Um dia e outro dia.
Hoje a dor foi menor, quase inexata.
Honra é um harakiri bem feito, debaixo para cima e com coragem.
Ontem poderia ter sido. Hoje estou bem.
O mundo é um lugar dos mais estranhos, tem impostos para pagar e muitas regras para serem seguidas. Tem-se carro para andar mais depressa mas para isso tem-se que perder horas e horas, dias, às vezes, escolhendo um carro, tirando carteira, trabalhando para comprar o carro, para pagar o mecânico….paga-se multas se nos enganamos quanto às regras a serem seguidas. Muitas.Todo dia dormimos e quando não dormimos é pior ainda. Isso não é uma regra, é uma lei da natureza.
Assim é o mundo. Ai, que preguiça!
leilasilva100@hotmail.com
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2005
domingo, 13 de fevereiro de 2005
Balaio de Textos - SESC
Caros Amigos,
Estou de novo nos Estados Unidos, Seattle, desta vez. Pensei que ia demorar muito a botar os pes aqui de novo mas 'coisas acontecem'.
Bom, a cidade de Seattle 'e aquela que tem o space needle, tinha Nirvana e outras coisas de que falaremos depois, agora eu so queria deixar uma mensagem para dizer que nessa proxima quinta, dia 17, vou estar de novo no Balaio de Textos do Trevisan, desta vez com um poema, FORMAS, que alguns de voces ja devem ter lido aqui. Por favor, os que estiverem livres no horario do debate, oito horas, entrem para participar, bater nas minhas costas, dar um oi, o que quiserem.
Vou colar aqui o caminho tal qual o Trevisan me enviou:
O poema estará exposto no Fórum do Balaio, onde é possível conferir tb as opiniões deixadas. Vc poderá entrar no site pelos endereços:
http://www.sescsp.org.br/sesc/convivencia/oficina/frabalaio.htm ou
poderá entrar na sala do Balaio pela home page do UOL http://www.uol.com.br/; clicar em Bate Papo; a seguir, clicar em Variados; aí descer até Parceiros e rolar a barra até Oficina de Leitura ou SESC-on line, Sala 1.
Conto com sua presença.
Abraço do
João Silvério Trevisan
COORDENADOR DO BALAIO DE TEXTOS
O Poema:
Formas
So Sorry !
Disse ela sem parecer.
A sua ausência criou o tédio.
Do tédio fiz um poema
Triste e singelo.
Por demais singelo.
Então fiz as malas e fui para Avalovara
Andei por todas as vielas sem guia
A cada vez que me perdia me achava
Fosse a vida quadrada
Eu percorria os quatro cantos
Mas não !
É redonda como um O
E o fim se confunde com o começo.
Estou de novo nos Estados Unidos, Seattle, desta vez. Pensei que ia demorar muito a botar os pes aqui de novo mas 'coisas acontecem'.
Bom, a cidade de Seattle 'e aquela que tem o space needle, tinha Nirvana e outras coisas de que falaremos depois, agora eu so queria deixar uma mensagem para dizer que nessa proxima quinta, dia 17, vou estar de novo no Balaio de Textos do Trevisan, desta vez com um poema, FORMAS, que alguns de voces ja devem ter lido aqui. Por favor, os que estiverem livres no horario do debate, oito horas, entrem para participar, bater nas minhas costas, dar um oi, o que quiserem.
Vou colar aqui o caminho tal qual o Trevisan me enviou:
O poema estará exposto no Fórum do Balaio, onde é possível conferir tb as opiniões deixadas. Vc poderá entrar no site pelos endereços:
http://www.sescsp.org.br/sesc/convivencia/oficina/frabalaio.htm ou
poderá entrar na sala do Balaio pela home page do UOL http://www.uol.com.br/; clicar em Bate Papo; a seguir, clicar em Variados; aí descer até Parceiros e rolar a barra até Oficina de Leitura ou SESC-on line, Sala 1.
Conto com sua presença.
Abraço do
João Silvério Trevisan
COORDENADOR DO BALAIO DE TEXTOS
O Poema:
Formas
So Sorry !
Disse ela sem parecer.
A sua ausência criou o tédio.
Do tédio fiz um poema
Triste e singelo.
Por demais singelo.
Então fiz as malas e fui para Avalovara
Andei por todas as vielas sem guia
A cada vez que me perdia me achava
Fosse a vida quadrada
Eu percorria os quatro cantos
Mas não !
É redonda como um O
E o fim se confunde com o começo.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2005
Cadernos do Oriente [India]
Os gémeos Asvin são, no princípio do mundo, divindades menores que não podem beber soma – a droga perfeita dos deuses – e passam grande parte da sua existência entre os mortais. Ora, um dia os dois irmãos surpreendem no banho a bela princesa Sukanya e por ela se inflamam. São, porém, debaldes as suas tentativas de usufruir da beldade da princesa e dos seus modos naturalmente gentis: ela é fiel ao seu marido, um velho asceta de nome Cyavana. Mas os deuses, de tão surpreendidos por sua beleza e resistência, mais interessados ficam no que pensavam seria uma rotineira conquista. E por isso propõem uma troca: devolverão a juventude e a beleza ao marido, mas depois ela terá de escolher de novo um marido entre os três.O casal sabe que os Asvin preparam uma armadilha mas, confiando no amor mútuo, confiando cegamente um no outro, aceitam o jogo. Os seus temores não se revelaram infundados: quando Cyavana sai rejuvenescido das águas de um lago mágico, vem exactamente idêntico aos divinos gémeos. Como poderia agora a princesa perceber quem era o seu adorado marido? Sem dificuldade e fazendo fé na sua intuição, Sukanya descobre e escolhe o preferido. Ganha o coração sobre a luxúria. Bons perdedores, os Asvin preparam-se para bater em retirada.Mas Cyavana está longe de ser um ingrato - afinal, ganhara belos traços e uma nova juventude - e diz aos gémeos: “Vou fazer de vós bebedores de soma, apesar da oposição do rei dos deuses”. Sabedor dos segredos, prepara a beberagem, e mal estava pronta a bebida sagrada preparava-se para a servir aos dois incompletos deuses, de modo a fazer deles plenos participantes de todo e qualquer amplexo divino.Eis que estava pronta a servir quando intervém Indra, rei dos deuses, manifestando o seu desgrado e prestes a fulminar a mão de Cyavana, que segurava o cálice repleto do precioso soma. O asceta recorre então aos seus argumentos e através da “força da austeridade” cria um gigantesco monstro, cujas mandíbulas se abrem do céu à terra e que ameaça tudo engolir: é o monstro Mada (Embriaguez). Indra não resiste e capitula. Os Asvin bebem o soma e Cyavana tem de destruir o seu monstro. Corta-o em quatro partes e coloca cada uma num local muito específico: respectivamente, na bebida, nas mulheres, nos dados e na caça.
...................................................................................................Mahabarata, India
leilasilva100@hotmail.com
...................................................................................................Mahabarata, India
leilasilva100@hotmail.com
terça-feira, 1 de fevereiro de 2005
É carnaval
É o carnaval rosado,
o passo cadenciado
o sorriso largo como a avenida
coxas, peitos, bocas,
bundas e orelhas
dançam todas as cores
Evoé, Bandeira!
Só dentro de mim náo há festa
.........................................................Leila Silva
[Antigo, antigo: 16/02/96]
leilasilva100@hotmail.com
quinta-feira, 27 de janeiro de 2005
Cadernos do Oriente
À sombra de uma amoreira
Era uma vez um homem rico que vivia numa enorme mansão, ao lado da estrada. Atrás da casa havia uma majestuosa amoreira. Durante os dias quentes de verão ele costumava ir sentar-se à sombra dela para apanhar o fresco que ali se fazia sentir.
Um belo dia, um pobre coitado foi deitar-se à sombra da árvore e o homem rico, assim que o viu pôs-se a gritar:
_ Hei, tu! Não podes deitar aí! Vá! Vai-te embora! Desaparece!
