quarta-feira, 29 de março de 2006

Isabel

[Conto Anjos de Prata]

Ao final de algumas horas a casa reluzia, não sobrou um grão de poeira, uma mancha na parede, cada canto fora revirado e tratado com água, sabão, vassouradas e espanadas. Depois o batalhão de mulheres tomou o rumo da cozinha para cuidar da etapa seguinte, as comidas. O noivo de Isabel, minha prima, chegaria naquele dia. Tanta preparação e tanta preocupação! Quem seria o príncipe merecedor desses cuidados? Perguntávamo-nos sem, entretanto, largar as nossas brincadeiras que consistiam em grudar chiclete na calçada, deixar que se amolecesse pelo sol, esperar que um desavisado pisasse ali e saísse fulminando. Às vezes esperávamos muito tempo por nada, ninguém passava ou, quando passava, percebia o chiclete a tempo de evitar a catástrofe e perturbar o nosso deleite. Guiados por minha prima (não a noiva mas a sua irmã mais nova) passamos a outros experimentos como encher um balão de água, esperar um infeliz passante do alto de uma escada e lançar sobre ele o nosso engenho. Essa era uma abordagem mais direta e satisfazia melhor as nossas ambições. Parabenizávamos Valentina pela excelente idéia mas logo a minha tia, uma bruxa-desmancha-prazeres, avisada por uma das nossas vítimas vinha pôr fim ao jogo. Não tínhamos sossego.

À noite ele chegou. Vinha do Rio e isso era longe, quase exótico. Casaram-se algum tempo depois e não sei até quando foram felizes. Nem sei se houve tempo para felicidade. Não demorou muito para que o príncipe tirasse a sua máscara e Isabel confeccionasse a sua. Virou atriz doméstica e passou a representar o tempo todo. Tanto representou que passou a acreditar que ela era aquela e não a outra de antes do casamento. Às vezes até aparecia com grandes óculos escuros de star, os quais não tirava para nada e ria um riso falso enquanto contava estórias de esbarrões, queimaduras, choques que deixavam marcas na sua pele. Afinal de contas não era tão boa atriz.

Nunca mais ninguém lavou a casa para receber o príncipe de araque, nem mesmo o primeiro degrau da entrada. Aliás, a minha tia o fez compreender que ele estava dispensado de ultrapassar aquele degrau. Estava mais do que dispensado e menos do que proibido. Não podia proibir porque afinal, nunca se sabe…Infelizmente ele agora era parte da família.

Pobre tia chata. Perdeu esse jogo.

terça-feira, 21 de março de 2006

Esta edição da Carta Capital não circulou na Bahia




Será que os Magalhães não se acharam bonitinhos nas fotos?

segunda-feira, 20 de março de 2006

“O Brasil é um destruidor do seu passado”

Vi ontem na TV5 um documentário sobre o Brasil. Na abertura mostraram Recife e o frevo. Depois colocaram lá um mapa do Brasil para dar uma dimensão do tamanho da ‘coisa’, mostraram que ali estava o pulmão do mundo (repetindo as expressões), o tantão de água que nós temos, depois foram para o Rio, mostraram algumas bundas, o bonde de Santa Teresa, a Rocinha e violência, violência, violência.

A frase do título foi tirada de um comentário que fizeram sobre a preservação do patrimônio histórico no Brasil.

Lembraram, claro, que o Cristo Redentor é obra do escultor francês, Paul Landowski que é de origem polonesa, mas essa parte foi omitida. Aliás, toda a influência francesa foi mostrada, nem um pio sobre os holandeses, mesmo tendo passado por Recife mais de uma vez. Ok, era um programa para os franceses.

São Paulo foi mostrada em três segundos, do alto. O autor documentário disse que não iam parar ali porque o estilo de vida era muito parecido com o deles, não interessava.

Brasília foi bem mostrada, os franceses parecem gostar de Brasília. E dá-lhe Corbusier e toda a influência francesa, evidentemente.

Depois foi a vez de Olinda, mostraram muito tempo o carnaval, os gigantes. Recife de novo, Salvador, capoeira, yemanjá, cadomblé. De lá foram para Ourro Prrretô, Congonhas do Campo (só os profetas e falaram um pouco de Aleijadinho), São João del Rei. Fizeram a viagem de trem até Tiradentes.

E então foi a vez de Manaus, os mercados de peixe, o teatro Amazonas....influência de quem? Franceses, claro. Disseram que a atriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923) se apresentou lá, eu não sabia disso e tampouco sabia que o teatro era chamado de Teatro da Selva (L’Opéra de la jungle).

Mesmo mostrando os apectos negativos há aquele encantamento do europeu e sobretudo do francês com relação ao Brasil. Erram em algumas análises, é difícil entender, por exemplo, a confusão religiosa no Brasil sem ser brasileiro. Por confusão eu quero dizer aquela liberdade que muitas pessoas têm de, por exemplo, se dizer Kardecista e na hora do casamento ir procurar a igreja católica, ou de frequentar um terreiro e, se precisar, ir à missa de vez em quando. Isso deixa qualquer europeu atordoado, coitado.
Nós também temos ‘muitas’ ilusões e idéias preconcebidas a respeito dos europeus, e os americanos têm a respeito de todo mundo. É assim mesmo.

sábado, 18 de março de 2006

PD - Literatura


Primeira PD-Literatura de 2006.
Excelente, como sempre.

quinta-feira, 16 de março de 2006

Confissões de uma máscara

Yukio Mishima
Vertente Editora

Tradução de Manoel Paulo Ferreira

Romance auto-biográfico, trata principalmente da infância e adolescência de Mishima. Nesse que foi seu primeiro livro de sucesso, o autor afirma que se lembra do exato momento do seu nascimento e parte deste instante. Narrado em um estilo quase poético, próximo do leitor, sem esconder dúvidas e a complexidade que envolve o personagem/autor Mishima, pseudônimo de Kimitake Hiraoka.

