domingo, 26 de junho de 2005

Banguecoque: Singh e uma mulher sem olhos

Num dia de dezembro, pouco antes do natal, eu e um amigo descemos no aeroporto de Banguecoque vindos de Singapura. Ao apresentarmos os nossos passaportes brasileiros o funcionário da imigração disse que devíamos ir ao controle sanitário – ou algo parecido -, indignado o meu amigo perguntou a razão daquilo, o homem, sempre calmo e educado disse que era porque entrávamos com passaporte brasileiro. “Tem certeza?” Insiste o meu amigo. Sempre sereno o funcionário consulta a sua lista de países que devem passar pelo tal controle, “Sim”, reafirma, já meio constrangido, “é um país tropical, é preciso”, continua ele. “Mas nem estamos chegando do Brasil”. Tenta mais uma vez o meu amigo porque já era tarde e alguém nos esperava na chegada. Enfim, não havia nada a fazer senão nos apresentarmos a este controle. Fomos com o sentimento de sermos os seres mais piolhentos do planeta e como se a vacina ainda não tivesse sido descoberta no Brasil...O que fariam conosco? Nos obrigariam a tomar um banho com detergente, nos examinariam, raspariam os nossos cabelos? Agora rindo, apesar da preocupação com o tempo, meu amigo ainda lançou “Eu queria era só ver se aquela tal de rainha das padarias chegasse aqui e tivesse que passar por isso. Bom, ela nunca viria a um lugar desses.” Rainha das padarias? “Sim, uma dessas nouveau-riche do Brasil, vi numa revista.”

Não era tão óbvio assim esse tal lugar e meus sapatos novos me incomodavam. Finalmente encontramos um balcão com uns papeizinhos que deviam ser preenchidos com x aqui e ali, nada demais, não havia médico, não havia ninguém para nos informar. E, se fosse o caso, podíamos mentir a vontade.

Singh, um rapaz tranquilo, gordinho e sorridente nos apresentou Banguecoque, a sua família, a sua cadelinha. Quando nos conduzia à casa de sua família, explicou-nos, pedindo desculpas por isso, que não devíamos tocar, abraçar ou beijar os seus...Ele mesmo não se importava em cumprimentar do modo ocidental porque estava acostumado, mas eles, que não viviam exatamente na capital, iam ficar constrangidos, “I am sorry!”. Tão delicado este rapaz que me inquiria sobre o cristianismo e falava do seu budismo, que insistia em pagar as contas mesmo tendo, sem dúvida, salário mais baixo que os nossos. A mãe e as irmãs de Singh não falavam uma só palavra de inglês, sorriam muito, de um jeito terno e, com as duas mãos juntas na frente do peito, abaixando a cabeça nos cumprimentaram. Imitamos. O cachorrinho veio e saltou em todos nós como fazem os cachorros em qualquer lugar do planeta. Nos ofereceram uma espécie de bolo, uma bebida de côco, e quando partimos levávamos tanta comida e bebida, por insistência da mãe, que não pudemos levar tudo para casa, tivemos que deixar um pouco no hotel.

Naquele vinte e quatro de dezembro Singh, para nos acompanhar – imaginando decerto que isso fosse importante para nós – festejou pela primeira vez um natal, ele mesmo escolheu o hotel onde muitos ocidentais que ali viviam iam com a família comemorar a data. Já nem me lembro que histórias Singh teria contado, só sei que bebi um pouco e que ria até quase às lágrimas. E essa era a primeira vez que eu via aquele rapaz, infelizmente foi também a última.

Banguecoque para mim é Singh e sua família sorridente, meninas magras e serenas, um príncipe bonito estampado em fotos enormes em muitos lugares, templos silenciosos, um dourado sem fim...mas é, sobretudo, uma mulher sem olhos, encostada a um muro. O que fazia ali, pedia, vendia flores ou simplesmente esperava? Nada havia no lugar destinado aos olhos, nem cílios, nem sobrancelhas, nem buraco nem nada, a parte era lisa, coberta por pele, como se a natureza tivesse esquecido de construir aquela área, assim como, às vezes dá um dedo a mais a alguns. Não pude olhar muito para a mulher sem olhos, mesmo sabendo que ela não podia me ver e nem pensei em tirar uma foto, apenas registrei essa imagem de uma rua de Banguecoque, uma estranheza que não era exatamente cultural. Nem pude ver se ela sorria como os outros, parece que não.

Leila Silva

sexta-feira, 24 de junho de 2005

BESTIARIO

Estou com um conto na Bestiario , vitrine Literária.
O título do conto é Duas Meninas.

Abracos
Leila

sexta-feira, 17 de junho de 2005

Leila bucólica

Sítio

O pedreiro refaz a casinha do fundo, P. inventa-lhe um novo estilo, com madeiras atravessadas, meio germânico, será uma espécie de chalet, imagino. Minha mãe não se impressiona, nunca se impressiona com nada, deve achar que isso tudo é um desperdício de dinheiro e energia. Tudo o que não for arroz, feijão, verduras, higiene e cuidados com a saúde é desperdício ou frescura para ela. Não tem nenhum respeito pela estética, o prazer não lhe interessa, somente o sarcasmo. Sabe rir.
Por causa do seu grande sentido da realidade, não consegue nem mesmo ver um filme, nunca se esquece que ali há atores e que é tudo um esquema planejado, ridiculariza tanto o esforço do cineasta quanto dos atores.

Em tudo o meu contrário.

Para com os animais não demonstra nenhuma simpatia ou compaixão, tampouco agiria com crueldade com relação a qualquer ser vivo. É pragmática. Faz sempre o que tem que fazer, cumpre o que considera seu dever, nem mais, nem menos. Já me disseram que ela teria dado uma boa Stalinista. Ela mal sabe quem foi Stalin.