_ Vou-me embora, por quê? Estou bem aqui. _retrucou o outro.
_ Essa árvore_ explicou o rico _ fui eu quem a plantou e eu quem a tenho regado. Por ter tratado dela é que agora ela está assim tão grande, e por isso a sombra dela é minha.
_ Se assim é, cede-me a tua sombra que eu pago-te bom dinheiro por ela.
A palavra “dinheiro” ressoou como uma bela melodia nos ouvidos do homem rico.
_ Hã! Assim está bem! respondeu.Assim cedo-te a minha sombra.
Após três ou quatro encontros, feitos por meio de intermediários, concordaram com o valor a pagar e firmaram o negócio.
Desde então aquele pobre vinha, todos os dias, deitar-se à sombra da árvore. Quando a sombra se estendia para o pátio da casa do rico, ele ia deitar-se ali; quando ela entrava para a cozinha, era para lá que ele ia; quando penetrava pelo salão adentro, até mesmo para ali ele ia deitar-se. Em resumo, para onde quer que a sombra se estendesse, ele seguia-a sempre. Por vezes estava sozinho, mas outras vezes convidava os amigos para virem apanhar o frescor debaixo daquela que era a sua sombra e chegavam a trazer consigo os seus burros e outros animais.
O rico estava a perder a paciência e, um dia, explodiu a sua fúria:
- Mas que é isto? Quem é que te deu ordem de vir para o meu pátio, de entrar na cozinha da minha casa ou no meu salão? Proíbo-te que volte a pôr os pés aqui.
- Então, mas eu não te comprei a sombra da amoreira?_ respondeu ele._ Ora, como ela me pertence, ninguém me pode impedir de vir repousar onde quer que ela esteja.
Tal resposta fez aumentar ainda mais a raiva do homem rico, mas a verdade e que ele não podia fazer nada.
Um dia o senhor tinha visitas em casa. Ora, nesse mesmo dia o dono da sombra entrou pela casa adentro com ar de muito à vontade e deitou-se no chão sem se importar com os convidados que ali estavam. Tudo isto lhes pareceu muito estranho e, quando souberam da historia da venda da sombra, desataram a rir escancaradamente.
Isto já era demais para o homem rico! Ele não podia viver ali por mais tempo e por isso mudou-se para outra aldeia.
E assim aquele “Zé-ninguém” tornou-se o propietário da mansão e, no lugar onde o rico guardava o seu cavalo, ele punha agora o seu burro.
A partir de então, nunca mais ninguém foi admoestado pelo fato de vir deitar à sombra da amoreira.
......................................
Conto chines
Era uma vez um homem rico que vivia numa enorme mansão, ao lado da estrada. Atrás da casa havia uma majestuosa amoreira. Durante os dias quentes de verão ele costumava ir sentar-se à sombra dela para apanhar o fresco que ali se fazia sentir.
Um belo dia, um pobre coitado foi deitar-se à sombra da árvore e o homem rico, assim que o viu pôs-se a gritar:
_ Hei, tu! Não podes deitar aí! Vá! Vai-te embora! Desaparece!
_ Vou-me embora, por quê? Estou bem aqui. _retrucou o outro.
_ Essa árvore_ explicou o rico _ fui eu quem a plantou e eu quem a tenho regado. Por ter tratado dela é que agora ela está assim tão grande, e por isso a sombra dela é minha.
_ Se assim é, cede-me a tua sombra que eu pago-te bom dinheiro por ela.
A palavra “dinheiro” ressoou como uma bela melodia nos ouvidos do homem rico.
_ Hã! Assim está bem! respondeu.Assim cedo-te a minha sombra.
Após três ou quatro encontros, feitos por meio de intermediários, concordaram com o valor a pagar e firmaram o negócio.
Desde então aquele pobre vinha, todos os dias, deitar-se à sombra da árvore. Quando a sombra se estendia para o pátio da casa do rico, ele ia deitar-se ali; quando ela entrava para a cozinha, era para lá que ele ia; quando penetrava pelo salão adentro, até mesmo para ali ele ia deitar-se. Em resumo, para onde quer que a sombra se estendesse, ele seguia-a sempre. Por vezes estava sozinho, mas outras vezes convidava os amigos para virem apanhar o frescor debaixo daquela que era a sua sombra e chegavam a trazer consigo os seus burros e outros animais.
O rico estava a perder a paciência e, um dia, explodiu a sua fúria:
- Mas que é isto? Quem é que te deu ordem de vir para o meu pátio, de entrar na cozinha da minha casa ou no meu salão? Proíbo-te que volte a pôr os pés aqui.
- Então, mas eu não te comprei a sombra da amoreira?_ respondeu ele._ Ora, como ela me pertence, ninguém me pode impedir de vir repousar onde quer que ela esteja.
Tal resposta fez aumentar ainda mais a raiva do homem rico, mas a verdade e que ele não podia fazer nada.
Um dia o senhor tinha visitas em casa. Ora, nesse mesmo dia o dono da sombra entrou pela casa adentro com ar de muito à vontade e deitou-se no chão sem se importar com os convidados que ali estavam. Tudo isto lhes pareceu muito estranho e, quando souberam da historia da venda da sombra, desataram a rir escancaradamente.
Isto já era demais para o homem rico! Ele não podia viver ali por mais tempo e por isso mudou-se para outra aldeia.
E assim aquele “Zé-ninguém” tornou-se o propietário da mansão e, no lugar onde o rico guardava o seu cavalo, ele punha agora o seu burro.
A partir de então, nunca mais ninguém foi admoestado pelo fato de vir deitar à sombra da amoreira.
......................................
Conto chines
sexta-feira, 14 de janeiro de 2005
Sylvia Plath
ESPELHO
Sou prata e exato. Eu não prejulgo.
O que vejo engulo de imediato
Tal qual é, sem me embaçar de amor ou desgosto.
Não sou cruel, tão somente veraz —
O olho de um deusinho, de quatro cantos.
O tempo todo reflito sobre a parede em frente.
É rosa, com manchas. Fitei-a tanto
Que a sinto parte de meu coração. Mas vacila.
Faces e escuridão insistem em nos separar.
Agora sou um lago. Uma mulher se inclina para mim,
Buscando em domínios meus o que realmente é.
Mas logo se volta para aqueles farsantes, o lustre e a lua.
Vejo suas costas e as reflito fielmente.
Ela me paga em choro e agitação de mãos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã sua face reveza com a escuridão.
Em mim afogou uma menina, e em mim uma velha
Salta sobre ela dia após dia como um peixe horrendo.
Sylvia Plath
sábado, 8 de janeiro de 2005
Cadernos do Oriente
Deixo aqui mais dois contos bem curtinhos que traduzi de um autor chinês, Liu Jingshu, não sei muito deste autor, a não ser que viveu durante a dinastia Nan Chao (420-589).
Antes de ir aos contos, reproduzo uma frase retirada da apresentação do livro ´Cuentos extraordinários de la China Medieval´, Antologia del Soushenji:
“Fique sabendo, leitor, se já não o sabe, que esta obra não é nenhuma gota de mar senão um mar em si mesmo. Figura entre os clássicos de uma literatura tão vasta quanto fascinante, notavelmente mais rica que todas as nossas literaturas românicas peninsulares juntas, em treze ou quatorze séculos mais dilatada que elas e, lamentavelmente muito pouco conhecida entre nós: a literatura chinesa.”
Contos:
(1)
O inhame (ou “batata dos montes”, segundo outra denominação) tem uma raiz que é boa tanto para remédios como para simples comida de verão. Os lambriegos a chamam ‘autóctone’. Para desenterrá-la, há que se cavar, com movimentos muito suaves e sem dizer seu nome: do contrário, será impossível. A raiz do inhame se parecerá com a pessoa que o tenha plantado.