O autor cita aqui muitos personagens da mitologia cristã, Joana D’Arc que, por algum tempo o narrador tomava por um homem, São Sebastião que conheceu em pintura de Guido Reni e cuja beleza tanto apreciava, foi observando este quadro que ele teve sua primeira ejaculação. A imagem do santo perseguiu-o por muito tempo. Há inclusive uma famosa foto de Mishima em pose de São Sebastião.

Neste livro Mishima já trata também da questão da homossexualidade, descrevendo, por exemplo, a paixão que nutriu por Omi, aluno que estudava na mesma escola que ele.

Dentre os autores ocidentais citados no livro destaco Oscar Wilde e Stephan Zweig.

Mishima foi um leitor ávido, ainda muito jovem teve contato com autores franceses e ingleses. Antes dos quatorze anos, para infelicidade do pai que considerava a literatura um verdadeiro veneno na sua vida, Mishima já trilhava o caminho das letras.

Há um filme do diretor Paul Schrader sobreo autor, Mishima: Uma vida em quatro capítulos, de 1985.

Mishima nasceu em Tóquio, em 1925 e suicidou-se em 1970 segundo o ritual do Seppuku.

domingo, 12 de março de 2006

Janaína, a rainha do bar


Boa noite, tudo bem? Prazer, sou Janaína, mais conhecida como ‘Janaína, a rainha do bar’. Engraçado, não? Janaína é a rainha do mar, caso você não saiba. Não deve ter entendido o trocadilho, hein? Posso me sentar aqui um momentinho ou você está esperando alguém? Não se preocupe, é só um minutinho até eu te contar essa história do meu nome, você não se incomoda, né? Você é bem calado, hein? Não tem importância, eu falo por dois…quando bebo, então. Falando em beber, meu copo está vazio, posso servir um pouco dessa sua cerveja? Bom, quem cala consente. (Caramba, esse sujeito é mudo ou o quê?) Posso ver a capa do seu livro? Ah, capito, você é gringo. Como é que a gente vai se entender? Amanda, vem cá tentar me ajudar, o cara aqui é gringo, não tá entendo nada do que eu falo, olha aqui o livro dele, nem sei que língua é essa. Vem cá que eu quero tascar esse gringo hoje, me ajuda, cacete! Ei, ei onde é que você vai? A Amanda já vem traduzir pra gente….Ahn, você é brasileiro? E porque não falou logo, filho de uma égua, e eu me expondo desse jeito, que vergonha. Vai pro caralho, vai, vai caçar macho. Deixa prá lá, Amanda, que o idiota era brasileiro mesmo e já se foi, o boiola. Não tem importância, deixa prá lá.
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em Anjos de Prata
Leila Silva
Imagem: Edward Hopper - Nighthawks

terça-feira, 7 de março de 2006

Bruxelas

A Bélgica anda tão esquecidinha neste blog, coitada, só tem aparecido no nome...
Então escolhi estas duas fotos de Bruxelas. Esta aqui foi feita na Grand Place, ou melhor, no Hotel de Ville.
A outra foi tirada da minha janela em um março qualquer, 2003, se não me engano.


Fotolog

Cartas desde el infierno

Ramón Sampedro

Grupo Editorial Planeta – Buenos Aires
Com prólogo de Alejandro Almenábar.

O autor trata, com grande coerência, do direito à euthanasia, palavra que significa ´boa morte`. Ramón defende com maestria o seu direito, rechaçando com argumentos sinceros e muito bem embasados todas as cartas que recebe de diferentes pessoas: médicos, jornalistas, estudantes que escrevem com o único objetivo de convencê-lo a continuar vivendo. Descobrimos em Ramón uma pessoa doce e respeitosa, mas que pode se mostrar direto e quase brutal com aqueles que desrespeitam ou não compreendem a sua causa, sobretudo se os argumentos que a apresentam forem de ordem religiosa já que ele é um ateu.
É interessante quando, na página 172 nos apresenta que a ‘arte da boa morte’ não nos foi ensinada porque aos dominantes interessa que o sofrimento seja visto como um dever moral porque esta é a sua fonte de prazer e bem estar. Assim, a sacralidade da vida teria sido ensinada por medo que os escravos renunciassem em massa ao inferno de suas vidas miseráveis.

O conhecido filme Mar Adentro foi baseado neste livro.
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Este livro foi um presente da querida amiga Dani Sorris.

sexta-feira, 3 de março de 2006

Eu na CULT

Pessoal,
Estou na Cult número 100, março 2006 com um conto, O CANTO.
Abraços a todos
Leila

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Mini Conto


Glenda

Contempla, da janela, a baía e pensa novamente em Glenda. Glenda em alguma parte do mundo, buscando não se sabia bem o quê, acrescentando máscaras às suas máscaras. Queria tanto a Glenda.

