terça-feira, 22 de agosto de 2006

Violência - Blogagem Coletiva



A Laura propôs para hoje uma blogagem coletiva sobre Violência e sugeriu que eu fizesse um mini conto sobre o tema. Não consegui escrever o mini conto a tempo...então vou falar sobre coisas que me vieram à cabeça....Uma delas foi o filme Cidade de Deus. Eu estava vivendo nos Estados Unidos quando ele saiu no Brasil, uma amiga também brasileira me contou que viu muita gente (americanos, suponho) saindo do cinema antes do fim do filme. Chocados! Sim, o filme pode chocar, deve ser parte do objetivo do cineasta, inclusive. Mas, para nós, a invasão do Iraque é uma violência igualmente chocante, não? Assim como outras atitudes dos Estados Unidos, os ataques à soberania de outras nações. Há 'violência' e 'violência'. Eu acho que existe uma violência típica brasileira. Já li em algum lugar, faz tempo e não posso citar a fonte (e isso não é um artigo científico) que o ladrão brasileiro não quer só roubar, ele quer deixar a marca dele. Ele destrói o sofá que não pode levar com ele, ele bate na velhinha que não tem nada. Isso também não deve ser uma regra...

Já nos Estados Unidos (nós falávamos muito disso lá) tem aquele cara normal, que todo dia se levanta e vai trabalhar no escritório, um belo dia ele chega no trabalho com uma metralhadora, mata a metade dos colegas e se mata depois.

Voltando ao Cidade de Deus e outros filmes...os próprios brasileiros que vivem fora, muitas vezes reclamam do Brasil mostrado no cinema, dizem que os cineastas deviam mostrar outras coisas, as belas praias, a música, Foz do Iguaçu, Pantanal, Bonito, carnaval e mais futebol ainda...o brasileiro imigrante é um ser estranho (talvez todo imigrante) ele critica muito severamente o país de origem, o país que o 'mandou pra fora', que não lhe ofereceu as condições de vida que ele esperava, que exerceu sobre ele uma violência porque era no Brasil que ele se sentia em casa. Não é exatamente um aventureiro, ele se sente empurrado, um rejeitado no seu país e mais rejeitado ainda no país que o acolheu. Uma situação esdrúxula. Esse brasileiro, por outro lado, não quer ouvir críticas ao seu país. Se alguém critica ele já se sente atacado. Até mesmo um filme bonito como Central do Brasil era um embaraço para muitos desses imigrantes, violência mais uma vez, poeira nordestina, tristeza...os europeus adoraram. Tenho amigos belgas que conhecem de cor a maioria dos diálogos do filme e têm um poster gigante dele na parede. Eu poderia enumerar muitos outros filmes e documentários, esses dois são os mais conhecidos. Esse não é o perfil de todo brasileiro que vive fora, explico para evitar confusões. É claro que há aqueles (me incluo aí) que irão ao cinema ver os filmes brasileiros e que o apreciarão pela estética ou pelo enredo e que saberão aceitar as críticas aos defeitos inerentes à nossa sociedade.

Esse é o universo que eu conheço melhor e por isso resolvi falar dele, assim, nessa minha confusão de última hora, misturando de tudo um pouco. Outros que estão participando dessa blogagem coletica abordaram o assunto de forma mais direta e vale a pena ler.

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Rose Livros: A voz do escritor por Umberto Krenak

sábado, 19 de agosto de 2006

NUDEZ




...O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem
não era [e não desmenti, e perdi-
me.]


Fernando Pessoa


Não vesti
Nenhum dominó,
Nem arlequim,
Nem nada;
Estava assim, nu;
E os mais
Não nos querem nus
Porque a nudez choca,
A nudez é franqueza,
A nudez é verdade
E os mais
Não a querem...

Getúlio Gracelli

Da Antologia Saboreando Palavras
....
RoseLivros, AS Ondas por Eduardo Oliveira.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

LE PETIT PARISIEN


Acho uma graça essa foto do pequeno parisiense.
De Willy Ronis
(se é que tenho a boa informação, eu imaginava que fosse de Cartier Bresson)

Uma sexta chuvosa


Chove, faz um friozinho bom. O cachorro dorme em cima dos meus pés, aqui debaixo do computador. É por isso que eu gosto de cachorros, sempre por perto. Perguntei, ontem, para um aluno de doze anos: 'Do you like dogs?' (Fazia parte da aula). 'Yes, I like dogs, eu tenho um dog, eu adoro brincar com ele, faço isso faço aquilo.' 'Ok, and cats, do you like cats.' E ele: 'No, não gosto de cats, porque os cats são muito metidos.' Metidos?!? Achei muito engraçado, mas de certo modo o meu aluninho tem razão, gato é meio 'metido' mesmo. É muito lindo, sobretudo quando é bem novinho, mas só vem quando quer...eu nunca tive gatos, tivesse eu ia gostar mais. Gosto mesmo dos cachorros, daquela festa pela manhã ou quando você passa três horas fora de casa, ao chegar parece que faz um mês.
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Minha irmã telefonou de Bruxelas muito impressionada com um documentário que tinha acabado de ver sobre os bonobos. 'Leila, não tem jeito nós viemos mesmo dos macacos!'
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A queda em questão no mais romântico e pessimista dos filmes, excelente artigo de Chico Lopes sobre o filme Vertigo no RoseLivros.
Imagem: Gathering trees, Iacobellis.