(2)
No ano 326, o primeiro do período Xianhe da dinastia Jin, um homem chamado Xu partiu para uma viagem muito longa durante a qual sonhou que dormia com sua mulher; ela ficou grávida e, quando ele regressou, ao final de um ano, já tinha dado à luz uma criança…
E contou-lhe que tinha tido o mesmo sonho que ele.
Liu Jingshu, dinastia Nan Chao (420-589)
Antes de ir aos contos, reproduzo uma frase retirada da apresentação do livro ´Cuentos extraordinários de la China Medieval´, Antologia del Soushenji:
“Fique sabendo, leitor, se já não o sabe, que esta obra não é nenhuma gota de mar senão um mar em si mesmo. Figura entre os clássicos de uma literatura tão vasta quanto fascinante, notavelmente mais rica que todas as nossas literaturas românicas peninsulares juntas, em treze ou quatorze séculos mais dilatada que elas e, lamentavelmente muito pouco conhecida entre nós: a literatura chinesa.”
Contos:
(1)
O inhame (ou “batata dos montes”, segundo outra denominação) tem uma raiz que é boa tanto para remédios como para simples comida de verão. Os lambriegos a chamam ‘autóctone’. Para desenterrá-la, há que se cavar, com movimentos muito suaves e sem dizer seu nome: do contrário, será impossível. A raiz do inhame se parecerá com a pessoa que o tenha plantado.
(2)
No ano 326, o primeiro do período Xianhe da dinastia Jin, um homem chamado Xu partiu para uma viagem muito longa durante a qual sonhou que dormia com sua mulher; ela ficou grávida e, quando ele regressou, ao final de um ano, já tinha dado à luz uma criança…
E contou-lhe que tinha tido o mesmo sonho que ele.
Liu Jingshu, dinastia Nan Chao (420-589)
sexta-feira, 7 de janeiro de 2005
A internet e os blogs
Li no Digestivo Cultural um artigo intitulado A internet e os blogs, nada simpático aos blogueiros...
Por isso mesmo, vale a pena ser lido.
Leila
Por isso mesmo, vale a pena ser lido.
Leila
quarta-feira, 5 de janeiro de 2005
“A aids é uma arma biológica.”
Duas opiniões convergentes de duas pessoas muito diferentes.
Cazuza:
“Às vezes fico pensando que a aids parece mesmo coisa da CIA misturada com o Vaticano.
Sei que é um pouco de loucura pensar isso, mas faz sentido, faz. Faz muito sentido.”
Wangari Maathai, Nobel da Paz 2004:
“A aids é uma arma biológica.”
“Alguns dizem que essa enfermidade veio dos macacos, mas eu duvido. Vivemos com os macacos desde tempos imemoriais. Na verdade, o vírus foi criado por cientistas para guerra biológica. Por que há tantos segredos sobre a aids? Isso me traz muitos questionamentos.”
“Nós, negros da África, morremos de aids mais do os outros povos do planeta.”
Cazuza:
“Às vezes fico pensando que a aids parece mesmo coisa da CIA misturada com o Vaticano.
Sei que é um pouco de loucura pensar isso, mas faz sentido, faz. Faz muito sentido.”
Wangari Maathai, Nobel da Paz 2004:
“A aids é uma arma biológica.”
“Alguns dizem que essa enfermidade veio dos macacos, mas eu duvido. Vivemos com os macacos desde tempos imemoriais. Na verdade, o vírus foi criado por cientistas para guerra biológica. Por que há tantos segredos sobre a aids? Isso me traz muitos questionamentos.”
“Nós, negros da África, morremos de aids mais do os outros povos do planeta.”
quarta-feira, 22 de dezembro de 2004
Cadernos do Oriente
O jumento de Ghizhou
(Liu Zongyuan – 773-819, China)
Não havia jumentos em Guizhou, até que alguém pôs um num barco e o transportou para lá. Porém, não sabendo bem o que fazer com ele, deixou-o solto nas montanhas. Um tigre, ao ver aquele bicho disforme, pensou que fosse um ser divino. Primeiro, bem escondido, observou-o atentamente. Depois ousou aproximar-se, mantendo ainda uma respeitável distância.
Um dia o jumento zurrou. O tigre se assustou e, com medo de ser mordido, fugiu apavorado. Mas voltou para dar mais uma olhada e decidiu que a criatura, afinal, não era assim tão temível. Acostumando-se com os zurros, chegou mais perto. Já colado praticamente no outro, e agora tomando muitas liberdades, o tigre passou a azucrinar o jumento com repetidos avanços. Esse, enfim, perdendo a paciência, deu-lhe um coice.
“Ah, pois então é só isso que ele consegue fazer”, pensou o tigre entusiasmado que, ato contínuo, pulou sobre o jumento, cravou-lhe os dentes no pescoço, devorou-o o quanto pôde e prosseguiu o caminho.
Pobre jumento! Seu tamanho lhe dava uma aparência de força, seu zurro inspirava medo. Caso ele não tivesse mostrado tudo de que era capaz, o tigre, apesar de tão feroz, provavelmente não teria se arriscado a atacá-lo. Mas tal foi, lamente-se, o intempestivo fim do jumento.
(Liu Zongyuan – 773-819, China)
Não havia jumentos em Guizhou, até que alguém pôs um num barco e o transportou para lá. Porém, não sabendo bem o que fazer com ele, deixou-o solto nas montanhas. Um tigre, ao ver aquele bicho disforme, pensou que fosse um ser divino. Primeiro, bem escondido, observou-o atentamente. Depois ousou aproximar-se, mantendo ainda uma respeitável distância.
Um dia o jumento zurrou. O tigre se assustou e, com medo de ser mordido, fugiu apavorado. Mas voltou para dar mais uma olhada e decidiu que a criatura, afinal, não era assim tão temível. Acostumando-se com os zurros, chegou mais perto. Já colado praticamente no outro, e agora tomando muitas liberdades, o tigre passou a azucrinar o jumento com repetidos avanços. Esse, enfim, perdendo a paciência, deu-lhe um coice.
“Ah, pois então é só isso que ele consegue fazer”, pensou o tigre entusiasmado que, ato contínuo, pulou sobre o jumento, cravou-lhe os dentes no pescoço, devorou-o o quanto pôde e prosseguiu o caminho.
Pobre jumento! Seu tamanho lhe dava uma aparência de força, seu zurro inspirava medo. Caso ele não tivesse mostrado tudo de que era capaz, o tigre, apesar de tão feroz, provavelmente não teria se arriscado a atacá-lo. Mas tal foi, lamente-se, o intempestivo fim do jumento.
terça-feira, 21 de dezembro de 2004
Insomnia
Toda noite era assim, mal postava a cabeça no travesseiro e já encontrava Morfeu….
Uma noite foi diferente, esperou, esperou e o sono, sempre tão certo, não veio. sem experiência, não sabia onde buscá-lo, só sabia que, no dia seguinte, às seis da manhã, tinha que estar de pé. Ocorreu-lhe então experimentar a mais popular das receitas: contar carneirinhos. Contou e dormiu….
e sonhou que carneiros furiosos a perseguiam.
..........................................................................................................
“Todos somos locos,
los unos y los otros”.
Quevedo
Uma noite foi diferente, esperou, esperou e o sono, sempre tão certo, não veio. sem experiência, não sabia onde buscá-lo, só sabia que, no dia seguinte, às seis da manhã, tinha que estar de pé. Ocorreu-lhe então experimentar a mais popular das receitas: contar carneirinhos. Contou e dormiu….
e sonhou que carneiros furiosos a perseguiam.
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“Todos somos locos,
los unos y los otros”.
Quevedo
segunda-feira, 6 de dezembro de 2004
Molière, o impostor!
Molière impostor, quem diria? Bom, aparentemente muita gente, pelo menos é o que diz um artigo que acabo de ler na revista ‘Magazine Littéraire’, n. 433. As maiores peças de Molière não teriam sido escritas por Corneille? O debate nem parece novo, Pierre Louys já tinha levantado a hipótese baseado numa intuição em função das semelhanças de estilo, de língua e de situações.