O seu mundo de escritor era aquela biblioteca, uma janela de onde podia ver o vôo das gaivotas e os barcos. Um mundo infinito. Sim. Um daqueles barcos traria Glenda de volta, aquele mesmo que a levara. Quem sabe? E quando ela passasse pela porta ele estaria mais inteiro que antes, tudo seria recomeço.

Depois que terminasse o café e aquela gaivota preguiçosa alçasse novo vôo, ia sentar-se à escrivaninha e escrever mais um carta a Glenda. Só não sabia para onde enviá-la.
Leila Silva
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Foto Pulau Langkawi -
Malásia 2001

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Dois mini-contos

[Retirados do blog rapidinhas que comporta contos de no máximo 120 palavras. O primeiro é do Rubens da Cunha e o segundo do Marcelo d'Ávila. Excelentes.]
Morte Súbita

"Basta!" Gritou e morreu no meio da calçada. Foi recolhido ao IML.
Até agora, seis dias depois, não reclamaram o corpo. Tudo indica que será enterrado como
indigente, diz o funcionário asséptico. Dentro da boca do defunto, uma mosca pede socorro.

Rubens
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Olhos de gato

Preciso tirar esse peso das pálpebras, essa areia dos olhos: um gole e mais outro comprimido. A estrada some na luz dos faróis, uma cobra negra rebolando à minha frente. Maldita areia nos olhos. Mais um gole. Preciso tirar a bigorna das pálpebras. A cabeça oscila como uma vara de pesca. Um gole. Preciso. Um gato gigante de olhos de fogo em minha direção. Preciso comprar cebolas para os peixes. Um comprimido. Os olhos do gato estão piscando. A cabeça cai. Preciso. (seis pessoas da mesma família mortas em acidente na 101, envolvendo um Astra de Caxias e uma carreta com placas de Palhoça. A Polícia Rodoviária acredita que o motorista da carreta tenha dormido ao volante).

Marcelo d'Ávila

Andando pelo sítio, eu vi...

Simpáticas rolinhas no ninho. As coitadinhas se assustaram um pouco comigo e minha sobrinha, mas logo as deixamos em paz. Só o tempo de um clic.

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Mais fotos no meu fotolog

domingo, 19 de fevereiro de 2006

Maus


Art Spiegelman

Primeira HQ a receber o prêmio Pulitzer

Cia das Letras

Mais uma história sobre o holocausto, Auschwitz e todo aquele horror que a humanidade ainda não conseguiu explicar? Mais uma vez o holocausto só que agora explicado em quadrinhos? Não. Mesmo que já tenhamos lido tudo sobre os campos da morte, que sejamos doutores em Primo Levi vamos nos surpreender com este Maus de Spiegelman cujo pai é um dos sobreviventes. A história é contada através deste pai que o autor vai seguindo ora com uma cadernetinha ora com um gravador. Ninguém é poupado, nem mesmo o pai, Vladek. Tudo soa sincero e pessoal, sem raiva, algum desespero por parte do autor, uma busca de entendimento (talvez), a culpa que quase todos os filhos de sobreviventes carregam.

Aqui os nazistas são gatos, os judeus ratos, os poloneses (não judeus) porcos, os franceses sapos e os americanos cães. No começo da leitura isso parece estranho, depois a gente se acostuma a vê-los assim.

Soube pelo blog do Allan que Art Spiegelman ficou profundamente irritado com Roberto Benigni por relacionar o seu filme A Vida é Bela a Maus. Se ele dizia que Maus o tinha inspirado, não tinha entendido nada do livro, sentenciou.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Conto - Anjos de Prata

Florinda

Florinda, só mais esta vez, tenha piedade, minha flor. Eu prometo, juro que paro de beber, por tudo que é mais sagrado, pela minha mãe. Flô, fala comigo, larga essa porra dessa mala. Não posso viver sem você, bar é coisa do passado. Fala comigo, Florzinha, tenha piedade, não fique aí calada. Faz um café amargo pra mim que eu melhoro e a gente conversa tranqüilo, vai meu bem. Flôoooo, vem aqui!

……

Alô, mãe, a Florinda, aquela egoísta foi embora...bebendo, eu? Mais sóbrio impossível, mãe, só saí com os amigos, ela não pode entender uma coisa dessas? Umas duas ou três cervejas, só isso. Mãe, liga pra ela, por favor, a gente precisa pelo menos conversar, ela ficou surda e muda de repente. Liga pra ela, ela vai te ouvir, com você é diferente. Não vai telefonar por quê? Que é isso hoje, complô contra mim? Inferno! Desculpa, mãe, não queria falar palavrão. Eu que tenho que ligar? Eu sei disso, mas se eu tô falando pra senhora que ela não me ouve, eu falei…falei e ela pegou a malinha, nem respondeu. Bateu a porta e foi embora. Bem feito pra mim?

……

Alô, pai? Não, não muito bem, a Florinda foi embora, nem quis conversa….hein, ligar mais tarde? Ah, tá ocupado? Tá bem, então você liga, vou ficar esperando.

…..

Alô, Jorge, tudo mal, cara, tô precisando conversar, não quer me encontrar lá no bar? Ah, está com visitas? Mais tarde, então? Como? Quem? A Flô, mas o que é que ela tá fazendo aí? É melhor explicar muito bem mesmo….Alô! Alô!


Leila Silva

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Ficçoes

Conto meu na revista portuguesa FicÇões .