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

A galinha


Ai...ai...ai....que falta de tempo!
Uma foto do sítio.
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BORIS VIAN no RoseLivros by Leila Silva.

domingo, 13 de agosto de 2006

SAUDADE


Carlos Pessoa Rosa

Que importância tem mais esta viagem se na vida fui um nômade? Acostumei-me com as geografias que me visitaram, ignorei os atores, passantes anônimos que fizeram parte de meus instantes. Diante dos caminhos oferecidos pela existência, nunca passei de um viajante passivo. Mantive-me o mais distante possível das sutilezas e das armadilhas da vida. Sem prazer, mas também sem dor. Esse foi meu lema.
De onde me encontro, na boca ruminante das desoras, ao som vacante das corujas, quando Arlete, a mulher encontrada na rua – nem sei se é esse seu verdadeiro nome –, dorme, pouco se vê de trilhos, trilhas, estradas, aviões, trens, ou navios; de opções. A liberdade caminha sobre trilhos, amarrada em regras inflexíveis e pontuais, a individualidade, uma ilusão. No quarto, rosto de pedra, expressão de solidez absoluta, absorto, junto a obsoleto sexo, escancarado, semi-aberto, úmido, diviso a pausa. Descaso comigo essa relação com uma profissional? Não! Dá menos trabalho que uma punheta. Só isso.
Dissimuladas, assim foram todas as aberturas ao longo da estrada. A criança de passos duros, olhos engessados, estranheza de estrangeiro, seguia na calçada-rolante: de casa à escola, da escola em casa. Igual ao trem de ferro que atravessava a vila, a íris, barulhento na memória, aventando a pele. Aprendeu a agir como o voyeur que se excita independentemente de qualquer atividade própria. O lugar predileto sempre foi o calçamento, recostado em algum muro, de onde assistia ao que ocorria ao seu redor. Foi o modo como gastei meu tempo infantil, torcendo no mais das vezes por algum pião ou bolinha de vidro alheio a mim. Nunca fui o vencedor. Como sobreviver exigia ignorar problemas menores, para a família eu não passava de uma criança estranha e orgulhosa, algo mais palpável que alguma doença psiquiátrica ou depressão. Sem criar problemas, acomodaram minha existência na deles. Portanto, do infante, além da repetição e do distanciamento, não deixo história a ser contada.
O adolescente assumiu de vez o papel de voyeur. Concretamente. Perdeu a noção das mulheres que rodearam seu imaginário para lhe oferecer prazer. No início, em casa. Depois, nas salas de filme pornô. Assim conheceu o comércio de sexo. Logo se acostumaram com o sujeito de terno e gravata, que aparecia às sextas-feiras, trepava, pagava e desaparecia. Assim foi até o primeiro casamento. Pensava que uma vida em família facilitaria o viver. Ilusão. Foram três casamentos. A primeira, uma professora do interior, tímida e sem iniciativa. Tivemos dois filhos que procurei não conhecer além do que o olhar permitia. Voltou para a casa dos pais. A segunda, uma aluna evangélica. Falhei na escolha. Exigia demais de meus testículos. Com ela não tive filhos. Fugiu com um assistente meu. Vivem na praia. A última morreu de câncer de mama. Tudo isso mesclado a uma profissão brilhante, titulado doutor pela melhor universidade pública do país, em História. Sarcástica escolha, com certeza.
A verdade é que a vida nunca me convenceu. Não experimentei AIDS nem sífilis. A maconha, tão em voga na época, não me ofereceria mais que um arranhão na anestesia original. Daí não tentar. Muito menos ácido ou cocaína. Detestava as pessoas que se utilizavam desses artefatos para se sentirem vivas. Nunca procurei as mulheres que me abandonaram, nem fui ao velório da cancerosa. Não aprecio touradas ou despedidas. Passei grande parte da vida lendo inutilidades que a profissão exigia. Procurei dar um sentido a tudo que me cercava, na história. Fui um crítico mordaz de qualquer tipo de ficção ou poesia, uma forma menor de se falar do mundo.
Agora... o convite. Sem marcas d’água, selos, envelopes ou cartas. Diante de sutileza estrelar e lua-cheia. Assim sempre quis, como observador os olhos infinitos da existência. Lúcido, não deixo testamento, registro fotográfico ou testemunhas – além da Arlete. E ela dorme, o sono desalinhavado das madalenas. Mergulho no que me anseia porque é de minha vontade retornar de onde vim. Lá não há sombras de palmeiras, sequer, pardais. Mas, em cismar, sozinho, à noite, mais prazer encontro eu lá...
Da Antologia Saboreando Palavras.
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RoseLivros: O encontro de Monteiro Lobato com Friedrich Nietzsche, por Aluizio Alves Filho.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Rosa

O senhor mire...e veja:
O mais importante e bonito do mundo, 'e isto: que as pessoas nao
estao sempre iguais, ainda nao foram terminadas -
mas que elas vao mudando.
Afinam ou desafinam.
E o que a vida me ensinou.
J. G. Rosa.
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O Rose Livros tem resenha nova de Claudinei Vieira, Notas do subterrâneo e O deserto dos tártaros de Umberto Krenak.
Eu Continuo no SBS com o meu texto: Ensinando Português como Língua Estrangeira na Europa: Relato de uma Experiência

domingo, 6 de agosto de 2006

Palestra online SBS


A Editora SBS Livraria Internacional, convidou-me, há algum tempo, para fazer uma palestra online. O título da minha palestra é: Ensinando Português como Língua Estrangeira na Europa: Relato de uma Experiência.
É um assunto bastante específico, o ensino de línguas, mas pode interessar a alguns de vocês. A minha 'palestra' consiste exatamente nisso que diz o título, é um relato. Vou colocar um resumo abaixo, quem se interessar pode ir até a página da SBS, ler e deixar perguntas se for o caso. A minha está marcada para a semana de 07/08.
Resumo:
O objetivo desta palestra é relatar, de maneira não-acadêmica, minha experiência com o ensino de Português Língua Estrangeira (PLE) na cidade de Bruxelas. Ensinei, por alguns anos, língua francesa no Brasil, sou formada em Letras (português-francês), habilitada, portanto a ensinar as duas línguas. Ao contrário do que eu esperava, nas escolas por onde passei em Bruxelas (foram várias), esse diploma específico na língua que eu me propunha a ensinar, não era exatamente um trunfo. Descreverei também o público que eu atendia, seus objetivos que eram dos mais variados, desde mera curiosidade lingüística ou cultural a negócios que envolviam o Brasil e outros países lusófonos, descreverei ainda as escolas, seus métodos, o que esperavam de um professor, o que ofereciam.