Ao longe as galinhas d’angola gritam insistentes: ‘tô fraca, tô fraca!’ e todos os animais cumprem o seu ritmo nesse cerrado fresco em junho.
Fotografei as rolinhas no ninho e o papagaio. Chegou o tio Zinho, mentiroso e meio fanho, não tenho paciência para ele hoje.
Leio As irmãs Makioka, Valéria relê Meu pé de laranja lima para contar a história a Luiza.
Luiza e meu pai jogam damas e ela se irrita quando perde. E perde sempre porque, aos sete anos, tudo o que lhe interessa é correr e fazer uma dama. E depois, fazer o quê com a dama?

Assim, tudo parece ter uma ordem hoje, mas e amanhã?

Leila Silva

quinta-feira, 16 de junho de 2005

A caixa Preta

Amós Os.
Companhia das Letras, 2 edição


Uma mulher e seu ex-marido analisam, através de cartas, a relação rompida sete anos antes.


P. 94 – ‘Toda a felicidade é basicamente uma banal invenção católica. A felicidade é (…) kitsch. Náo há nada em comum entre ela e a eudaimonia dos gregos. E no judaísmo não existe nenhum conceito de felicidade, nem sequer uma palavra correspondente na Bíblia. Excluindo, talvez, a satisfação pela aprovação, uma retribuição positiva do Céu ou do próximo. (…) o Judaísmo reconhece apenas a alegria. Como no versículo
“ Rejubile-se, jovem, com a sua juventude”.


P. 140 (Henri Bergson) ‘Não é verdade que a fé mova montanhas. Ao contrário, a essência da fé é a capacidade de náo distinguir mais nada, nem mesmo montanhas movendo-se diante de nossos olhos. Uma espécie de teia hermética, totalmente imune aos fatos.’

P 210 o tempo –
‘o tempo não passa, nós passamos dentro dele (…) Ou o tempo é que faz passar as pessoas.'


P. 217 ‘Na cidade de Upsala, no século XVI, dois monges mataram numa única noite noventa e oito órfãos, depois puseram fogo em si próprios, tudo porque uma raposa azul tinha aparecido na janela do mosteiro para anunciar que a Virgem esperava por eles.’

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Henfil na China

Lendo Henfil na China e rindo rindo rindo....mas Henfil não é só pra rir não, eu que sou meio boba mesmo.

Uma coisa me intriga, porque é que gente que nem o Henfil tem que morrer tão cedo? Porque é que Deus não faz um plebiscito:
“Filhos meus, logo um mineiro terá que partir e vocês podem escolher entre Aécio Neves, Itamar Franco, Henfil ou Odelmo Leão.” Não seria justo? Por essas e outras que não acredito nele, se existisse mesmo faria um plebiscito de vez em quando.

Leila

terça-feira, 7 de junho de 2005

Mosaico de horas

Conto escrito para Anjos de Prata



Eu e essa estrada, faz anos que é assim, tantos que ela já é quase uma pessoa. Uma pessoa, é isso, a gente vai rodando rodando nessa solidão e começa a racionar besteiras, uma estrada vira uma pessoa, já se ouviu de tudo, quer dizer, na verdade ninguém ouviu porque eu tô matutando sozinho. Mas, se tivesse alguém aqui eu ia mostrar o tanto que conheço bem esse caminho, daqui a uns quinze ou vinte minutos vou passar por aquela árvore grande que tá pendendo pra esquerda, uma de galhos engraçados, parece que quer abraçar, vamos ver, vou marcar no relógio, se alguém tivesse aqui ia ver como estou certo. Bom, ia ver ia ver e de quê isso ia servir? De nada porque de nada serve saber que em tal lugar dessa estrada tem isso ou aquilo, não serve de nada a não ser para pontuar essa solidão. É que tenho que manter a cabeça ocupada, essa vida de estrada é muito das esquisitas se a gente analisar, estrada, estrada e mais estrada, ninguém imagina o que é isso, nem eu imaginava que um dia ia ser assim, que a solidão pudesse ser tão vasta, que ia ter que treinar a minha própria cabeça para não ficar doido, vou pensando numas coisas e tentando não pensar noutras, às vezes pulo assim de um assunto (o assunto que assunto cá comigo) pra outro, mudo completamente de rumo, de propósito. Lá está a tal da árvore, vamos ver, dezessete minutos contados, nem quinze, nem vinte mas dezessete que está no meio. Olha lá, dá até vontade de abanar a mão pra ela. Veja o que a solidão faz com um homem, estrada vira gente, árvore vira gente...Um dia escutei no rádio uma história estranha, era sobre as sereias, essas também foram uma invenção da solidão do homem. Ficavam os marinheiros a marear por longos meses, anos, quem sabe, naquela solidão absoluta, quer dizer, só não era mais absoluta que a minha nesse caminhão porque lá eles tinham outros homens pra conversar, mas sempre os mesmos...não sei, em todo caso, mulher é que não viam a miúdo, daí a imaginação desses coitados transformou um peixe - um peixe que consegue sair da água por uns instantes – na mais bela criatura fêmea que havia, uma criatura fêmea, mas não mulher, mulher só pela metade. Solidão é isso, invenção. Estrada, minha estrada, até quando seremos nós dois?
De noite leio umas pagininha do bang-bang, escuto as notícias no rádio e durmo, umas vezes o sono vem rápido, outras demora, quando demora é o diabo, esticar essa solidão diurna é pagar os pecados que a gente nem tem tempo de cometer. Na manhã seguinte, a estrada está lá esperando a minha marca, é quase infinitamente assim, um dia não há de ser mais porque até o que parece infinito tem que ter um fim. É.