Abraços

domingo, 5 de fevereiro de 2006

O Demônio do Meio-Dia - Uma Anatomia da Depressão


[Trechos ]

"A depressão é a imperfeição no amor. (...). Quando ela chega, degrada o eu da pessoa e finalmente eclipsa sua capacidade de dar ou receber afeição. É a solidão dentro de nós que se torna manifesta e destrói não apenas a conexão com outros, mas também a capacidade de estar apaziguadamente apenas consigo mesmo. Embora não seja nenhum profilático contra a depressão, o amor é o que alcochoa a mente e a protege de si mesma. Medicamentos e psicoterapia podem renovar essa proteção, tornando mais fácil amar e ser amado e é por isso que funcionam."

"tal depressão toma posse do corpo nas pálpebras e músculos que mantém a coluna ereta. Fere o coração e o pulmão, tornando a contração dos músculos involuntários mais dura do que precisa ser".

"a grande depressão é a matéria dos colapsos nervosos. Se imaginarmos uma alma de ferro que se desgasta de dor e enferruja com a depressão suave, então a depressão grave é o assustador colapso de toda uma estrutura".

"ouça as pessoas que amam você. Acredite que vale a pena viver por elas, mesmo que voce não acredite nisso. Busque as lembranças que a depressão afasta e as projete no futuro. Seja corajoso, seja forte, tome suas pílulas. Exercite-se que isso lhe fará bem, mesmo que cada passo pese uma tonelada. Coma, mesmo quando sente repugnância pela comida. Seja razoável consigo mesmo quando você tiver perdido a razão. Esse tipo de conselhos são lugares-comuns e soam bobos, mas o caminho mais certo para sair da depressão é não gostar dela e não se acostumar com ela."

"O oposto da depressão não é a felicidade, mas a vitalidade, e minha vida, enquanto escrevo isto, é vital, mesmo quando triste (...) A cada dia, às vezes combativamente e às vezes contra a razão do momento, eu escolho ficar vivo."


O Demônio do Meio-Dia - Uma Anatomia da Depressão,
de Andrew Salomon. Editora Objetiva.

O Sonho americano


Por Pieter Vanderveld
Traduzido por Leila Silva



Billy foi despertado de seu sono agitado pela voz de Willie Nelson, era o rádio-relógio sintonizado na estação de música country programado para as 5:00 da manhã. Mary Ann rolou para o lado e Billy viu de relance as suas coxas grossas e flácidas, sentou-se na beirada da cama king size e suspirou. A história, na verdade, nunca mudava, ela era sua quarta esposa, ele já deveria saber. Elas te encontram, te cobrem de amor, trepam quatro vezes ao dia e te arrastam, exausto, até o pastor. E Você, claro, sempre diz ‘Sim’. Quem quer deixar de viver no pecado? Dois anos depois já estão tão redondas quanto um barril, gastando o fim de semana no shopping e te empaturrando de porcarias.

Arrastou-se até a ducha, tentou livrar-se do sono e da ressaca da tequila. Na noite anterior tinha saído com os rapazes para festejar a venda do velho Delta. Conseguira, finalmente, passar aquela sucata para um grupo de mexicanos por mil e duzentos doláres. Nada mal para um Delta 88 que tinha ficado empatando lugar na sua garagem por longos oito meses.

Vestiu rapidamente uma camisa de flanela, um jeans e calçou suas botas Tony Lama. Dirigiu-se à garagem onde guardava o cofre com suas armas, abriu-o e pegou uma AK-47 feita na China, escolheu seu revólver favorito, um Glock austríaco e colocou-o no cinto. Era um americano de verdade, mas não se importava com a proveniência de suas armas posto que pudesse usá-las para proteger os seus. Era um patriota pragmático.

Pressionou o botão para abrir a porta da garagem e andou até sua camionete vermelha, abriu a porta, colocou o rifle no porta-armas atrás do banco, ligou a chave da ignição, fechou a garagem com o controle remoto e tomou a estrada. Parou no Dunkin Donut do bairro e pediu, do carro, dois cafés com leite e quatro donuts recheados de creme. Dirigiu-se a Maple Ridge Street, parou na frente da casa número 4406 e viu Roger espiando pela janela. Ele fechou a cortina e saiu carregando uma potente carabina Mauser que colocou em cima da arma de Billy. Cumprimentaram-se com um aperto de mãos e Roger pegou a bebida ainda quente e o pacote de donuts que Billy lhe estendia. Dirigiram-se em silêncio ao ponto de encontro enquanto mastigavam o manteigoso bolo frito. John e os outros rapazes esperavam no kilômetro 42 da rodovia estadual 187, a 15 minutos do sul de Phenix. Billy saiu da autopista e parou o veículo atrás da camionete Ford de Steve.

John veio ao encontro deles, alto, robusto, cumprimentou os companheiros com um largo sorriso e um abraço apertado. Foram juntos cumprimentar o resto do grupo, dois outros carros chegaram e estacionaram atrás de Billy. Depois de alguns minutos de conversa a respeito do tempo no deserto do Arizona, retornaram a seus respectivos veículos, foram em fila para a estrada com John na frente e Billy por último como tinha sido combinado.

Rodaram durante mais ou menos quarenta e cinco minutos e, então, viraram à esquerda, numa estrada empoeirada e sem nenhuma indicação, continuaram por esse caminho até uma morro, ali estacionaram os carros e pegaram suas armas. John inspecionou-as todas, ele tinha sido oficial do exército durante a guerra contra o Iraque em 1991, nunca participara de combates, mas dizia saber como eram feitos.