Hoje um historiador, Pierre Boissier, volta ao antigo tema e vai ainda mais longe que seus predecessores, afirmando que Molière nunca escreveu uma única peça em toda a sua vida. No seu livro l’affaire Molière, o historiador trata Molière como ‘Le comédien’ (o ator) e nunca como escritor. Os fatos são, no mínimo, perturbadores – diz a revista – pois Molière trabalhou em inúmeras peças de Corneille e foi quando este parou de escrever que o talento de Voltaire desabrochou.
Apesar da séria documentação já levantada, alguns consideram que ainda é cedo para se tirar conclusões. Por que Corneille teria feito isso sem deixar nenhuma pista, uma confissão, uma carta que pudesse ser lida depois de sua morte? É uma questão importante a ser respondida, acredita o autor do artigo.
....................................................................
“These words I write keep me from total madness.”
Charles Bukowski
sábado, 4 de dezembro de 2004
Cenas repetidas
Atlanta 8 de junho de 2004
Entre Atlanta e Nova York
Sob a ducha ainda pensei que essa era uma vida das mais estranhas, em menos de seis meses estava eu ali de novo, dizendo adeus a mais um apartamento. Branco e vazio. Adios Atlanta! A água daquele chuveiro lavava-me pela última vez, pela última vez, uma hora depois eu fecharia a porta daquele apartamento, meia hora depois eu abraçaria Aufra esperando que não fosse a última vez e depois percorreria a highway que nos levaria ao aeroporto. Pela última vez, talvez. Talvez não.
Agora, triste e confessional, contemplo ora as nuvens, ora o grafite deste lápis que desliza na folha. Uma aeromoça nervosa e apressada serve-me uma água com gás e recolhe de má vontade o pacotinho de pretzel que eu recusei. Em alguns instantes Nova York se apresentará num relance, entre um aeroporto e outro. Bye! Bye! A outra aeromoça – longa, de unhas também longas (coitada!) – serve com menos pressa. Mas essa não caiu para mim. [Aprecio o grafite no papel]
………………………………………………………..
[La Guardia airport to JFK]
O nervosismo das grandes cidades. O motorista que nos leva de um aeroporto a outro se aposentará dentro de 54 dias – é o que diz o cartaz postado no painel do ônibus– nem por isso ele está menos irritado, passou um sabão em todos os que se levantaram das poltronas antes da hora. Antes disso já tínhamos suportado o humor tenebroso do rapaz que conferia os bilhetes, irritou-se porque algumas pessoas (eu e P. inclusive) estavam entregando o seu bilhete e o dos acompanhantes ao mesmo tempo. (It confuses me! It confuses me!)Disse e repetiu num inglês muito interessante. Eu ri muito, sem disfarçar. Tanto nervosismo é hilário. É interessante como algumas pessoas levam tão a sério a vida, os bilhetes, as horas, todas as regrinhas. Tudo que é sério demais é risível.
Aeroporto JFK – Espera de mais de três horas – Compro The New Yorker, tomo café…..Singapore airlines me oferece uma orquídea.
No avião, pedaços de filme. Sono.
Entre Atlanta e Nova York
Sob a ducha ainda pensei que essa era uma vida das mais estranhas, em menos de seis meses estava eu ali de novo, dizendo adeus a mais um apartamento. Branco e vazio. Adios Atlanta! A água daquele chuveiro lavava-me pela última vez, pela última vez, uma hora depois eu fecharia a porta daquele apartamento, meia hora depois eu abraçaria Aufra esperando que não fosse a última vez e depois percorreria a highway que nos levaria ao aeroporto. Pela última vez, talvez. Talvez não.
Agora, triste e confessional, contemplo ora as nuvens, ora o grafite deste lápis que desliza na folha. Uma aeromoça nervosa e apressada serve-me uma água com gás e recolhe de má vontade o pacotinho de pretzel que eu recusei. Em alguns instantes Nova York se apresentará num relance, entre um aeroporto e outro. Bye! Bye! A outra aeromoça – longa, de unhas também longas (coitada!) – serve com menos pressa. Mas essa não caiu para mim. [Aprecio o grafite no papel]
………………………………………………………..
[La Guardia airport to JFK]
O nervosismo das grandes cidades. O motorista que nos leva de um aeroporto a outro se aposentará dentro de 54 dias – é o que diz o cartaz postado no painel do ônibus– nem por isso ele está menos irritado, passou um sabão em todos os que se levantaram das poltronas antes da hora. Antes disso já tínhamos suportado o humor tenebroso do rapaz que conferia os bilhetes, irritou-se porque algumas pessoas (eu e P. inclusive) estavam entregando o seu bilhete e o dos acompanhantes ao mesmo tempo. (It confuses me! It confuses me!)Disse e repetiu num inglês muito interessante. Eu ri muito, sem disfarçar. Tanto nervosismo é hilário. É interessante como algumas pessoas levam tão a sério a vida, os bilhetes, as horas, todas as regrinhas. Tudo que é sério demais é risível.
Aeroporto JFK – Espera de mais de três horas – Compro The New Yorker, tomo café…..Singapore airlines me oferece uma orquídea.
No avião, pedaços de filme. Sono.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2004
Deus [Teresa Filósofa]
“Deus parece tão fraco na religião cristã que não pode reduzir o homem ao ponto que gostaria: ele o pune pela água, em seguida pelo fogo, o homem continua o mesmo; ele tem um único filho, ele o envia, contudo os homens não mudam em nada. Quantas coisas ridículas o homem atribui a Deus!” [P.96]
Em: Teresa Filósofa
Anônimo do século XVIII
Um dos maiores clássicos eróticos da Literatura Mundial
L&PM pocket
Em: Teresa Filósofa
Anônimo do século XVIII
Um dos maiores clássicos eróticos da Literatura Mundial
L&PM pocket
quinta-feira, 2 de dezembro de 2004
O longo caminho entre Bruxelas e Budapeste
[Esse é um diário meio esquisito, de uma viagem meio esquisita de três pessoas esquisitas ou em um momento meio esquisito.]
15/07/2004
[Bélgica]
Humores alterados. P. terribilis. Malas rápidas. M. sem trousse de toilette, só escova de dentes. Vai sobrar pra mim!
Única voz no carro, Otis Taylor, Truth is not fiction. Não? O caminho será longo, entretanto, mas a citröen é très confortable e os discos são muitos. O grafite (esse que que desliza na folha) pode acabar e o apontador ficou esquecido em cima do escritório.
Um exercício bom de se fazer em viagem é pensar numa cidade e deixar que algo relacionado a ela venha naturalmente.Poderia propor o joguinho a M. e P., quem sabe o clima não melhora? Ou piora? Por exemplo:
Praga=Kafka,
Barcelona=Gaudí,
Viena=Freud,
Dublin=James Joyce e assim vai.
Algumas cidades se prestam mal ao exercício pois são tantas as coisas que vêm ao espírito que não fica nada em específico: Londres, Paris…
Budapeste é engraçado, a primeira coisa que me veio à cabeça foi Chico Buarque e depois Paulo Rónai. A ordem deveria ter sido alterada mas não é um exercício que deva depender da razão. A atualidade falou mais alto.
15 horas [Bélgica ainda]
Coníferas e nuvens. P. de bode ainda. Mesmo disco.
15:30 – Alemanha
M. reclamou que o disco já rodou muito tempo. Agora com vocês Marisa Monte, primeiro disco. [I heard it trough the grapevine….]
[…………………………………………………………………………………..]
Now, CCR (Credence Clearwater revival).
Now The Kingston Trio.
P. soltou uma frase, disse que a França está logo ali, atrás da Forêt Noire, l’Alsace.
18:40 Como criança que está aprendendo a ler, leio todas as palavras em alemão que vejo nos caminhões, placas….e P. tem que dizer se a pronúncia está certa. Deve ser chato pra ele.