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

saboreando palavras

















Hoje é o lançamento oficial do livro Saboreando Palavras que foi originado através de um concurso, publiquei o edital aqui mesmo e ajudei a divulgá-lo em alguns sites e dentre os meus amigos. Quero parabenizar estes amigos, os reais e os virtuais, pelos belos contos e gostaria de poder publicá-los aqui pouco a pouco se eles o permitirem. São eles:
Getúlio Gracelli
E ainda a minha grande amiga Elaine Corsi que está entre os ilustradores.
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Leia sobre As ConfissõesJean-Jacques Rousseau em RoseLivros.

segunda-feira, 31 de julho de 2006

Quintana






Mário Quintana teria 100 anos.....


Todos passarão
e ele passarinho

quinta-feira, 27 de julho de 2006

Informe esquisito



Caros amigos,

Vamos ver se consigo retomar o meu blog moribumdo, quase em coma...por conta de m a i s uma mudança, como já disse antes. Agora estou em Curitiba esperando que seja por muito tempo, por um bom tempo, pelo menos. O que isso significa, vai saber! Mas estou curtindo muito a cidade nova (para mim, claro), o trabalho. Um pouco de saudades da minha vida 'cibernética', de retomar os contatos com os amigos virtuais. As coisas se atropelaram....é normal. Saudades também do meu cachorro que vai chegar hoje. Acho que nunca viu tanta estrada na curta vida dele.

Retomo, com vigor desta vez, o trabalho com as línguas estrangeiras e com disposição de permanecer no Brasil até....sabe Allá quando. Quando vim para o Brasil, há quase dois anos, tudo estava cinza, nebuloso, não sabia bem onde aportar e nem se queria mesmo ficar. Foram dois anos estranhos. Estranhos é uma boa palavra para isso. De algum modo foram produtivos...muita coisa aconteceu, algumas boas, outras bastante ruins. Muitos acidentes em família, infarto, doenças. Tudo de uma vez, concentrado. Depois da tempestade sempre vem a bonança....dizem por aí. Estou longe de ser uma Pollyanna, nem posso dizer que eu seja uma pessoa otimista. Não sou. Sou bem humorada, mas otimista, não. Entretanto, sei que resistimos, que nos adaptamos. E voilà, mais um capítulo.

Todos os meus comentários de livros agora vão para o RoseLivros que está excelente e cada vez mais visitado. As últimas resenhas são de O PAÍS DOS PONTEIROS DESENCONTRADOS e A ESTEPE de Marcelo d'Avila e Claudinei Vieira.

terça-feira, 25 de julho de 2006

Peintres belges II: Rubens

Peter Paul Rubens (1577-1640)
De Antuerpia - parte flamenga da Belgica.

terça-feira, 18 de julho de 2006

Pintores belgas: R. Magritte

L'empire des lumières
Rue du Musée
91000 Bruxelles
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Amigos,
Ando muito ocupada, no meio de mais uma das muitas mudanças da minha vida. Desculpem os e-mails por responder e a falta de visitas aos blogs. Logo tudo voltará ao lugar e vou continuar com as 'belguices', desta vez os pintores, começando por Magritte.
A Correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto no RoseLivros.

sexta-feira, 14 de julho de 2006

Peixes

Peixes mortos
Essa foto eu fiz há uns três anos em Vancouver, Canadá. Chinatown.
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Mais fotos minhas
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Resenha de O virtuose, O penhoar chinês e outras no RoseLivros .

quinta-feira, 13 de julho de 2006

O vendedor de vassouras


[Um linda crônica de Regina Igel]

Era alto, magro, macilento e cego. Vendia vassouras pelas ruas do bairro, acompanhado de seu guia, um menino caolho, mal nutrido e baixinho. Uma dupla pouco atraente esteticamente. Mas o quê fazer. A sina desses dois era andar juntos, "pela estrada da vida", como um inspirado professor do meu ginásio revelou no seu discurso de formatura. Eles chegavam na rua onde eu morava como cachorros humilhados, daqueles que baixam as orelhas, o focinho e o rabo. O rosto do homem cego parecia varrer o chão em que pisava, oscilando da direita para a esquerda e volta, enquanto o menino, um de seus ombros agarrado pela súbita manopla do seu senhor, fazia o que podia para avançar de casa em casa. Batia palmas para chamar a atenção dos lá de dentro ou, encontrando uma campainha, pousava seu polegar de unha escura até que uma furibunda dona-de-casa ou uma empregada suada aparecesse na portinhola gradeada da porta principal.
-- Vai vassoura hoje, dona? - gritava o menino.
-- Nem hoje nem amanhã! - respondia uma malcriada.
-- Não, hoje não! - respondia uma melhor educada.
-- Não, passa outro dia! - respondia quem tinha a generosidade de dar uma migalha de esperança. E assim eles percorriam as ruas daquele bairro, classe média, fincado de trabalhadores em pequenas oficinas, barbearias, borracharias, barzinhos, gente que um dia queria ter mais. E tinham oportunidades que não eram dadas a cegos nem a acompanhantes. Nunca tive contato direto com a dupla. Eu os via do meu posto de observação, a varanda da minha casa, em nível acima da calçada da rua, e ainda protegida por umas persianas semifechadas, semi-abertas. Eles vinham, apertavam a campainha, saía alguém de casa. Não é todo o dia que se precisa de vassoura, mas chega o dia em que isto acontece. E se compra a tal.
-- É de piaçaba? - perguntava alguém entendido em material de limpeza.
-- E da boa, dona! - respondia o menino, já tirando um dos cabos do molho de cabos coloridos. Que cor a senhora quer?
-- Qualquer uma, não importa a cor. Quero vassoura boa, pra varrer de verdade.O cego sorria, pela primeira vez o vi sorrir. (Talvez tenha sido a última também.) Mas não dizia nada. As partes de visão e locução ficavam a cargo do seu acompanhante. A compradora tirava do bolso do seu avental umas moedas, passava-as ao menino, que as dava ao cego, que as apalpava e as metia no bolso da calça, um bolso que parecia bem fundo, pois ele enfiava quase todo o braço por aquele espaço. Já com o rosto erguido, as órbitas azuladas ou vazias, ele dizia:
-- Deus lhe pague!
-- O ceguinho agradece - completava o menino, como se a voz do homem não fosse suficiente. Se não lhe compravam uma vassoura, lhe davam uma tangerina ou um copo de água. Vi isto entre os vizinhos. Quando isto acontecia, o cego encostava seu ramo de vassouras, com ajuda do menino, numa parede qualquer, libertava as mãos e pegava no copo. Como lhe serviam em copo de papel, muitas vezes a água era espremida, sem o homem disto se aperceber, e o líquido lhe descia pelo queixo mais do que pela garganta. Mesmo assim, ele agradecia efusivamente a generosidade de um copo d´água. E continuavam a marcha. Até onde foram? Não saberia dizer. Por quanto tempo mais continuaram nesta andança e semi-mendicância, tampouco posso dizer. A rotina, um dia, terminou. As casas trocaram as vassouras por empregadas movidas por aspirador de pó. E estes olhos, que um dia a terra há de comer, nunca mais viram o ceguinho e seu ajudante.