O grupo era composto de doze homens de meia idade que tinham se encontrado nos cafés da manhã de domingo organizados e patrocinados pela igreja Batista. O propósito dos encontros, à parte a leitura da Bíblia e testemunho da fé, era a troca de informações sobre seus pequenos negócios. John era agente de seguros, Billy tinha herdado do seu pai o lote de carros usados na Spring Road, Roger atuava no ramo imobiliário e Bud era contador. Em tudo os representantes da classe média branca americana, eram todos republicanos e apoiavam o presidente e as tropas. Estavam, porém, frustrados com o que parecia falta de interesse dos governantes com o controle das fronteiras do país. No Arizona podia-se perceber que a entrada de imigrantes ilegais não era levada a sério, havia ainda muitos pontos fronteiriços fáceis de serem perfurados.

Tinham se reunido em setembro e decidiram formar um grupo de voluntários para patrulhar, uma vez por mês, a fronteira do estado do Arizona. John era o líder natural deste grupo de homens brancos e cristãos, orgulhosos de suas descendências dos patriotas que botaram os ingleses para correr em 1776.

Depois de inspecionar o material, John decidiu que se postariam a cada 250 metros sobre o planalto que dava para o rio da fronteira com o México. Billy que tinha trocado de arma com Roger, segurava agora a Mauser equipada com uma poderosa mira telescópica. O sol começava a despontar e Billy já estava suado, sentindo-se desconfortável depois de estar postado ali por quarenta minutos. Foi então que avistou uma horda avançando dificilmente no terreno pedregoso, observou-os e contou, sete pessoas, duas mulheres, uma de mais ou menos vinte e cinco anos, outra mais velha, mais de quarenta, provavelmente. Havia ainda três crianças, um garoto e duas garotas de menos de dez anos, atrás um homem mais velho. Um rapaz magro, de chapéu cowboy e camisa western liderava o grupo. Billy escolheu-o mirou seu peito, logo abaixo do seu ombro esquerdo...

E puxou o gatilho.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Circuito Guimarães Rosa















Descobri esse circuito numa documentação da Secretaria de Estado de Minas Gerais, diz o folheto que este é o primeiro circuito turístico baseado em literatura. Verdade ou não, deu vontade de fazer esse caminho e vou fazer assim que conhecer um pouco melhor a obra de Guimarães Rosa. Quem sabe até lá as estradas não terão melhorado?
E ainda dá para aproveitar o circuito e conhecer
a Gruta do Maquiné

terça-feira, 31 de janeiro de 2006

Manhã


Parou no sinal e viu, ao lado, a mulher. Não olhava para nada. Esperava. Esperava que o primeiro carro se movesse e aí se moveria também, abandonaria aquele estado. Tudo ao redor inexistia, não podia parar de olhá-la, naquele segundo conhecia tanto dela, dos seus cabelos pretos caídos no ombro. Inalou o ar numa tentativa idiota de alcançar o seu cheiro. Como? Tantos vidros separando os dois e depois dos vidros a poluição, as vidas, aqueles moleques sujos sacudindo desespero em cambalhotas ou gestos de estudada humildade. E em casa Teresa servia o café sempre com as mesmas palavras, parecia um disco de auto-ajuda....quebrado. Uma baboseira sobre ser feliz, cega para o mundo. Cega, surda e feliz, mas não muda.
Num segundo, como se tivesse sentido, a mulher se virou.E o sinal mudou de cor.

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Virginia Woolf – A Biography

Quase um ano para terminar a leitura de uma biografia, a de Virginia Woolf escrita pelo sobrinho Quentin Bell. Falei dela aqui no blog em abril do ano passado.

O retrato da capa desta edição (abaixo) foi feito pela irmã de Virgínia, a pintora Vanessa, uma das pessoas mais importantes na vida da escritora. Só duas outras pessoas terão, talvez, tanta importância para ela quanto Vanessa, o marido, Leonard Woolf e Vita Sackville-West, aquela que inspirou Orlando.

A Virginia retratada aqui é bastante diferente da personagem representada por Nicole Kidman no filme As Horas. Se bem me lembro, na época fiquei emocionada com o filme e ainda li o livro de Michael Cunningham no embalo. Quando revi o filme fiquei menos emocionada e mais desapontada ainda com a escolha de Kidman para o papel principal. Não tenho nada contra a Kidman, mas achei que ela deu uma péssima Virginia. E aquele nariz postiço?! Era como se tivessem que enfeiá-la ao máximo para o papel….Um exagero. A Virginia de Quentin Bell é uma mulher bonita, espirituosa, por vezes quase fofoqueira. Todo mundo sabe que ela atravessou períodos de depressão profunda, crises nervosas, loucura e que numa dessas ela se matou, é nesse lado que o filme se concentra e com o qual eu impliquei hoje. Já ouvi dizer também que As Horas é o pior livro de Cunningham….Não posso julgar, foi o único que li. Não sera o último escritor a se tornar famoso pelo seu pior trabalho. Ainda gosto deste livro dele e da idéia de trabalhar em cima de uma obra de V. Woolf, Mrs Dalloway. É uma ousadia, eu respeito. Se não me engano o livro recebeu alguns prêmios importantes, o Pulitzer, por exemplo.

