos por sua beleza e resistência, mais interessados ficam no que pensavam seria uma rotineira conquista. E por isso propõem uma troca: devolverão a juventude e a beleza ao marido, mas depois ela terá de escolher de novo um marido entre os três.O casal sabe que os Asvin preparam uma armadilha mas, confiando no amor mútuo, confiando cegamente um no outro, aceitam o jogo. Os seus temores não se revelaram infundados: quando Cyavana sai rejuvenescido das águas de um lago mágico, vem exactamente idêntico aos divinos gémeos. Como poderia agora a princesa perceber quem era o seu adorado marido? Sem dificuldade e fazendo fé na sua intuição, Sukanya descobre e escolhe o preferido. Ganha o coração sobre a luxúria. Bons perdedores, os Asvin preparam-se para bater em retirada.Mas Cyavana está longe de ser um ingrato - afinal, ganhara belos traços e uma nova juventude - e diz aos gémeos: “Vou fazer de vós bebedores de soma, apesar da oposição do rei dos deuses”. Sabedor dos segredos, prepara a beberagem, e mal estava pronta a bebida sagrada preparava-se para a servir aos dois incompletos deuses, de modo a fazer deles plenos participantes de todo e qualquer amplexo divino.Eis que estava pronta a servir quando intervém Indra, rei dos deuses, manifestando o seu desgrado e prestes a fulminar a mão de Cyavana, que segurava o cálice repleto do precioso soma. O asceta recorre então aos seus argumentos e através da “força da austeridade” cria um gigantesco monstro, cujas mandíbulas se abrem do céu à terra e que ameaça tudo engolir: é o monstro Mada (Embriaguez). Indra não resiste e capitula. Os Asvin bebem o soma e Cyavana tem de destruir o seu monstro. Corta-o em quatro partes e coloca cada uma num local muito específico: respectivamente, na bebida, nas mulheres, nos dados e na caça.
...................................................................................................Mahabarata, India

leilasilva100@hotmail.com

quinta-feira, 27 de janeiro de 2005

Cadernos do Oriente

À sombra de uma amoreira


Era uma vez um homem rico que vivia numa enorme mansão, ao lado da estrada. Atrás da casa havia uma majestuosa amoreira. Durante os dias quentes de verão ele costumava ir sentar-se à sombra dela para apanhar o fresco que ali se fazia sentir.

Um belo dia, um pobre coitado foi deitar-se à sombra da árvore e o homem rico, assim que o viu pôs-se a gritar:
_ Hei, tu! Não podes deitar aí! Vá! Vai-te embora! Desaparece!
_ Vou-me embora, por quê? Estou bem aqui. _retrucou o outro.
_ Essa árvore_ explicou o rico _ fui eu quem a plantou e eu quem a tenho regado. Por ter tratado dela é que agora ela está assim tão grande, e por isso a sombra dela é minha.
_ Se assim é, cede-me a tua sombra que eu pago-te bom dinheiro por ela.

A palavra “dinheiro” ressoou como uma bela melodia nos ouvidos do homem rico.
_ Hã! Assim está bem! respondeu.Assim cedo-te a minha sombra.

Após três ou quatro encontros, feitos por meio de intermediários, concordaram com o valor a pagar e firmaram o negócio.
Desde então aquele pobre vinha, todos os dias, deitar-se à sombra da árvore. Quando a sombra se estendia para o pátio da casa do rico, ele ia deitar-se ali; quando ela entrava para a cozinha, era para lá que ele ia; quando penetrava pelo salão adentro, até mesmo para ali ele ia deitar-se. Em resumo, para onde quer que a sombra se estendesse, ele seguia-a sempre. Por vezes estava sozinho, mas outras vezes convidava os amigos para virem apanhar o frescor debaixo daquela que era a sua sombra e chegavam a trazer consigo os seus burros e outros animais.
O rico estava a perder a paciência e, um dia, explodiu a sua fúria:
- Mas que é isto? Quem é que te deu ordem de vir para o meu pátio, de entrar na cozinha da minha casa ou no meu salão? Proíbo-te que volte a pôr os pés aqui.
- Então, mas eu não te comprei a sombra da amoreira?_ respondeu ele._ Ora, como ela me pertence, ninguém me pode impedir de vir repousar onde quer que ela esteja.
Tal resposta fez aumentar ainda mais a raiva do homem rico, mas a verdade e que ele não podia fazer nada.
Um dia o senhor tinha visitas em casa. Ora, nesse mesmo dia o dono da sombra entrou pela casa adentro com ar de muito à vontade e deitou-se no chão sem se importar com os convidados que ali estavam. Tudo isto lhes pareceu muito estranho e, quando souberam da historia da venda da sombra, desataram a rir escancaradamente.
Isto já era demais para o homem rico! Ele não podia viver ali por mais tempo e por isso mudou-se para outra aldeia.
E assim aquele “Zé-ninguém” tornou-se o propietário da mansão e, no lugar onde o rico guardava o seu cavalo, ele punha agora o seu burro.