segunda-feira, 10 de julho de 2006

Livros recebidos: Flávio Viegas Amoreira



O Flávio é de Santos, aqui estão três dos seus livros que ele gentilmente me enviou. Ele é publicado pela 7 Letras. Logo falarei mais sobre ele e os livros também. Merci beaucoup à Flávio mais uma vez.

Livros recebidos: Regina Igel e Chico Lopes


Vou postando aqui, aos poucos, os livros que recebi dos amigos escritores e depois vou falar mais sobre eles, aqui ou lá no RoseLivros.
Já falei antes de alguns deles aqui no blog, mas na época eu não sabia colocar as fotografias. Aqui à esquerda, Regina Igel que me enviou o livro quando eu ainda vivia nos Estados Unidos. Ela vive e trabalha em Washington DC. À direita, o livro de contos de Chico Lopes.
E mais uma vez o meu 'muito obrigada' a todos os que me enviaram os seus livros.

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Remexendo a gaveta

Omnibus


Sharp… Panasonic… Deus
Passeio na cidade desproibida
Suada… vazia
de sentido
O ônibus vai
e a minha retina retém
todos os letreiros
os números, as formas
disformes paradoxos
os meus ouvidos captam
o silêncio do homem triste
que olha sem ver
a cidade sem sentido
Há quem sorria
um riso educado
desconfortável
Há olhos que se olham
Susto
Sinal desrespeitado
(Talvez chova, faz tanto calor!)

Ponto final

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[um poema de 1996]
Imagem: Gustav Klimt, Il bacio.

Sítio


Entardecer no cerrado.

quarta-feira, 5 de julho de 2006

Atrizes belgas



Falando um pouquinho mais de cinema belga...vamos agora às atrizes. Para começar Cecile de France que nasceu em 1975, em Namur.O seu filme mais conhecido deve ser A Volta ao Mundo em 80 dias (2003) e L'Auberge espagnole (2001) pelo qual ela recebeu um prêmio, o Cesar. Este último filme é uma comédia sobre um grupo de estudantes de intercâmbio (Erasmus)que vive na mesma casa em Barcelona. Albergue espanhol é uma expressao francesa que quer dizer ‘bagunça’, como é de se esperar, a casa é assim, ali vivem estudantes de diferentes nacionalidades, diferentes línguas, diferentes modos de vida...uma micro Europa em Barcelona. Cécile de France faz o papel da estudante belga, lésbica, engraçada, linda, torna-se amiga do personagem principal e ensina-lhe alguns truques sobre as mulheres. Esse filme é muito conhecido na Europa...não sei se passou pelo Brasil. Vale a pena.


Outra atriz belga conhecida é Emilie Dequenne, já falei dela aqui antes quando escrevi sobre os irmãos Dardenne. O primeiro filme que ela fez foi Rosetta, dos dois irmãos, e logo de cara ganhou o prêmio de melhor atriz no festival de Cannes, aos dezoito aninhos. Claro que depois disso já fez muitos outros filmes.

Aqui estão alguns:

Mademoiselle Julie
Le grand Meaulnes

Avant qu'il ne soit trop tard
La ravisseuse
L'Américain
The bridge of San Luis Rey
Claude Berri, le dernier nabab
L'équipier
Lysistrata
Mariées mais pas trop
Une femme de ménage
Jean Moulin
Oui, mais...
Le pacte des loups

Telefonema surreal


Esses dias recebi um dos telefonemas mais surreais da minha vida. Ainda cansada de uma viagem atendo o telefone. Normalmente me irrita um pouco quando a pessoa do outro lado, esguela: ‘QUEM tá falando?’ ao invés de dizer com quem quer falar. Se o tom for educado ainda passa. Nesse dia que atendi, a voz era rude e já foi logo perguntando:

‘QUEM?’ Eu não queria perder tempo, então respondi:
- Leila.
- É a Leila mulher do Alcides?
- Não.
- É SIM!
- ????

(Aparentemente era alguém que sabia mais que eu. Analisei o nome por uns segundos....Alcides, Alcides, não nunca conheci nenhum Alcides, nunca fui casada com nenhum)

E a mulher:
- É você SIM, escuta aqui ó....
- Minha senhora, a senhora está falando com a pessoa errada.
- Você sempre diz isso, eu só quero te falar o seguinte, você pára de ligar pro fulano e falar que tá com saudades dele....