Foi uma surpresa descobrir que V. Woolf é sobrinha neta da famosa fotógrafa Julia Margaret Cameron (1815-1879). Vi, há muito tempo, numa obscura cidade da Bélgica, Charleroi, uma exposição de retratos feitos por ela. Retratos era a sua especialidade. Outra surpresa, saber que Aldous Huxley fazia parte do círculo dos Woolfs.


Apesar do tempo que levei para ler, foi uma leitura memorável e que, tenho certeza, vai me ajudar na compreensão das obras de Virgínia daqui pra frente.


Virginia Woolf – A Biography
By Quentin Bell

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

Mini-conto


Profano

Sofia estranhou aquela consistência. Meteu os dedos na massa e levou-os à boca só para constatar que o gosto também fugia ao comum. O comum era não ter gosto. Entretanto seguira à risca os ensinamentos da mãe.


Padre Rafael apareceu na porta no momento em que ela lambia os dedos. De bermudão. Sofia enrubeceu. ‘Algo errado?’ Perguntou ele se aproximando. Sem esperar resposta, tomou a mão da moça, enfiou-a de novo na massa, lambeu cada um dos seus dedinhos e sentiu o estremecimento do seu corpo. ‘Não se preocupe, filha, estas hóstias ainda não estavam consagradas.’

Ilustração: Nausikaa
Lord Frederil Leighton

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

Saudades de Singapura?

[Começo de ano, difícil resistir às listas, às análises do ano que passou, àquele balanço...Li pouco, muito menos do que devia ou queria. Claro, isso de muito ou pouco é relativo, mas gostaria de ter lido mais. Um dos problemas é que leio devagar. Uma vez até tentei um destes cursos de leitura dinâmica...não me lembro de nada, acho que só fui no primeiro dia. O professor era um americano. Dependendo do livro ou artigo eu até invento a minha leitura rápida, mas daqueles de que gosto mesmo, que leio com prazer, levo muitas horas...Além disso, infelizmente, muito infelizmente, sou uma leitora tardia e às vezes penso que nunca vou recuperar o tempo perdido. Morro de inveja dessas pessoas que ficam se gabando de que aos dez anos já tinham lido 769 clássicos. Eu, nos meus dez anos acho que só conhecia o Irene no céu do Manuel Bandeira e Marcelino Pão e vinho. Há um detalhe, mais importante do que sair lendo tudo é ser capaz de digerir o que se lê...Não sei mais onde li isso: “Ele leu tudo, mas não digeriu nada”. (Um jeito de me conformar, decerto).
Ler, finalmente, não é passar os olhos numa página e poder citar nomes de livros e autores. Penso que uma boa leitura nos transforma em algum sentido. Diz Roland Barthes no seu O Rumor da língua, que ‘A leitura é infinita (...) o leitor não decodifica, ele sobrecodifica.’ E ele compara a leitura a uma hemorragia. Gosto dessa figura. Pois é, não vou fazer o tal balanço, vim aqui para deixar uma crônica que escrevi para Anjos de Prata, tema escolhido por Lady Mhel, Saudade.]
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Saudades de Singapura?

Singapura não é, por assim dizer, aquele lugar que deixa as pessoas nostálgicas e que as leva a correrem à agência de viagens mais próxima para prepararem a viagem. É um lugar artificial, um oriente meio falso e um ocidente mais falso ainda já que ocidente nunca será, apesar dos esforços de alguns nesse sentido.

O inusitado de Singapura começa pelo símbolo, uma coisa chamada Merlion, o nome vem de mermaid e lion – sereia e leão em inglês. A parte de cima é o leão, representando a força, a parte debaixo é um rabo de sereia. O caso do rabo nunca ficou muito claro para mim, aparentemente tem algo a ver com o fato de Singapura ser uma ilha. Um leão com rabo de sereia! Estranho símbolo. Não conseguia ver os dois como uma combinação possível. Imagine-se um leão de cara brava, urrando quase, daí você olha para baixo e dá de cara com um rabo de sereia. Digo ‘rabo de sereia’ porque me disseram que é assim, poderia ser igualmente um ‘fishlion’, metade leão, metade peixe. Outra justificativa para parte deste símbolo é o próprio nome, Singapura que vem do sânscrito Singh, leão e Pura, cidade. Antigamente a ilha era chamada Temasek (cidade do mar) e a infeliz mudança deve-se à miopia de um princípe samatra que jurava ter visto um leão na ilha. Ninguém além do princípe viu este animal ali em toda a história de Singapura mas o nome ficou.

Não é bem saudade o que sinto com com relação a Singapura, guardo em mim uma terna lembrança dos passeios com Misako, minha doce amiga japonesa. Misako ainda vive? Não sei, apesar de jovem, o câncer pode tê-la levado. Caminhar devagar com ela pelo jardim botânico, pela Orchard road, tomar capuccinos juntas, escutar as histórias da sua família, correr da chuva, ter certeza de que da sua bolsa sairia uma sombrinha….Tudo lembranças. Mas guardo, sobretudo, aquele sentimento de descoberta, do primeiro olhar sobre as ruas e as pessoas, da fala e dos gestos. Rio, hoje, da forma ingênua e irritante com que os chineses te cobrem de perguntas: Quantos filhos tem? Por que não tem? Lembro-me dos passeios de bicicleta perto do canal, em Jurong, de quase cair ao tentar pedalar observando as casas e o velho chinês de cabelos longos e brancos, atados no alto da cabeça.

São muitas as lembranças, algumas para sempre congeladas em fotos que não dizem tudo, mas complementam.