Leila Silva

sexta-feira, 3 de junho de 2005

Nota de agradecimento:

Terminei agora a leitura de biografia de Sylvia Plath por Linda Wagner-Martin, da Circe Bolsillo. Recebi o livro de presente de Dani que o comprou em Buenos Aires durante sua última viagem. Obrigada, querida, por pensar em mim em Buenos Aires e por essa gentileza e por todos os outros livros que já me ofereceu...muito obrigada mesmo. Na minha última viagem aos Estados Unidos comprei, em Seattle para ser mais exata, muitos livros em sebos. Seattle é ótima para isso, dentre os livros que trouxe há dois de poemas de S. Plath, Crossing the Water e Ariel. A leitura da biografia contribuirá certamente para a leitura destes poemas.

Agradeço também ao Manoel Carlos por me presentear com esse maravilhoso e poético A Ostra e o Vento, assim como a biografia do autor, Moacir Lopes e aproveito para agradecer ao próprio autor a bondade de ter lido alguns dos meus trabalhos (a pedido de Manoel Carlos) e as palavras tão gentis que escreveu a respeito deles, foram muito importantes para mim. Obrigada ainda a Moacir Lopes pelas dedicatórias.

Muito obrigada a Fávio Viegas Amoreira por ter enviado os seus Contogramas e A Biblioteca submergida, ambos publicados pela Sete Letras e a Chico Lopes pelo seu livro de contos Nó de sombras publicado pelo Instituto Moreira Salles.

Agradeço à professora Regina Igel por ter me presenteado com o seu excelente Imigrantes Judeus – Escritores Brasileiros, Editora Perspectiva.

Comentarei em post separado estes últimos livros e autores.


Todas essas pessoas eu encontrei através do blog ou de websites dedicados à Literatura, me esqueci certamente de incluir uma ou duas pessoas nesta nota rápida, perdoe, se for o caso.
Blog (ou a blogosfera, é isso?) é um espaço cheio de defeitos, de vaidades, de ingenuidades etc etc etc....muita gente vem apontando isso (até mesmo nos seus próprios blogs), mas é um espaço que nos permite o exercício da escrita e da amizade a distância. Tenho feito bons amigos aqui e sobretudo, é principalmente na internet que tenho conseguido discutir e trocar idéias sobre Literatura. Já é lugar-comum criticar a falta de leitores no Brasil e é um fato, mas, por causa da internet, por vezes me pego pensando ‘Como não tem leitores no Brasil? São inúmeros os sites de literatura, inúmeras pessoas escrevendo em português e dispostas a discutir literatura!’ Mas é verdade também que, quando saio do computador e boto o pé na rua (estou no Brasil agora)eu não encontro mais nada disso...Nada, nada seria injusto e mal expressado, tenho muitos amigos que trabalham com literatura, eu falava do encontro ‘casual’, de ver gente em metrô, em ônibus com um livro na mão. Então, por tudo isso, eu abro meus braços para a internet e para os amigos que encontro através dela, esperando que um dia eu possa ver vocês todos ao vivo e a cores.

Ah, agora tenho também um fotolog, não encontrarão nenhuma foto da minha pessoa lá, nãi fiquem decepcionados, é melhor assim. Brincadeira! Logo chegará a fase ‘narciso’.

Abraços a todos.

Leila
http://fotolog.terra.com.br/diletante

terça-feira, 31 de maio de 2005

Bombons Chineses

Li, há algumas semanas, o Bombons Chineses de Mian Mian. Eu diria que o livro é interessante, mas aí me lembro da minha amiga alemã, a Silke que diz que quando os brasileiros dizem que uma coisa é ‘interessante’ é porque não têm coragem de dizer que é ruim.....Enfim, Silke não vai mesmo ler esse post, então.....digo ou não digo? Sim, o livro tem seu interesse: Xangai, sexo, drogas, rock and roll…

Muita gente já conhece esse livro de capa bonita, vermelha com uns caracteres chineses, um seio num quadradinho e o selo da Geração Editorial embaixo.... Quê? Porque é que eu não coloco a foto da capa aqui ao invés de ficar explicando? Ah, muito simples, não sei colocar fotos aqui, juro que não sei e estou morrendo de preguiça de aprender, explicar me cansa menos. Mas há uma solução para esse problema da imagem, clique aqui no blog do Flávio e lá tem a foto, um comentário sobre o livro, uma pequena biografia de Mian-Mian. Foi exatamente por causa do livro que o encontrei e descobri que ele também tem um fraco pelos autores asiáticos.

Na minha opinião o livro carece de uma revisão. Está longe de ser o meu livro favorito, mas valeu a pena as horas dispensadas na leitura. Quase tudo o que conheço da Literatura Oriental data de Mathusalém o que não é verdadeiramente um problema em se tratando de literatura, mas aqui dei de cara com uma chinesa moderna, o que quer dizer, bastante perdida, autodestrutiva, mas com um coração.


Bombons chineses
Mian Mian
Geração Editorial

domingo, 29 de maio de 2005

Um poema antigo

Café Expresso

que seja quente
por favor
toda noite fria
termina com um café
expresso a minha dor
deixando as lágrimas
rolarem suaves
nada nesse café
é menos triste
que a minha dor
todas as faces
vincadas de tormento resignado
olhos crispados de desamor
uma angústia silenciosa
ronda cada peito
a mão soberana
ergue uma Stella Artois.
a temperatura lá fora
é sempre a mesma
aqui dentro é sempre outra

(06/03/96, Bruxelas)

Leila Silva

segunda-feira, 23 de maio de 2005

Vislumbres da Índia

Quando vivia na Ásia planejei, mais de uma vez, viajar pela Índia, tal viagem nunca se deu por mais de uma razão: desorganização, incompetência, falta de tempo, um certo medo, talvez. O fato é que nunca lá estive. Semana passada comprei, em Florianópolis, este Vislumbres da Índia – Um diálogo com a condição humana - e pus-me a viajar com Octavio Paz. Melhor companheiro de viagem não poderia haver, sobretudo em se tratando desse destino.