(Nesse ponto eu já estava morrendo de rir e tentando explicar para a mulher que ela, definitivamente, tinha chamado o número errado, mas ela não escutava. Tentei ainda)

- Minha senhora, eu não sou a mulher do Alcides, meu marido é o fulano.
- Pode SER que você tenha se casado de novo, não me interessa...

(Daí eu desliguei e fui rir à vontade, fazer o quê? E ela deve ter continuado a lista.)
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O Derrotista e Contos fantásticos no labirinto de Borges em Rosebud Livros.

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Fromages de France

Estive muito ocupada nestes últimos dias, muita viagem, mudança de todo tipo, muito trabalho...por isso meu blog ficou tão abandonadinho e por isso também não pude visitar os blogs que visito sempre. Espero que a vida volte logo ao normal. Achei este cartão que enviei ao meu pai (que como bom mineiro adora queijo) em uma das minhas viagens. Tirei da geladeira dele para colocar aqui, logo devolvo. Não sei se os nomes dos queijos vão aparecer aí direitinho....
Em breve com assuntos mais sérios e já retomo também as visitas. Não se esqueçam do Rosebud Livros que está cada vez melhor.
Abraços
Leila

sexta-feira, 16 de junho de 2006

Ayaan Hirsi Ali



[Deixando um pouco de lado os assuntos belgas e meus mini-contos para falar de um assunto holandês, africano e mundial]

Ayaan Hirsi Ali é a somaliana naturalizada holandesa que trabalhava com Theo Van Gogh (sobrinho do outro) quando ele foi assassinado em novembro 2004 por um muçulmano extremista. Eles fizeram juntos um documentário, submission, que mostrava a degradação, os maus tratos infligidos a muitas mulheres muçulmanas. Quase todo mundo já ouviu falar disso, se não me engano, até mesmo a revista Veja entrevistou essa moça. Junto com o corpo de Theo Van Gogh encontraram um bilhete dizendo que Ayaan Hirsi Ali seria a próxima.

Ayaan Hirsi Ali foi vítima da excisão aos cinco anos de idade, viveu em diferentes países fugindo dos problemas políticos da Somália. Pediu asilo à Holanda alegando estar fugindo de um casamento forçado pela família, estudou, em poucos anos obteve o título de doutora em ciências políticas, aprendeu línguas estrangeiras, apaixonou-se por cinema, foi extremamente ativa na defesa das mulheres e tornou-se deputada no país que a acolheu. As chances, segundo Mohamed Haddad, de uma mulher nas condições dela ‘aceder a uma vida digna são as mesmas são as mesmas chances de o leitor deste artigo ganhar na loto’.

E agora, o que está acontecendo e que eu ainda não consegui entender, é que Ayaan Hirsi Ali perdeu, ou pode perder, a nacionalidade holandesa por causa de alguma falha no seu processo de naturalização, algumas ‘mentiras’ que ela teria dito para poder obtê-la, isto é crime. Uma ministra holandesa deu origem a um processo, não sei quais seriam os interesses dessa senhora. Pior ainda é que não há muitos países europeus dispostos a acolhê-la pois com essa fatwa nas costas ela tornou-se um problema, um problema caro, assim como era o escritor Salman Rushdie há alguns anos.

Bem, a moça não é santa, mas eu acho triste tudo isso e diz Mohamed Haddad que os sites e jornais árabes estão nadando de braçadas, adorando a desgraça dela e fazendo tudo o que podem para sujar seu nome. Por uma ironia do destino, ou qualquer coisa do gênero, ela deve ser acolhida pelos Estados Unidos...ou já foi, estou lendo jornais atrasados aqui. Boa propaganda para os Estados Unidos e boa lição para os outros.
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Querelle de Jean Genet no Rosebud livros, por Wagner Campelo.

Os brasileiros da França


[Artigo interessante - na RFI]

Cada vez mais um reflexo da sociedade no Brasil

Dos brasileiros que participam da lavagem das escadarias da basílica do Sacré-Cœur, na colina de Montmartre, em Paris, a maior parte nunca lavou a Igreja do Senhor do Bonfim, em Salvador. Mas isso não impede um grande entusiasmo. Porque viver no exterior tem dessas coisas : a gente desenvolve um saudosismo até do que não viveu mas tem gostinho nacional…
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Sentidos do Humor, trapaças da razão, a charge em Rosebud Livros por Vera do Val

Imprudência



Separei, sempre, o joio do trigo e, muitas vezes, fiquei com o joio. Não foi a sorte ou o azar, foi a imprudência. Eu podia ter escolhido o Luís, mas não, fiquei com o Lazinho. Imprudência! Está vendo minha cara quebrada? Significa que fiquei com o joio, entendeu, doutor? Uma lástima. Claro que não foi a primeira vez, nem a segunda, nem a terceira. Olha também aqui na minha coxa, viu? Estragar umas coxas dessas, doutor? Modéstia à parte...Um dia o desgraçado quase me arrebentou a cabeça, está aí escrito, dei queixa. A imprudência me fez voltar. Daí, doutor, respondendo à sua pergunta, foram sete facadas de raiva, de dor, de medo. Imprudência pura. Devia ter dado um tiro.
Leila Silva
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imagem: Modigliani

The perfect European

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Cinema belga - Poelvoorde


Benoît Poelvoorde é cineasta, ator, roteirista, dialoguista e cenarista. Nasceu em Namur em 1964, depois mudou-se para Bruxelas onde foi estudar no Beaux-Arts, ali começa a se apaixonar pelo cinema. Eu adoro seus filmes e seu humor.

Um dos meus preferidos é Les convoyeurs attendent (1999) realisado por Poelvoorde e aqui ele representa Roger, um sujeito pacato que leva uma vida modesta, para melhorar de vida ele mete uma idéia na cabeça, entrar para o livro dos recordes e ganhar um carro prometido por uma associção local, na região de Charleroi, onde vive. O resto é o patético muito bem representado por Poelvorde.