Carrego, para sempre, uma Ásia em mim, uma Ásia que começou em Singapura.

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Obs: Singapura, em português oficial, até onde sei, se escreve com S. Em todo caso eu prefiro assim.

Foto: Dragão do mar. Sentosa, Singapura.
Leila Silva

segunda-feira, 19 de dezembro de 2005

Não tem tarado no meu Houaiss


Isso mesmo, a edição Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa que tenho aqui pula da palavra
tão para tegúrio, ou seja, da página 2668 para a 2685.

Escrevi para a editora objetiva, há alguns meses, e nunca recebi sequer uma resposta à minha mensagem.


Quem tiver o Houaiss em casa pode ir lá verificar se não está faltando um pedaço.



segunda-feira, 12 de dezembro de 2005

Little Nemo




Muitas noites, quando era criança, sonhei que minha cama saía voando pela janela....mas andando, como nessa gravura, eu nunca tinha visto nem em sonho. Achei muito imaginativo e lindo o desenho.

É um convite para a exposição Little Nemo à la Maison d’Autrique que peguei numa loja especializada em vendas de HQs em Bruxelas...uma das inúmeras. Além da cerveja, chocolates, esqueci de dizer que os belgas adoram HQs e são muito conhecidos nesse terreno.

domingo, 4 de dezembro de 2005

Un amour insensé


Comprei esse Un amour insensé e outros livros de Tanizaki em um sebo em Bruxelas, o Pêle-mêle.

Deste autor eu já tinha lido um livro pequenininho (56 páginas), Le Pied de Fumiko (abaixo). O assunto aqui é este mesmo, o pé da moça. Não sei se existe tradução dele para o português.

De Un amour insensé há, creio, duas traduções, uma delas tem por título Naomi e a outra Amor Insensato, da Companhia das Letras.

Este livro trata, grosso modo, da obsessão de Jôji por Naomi e do seu empenho em transformá-la em uma dama ocidental. Jôji Kawai é um engenheiro, funcionário exemplar, 30 anos e encontra Naomi, 15 anos, no bar onde ela trabalha como garçonete. A ocidentalização do Japão é um dos temas recorrentes na obra de Tanizaki. No caso desta em específico, Naomi já foi comparada a esse Japão descaracterizado. Bonita sim, mas superficial, egoísta, mentirosa...Jôji criou um monstro, mas reconhece que não pode viver sem ele. Abandonado ele se arrasta, cede, promete qualquer coisa, aceita todas as condições de Naomi para tê-la por perto. Diz a apresentação desta edição que Amor insensato é a crônica dolorosa da vida do casal.

Naomi já foi comparada também a Lolita, mas a diferença de idade entre o casal deste romance e o de Nabokov é muito menor assim como os objetivos (se podemos chamar assim) de Humbert Humbert e os de Jôji.

Eu gosto muito do estilo e da forma de narrar de Junichiro Tanizaki, sem muitos floreios, com muita ironia.


Algumas de suas obras, As irmãs Makioka por exemplo, foram adaptadas para o cinema.


Junichiro Tanizaki nasceu em Tokio em 1886 e morreu em 1965.