A partir de então, nunca mais ninguém foi admoestado pelo fato de vir deitar à sombra da amoreira.

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Conto chines


sábado, 8 de janeiro de 2005

Cadernos do Oriente

Deixo aqui mais dois contos bem curtinhos que traduzi de um autor chinês, Liu Jingshu, não sei muito deste autor, a não ser que viveu durante a dinastia Nan Chao (420-589).

Antes de ir aos contos, reproduzo uma frase retirada da apresentação do livro ´Cuentos extraordinários de la China Medieval´, Antologia del Soushenji:

“Fique sabendo, leitor, se já não o sabe, que esta obra não é nenhuma gota de mar senão um mar em si mesmo. Figura entre os clássicos de uma literatura tão vasta quanto fascinante, notavelmente mais rica que todas as nossas literaturas românicas peninsulares juntas, em treze ou quatorze séculos mais dilatada que elas e, lamentavelmente muito pouco conhecida entre nós: a literatura chinesa.”


Contos:

(1)
O inhame (ou “batata dos montes”, segundo outra denominação) tem uma raiz que é boa tanto para remédios como para simples comida de verão. Os lambriegos a chamam ‘autóctone’. Para desenterrá-la, há que se cavar, com movimentos muito suaves e sem dizer seu nome: do contrário, será impossível. A raiz do inhame se parecerá com a pessoa que o tenha plantado.

(2)
No ano 326, o primeiro do período Xianhe da dinastia Jin, um homem chamado Xu partiu para uma viagem muito longa durante a qual sonhou que dormia com sua mulher; ela ficou grávida e, quando ele regressou, ao final de um ano, já tinha dado à luz uma criança…
E contou-lhe que tinha tido o mesmo sonho que ele.

Liu Jingshu, dinastia Nan Chao (420-589)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2004

Cadernos do Oriente

O jumento de Ghizhou

(Liu Zongyuan – 773-819, China)

Não havia jumentos em Guizhou, até que alguém pôs um num barco e o transportou para lá. Porém, não sabendo bem o que fazer com ele, deixou-o solto nas montanhas. Um tigre, ao ver aquele bicho disforme, pensou que fosse um ser divino. Primeiro, bem escondido, observou-o atentamente. Depois ousou aproximar-se, mantendo ainda uma respeitável distância.
Um dia o jumento zurrou. O tigre se assustou e, com medo de ser mordido, fugiu apavorado. Mas voltou para dar mais uma olhada e decidiu que a criatura, afinal, não era assim tão temível. Acostumando-se com os zurros, chegou mais perto. Já colado praticamente no outro, e agora tomando muitas liberdades, o tigre passou a azucrinar o jumento com repetidos avanços. Esse, enfim, perdendo a paciência, deu-lhe um coice.
“Ah, pois então é só isso que ele consegue fazer”, pensou o tigre entusiasmado que, ato contínuo, pulou sobre o jumento, cravou-lhe os dentes no pescoço, devorou-o o quanto pôde e prosseguiu o caminho.

Pobre jumento! Seu tamanho lhe dava uma aparência de força, seu zurro inspirava medo. Caso ele não tivesse mostrado tudo de que era capaz, o tigre, apesar de tão feroz, provavelmente não teria se arriscado a atacá-lo. Mas tal foi, lamente-se, o intempestivo fim do jumento.