Outros filmes conhecidos:

C'est arrivé près de chez vous (1992)
Atomik Circus (2004) ) comédia com Vanessa Paradis, Jason Flemyng, Benoit Poelvoorde.
Podium comédia com Benoit Poelvoorde, Jean-Paul Rouve, Julie Depardieu.
Akoibon comédia com Jean Rochefort, Nader Boussandel, Marie Denarnaud, Poelvoorde, Chiara Mastroianni (filha de Cathérine Denneuve e Marcelo Mastroianni)
Mais aqui
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Simone de Beauvoir e Sartre em Rosebud Livros.

segunda-feira, 12 de junho de 2006

Cinema belga



Chantal Ackerman

Chantal Ackerman nasceu em 1950 em Bruxelas. É uma das cineastas belgas mais ousadas e já experimentou um pouco de todos os gêneros. Un divan à New York (1996) com Juliette Binoche e William Hurt deve ser o seu filme mais popular e mais conhecido fora da Europa. De l´autre côté (2002) é um documentário sobre os mexicanos que atravessam a fronteira para os Estados Unidos.

Alguns de seus filmes:

De l'autre côté, 2002
La Captive, 2000
Sud, 1999
Un divan à New-York, 1996
D'Est, 1993
Toute une nuit, 1982
Je tu il elle, 1974
Saute ma ville, 1968
Continuação do post sobre cinema belga: Les frères Dardenne

quarta-feira, 7 de junho de 2006

Um poema antigo

Sem tango e sem French kiss

Colo o meu rosto ao seu
E danço um tango imaginário.
Você detesta tango e detesta dançar.
Se insisto, me deixa só no salão.
Beijo-lhe os lábios
Com a boca fechada e a língua contida
Porque você não gosta de French-kiss….
Enquanto você dorme, tomo o rumo de Buenos
Aires.
Parto só porque você não gosta de viagens.
E vou-me, sem dizer adeus.
Você detesta despedidas.
***
Imagem: Bartol

domingo, 4 de junho de 2006

O Mundo de Jack e Rose

Este foi o filme do fim de semana, em DVD mesmo. O título original é The Ballad of Jack and Rose (2005), os personagens principais são Jack Slavin (Daniel Day-Lewis) e sua filha, Rose (Camilla Belle) de 16 anos. Pai e filha vivem numa comunidade, ou melhor, no momento em que se passa o filme, 1986, já vivem sós, todos já tinham abandonado o sonho utópico de viver daquele modo. Jack é teimoso, continua insistindo. Ele e Rose, às vezes parecem dois bichos do mato, sobretudo ela que foi criada realmente à parte, nesta ilha da costa leste dos Estados Unidos.
Jack descobre que está muito doente e começa finalmente a ter menos certezas e preocupações com relação ao futuro da filha. Numa decisão súbita, convida a namorada(Catherine Keener) e os dois filhos dela para virem viver com eles na ilha. Até então ela nunca tinha sido convidada a conhecer o lugar e muito menos a filha. Claro, isso vai provocar um desconforto e uma mudança na garota que adora o pai e não está disposta a dividi-lo com a estranha. O filme é bem mais que isso, alguns percebem também uma crítica ao sonho hippie. Pode ser. É um filme bonito e o mais intenso, na verdade, é a relação entre o pai e a filha que sai um pouco do convencional, ou seja, beira o incesto.

sábado, 3 de junho de 2006

Atlanta - Georgia - Gay Pride Parade



Foi no dia em que o Brasil ganhou a última copa e fazia um calor dos diabos em Atlanta.

Essas aqui, coitadas, estavam na hora errada no lugar errado, tiveram que pedir ajuda da polícia para sair do inferninho.

segunda-feira, 29 de maio de 2006

Les frères Dardenne



Jean-Pierre e Luc, conhecidos como ‘Os irmãos Dardenne’, são os cineastas belgas mais conhecidos no mundo e os mais premiados também, sobretudo em Cannes. Já li notícias de mostras dos filmes deles em São Paulo, mas não ouço falar muito deles no Brasil.
Desde 1978 os dois irmãos faziam documentários, em 1986 fizeram o primeiro filme. Tornaram-se mais famosos quando A PROMESSA, um filme sobre a imigração na Bélgica, ganhou vários prêmios importantes. Depois veio Rosetta pelo qual ganharam a palma de ouro, lançaram uma atriz, Emilie Dequenne que já começou no cinema com um prêmio de melhor atriz pelo desempenho nesse filme. Em 2005 receberam outra palma de ouro por L’Enfant. O cinema dos dois irmãos é mais voltado para as questões sociais e humanas: Desemprego, imigração, dramas íntimos e familiares... Na Bélgica há também bons comediantes, falarei deles em outro post.

Filmografia:


Chant du rossignol (1978)
Lorsque le bateau de Léon M. descendit la Meuse pour la première fois (1979)
Pour que la guerre s'achève, les murs devaient s'écrouter (1980)
R... ne répond plus (1981)
Leçons d'une université volante (1982)
Regard Jonathan/Jean Louvet, son oeuvre (1983)
Il court... il court le monde (1987)
Falsch (1987)
Je pense à vous (I Think Of You) (1992)
La promesse (The Promise) (1996)
Rosetta (1999)
Le fils (The Son) (2002)
L'Enfant (The Child) (2005)

***

O Darfur está a morrer. Leia em Briteiros.

sábado, 27 de maio de 2006

Mini Conto


Margaridas

Chegou com flores para enfeitar a casa. Margaridas. Adorava margaridas. O carro já na garagem era uma surpresa. Caminha pelo longo corredor. A porta do escritório fechada era outro fato inusitado.
Pelo buraco da fechadura vislumbra mãos e nádegas. Dá a volta na casa, espia pela janela. A boca de Maurício, gulosa, engolia uma língua, seus dedos roçavam um pescoço roliço. Outras mãos abriram seu fecho-éclair e acolheram o membro duro. Ela apertou as coxas, sentiu o líquido descer quente, como há muito não sentia. Maurício, disse num suspiro e seu olhar encontrou o do rapaz, reconheceu o aluno de Maurício.