Passamos por uma Trabant e P. se entusiasma. Nostalgia do Oriente.
19:30 Baviera – Parte católica da Alemanha.
A questão de ordem é: que campo de concentração visitar?
Parada para um sanduíche frio e sem graça. O meu é constituído de queijo, presunto, 1 rodela de pepino e uma folhinha de alface.
Rosenheim – a cidade da alemã do filme Bagdá Café. Aqui vamos dormir num hotelzinho simples e limpinho.
Dia 16
9:30 terminando o café da manhã: pãezinhos quentes, queijo, presunto, suco (?), café com leite.
Aqui, as torres das igrejas cristãs me fazem pensar em minaretes.
10:30Áustria – Salzburgo. Visita relâmpago. Havaianas nas vitrines a 20 euros, 25 com bandeirinha brasileira, 30 com plataforma.
Visita a igreja de estilo barrôco.
14:10 Caça ao almoço, tarde demais para os padrões austríacos. Somos servidos de má vontade.Pizza (Pizzera Rimini). Procurando pelos toilettes, quase fui dar nos quartos dos proprietários. Estamos em Linz, cidade onde Hitler nasceu.
Enquanto como, lembro-me que Hund é cachorro em alemão, é o nome do cachorro mecânico em Farenheit 451.
15:00 passando pelo Danúbio que, Segundo M. está mais para verde do que para azul.
M. escolheu visitar o Campo de concentração e extermínio de Mauthausen. (Memorial). Não tenho vontade de comentar, nada pode dar a dimensão de um erro tão grande, nem mesmo a visita a este campo agora limpo e preparado para os curiosos ou os que querem preservar a memória ou os que tentam entender. Eu também tento entender, também penso que a memória deve ser preservada para que os erros do passado sejam evitados. E são? Os americanos se gabam de que ajudaram os europeus a vencer o nazismo, por exemplo. Sei lá…tudo é triste.
Outra coisa terrível: acreditei que eu não fosse capaz de entrar numa camera de gaz. E fui.
Perto de Viena, uma lavoura de girassóis.
[Luiz Gonzaga nos diverte]
Cansados, nos concentramos num filme francês na TV5. (bosta de filme!)
17/07 VIENA
10:00 café da manhã. Eu e M. não entendemos nada do cardápio, deixamos que P. escolha. Feito crianças.
Eu e M. visitamos o Museu Leopold: Anton Kolig, Herbert Boeck, Hans Böhler, Robert Kohl, Jean Egger, Egon……
Visitamos o centro da cidade. Meus pés doem muito e páro para ver esses espetáculos bobos na rua: gente pulando, se fazendo de estátua… aqui, como não poderia deixar de ser, temos muitos Motzarts. Um casal aproveita a lua de mel para apresentar show de equilíbrio e dança….
Noite: Jantamos num restaurante italiano. Cedo para ir dormir mas temos que tentar pois amanhã tomamos o trem antes das seis da manhã para Budapeste. Faz calor e eu me esqueci das sandálias. Devia ter comprado uma daquelas havaianas.
Domingo em Budapeste
18/07 Levantamo-nos às 5:30 e tomamos o trem para a Hungria. Tivemos que deixar o carro em Viena e tomar o trem porque o seguro não inclui a Hungria.
No caminho, campos e campos de girassóis, milharais…Ao meu lado um cara redondinho, todo vestido de preto, dorme e ronca.
Já fomos controlados 4 vezes: 2 vezes o passaporte e duas vezes o bilhete.
8:40 Paramos em Györ, muitos passageiros sobem, temos duas novas companheiras, uma garotinha e a mãe. Vou prestar atenção na língua.
O Danúbio agora é Duna e o euro não é usado por aqui.
15:30 Visitamos, almoçamos, agora descansamos deitados na grama em frente ao Hotel Four Seasons, um prédio magnífico. E rimos. Muito calor. Lindas americanas em flor, deitadas ao lado, também riem.
Depois do descanso visitaremos Peste. Músicos tocam sob o sol terrivelmente quente, P. deitado na grama, dança o pé. Um rapaz, do outro lado da rua dança animado e bate palmas, aproveita o ritmo e bate na bunda de uma moça do grupo que leva um susto. Os meus, agora dormem. A música lembra os filmes de Kusturica, sobretudo Black cat White cat.
Peste. Festival de Cinema Húngaro, em frente ao parlamento, dois telões. Eu e M. assistimos a uma parte do filme em preto e branco e em Húngaro. Ninguém ri.
A noite voltamos para Viena, pegamos o carro e vamos procurar um hotel na Estrada. Só encontramos um às três da manhã, ainda na Austria.
12:20 Atravessamos Munique (Münch)
Almoço em Ulm (15:18)salada. Visita a igreja/mosteiro. Crianças italianas contrariam a ordem e pegam as moedas de um mendigo que, ajoelhado, estendia o seu chapéu. Não resta outra alternativa ao pobre homem senão rir daqueles capetinhas….os pais aparecem irritados e envergonhados. Isso não nos impede de rir.
Caminho: vaquinhas brancas, rolos de feno, reatores nucleares.
Home sweet home.
15/07/2004
[Bélgica]
Humores alterados. P. terribilis. Malas rápidas. M. sem trousse de toilette, só escova de dentes. Vai sobrar pra mim!
Única voz no carro, Otis Taylor, Truth is not fiction. Não? O caminho será longo, entretanto, mas a citröen é très confortable e os discos são muitos. O grafite (esse que que desliza na folha) pode acabar e o apontador ficou esquecido em cima do escritório.
Um exercício bom de se fazer em viagem é pensar numa cidade e deixar que algo relacionado a ela venha naturalmente.Poderia propor o joguinho a M. e P., quem sabe o clima não melhora? Ou piora? Por exemplo:
Praga=Kafka,
Barcelona=Gaudí,
Viena=Freud,
Dublin=James Joyce e assim vai.
Algumas cidades se prestam mal ao exercício pois são tantas as coisas que vêm ao espírito que não fica nada em específico: Londres, Paris…
Budapeste é engraçado, a primeira coisa que me veio à cabeça foi Chico Buarque e depois Paulo Rónai. A ordem deveria ter sido alterada mas não é um exercício que deva depender da razão. A atualidade falou mais alto.
15 horas [Bélgica ainda]
Coníferas e nuvens. P. de bode ainda. Mesmo disco.
15:30 – Alemanha
M. reclamou que o disco já rodou muito tempo. Agora com vocês Marisa Monte, primeiro disco. [I heard it trough the grapevine….]
[…………………………………………………………………………………..]
Now, CCR (Credence Clearwater revival).
Now The Kingston Trio.
P. soltou uma frase, disse que a França está logo ali, atrás da Forêt Noire, l’Alsace.
18:40 Como criança que está aprendendo a ler, leio todas as palavras em alemão que vejo nos caminhões, placas….e P. tem que dizer se a pronúncia está certa. Deve ser chato pra ele.
Passamos por uma Trabant e P. se entusiasma. Nostalgia do Oriente.
19:30 Baviera – Parte católica da Alemanha.
A questão de ordem é: que campo de concentração visitar?
Parada para um sanduíche frio e sem graça. O meu é constituído de queijo, presunto, 1 rodela de pepino e uma folhinha de alface.
Rosenheim – a cidade da alemã do filme Bagdá Café. Aqui vamos dormir num hotelzinho simples e limpinho.
Dia 16
9:30 terminando o café da manhã: pãezinhos quentes, queijo, presunto, suco (?), café com leite.
Aqui, as torres das igrejas cristãs me fazem pensar em minaretes.
10:30Áustria – Salzburgo. Visita relâmpago. Havaianas nas vitrines a 20 euros, 25 com bandeirinha brasileira, 30 com plataforma.
Visita a igreja de estilo barrôco.