O autor conhece bem a Índia pois viveu lá trabalhando, primeiro como segundo secretário na embaixada do México e, anos depois, como Embaixador. Vislumbres da Índia é um pequeno livro, um ensaio de, exatamente, duzentas páginas nessa edição Mandarim de 1996 que adquiri. Octavio Paz explica que escolheu a palavra ‘vislumbres’ por significar ‘indícios’, ‘realidades percebidas entre a luz e a sombras’, o que quer dizer que “esse livro não é para especialistas”. Pode até não ser, mas mesmo os especialistas devem ganhar muito com a leitura dele, é riquíssimo em impressões, análises da cultura, religião, línguas, cozinha, o sistema de castas, política, etc. Eu não desgrudei do livro enquanto não cheguei à última página, ou melhor, só por uns minutos durante um vôo em que Dona Lucrécia se sentou do meu lado e não parou de falar, olhou para a capa do meu livro, perguntou se Octavio Paz era brasileiro, teceu algumas considerações sobre a Índia, meditação e pobreza....mas esta é outra história.

Nas primeiras páginas em que conta a sua chegada à Índia, o autor se pergunta “O que me atraía?” e fala daquele deslumbramento quase ingênuo que temos ao nos ver diante de tanta coisa nova ao mesmo tempo, tanta que não conseguímos discernir. Eu também fiquei assombrada, deslumbrada ao penetrar a Ásia, mais do que ir, visitar o lugar e voltar, considero uma sorte ter podido viver lá ainda que por pouco tempo, menos do que eu gostaria. Na impossibilidade de responder à pergunta sobre o que o atraía, Octavio Paz recorre a T.S. Eliot “O gênero humano não pode suportar tanta realidade.”

Sublinhei vários trechos que chamaram a minha atenção, que eu gostaria de ler melhor depois e que também pensei em colocar aqui....mudei um pouco de idéia quanto a isolá-los assim nesse apanhado rápido, num momento de puro entusiasmo quando acabo de fechar o livro e mal digeri o que li. Descontextualizar pode ser um ato perigoso. Ainda assim vou arriscar uma ou duas citações, a primeira se refere à democracia. Nos Estados Unidos a maioria da população repete essa palavra a torto e a direito, inclusive com ela justificando guerras, mas nunca ou quase nunca, me parecia, indo ao âmago da questão que seria se perguntar de vez em quando, o que é o real significado da palavra e como ela está sendo usada por um político e outro. Sobretudo depois de ter vivido nos Estados Unidos, alguns vocábulos não me deixaram, dois deles são: democracia e liberdade que vivem na boca do povo, do intelectual, do religioso, cada um usando-o a seu modo e a maioria se deixando engambelar. Então, para Octavio Paz:

“Certamente a democracia também pode ser tirânica, e a ditadura da maioria não é menos odiosa que a de uma pessoa ou a de um grupo. Daí a necessidade da divisão de poderes e do sistema de controles. Mas as melhores leis do mundo convertem-se em letra morta se o governante é um déspota, um homem que domina os demais porque é incapaz de dominar-se a si mesmo.”

Como diria a Dona Lucrécia, ‘disse tudo’. Vou até abandonar a outra citação, acho que já é bastante para perceber o quanto essa leitura pode ser valiosa, sobretudo para quem tem um mínimo interesse pela Ásia.



..........................................


Um dos epigramas selecionados por Octavio Paz como exemplo da arte literária hindu:

Amor

Admira a arte do arqueiro:
Não toca o corpo e rompe corações
.


Vislumbres da India, Octavio Paz, Editora Mandarim.

quinta-feira, 19 de maio de 2005

Perspectiva

Um dia, caminhava eu pelas ruas de Kuala Lumpur, perto das famosas Torres Gêmeas e fazia calor, muito calor, desses que a gente só suporta com a ajuda de Allah ou dentro de uma piscina fresca. Foi então que vi sair de um carro uma mulher toda vestida de preto, dos pés à cabeça, como se vestem as iranianas. Na Malásia também as muçulmanas se cobrem da mesma maneira, mas com tecidos coloridos[A1] . Depois que desviei o olhar dessa mulher toda de preto, vi o que devia ser o marido…vestido de bermuda de algodão e camiseta, a cabeça alta e arrogante. Pelo menos foi assim que me pareceu.

A minha vontade foi de ir até o ragazzo e encher-lhe a cara de bolachas. Aquela cena me parecia um atrevimento. Evidente que não o fiz, senão o meu séjour na Malásia poderia ter durado um pouco menos...ou um pouco mais. E não adiantava também torcer o nariz para demonstrar – infantilmente, concordo - a minha contrariedade. Com o meu short e camiseta, eu não passava de um putón. Ele não ia desviar o olhar para o meu nariz.

Enfim, isso foi apenas uma cena e eu posso ter analisado tudo errado, isso acontece. Às vezes a gente anda na rua (pelo menos eu sou assim), vê uma pessoa e imagina o presente, passado e futuro, não? E pode ser tudo completamente o contrário do que a gente imagina. Veja, quem sabe aquela mocinha de ar submisso não era, na verdade, uma jornalista ou uma estudante tentando ‘entrar’ na pele de uma muçulmana tradicional. Queria ver como elas se sentem vestidas de preto sob aquele sol de rachar mamona e aquela umidade própria da região….quem sabe? E o cara que eu tomava por marido podia ser um colega de curso, um outro jornalista, um irmão….sei lá. Mas que ele desempenhava bem o seu papel, ah, desempenhava.