Seu pé vacilou sobre a pedra ao sentir que uma língua lhe lambia as pernas.

Era o cachorro.
***
Logo volto com mais assuntos belgas, cinema desta vez. Por enquanto deixo meu mini-conto.
Ilustração:
Miriam Terlinchamp.

sexta-feira, 26 de maio de 2006

quinta-feira, 25 de maio de 2006

Como perdi 144 minutos da minha semana passada.

Fui ver o filme Brasília 18% e ainda insisti para que duas pessoas fossem comigo, durante o filme eu só pensava ‘Ai, no final eu vou ouvir!’ Dito e feito, quem escolhe o filme é sempre o responsável. E quando você também odeia o filme tem que balançar a cabeça e ouvir as reclamações ou desviar o assunto. ‘Ok, vamos comer uma pizza!’ Afinal tudo termina em pizza mesmo....

É chato chato chato.... Foi duro esperar o final. O Ricceli está parecendo um boneco que tenta um ar existencialista, falando pouco, fingindo ser compenetrado, resignado. Fingindo mesmo e não representando. A Malu Mader está patética como taradinha do Planalto. Cada um mais superficial que o outro. Na verdade, quem desempenha melhor o seu papel é a morta.

Fui ver porque era Nélson Pereira dos Santos, claro, e tenho respeito por ele, como todo mundo, mas algo saiu errado com esse filme. Ou será que foi só pra mim e os que me acompanhavam?

segunda-feira, 22 de maio de 2006

Ecrivains belges


Já escrevi isso aqui antes, mas vou relembrar, a Bélgica é um dos menores países da Europa com uma extensão territorial de 30.518 km² e três línguas oficiais : o francês, o neerlandês (holandês) e o alemão, muitos falam também o inglês. Nem todo mundo fala as três línguas, mas o neerlandês e o francês são comuns a boa parte da população. A Bélgica existe enquanto nação desde 1830, então, como falar em escritores belgas, pintores belgas antes disso ? Não sei, vou ficar aqui com os modernos para não complicar a minha vida. Aliás, já falei de dois que na minha opinião representam bem : Amélie Nothomb e Simenon e tem gente que já me escreveu dizendo : ‘Pensei que fossem franceses !’ C´est la vie. É assim mesmo, até eu antigamente imaginava que Jacques Brel, por exemplo, fosse francês.

Antes de terminar o assunto dos escritores belgas eu queria falar de Marguerite Yourcenar (1903-1987) que nasceu em Bruxelas, na Avenue Louise (uma das avenidas mais conhecidas e onde fica a Embaixada do Brasil). Ela entretanto, nunca teve a nacionalidade belga, a mãe era belga e o pai francês (se não me engano). Em todo caso a mãe morreu quando Marguerite nasceu e ela foi com o pai viver na França, anos depois foi viver nos Estados Unidos e lá mudou de nacionalidade, passou a ser americana para poder viver com sua companheira no país e voltou a ser francesa, anos depois, para fazer parte da Academia Francesa de Letras. Foi a primeira mulher a pertencer à academia francesa e pertenceu também à academia belga. Bom, é mais ou menos isso, ela é o exemplo de cidadã do mundo, uma pessoa para quem a nacionalidade não tinha importância. Então essa não entra como ‘escritora belga’, mas como curiosidade.

Outros escritores belgas conhecidos são Henri Michaux [A1] (1899-1984) que nasceu em Namur, Maurice Maeterlink que nasceu em Gand em 1862 Pierre Mertens (1939 - ), Jacqueline Harpman que é psicanalista, nasceu em Bruxelas em 1929 e vive ainda ali. Acho que vou pular os escritores flamengos, conheço muito poucos e acho que não são traduzidos. Se alguém quiser acrescentar algum nome importante é só me escrever e facço mais um post.
......

Obs : Ainda como curiosidade, Julio Cortázar também nasceu na Bélgica, mas era argentino e depois obteve também a nacionalidade francesa.

[A1] Michaux foi também pintor.

domingo, 21 de maio de 2006

Portugal

Juro que vejo aí um rosto, tem até umas lágrimas caindo dos olhinhos, mas, claro, é uma parede.
Não me lembro mais em que cidade fiz a foto, só sei que foi em Portugal. Caldas da Rainha, Batalha, Óbidos....?
Foi em outubro 2003.

Mais em Diletante.

quinta-feira, 18 de maio de 2006

hein?!

Numa lanchonete de rodovia:

Pão com manteiga 0,30
Pão sem manteiga 0,20
Pão com margarina 0,25
Pão sem margarina 0,15

segunda-feira, 15 de maio de 2006

A Guerra Conjugal


Dalton Trevisan

Editora Record – 9a edição 1987

A Guerra Conjugal é uma reunião de trinta contos curtos (não tão curtos quanto os últimos contos ou micro contos de D. Trevisan) em que todos os personagens principais se chamam João e Maria. Todos os joões médios são representados nestas páginas (assim como todas as Marias), é o João que ama a Maria que ama José ou que não ama ninguém, mas se casa assim mesmo por dinheiro ou estabilidade. É o João que se casa com Maria mas ama o Pedro e não pode aceitar. É a maria que se casa com João só para humilhá-lo, é o João impotente que faz a Maria pagar pela sua incapacidade externando a violência...Joões bons demais, capazes de reinterpretar os chifres, perdoar e perdoar de novo até ser escorraçado por ser tão pamonha; Joões maus, sádicos, ciumentos, exigentes, capazes de aniquilar as suas marias. Enfim, todos os joões e Marias representados com um humor ácido, sarcasmo, uma ironia que já começa nos próprios títulos: Grávida porém virgem, Tentações de uma pobre senhora, Agonias de virgem, etc.