14:10 Caça ao almoço, tarde demais para os padrões austríacos. Somos servidos de má vontade.Pizza (Pizzera Rimini). Procurando pelos toilettes, quase fui dar nos quartos dos proprietários. Estamos em Linz, cidade onde Hitler nasceu.
Enquanto como, lembro-me que Hund é cachorro em alemão, é o nome do cachorro mecânico em Farenheit 451.
15:00 passando pelo Danúbio que, Segundo M. está mais para verde do que para azul.
M. escolheu visitar o Campo de concentração e extermínio de Mauthausen. (Memorial). Não tenho vontade de comentar, nada pode dar a dimensão de um erro tão grande, nem mesmo a visita a este campo agora limpo e preparado para os curiosos ou os que querem preservar a memória ou os que tentam entender. Eu também tento entender, também penso que a memória deve ser preservada para que os erros do passado sejam evitados. E são? Os americanos se gabam de que ajudaram os europeus a vencer o nazismo, por exemplo. Sei lá…tudo é triste.
Outra coisa terrível: acreditei que eu não fosse capaz de entrar numa camera de gaz. E fui.
Perto de Viena, uma lavoura de girassóis.
[Luiz Gonzaga nos diverte]
Cansados, nos concentramos num filme francês na TV5. (bosta de filme!)
17/07 VIENA
10:00 café da manhã. Eu e M. não entendemos nada do cardápio, deixamos que P. escolha. Feito crianças.
Eu e M. visitamos o Museu Leopold: Anton Kolig, Herbert Boeck, Hans Böhler, Robert Kohl, Jean Egger, Egon……
Visitamos o centro da cidade. Meus pés doem muito e páro para ver esses espetáculos bobos na rua: gente pulando, se fazendo de estátua… aqui, como não poderia deixar de ser, temos muitos Motzarts. Um casal aproveita a lua de mel para apresentar show de equilíbrio e dança….
Noite: Jantamos num restaurante italiano. Cedo para ir dormir mas temos que tentar pois amanhã tomamos o trem antes das seis da manhã para Budapeste. Faz calor e eu me esqueci das sandálias. Devia ter comprado uma daquelas havaianas.
Domingo em Budapeste
18/07 Levantamo-nos às 5:30 e tomamos o trem para a Hungria. Tivemos que deixar o carro em Viena e tomar o trem porque o seguro não inclui a Hungria.
No caminho, campos e campos de girassóis, milharais…Ao meu lado um cara redondinho, todo vestido de preto, dorme e ronca.
Já fomos controlados 4 vezes: 2 vezes o passaporte e duas vezes o bilhete.
8:40 Paramos em Györ, muitos passageiros sobem, temos duas novas companheiras, uma garotinha e a mãe. Vou prestar atenção na língua.
O Danúbio agora é Duna e o euro não é usado por aqui.
15:30 Visitamos, almoçamos, agora descansamos deitados na grama em frente ao Hotel Four Seasons, um prédio magnífico. E rimos. Muito calor. Lindas americanas em flor, deitadas ao lado, também riem.
Depois do descanso visitaremos Peste. Músicos tocam sob o sol terrivelmente quente, P. deitado na grama, dança o pé. Um rapaz, do outro lado da rua dança animado e bate palmas, aproveita o ritmo e bate na bunda de uma moça do grupo que leva um susto. Os meus, agora dormem. A música lembra os filmes de Kusturica, sobretudo Black cat White cat.
Peste. Festival de Cinema Húngaro, em frente ao parlamento, dois telões. Eu e M. assistimos a uma parte do filme em preto e branco e em Húngaro. Ninguém ri.
A noite voltamos para Viena, pegamos o carro e vamos procurar um hotel na Estrada. Só encontramos um às três da manhã, ainda na Austria.
12:20 Atravessamos Munique (Münch)
Almoço em Ulm (15:18)salada. Visita a igreja/mosteiro. Crianças italianas contrariam a ordem e pegam as moedas de um mendigo que, ajoelhado, estendia o seu chapéu. Não resta outra alternativa ao pobre homem senão rir daqueles capetinhas….os pais aparecem irritados e envergonhados. Isso não nos impede de rir.
Caminho: vaquinhas brancas, rolos de feno, reatores nucleares.
Home sweet home.
sábado, 27 de novembro de 2004
Silêncio
[Este conto foi escrito para a Anjos de Prata e foi baseado no perfil de uma colega do curso de Letras]
Agora está tudo pronto, já vendi a moto e comprei o que precisava. Já reuni, inclusive, a coragem. Eu quero o silêncio, só isso. Você vai se assustar, não, mamãe, vai se assustar com isso de eu querer o silêncio. Justo eu que botava a esguelada da Janis no máximo. Quem a chamava de esguelada era você. Pois é, mamãe, acabou. Quase. Quando você chegar da sua viagem, tudo estará acabado. É triste mas é assim e não é culpa de ninguém, só desse demônio que me ronda. É simples, eu não nasci para viver, fui carregando até aqui mas não dá mais. Até parece desprezo para com o seu esforço hein, mãe? Você que me disse tantas vezes que eu te devo a vida….mas, honestamente, eu nunca me senti devedora, eu nunca gostei do mundo, eu não pedi nada, eu não existia quando você tomou a decisão. Quem existia era você e sua vontade de ser mãe, de gerar um ser que cuidasse de você na velhice, que te desse netos, que falasse doce, que fosse uma mulher moderna mas não excêntrica e eu vim assim, estranha, parece que vim para te contrariar. Sinto muito, dona Gertrudes. Netos? Ainda que eu gostasse de homem – e você já sabe que não - ainda que eu gostasse, eu nunca ia gerar filhos, never, ever. Como, se não sei cuidar nem de mim? Não, não tive filhos para não deixar-lhes a herança da miséria humana. É assim mesmo a tal da frase?
Eu estou aqui (e quando você ler isso será ‘eu estava aqui’. Engraçado isso de escrever pensando que, quando você estiver lendo estas linhas o presente já não será mais presente. Raciocínio besta, é claro que não, ainda que eu, porventura estivesse viva quando esse papel caísse nas suas mãos, ainda assim, esse momento não seria presente. Ai, acho que já bebi demais, mãe. Mas eu não pretendo estar viva quando você estiver lendo, por isso eu poderia escrever o que quisesse, mas eu tenho um coração, mãe, tenho sim e estou morrendo de pena de quando você chegar e deparar com a minha carcaça ali ou aqui, ainda não escolhi. Não tem outro jeito, não sofra demais.)então eu estou aqui tentando fazer a coisa bem feita. Eu sempre soube que quando o fizesse eu o faria bem feito.
Eu tentei, tenho mais de trinta anos, não caibo em lugar nenhum, juro que tentei. Quem sabe se fosse outro século, um século mais certinho, onde tudo estivesse definido, em que a gente não estivesse a par de todas essas facetas do ser humano, tudo está escancarado e não é bonito de ver, não, não aqui da minha perspectiva. Ou, quem sabe, um século clean como dos filmes de ficção científica….Tudo lenga-lenga, né? Deve ser mesmo. Eu desejo o silêncio mais profundo que há, o nada. Você já reparou que as pessoas têm medo de mim? E eu nem entendo o porquê. Sabe como me chamam lá na universidade? Lana Joplin. E eles pensam que eu não sei, tudo nas costas, riem os babacas. Que se riam! A caravana passa. Fico um pouco curiosa sobre o depois, o que vão pensar, se vão me detestar. Há muitos anos, um amigo que estudava medicina disse que com um tiro na boca, bem no céu da boca, não há jeito de errar Eu não vou errar, não desta vez. Já errei tanto.