Na verdade não era na Malásia, nem nas muçulmanas, véus e afins que eu estava pensando quando me sentei aqui, eu pensava na cabeleireira brasileira, dona de um salão onde estive outro dia. Uma cabeleireira de um bairro classe média baixa, uma mulher razoavelmente bonita, de menos de quarenta anos, nem magra nem gorda e que tem um filho de 21 anos. Tudo isso eu entendi ouvindo a conversa entre ela e uma cliente que tem mais ou menos o mesmo perfil. Num dado momento, uma das meninas que trabalhava no salão perguntou-me se em Londres (em Londres e não na Inglaterra!) se falava espanhol ou inglês. Nem sei como respondi tal pergunta.

Bom, onde mesmo eu queria chegar? Ah, essa cabeleireira e a outra cliente discutiam um assunto, pelo jeito muito em voga no Brasil, cirurgia plástica: preços, detalhes, nomes de médicos…Conheciam tudo. E era caro!

Bom, daí lembrei-me também de um artigo de uma escritora muçulmana, se não me engano o título era algo como: Prisioneiras do 38. A autora falava do choque das mulheres ocidentais diante do estilo de vida das muçulmanas, sobretudo o pesado símbolo do véu, e concluía que submeter-se a esse padrão ditado por nossa sociedade era, muitas vezes, tão ou mais cruel que usar o véu ou todo aquele apetrecho.
É tudo uma questão de perspectiva.




[A1]: uma saia muito longa, por cima, uma espécie de bata, também longa que desce sobre uma parte da saia, mangas compridas e o véu muito bem fechado no rosto, abaixo do queixo.

quinta-feira, 5 de maio de 2005

Japoneses, Luiza e cafuné

Manchetes:


Os japoneses inventaram um aparelho que traduz as emoções dos cachorros.

Adolescentes japoneses se fecham nos seus quartos durante anos a fio. Incomunicáveis.

……………………………………………………………………………………………

Luiza

A minha sobrinha de sete anos, Luiza, é um pequeno demônio…e linda como ela só. Às vezes temos os nossos conflitos porque eu também sei ser infantil e também porque nunca convivi muito com ela e com o seu gênio tenebroso. Mas tenho que reconhecer que ela é uma graça e cada dia me apego mais.


Estávamos no sítio, no ultimo feriado, e a pequena Luiza agora fala tanto que compete com o papagaio que meu pai tem lá. É normal que os adultos cansem as orelhas e parem de prestar atenção. Assim estávamos eu e o irmão dela, dez anos mais velho, no laptop estudando alguma coisa e não dando a mínima para as palavras que ela continuava a soltar apesar de nossa indiferença, de repente escutei:
‘Porque para viver a gente precisa de: água, ar, comida e cafuné.’

Epa, estava ficando interessante, a partir daí eu passei a prestar atenção. Como não?
‘Cafuné, Luiza?’
‘Cafuné, tia Leila!’ Repete professoral e contente por ter, finalmente, encontrado um interlocutor.
‘É assim, tia Leila, cafuné, quer dizer, carinho, né….ser educado, ter paciência…’
‘É mesmo, Luiza, eu concordo, mas parece que agora mesmo eu vi você lançar, com toda a força, uma sandália na cabeça do seu irmão!’
E Luiza ri. Aperto mais um pouco e ela muda o ‘a gente precisa’, lá do início por:
‘Tá bem, EU preciso.’

Ela é boa de discurso, mas quando os argumentos acabam é melhor a gente sair correndo.


terça-feira, 3 de maio de 2005

Ex-Libris da Tugosfera

Dando continuidade à corrente proposta por Manoel Carlos.


Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

Ser um livro? Nunca me imaginei um livro e nem sei que critérios usar, um livro fino, um livro elegante? Bem, nesse momento eu escolheria ser Orlando, de Virgínia Woolf.


Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?

Será que ‘apanhadinho’ quer dizer ‘caidinho’? Não, acho que não.

Qual foi o último livro que compraste?

Os de Moacir Lopes que acabei de ler e Patrícia Highsmith, Strangers on a train, que ainda não li.


Qual o último livro que leste?

O Almirante Negro e A Ostra e o Vento de Moacir Lopes.

Que livros estás a ler?

Estou lendo, muito devagar, a biografia de Virgínia Woolf por Quentin Bell, Totem e Tabu de Sigmund Freud, Tu não te moves de ti
Hilda Hilst.

Que livros(5) levarias para uma ilha deserta?

O Evangelho segundo Jesus Cristo, de Saramago, as obras completas de Oscar Wilde, as obras completas do Graciliano Ramos, uma boa tradução da Bíblia (um dia vou ter que encará-la, quem sabe não aproveito a solidão desta ilha), Manuel Bandeira, obras completas. Uf! Nunca pensei que fosse tão útil essas ‘obras completas.’

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?

Eu gostaria de passar a corrente para muita gente, mas me dou conta de que muitos dos meus amigos não usam a internet, não têm blog (nem o meu visitam, alguns nem sabem o que é isso), então, seguindo o padrão ‘manuelino’, deixo aqui os nomes e endereços daqueles que têm blog e que eu sei, apreciam uma boa leitura.

Um personagem: Dani Sorris
Caminhos de papel: Carlos Bruni
Beto Muniz: Beto
Cá onde estou: Mi
Caminhos: Laura

sábado, 30 de abril de 2005

Canindé e os obscuros caminhos da fé



A Canindé alguns vão a pé, percorrem o caminho da redenção de sandálias havaianas, chinelas de couro ou nada, ou seja, plantam no solo árido e seco do sertão a sola do pé curtido pela miséria e trabalho ingrato.