Dalton Trevisan é considerado o mestre do conto no Brasil, o conto seco, com o mínimo de adjetivos. Dizer o máximo com um mínimo de palavras parece ser o seu objetivo. E diz. Transforma o banal, ou melhor, retrata o banal com grande eficiência.

Dalton Trevisan nasceu e vive em Curitiba, é autor de A Polaquinha, Cemitério de elefantes, O Vampiro de Curitiba e outros.
Este livro aí eu comprei no sebo, uma edição antiga, espero que tenha sido reeditado.
Resenha publicada no LeiaLivro, visitem.
......
Logo volto com mais 'belguices'.

quinta-feira, 11 de maio de 2006

Escritores belgas: Amélie Nothomb



Amélie Nothomb

Amélie Nothomb é a escritora belga mais popular neste momento. Ela não nasceu na Bélgica mas no Japão, em Kobe. Em um de seus livros ela diz que até certa idade acreditava piamente que fosse japonesa. O pai, também escritor, era diplomata e estava, durante a infância de Amélie trabalhando na Ásia. Ela e os irmãos foram criados em diferentes países, Japão, China, Birmânia e ainda outros países fora da Ásia, morou um período em Nova Iorque. Como outros filhos de expatriados, ela estudou em escolas internacionais, estando, por este lado, sempre ligada à Europa.

Amélie nasceu em 13 de agosto de 1967, como podem ver na foto é uma mulher bonita e tem um humor negro, um jeito de falar de sua vida e experiências na Ásia que cativa.

Li muitos dos seus livros, de alguns gostei bastante e outros menos. Os meus preferidos são, justamente, os que falam do período asiático. Um destes livros foi transformado em filme, um bom filme, mas nunca ouvi falar dele no Brasil, chama-se Stupeur et tremblements (o livro recebeu o Grand prix du roman de l'Académie française em 1999) e foi traduzido para o português como Medo e Submissão (clique no título para ler a sinopse). Este é um dos meus preferidos e merece um post à parte. A. Nothomb fala perfeitamente o japonês e neste livro que é autobiográfico ela narra a experiência como intérprete numa empresa em Tóquio, quando tinha 22 anos. Uma experiência no mínimo humilhante, tratada com humor negro e sinceridade.

Amélie Nothomb lançou seu primeiro livro em 1992, Hygiène de l'assassin e tornou-se um fenômeno literário, como sempre, há quem goste e quem não goste. Alguns acham que é ‘livro de verão’, desses que a gente leva para a praia, lê ali e pronto, ou seja, entretenimento. Eu não quero julgar, dei boas risadas com alguns, um ou outro achei meio chatinho, sobretudo um que é meio metido a Ficção científica e repleto de diálogos (que vergonha, não estou conseguindo me lembrar do título). Gostei muito de Le sabotage Amoureux que trata do período chinês, quando, aos sete anos a pequena Amélie descobre o amor pela colega de escola (a escola dos europeus), Elena, ‘uma italiana superior e etérea’. A pobre Amélie sofre horrores, mas o leitor ri muito. É a visão de mundo, da China e do amor por uma garota de sete anos.

Bom, isso é só para dar uma pequena idéia sobre ‘a escritora belga do momento’. Vou tentar resenhar os livros dela que li. Para quem arrisca ler em francês pode mergulhar tranqüilo, não são difíceis. Palavra de professora.

quarta-feira, 10 de maio de 2006

Chimay

Logo volto com mais escritores belgas....tempo tempo tempo.
Fiquem com mais essa cervejinha belga. Coloquei a foto porque gosto do rótulo. Gosto mais dos frascos do que do conteúdo.

Abraços
Leila

terça-feira, 2 de maio de 2006

Ecrivains belges: Simenon


Difícil falar de 'Escritores Belgas'. Não é uma desculpa, é assim mesmo. Primeiro é preciso dividi-los em dois grupos: os escritores belgas francófonos e os escritores belgas neerlandófonos. Cada grupo linguístico possui sua própria literatura. Da segunda, os neerlandófonos, ou seja, os flamengos, não conheço quase nada.

Escritores belgas francófonos:

O escritor belga francófono mais célebre no mundo é Simenon (1903-1989), o criador do inspetor Maigret. Georges Simenon nasceu em Liège e começou cedo a publicar, com apenas dezessete anos. Foi um escritor extremamente produtivo, dizem que em 15 dias ele era capaz de escrever uma novela. Claro, era considerado pela crítica um escritor menor, um sucesso comercial. É verdade que boa parte da sua obra foi escrita com o intuito de fazer dinheiro, mas nem toda e o escritor vem sendo reconceituado agora. Viveu em diferentes lugares, Liège, Paris e em alguma cidade da Suíça, muitas de suas obras foram adaptadas para o cinema.
Simenon tem uma biografia das mais conturbadas, quem se interessar em saber mais sobre assunto pode conferir (em português) aqui e aqui. Simenon já foi acusado, inclusive por alguém da própria família, de ter colaborado com os alemães durante a Segunda Guerra. Não sei se isso tem fundamento ou não, tenho amigos de Liège mesmo que levam isso a sério e detestam a pessoa Simenon. Não é para desculpá-lo, evidentemente, mas não terá sido o único escritor a fazê-lo. O escritor francês Louis-Ferdinand Céline tem um passado muito mais sujo, era abertamente anti-semita e colaborou com os nazistas ou ainda o escritor americano Ezra Pound. É duro para quem gosta tanto de literatura aceitar que escritores brilhantes como Céline, Ezra Pound e outros tenham tomado essas posições, mas c´est la vie!
Opinião de outro escritor:

“Ele é o maior de todos… o mais verdadeiro romancista que tivemos na literatura.”
André Gide.
............

Vou escrever outro post sobre os escritores belgas francófonos para que este não fique muito longo e chato e depois vou falar o que puder sobre os escritores flamengos que conheço tão pouco.