Leila Silva
(28/09/2004)
Agora está tudo pronto, já vendi a moto e comprei o que precisava. Já reuni, inclusive, a coragem. Eu quero o silêncio, só isso. Você vai se assustar, não, mamãe, vai se assustar com isso de eu querer o silêncio. Justo eu que botava a esguelada da Janis no máximo. Quem a chamava de esguelada era você. Pois é, mamãe, acabou. Quase. Quando você chegar da sua viagem, tudo estará acabado. É triste mas é assim e não é culpa de ninguém, só desse demônio que me ronda. É simples, eu não nasci para viver, fui carregando até aqui mas não dá mais. Até parece desprezo para com o seu esforço hein, mãe? Você que me disse tantas vezes que eu te devo a vida….mas, honestamente, eu nunca me senti devedora, eu nunca gostei do mundo, eu não pedi nada, eu não existia quando você tomou a decisão. Quem existia era você e sua vontade de ser mãe, de gerar um ser que cuidasse de você na velhice, que te desse netos, que falasse doce, que fosse uma mulher moderna mas não excêntrica e eu vim assim, estranha, parece que vim para te contrariar. Sinto muito, dona Gertrudes. Netos? Ainda que eu gostasse de homem – e você já sabe que não - ainda que eu gostasse, eu nunca ia gerar filhos, never, ever. Como, se não sei cuidar nem de mim? Não, não tive filhos para não deixar-lhes a herança da miséria humana. É assim mesmo a tal da frase?
Eu estou aqui (e quando você ler isso será ‘eu estava aqui’. Engraçado isso de escrever pensando que, quando você estiver lendo estas linhas o presente já não será mais presente. Raciocínio besta, é claro que não, ainda que eu, porventura estivesse viva quando esse papel caísse nas suas mãos, ainda assim, esse momento não seria presente. Ai, acho que já bebi demais, mãe. Mas eu não pretendo estar viva quando você estiver lendo, por isso eu poderia escrever o que quisesse, mas eu tenho um coração, mãe, tenho sim e estou morrendo de pena de quando você chegar e deparar com a minha carcaça ali ou aqui, ainda não escolhi. Não tem outro jeito, não sofra demais.)então eu estou aqui tentando fazer a coisa bem feita. Eu sempre soube que quando o fizesse eu o faria bem feito.
Eu tentei, tenho mais de trinta anos, não caibo em lugar nenhum, juro que tentei. Quem sabe se fosse outro século, um século mais certinho, onde tudo estivesse definido, em que a gente não estivesse a par de todas essas facetas do ser humano, tudo está escancarado e não é bonito de ver, não, não aqui da minha perspectiva. Ou, quem sabe, um século clean como dos filmes de ficção científica….Tudo lenga-lenga, né? Deve ser mesmo. Eu desejo o silêncio mais profundo que há, o nada. Você já reparou que as pessoas têm medo de mim? E eu nem entendo o porquê. Sabe como me chamam lá na universidade? Lana Joplin. E eles pensam que eu não sei, tudo nas costas, riem os babacas. Que se riam! A caravana passa. Fico um pouco curiosa sobre o depois, o que vão pensar, se vão me detestar. Há muitos anos, um amigo que estudava medicina disse que com um tiro na boca, bem no céu da boca, não há jeito de errar Eu não vou errar, não desta vez. Já errei tanto.
Leila Silva
(28/09/2004)
terça-feira, 23 de novembro de 2004
Elegia
Pessoal, o meu querido amigo Vivaldo teve um conto publicado na BESTIARIO - Revista de Contos - Brasil www.bestiario.com.br.
Confiram, vale a pena. Titulo do conto: Elegia.
Sobre o autor: VIVALDO LIMA TRINDADE é editor da Verbo21 www.verbo21.com.br
sítio literário, e contista. Tem dois livros inéditos, Todo Sol mais o Espírito Santo e O Supermercado da Solidão.
Confiram, vale a pena. Titulo do conto: Elegia.
Sobre o autor: VIVALDO LIMA TRINDADE é editor da Verbo21 www.verbo21.com.br
sítio literário, e contista. Tem dois livros inéditos, Todo Sol mais o Espírito Santo e O Supermercado da Solidão.
domingo, 21 de novembro de 2004
Cadernos do Oriente
[Conto de Wu Jun (459-520), China. Traduzido a partir da Edição espanhola: Cuentos Fantásticos Chinos, Seix Barral.]
Na prefeitura de Yangxian, deu-se o caso de um homem chamado Xu que atravessava as montanhas levando nas costas uma gaiola de gansos quando encontrou um estudante no caminho. O rapaz estava caído e perguntou-lhe se podia ser carregado na gaiola porque tinha os pés machucados. Xu não o levou a sério e ainda ria quando o rapaz entrou na jaula sem diminuir de tamanho e sem que a jaula aumentasse de volume, ajeitou-se entre dois gansos sem causar-lhes nenhum incômodo ou medo.Xu voltou a carregar a gaiola pois, apesar da sobrecarga, não sentiu que ela pesava mais. Percorreram um trecho até chegarem a uma árvore baixa e ali Xu decidiu parar para descansar.
O estudante saiu da jaula e disse:
- Se não houver nenhum inconveniente, gostaria de preparar para nós uma comida simples.
- Claro! Respondeu, encantado, o viajante.
O estudante sacou, então, da sua boca uma grande caixa de cobre e de dentro da caixa foi tirando um prato depois do outro, já preparados. Um infindável e delicioso banquete.
- Queria dizer-lhe – disse o estudante depois de uns tantos copos de licor de arroz – que a verdade é que não viajo só, trago comigo uma mulher escondida e gostaria de convidá-la a sentar-se conosco, se isto lhe convier.
- Claro! Disse, mais uma vez, Xu.
O rapaz tirou da boca uma moça, vestida com uma elegância extraordinária e mais bela que todas as mulheres. Continuaram a comer e a beber até que o estudante, sentindo-se cansado e embriagado, deitou-se num canto e dormiu. A mulher aproveitou para dizer a Xu:
- Queria dizer-lhe que, ainda que eu seja sua mulher, detesto este homem. Por isso, não vou só, trago comigo um homem escondido. Agora que meu marido está dormindo pesado, gostaria de vê-lo. Não dirá nada a meu esposo, não é mesmo?
- Claro que não. Respondeu Xu.
Ela tirou, então, da sua boca, um homem de uns vinte e três ou vinte e quatro anos, inteligente e amável, que esteve conversando animadamente com Xu, até que o estudante pareceu despertar. A moça tirou rapidamente um biombo da sua boca e atrás dele escondeu o amante. Ao mesmo tempo foi chamada pelo marido que, langoroso, puxou-a para deitar-se ao seu lado. O amante aproveitou para dizer a Xu:
- Queria dizer-lhe que, ainda que seja uma mulher de bom coração, o meu amor não é só para ela, por isso não vou só, mas trago comigo uma mulher escondida. Agora que a outra está dormindo, gostaria de vê-la, você guardará segredo?
- Claro! Respondeu Xu.
Tirou da boca uma mulher de uns vinte anos de idade e continuaram bebendo, comendo e conversando os três até que ouviram ruídos vindo do lado onde estava o outro casal. Rapidamente o rapaz engoliu a mulher. No mesmo instante, a esposa do estudante saiu de detrás do biombo e disse:
- Meu marido está a ponto de acordar. Engoliu rapidamente o amante e ficou a conversar com Xu.
O marido acordou, finalmente, e disse:
- Acabei por dormir muitas horas. Desculpe tê-lo deixado só, você deve ter se aborrecido bastante. Bom, já está quase noite, teremos que nos despedir.
Colocou na boca a mulher e também todos os pratos, talheres, vasilhas. Só não engoliu uma grande bandeja de cobre:
- Como não tenho nada de valor a oferecer-lhe, deixo-lhe isto como lembrança do nosso encontro. Disse o estudante a Xu.
.............................
Muito mais tarde, exatamente no ano 376, Xu foi elevado ao posto de bibliotecário imperial e teve ocasião de mostrar a bandeja ao vice-ministro Zhang. Este, examinando o objeto, descobriu uma inscrição que indicava ter sido ele fundido em 58, durante a dinastia Han.