Nós percorremos o caminho de Canindé de carro mesmo, durante o trajeto, Padre Rafael nos explicava que seu Ceará é surreal, ali há pontes sem rio e rio sem pontes. Assim mesmo! Um dia, disse, viajava com um padre europeu e passaram uma ponte, duas pontes, três pontes e nada de água rolando por baixo delas. O europeu conferiu todas pois que tudo olhava atentamente. Chegando no quarto rio ele viu, finalmente, a água mas…não viu a ponte porque ponte não havia ali e tiveram que voltar, suspender o passeio. O europeu coçou a cabeça e riu das pontes sem rio e do rio sem ponte. Como pode? Os outros riram mais ainda e disseram que é assim mesmo, ora!

No caminho, duas mulheres andavam, em sentido contrário ao nosso, uma delas transportava na cabeça, com habilidade e certa elegância, uma grande trouxa, sem a ajuda das mãos; nas paradas dos ônibus, o povo esperava acocorado como os chineses.

O povo de Canindé acredita que São Francisco vive ainda hoje…e ali mesmo, naquele vilarejo, numa casa amarela. E a mancha no dorso do jumento é, para eles, o mijo do menino Jesus. Nem o Padre Rafael, nem ninguém é capaz de provar o contrário.

Na casa dos milagres, ao lado da igreja há um grande mural com fotos de pessoas que esperam ou alcançaram uma graça. Várias crianças nuas e até mesmo adultos mostram as partes do corpo conforme a graça recebida, assim vemos seios expostos, ventres, as pernas com as feridas, só os rostos, uma noiva com ar desconfiado e seu noivo….alguns deixam junto com a foto uma nota explicativa, mas não são muitos. Uma dessas notas trazia um retrato três por quatro à direita, outro à esquerda, uma imagem de Santo Antônio no meio e dizia:
‘Mercearia Santo Antônio – Eu moro em Teresina – PI na rua Bento C. Basto, no São João, e me peguei com São Francisco, para não perder o juizo (não ficar louco) porque eu perdi o meu filho Sérgio, com dezoito anos, num acidente de carro, todos os anos ele viajava para Canindé quando era vivo. Eu fiz a promessa se ficasse bom eu levava meu retrato e o dele e botava na casa dos milagres. Minha mercearia ficou quase acabada, então eu incluí no meu pedido que salvasse o meu comércio que eu levaria uma foto agradecendo, e estou deixando aqui meu testemunho, e agradecimento.
Alcancei a graça
Bendito o que vem em nome de Jesus.
Canindé, 4 de outubro de 2003
Antonio polícia.

Canindé e seus confessionários com ar condicionado que retêm ali as velhas e seus pecadilhos, por horas e horas. Canindé e o São Francisco vivente. Canindé, o simpático Padre Rafael e sua namorada morena. Canindé, minhas impressões de um dia, uma fotografia, um mundo entre nós....

Canindé e os obscuros caminhos da fé.



Escrita para Anjos de Prata.

Leila Silva


quarta-feira, 27 de abril de 2005

A Ostra e o Vento

Li na semana passada, seguindo sugestão do amigo Manoel Carlos, o belíssimo e poético A Ostra e o Vento. A narrativa, ou melhor, o clima é quase onírico e há sensualidade em cada linha, nada parece ser escolhido ao acaso, nem os nomes dos personagens: Marcela (Mar cela), por exemplo, nem as palavras para descrever os mesmos personagens ou a ilha.

Confesso que precisei do empurrão do Manoel Carlos para conhecer esta obra, às vezes, durante a leitura eu me perguntava, ‘Como pode um livro destes não ser mais conhecido?’, mas suponho que ele seja bastante conhecido no Brasil, já foi, inclusive adaptado para o cinema(estou procurando o DVD) por Walter Lima Jr., em 1997.

Quem quiser saber mais sobre o autor encontrará informações no Agreste ou no website da Editora Quartet.
A primeira edição do livro data de 1964, eu tenho aqui a sétima edição que é de 2000 e traz um prefácio do pesquisador americano Michael Fody. Copio aqui uma pequena parte deste prefácio:

“Considero importantes todos os romances de Lopes, mas se eu tiver que apontar um como merecedor do título de obra-prima, proporia sem hesitação A Ostra e o Vento.”



A ostra e o vento
Chico Buarque/1998Para o filme A ostra e o vento, de Walter Lima Jr.

Vai a ondaVem a nuvem
Cai a folha
Quem sopra meu nome?
Raia o dia
Tem sereno
O pai ralha
Meu bem trouxe um perfume?
O meu amigo secreto
Põe meu coração a balançar
Pai, o tempo está virando
Pai, me deixa respirar o ventoVento
Nem um barco
Nem um peixe
cai a tarde
Quem sabe meu nome?
Paisagem
Ninguém se mexe
Paira o sol
Meu bem terá ciúme?
Meu namorado erradio
Sai de déu em déu a me buscar
Pai, olha que o tempo vira
Pai, me deixa caminhar ao ventoVento
Se o mar tem o coral
A estrela, o caramujo
Um galeão no lodo
Jogada num quintal
Enxuta, a concha guarda o mar
No seu estojo
Ai, meu amor para sempre
Nunca me conceda descansar
Pai, o tempo vai virar
Meu pai, deixa me carregar o vento
VentoVento, vento

domingo, 17 de abril de 2005

Quando Carla me visita - Parte II

Lembro-me de ter passado por Avignon e de lá ter tomado um trem que saiu atrasado, o fato não teria me marcado não fosse uma lição antiga de francês cujo diálogo eu ainda tinha na memória e que se passava ali, naquela mesma cidade. Era mais ou menos assim: Um italiano, dentro do trem, pergunta as horas para um francês e este lhe diz educadamente as horas e ainda acrescenta que o trem está partindo na hora certa…. ‘como sempre’, o italiano, resignado como eu nunca encontrei na vida real, responde “Não é como no meu país, então”. ‘Esses franceses e seus métodos de ensino!’ Pensei enquanto ouvia o alto-falante anunciar o atraso….E assim, pouco a pouco, fui percebendo a diferença entre a França real e a França das aulas de línguas. O processo pode ser chamado de desmistificação.

Carla contava histórias do Brasil, de Campinas, relembrava o passado comum mas não senti sua amiga interessada em partilhar das lembranças. Talvez Carla não se importasse, queria relembrar ainda que só, ou talvez não percebesse. Ou sera aque eu estava vendo coisas? Deixei-a com a amiga e voltei para Bruxelas, durante a semana empacotei os poucos pertences e fui para outro apartamento, em um lugar muito mais agradável. Lá tinha aquelas janelas no teto, eu gostava de acordar e ver o céu, quando nevava, eu gostava de ver a neve se acumular.

Quando Carla voltou, o computador ainda estava numa caixa esperando para ser montado, ela explicou que era expert em montar computadores, se eu quisesse….Sugeri que fôssemos a uma boîte ao invés disso. Ela aceitou.

Na Bélgica há mais de quatrocentos tipos de cerveja, Carla queria experimentar todos em seus poucos dias. Virou lenda, até hoje há quem me pergunte a respeito daquela moça que queria experimentar todas. E olha que os belgas são bons de copo.

Chegou o dia de ir embora. Ouvindo-a fazer as malas, dei graças a Allah que a minha vizinha era espanhola e não alemã. Carla passou a noite toda fazendo e desfazendo a bagagem, no dia seguinte ainda me disse: “Como você vai logo ao Brasil e não vai ter muita bagagem, podia levar essas coisas aqui pra mim.” Mas quem disse que eu não teria muita bagagem? Concentrei me: ‘Primeiro Saramago. Primeiro Saramago. Primeiro Saramago.’ “Ok, eu levo.”

E Carla se foi.

sábado, 16 de abril de 2005

Quando Carla me visita - Parte I

Isso foi em 1996, não me lembro o mês, mas sei que era verão na Europa. Carla e eu tínhamos trocado algumas cartas, cartas mesmo, das antigas, dentro de envelope e com selos, agora ela vinha, pela primeira vez, à Europa e decidiu começar sua viagem por Bruxelas porque eu estava ali. Aceitei tudo sem refletir muito e sem perguntar exatamente o que ela queria fazer. Estava bastante perdida por essa época. Eu estava perdida, Carla não, estava quase terminando seu doutorado em economia na UNICAMP e isso a realizava em muitos sentidos. Ela tinha namorado uma de minhas amigas, acho que era por isso que eu a conhecia. Essa minha amiga, entretanto, preferia ver o diabo a rever Carla. Não quis saber dos detalhes do gran finale.

Então ela estava chegando naquele 96 e eu estava vivendo em um apartamento pequeno e deprimente. Pertencia a uma família grega que morava no primeiro andar, uma senhora gorda e simpática, um senhor que passava muito do seu tempo na Grécia, um rapaz branco, magro e bobo e uma moça arrogante e não menos boba, só que ela parecia não saber disso. Ficava na rua Gallait, perto da Gare du Nord, certamente um dos piores, ou pelo menos um dos mais tristes lugares da cidade. Era o que minha irmã tinha nos arrumado provisoriamente, enquanto a gente decidia o que fazer da vida. Ela já tinha decidido mais ou menos, de uma hora para outra fez as malas e rumou para Lisboa, ali fiquei, inquilina dos gregos, naquele rua onde o bonde passava cedo fazendo barulho e onde os marroquinos adolescentes e nem-tão-adolescentes se esmurravam de vez em quando. Eu não me importava, só tentava deixar o apartamento limpo e organizado para amenizar a sensação. Que sensação? Vou pensar a respeito.

Contei a Jean-François que ia receber uma amiga brasileira e, para florear um pouco, contei que ela era quase doutora em economia. “Uma economista brasileira, isso eu quero ver!” Não entendi e ele explicou que estava fazendo uma piada, era uma referência à dívida brasileira, depois de explicado eu não achei a menor graça. E não foi por orgulho nacionalista.

Fui esperar Carla no aeroporto, ela apareceu tarde, sem as malas e com um cobertor roubado da KLM entre os jornais. Era para uma amiga que colecionava cobertores das companhias áereas. Explicou. As malas? Estas tinham ficado em Amsterdã, só estariam disponíveis no dia seguinte. Fomos para o tal apartamento e logo perguntei se ela queria tomar uma ducha. Eu tinha essa mania, mal descia do avião e corria para a ducha. Carla disse: “Mais tarde” e continuou a falar. Muito mais tarde, ela falava ainda e perguntei, de novo, se ela queria tomar o banho, “Não”. Na terceira vez ela disse que eu podia ficar sossegada que ela só ia tomar o banho na manhã seguinte. Fiquei sem graça.

No outro dia buscamos a sua mala, visitamos Bruxelas, Bruges e planejamos uma viagem a Paris. Eu estava preocupada com meu visto que estava por vencer e Olivier propôs levar-nos de carro até Lille, lá tomamos o trem para Paris. Fazia calor, fui no banheiro da estação colocar um vestido leve. Carla disse que eu devia usar mais vestidos. Depois fomos para o hotel de terceira categoria que eu tínha reservado, não foi difícil encontrar, perguntando aqui e ali. Como Carla disse que era “muito boa de direção”, eu não prestei atenção nos caminhos e, quando voltamos para o hotel, tarde da noite, tive que sair perguntando de novo, ela não tinha a menor noção do lugar. Descobri que Carla mostrava muita segurança com relação a coisas que não sabia e decidi confiar um pouco menos no seu senso de orientação.