Na prefeitura de Yangxian, deu-se o caso de um homem chamado Xu que atravessava as montanhas levando nas costas uma gaiola de gansos quando encontrou um estudante no caminho. O rapaz estava caído e perguntou-lhe se podia ser carregado na gaiola porque tinha os pés machucados. Xu não o levou a sério e ainda ria quando o rapaz entrou na jaula sem diminuir de tamanho e sem que a jaula aumentasse de volume, ajeitou-se entre dois gansos sem causar-lhes nenhum incômodo ou medo.Xu voltou a carregar a gaiola pois, apesar da sobrecarga, não sentiu que ela pesava mais. Percorreram um trecho até chegarem a uma árvore baixa e ali Xu decidiu parar para descansar.
O estudante saiu da jaula e disse:
- Se não houver nenhum inconveniente, gostaria de preparar para nós uma comida simples.
- Claro! Respondeu, encantado, o viajante.
O estudante sacou, então, da sua boca uma grande caixa de cobre e de dentro da caixa foi tirando um prato depois do outro, já preparados. Um infindável e delicioso banquete.
- Queria dizer-lhe – disse o estudante depois de uns tantos copos de licor de arroz – que a verdade é que não viajo só, trago comigo uma mulher escondida e gostaria de convidá-la a sentar-se conosco, se isto lhe convier.
- Claro! Disse, mais uma vez, Xu.
O rapaz tirou da boca uma moça, vestida com uma elegância extraordinária e mais bela que todas as mulheres. Continuaram a comer e a beber até que o estudante, sentindo-se cansado e embriagado, deitou-se num canto e dormiu. A mulher aproveitou para dizer a Xu:
- Queria dizer-lhe que, ainda que eu seja sua mulher, detesto este homem. Por isso, não vou só, trago comigo um homem escondido. Agora que meu marido está dormindo pesado, gostaria de vê-lo. Não dirá nada a meu esposo, não é mesmo?
- Claro que não. Respondeu Xu.
Ela tirou, então, da sua boca, um homem de uns vinte e três ou vinte e quatro anos, inteligente e amável, que esteve conversando animadamente com Xu, até que o estudante pareceu despertar. A moça tirou rapidamente um biombo da sua boca e atrás dele escondeu o amante. Ao mesmo tempo foi chamada pelo marido que, langoroso, puxou-a para deitar-se ao seu lado. O amante aproveitou para dizer a Xu:
- Queria dizer-lhe que, ainda que seja uma mulher de bom coração, o meu amor não é só para ela, por isso não vou só, mas trago comigo uma mulher escondida. Agora que a outra está dormindo, gostaria de vê-la, você guardará segredo?
- Claro! Respondeu Xu.
Tirou da boca uma mulher de uns vinte anos de idade e continuaram bebendo, comendo e conversando os três até que ouviram ruídos vindo do lado onde estava o outro casal. Rapidamente o rapaz engoliu a mulher. No mesmo instante, a esposa do estudante saiu de detrás do biombo e disse:
- Meu marido está a ponto de acordar. Engoliu rapidamente o amante e ficou a conversar com Xu.
O marido acordou, finalmente, e disse:
- Acabei por dormir muitas horas. Desculpe tê-lo deixado só, você deve ter se aborrecido bastante. Bom, já está quase noite, teremos que nos despedir.
Colocou na boca a mulher e também todos os pratos, talheres, vasilhas. Só não engoliu uma grande bandeja de cobre:
- Como não tenho nada de valor a oferecer-lhe, deixo-lhe isto como lembrança do nosso encontro. Disse o estudante a Xu.
.............................
Muito mais tarde, exatamente no ano 376, Xu foi elevado ao posto de bibliotecário imperial e teve ocasião de mostrar a bandeja ao vice-ministro Zhang. Este, examinando o objeto, descobriu uma inscrição que indicava ter sido ele fundido em 58, durante a dinastia Han.
quarta-feira, 17 de novembro de 2004
Elizabeth Bishop
Ontem à noite peguei, no meio da minha bagunça atual, um livro que comprei no sebo por uns dolarzinhos de nada, em Atlanta. O título é The Collected Prose, Elizabeth Bishop. Comprei o livro mais por curiosidade, sempre ouvi falar da Bishop poeta (ou poetisa, como queiram), os contos eram novos para mim. Além disso, essa autora Americana chama a minha atenção por ter vivido no Brasil por quinze anos ou mais. O conto que li ontem fala, justamente, de uma época em que ela viveu em Ouro Preto, o título do conto é, To the botequim and back.
Ela vai descrevendo tudo o que encontra pelo caminho na sua ida ao botequim para comprar leite. É muito interessante e é sempre bom – eu acho – observar o olhar do ‘outro’ sobre o Brasil.
Um exemplo desse olhar atento de Bishop:
“Aqui há um excesso de cascatas; os rios amontoados/ correm depressa demais em direção ao mar,/ e são tantas nuvens a pressionar os cumes das montanhas/ que elas trasbordam encosta abaixo, em câmara lenta,/ virando cachoeiras.”
Mas qual foi a origem dessa relação tão duradoura com o Brasil?
Bishop estava de passagem pelo Rio onde conheceu Lota de Macedo Soares a arquiteta idealizadora do aterro do flamengo, por quem se apaixonou e foi correspondida. Isso a introdução deste livro não explica claramente, nao sei porquê. Há, entretanto, um livro sobre as duas escrito por Carmen L. Oliveira, Flores raras e banalíssimas, da editora Rocco e que já foi traduzido para o inglês. Acho até – já li sobre isso em algum lugar – que pretendem fazer um filme baseado nessa biografia com Emma Thompson no papel de Bishop. Só espero que seja melhor que o filme baseado na vida de Sylvia Plath…
Ela vai descrevendo tudo o que encontra pelo caminho na sua ida ao botequim para comprar leite. É muito interessante e é sempre bom – eu acho – observar o olhar do ‘outro’ sobre o Brasil.
Um exemplo desse olhar atento de Bishop:
“Aqui há um excesso de cascatas; os rios amontoados/ correm depressa demais em direção ao mar,/ e são tantas nuvens a pressionar os cumes das montanhas/ que elas trasbordam encosta abaixo, em câmara lenta,/ virando cachoeiras.”
Mas qual foi a origem dessa relação tão duradoura com o Brasil?
Bishop estava de passagem pelo Rio onde conheceu Lota de Macedo Soares a arquiteta idealizadora do aterro do flamengo, por quem se apaixonou e foi correspondida. Isso a introdução deste livro não explica claramente, nao sei porquê. Há, entretanto, um livro sobre as duas escrito por Carmen L. Oliveira, Flores raras e banalíssimas, da editora Rocco e que já foi traduzido para o inglês. Acho até – já li sobre isso em algum lugar – que pretendem fazer um filme baseado nessa biografia com Emma Thompson no papel de Bishop. Só espero que seja melhor que o filme baseado na vida de Sylvia Plath…
domingo, 14 de novembro de 2004
Londres 95
Da minha janela transparente
a todo instante
vejo um aviao no céu de Londres
A nuvem do verão de Londres é igual à do Brasil
Os velhos de Londres, são mal humorados
Os velhos indianos de Londres, não são não
Os jovens fazem seus beds nas streets de Londres
_Cigarette, please!
Os italianos de Londres, são como os italianos da Itália.
São?
Não sei não.
Leila Silva
Londres, agosto 1995
[Para my dear dear Dani]
a todo instante
vejo um aviao no céu de Londres
A nuvem do verão de Londres é igual à do Brasil
Os velhos de Londres, são mal humorados
Os velhos indianos de Londres, não são não
Os jovens fazem seus beds nas streets de Londres
_Cigarette, please!
Os italianos de Londres, são como os italianos da Itália.
São?
Não sei não.
Leila Silva
Londres, agosto 1995
[Para my dear dear Dani]
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