Uma noite decidimos jantar espagueti, Carla colocou todo o parmesão da mesa, que não era pouco, no seu prato e pediu que eu dissesse ao garçon que ela queria mais. Às vezes, o papel de tradutora pode ser embaraçoso. Pela manhã ela quis comprar uma dessas malas de rodinha pois só tinha mochila e suas costas não podiam suportá-la. E procuramos e procuramos…

Depois de vistarmos Paris tomamos um trem e fomos para Montpellier onde ela deveria encontrar uma amiga da Unicamp que estava fazendo parte do doutorado ali. A amiga a esperava com tapetes vermelhos estendidos e ciumenta porque ela tinha ido primeiro em Bruxelas. Não encontrei a amiga tão animada e acolhedora. Porque há gente assim, sempre tão necessitada de exageros? Ter que exagerar no afeto de um na esperança de que outro a queira mais? Não sei como analisar? Carla exagerava em tudo, talvez fosse simplesmente parte de sua natureza. Eu gostava de muitas coisas nela, ela era inteligente, não um gênio, mas inteligente e alegre, ria muito. E, a melhor lembrança, ofereceu-me meu primeiro Saramago, levantado do Chão e também um Neruda.

quinta-feira, 14 de abril de 2005

Lendo: Mutarelli

O Natimorto

De Lourenço Mutarelli. Desenhista, recebeu 12 vezes o prêmio HQMix, mais importante prêmio da HQ brasileira. Do mesmo autor já li: O cheiro do ralo, seu primeiro livro (2002) que será transformado em filme, roteiro de Marçal Aquino. Mutarelli participa ainda, com suas ilustrações, do filme Nina de Heitor Dhalia.

Leila Silva

domingo, 10 de abril de 2005

Cadernos do Oriente - Uma “concubina macho”


Publico aqui mais um conto de Pu Songling. Já publiquei uma pequena biografia do autor em 11-04-2004, juntamente com a tradução de outro conto, o Mural, muito diferente deste que publico agora. O Mural é um conto fantástico e muito lindo, na minha opinião, este que publico aqui é, no mínimo curioso e engraçado.


Uma “concubina macho”

Pu Songling (1640-1715)

Um homem estava tentando comprar uma concubina em Yanghou. Visitou várias famílias e não encontrou nenhuma moça a seu gosto. Um dia, ele encontrou uma velha senhora tentando vender a filha adolescente, ela era linda e habilidosa em diferentes artes. O homem ficou satisfeito com ela e pagou um alto preço à senhora.

À noite, sob a coberta, ele sentiu que a pele da moça era extremamente suave e lisa, tocou suas partes inferiores e percebeu, surpreso, que sua nova concubina era, na verdade, um garoto. A velha trapaceira tinha comprado um bonito menino e o vestira de menina. Pela manhã ele mandou seus empregados procurarem pela velha, mas ela não foi encontrada. O homem estava muito frustrado e não sabia como resolver o problema dessa ‘concubina macho’.

Ele contou essa história a um amigo de Zhejiang que tinha acabado de passar nos exames imperiais e ia se tornar um oficial do império. Este homem deu uma olhada no garoto e comprou-o pelo mesmo preço que o outro pagara à velha trapaceira.


In Strange Tales from the Liaozhai Studio by Pu Songling.
People’s China Publishing House.

terça-feira, 5 de abril de 2005

Biografias

Não resisto, de vez em quando tenho que ler uma biografia de personalidades que respeito, principalmente escritores. Uma amiga que ensina literatura diz que isso é a maior bobagem e outra, que também ensina literatura, diz que é bobagem ler só biografias de personalidades que respeitamos. Ela, por exemplo, quando me contou isso disse que estava lendo a biografia do Ratinho e que isso podia ser importante para o seu trabalho….Felizmente, para mim, a biografia do Ratinho não é relevante.

Estou lendo a biografia de Virgínia Woolf escrita por seu sobrinho Quentin Bell. São dois volumes que dão mais ou menos quinhentas e cinquenta páginas…É verdade, biografias tem um quê de brega mesmo, muitas vezes me pergunto porque não me contento com a leitura das obras. O escritor preferiria isso, eu suponho. Mas é difícil resistir, deve ser o mesmo fenômeno que leva as pessoas a seguirem Big Brother. Ou não.

E o que de tão útil eu já aprendi nas 163 páginas lidas? Vejamos, o que me surpreendeu foi saber que V. Woolf contemplou a possibilidade de casar-se com Lytton Strachey, aliás, ele também, não só pensou como chegou a pedir a mão da moça em casamento, mas, no momento mesmo em que fazia o pedido já começou a se arrepender. Ela percebeu e ajudou-o a sair do embaraço. Lytton Strachey é aquele escritor inglês por quem a pintora Carrington* (do filme homônimo, 1995) foi perdidamente apaixonada, tão apaixonada que não sobreviveu à morte dele. Segundo o sobrinho, a homossexualidade de Lytton, ao invés de representar um problema era mais uma espécie de alívio para Vírginia. Informações interessantes mas não exatamente úteis, não é mesmo? Não se pode negar o lado voyeurístico desse tipo de leitura.

Evidentemente, este é apenas um ponto, há outros como as crises de nervos e as preocupações com as injustiças com relacionadas ao fato de ser mulher. Virgínia foi educada em casa, nunca teve educação formal enquanto os irmãos foram para a escola, se prepararam e foram para Cambridge. Era normal que ela, mulher inteligente, se ressentisse e isso percorre a sua obra.

*Interpretada por Emma Thompson.

Virginia Woolf – A Biography By Quentin Bell


Leila Silva
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“Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres.”

Mário de Andrade
Prefácio Interessantíssimo.