Le Pied de Fumiko

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

A vida nem sempre é rosa


Eis-me aqui, dirigindo carrinho de supermercado, e ainda por cima sujo. Ai, Deus! Cinquenta e dois anos, peitos em cima, bunda em cima, umas rugas aqui e ali no rosto, é verdade, sobretudo agora que não tenho mais dinheiro para o botox e para aqueles cremes milagrosos. Milagrosos, desde que se disponha da bufunfa, claro, claro! Disso não disponho mais. Filho de uma puta, me abandonar assim, depois de tantos anos. Dessa vida nova, uma das coisas que mais detesto é ter que vir a supermercado, ainda mais esse aqui cheio de pobre, ô desgraça, olha aquela ali com salto de um metro às três da tarde...e saia curta! Tenha dó, que falta de classe. É o que chamo de falta de classe, estampar assim a piranhice. Cruzes! Olhe bem as palavras que você anda usando, Leda. Deus-me-livre, não é porque você agora é pobre que tem que vir com essas. Mas, enfim, infelizmente aquilo ali não tem outro nome, é piranhice mesmo, e das boas, essas sandálias baratas, tá na cara que são baratas, feias e altas combinadas com mini-saia. Enfim, o que não deve ser barato nesse supermercado? Ai, coitadas, dignas de pena essas moçoilas de ar idiota. Olha só como anda! Dá até vontade de ir lá explicar “Querida, se você não sabe andar com esses saltos, coloque uns mais baixos, você pensa que aquela modelo que você vê na revista sai por aí a fazer compras de salto? Não, não, a elegância consiste em saber a hora disso e daquilo.” Mas quem sou eu para dar conselhos, cinquenta e dois anos de elegância e aqui, largada com uma mesada ridícula. Isso é outra coisa que não entendo, essa mudança dos tempos, antigamente eu via as mulheres se separarem felizes, com uma bela duma pensão, indo curtir a vida numa boa com os namorados....Agora, quando é a minha vez, me sobra essa mixaria. Sinceramente, os tais mistérios! Bom, o mistério maior é que aquele salafrário conseguiu esconder boa parte do dinheiro dele e o juiz preferiu acreditar. Homens! Mas que merda, não acho nada nesse supermercado. E o pior de tudo, o pior, não fui trocada por uma dessas beldades de vinte ou trinta anos, não, nem fui trocada, simplesmente isso, cansou-se de mim, cansou-se, que eu não levasse a mal. Não disse isso nessas palavras, classe é algo que Frederico tinha de sobra, tinha não, tem né, ele não morreu. Agora sei que está tranquilo e calmo percorrendo a Europa com um amigo, inclusive as más línguas dizem....Eu não quero nem saber, estou fora desse jogo mesmo.
Outro mistério desse universo pobre: porque razão alguns têm que vir ao supermercado com toda a prole? Juntam os pirralhos todos e trazem ao supermercado como se aqui fosse parque de diversões. Ai, que saudade da Dona Zuleica viu, com ela eu não precisava nem me lembrar que supermercado existia, escolhia tudo do bom e do melhor, um verdadeiro chefe. Claro, ela está lá com o Frederico, óbvio, primeiro porque nunca gostou mesmo de mim, me tolerava, isso sim e quando eu viajava, eu bem sei, o Frederico podia transformar a casa em clube gls. Sim, no fundo as más línguas têm razão, eu nunca quis dar ouvidos antes porque me convinha, afinal que marido empurra a esposa para férias de um mês, dois meses até, na Europa sem nem perguntar com quem está indo? Pois é, agora aqui estou dirigindo esse carrinho de supermercado. Que merda! Amantes eu tive de sobra, hoje, quando pego a agenda e ouso telefonar para algum deles, só escuto desculpas das mais esfarrapadas, cada um mais ocupado que o outro, viraram homens de negócio, artistas.....o caramba, até parece! É como se eu tivesse uma doença contagiosa. E tenho mesmo, essa doença se chama pobreza, foram-se as viagens, os bons restaurantes. Frederico-filho-da-puta! Quem diria que aquele homem tranqüilo, elegante e bonito podia puxar assim o meu tapete. O juiz diz que o apartamento, o carro e a mesada que ele me deixou são suficientes. Suficientes, senhor juiz? Eu queria ver se o senhor fosse uma mulher de cinquenta anos, aí a gente podia conversar de igual pra igual. Agora uma coisa eu juro, nesse supermercado chinfrim eu não piso nunca mais, nem que eu tenha que começar a vender minhas jóias. Tudo tem limite nessa vida. Ai, Zuleica, traidora! Sim, fique aí com o seu Frederico, o galante, eu, a fútil me cuido só. Ah, não, nessa fila eu não entro, basta, chega dessas economias estúpidas, não quero saber de futuro, vou arrumar uma Zuleica pra mim.


Leila Silva

Anjos de Prata

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

A máscara

Conto de Daisy Melo. Nossa colega da Anjos de prata que tem um excelente blog novinho em folha: Olhos do Sol.

Nota da autora: Conto baseado em o bebê de Tartalana Rosa de João do Rio.

O carnaval é interessante porque nos dá essa sensação de angustioso imprevisto. Ora, quem não tem sua história de amores perdidos ou achados entre confetes e serpentinas?
Olhando a TV, insone, onde as alas passam com coloridos apressados, (nem sei qual Escola está desfilando) vejo refletido na tela, um rosto macilento, angustiado, de um homem ignóbil, medroso, quase morto, que não me deixa esquecer um fevereiro acontecido há muitos anos. Eu era jovem e tudo então era delicioso. Não havia no carnaval quem não estivesse disposto à surpresas. Os sorrisos eram ofertas, os olhos suplicavam. E os corpos, as pernas, as bundas... Eu era todo momento, todo espera.
Fui com um grupo. Saímos num bloco em Ipanema. Eu usava uma sunga florida, colares havaianos ao pescoço, o peito nu. Lá pelas tantas, cutucou-me uma mão enluvada. Olhei as pernas. Bonitas. Verifiquei os braços, a curva do seio. Vestida de coelhinha, o corpo perfeito, bronzeado. Quanto ao rosto, era um rostinho atrevido, com dois olhos perversos e uma boca polpuda que se ofertava - vontade de morder aquela boca como se fosse um morango maduro, mastigar e engolir o sumo levemente ácido – e uma máscara que tampava o nariz. Tentei beijar-lhe. Culpa da cerveja. Ela recuou, eu me ressenti. Em meio a surdos e tamborins desapareceu mandando-me um adeusinho com as pontas dos dedos. Procurei-a, então, enlouquecido – não tanto pela cerveja, nem pelo batuque - por entre os rostos fantasiados, corpos suados, coloridas alegorias. Ela sumira, a danadinha, junto à multidão. Um homossexual com trejeitos e rebolados, acercou-se de mim vestido de bailarina, soprou-me beijos, tentou me tocar dando-me um encontrão, mas desistiu ao ver a minha careta de raiva e o movimento que fiz com o punho – veado nojento!
Procurei-a por toda noite por entre as ruas do bairro. Não a encontrei. Fiquei desolado.
Já de madrugada, um bate-que-bate longínquo fazia coro com alguns retardatários bêbados que, cambaleantes, atravessavam o samba e a rua. Uma vampira vomitava no chão uma gosma espessa, amparada pelo árabe e a amiga de oncinha. A colombina se atracava com o palhaço já livre da peruca e do nariz, quando a encontrei sentada ao meio-fio de uma das pistas da Vieira Souto, notadamente “alta”.
Aproximei-me com cuidado, segurando-lhe o braço: “Não vai mais fugir, morena”. Enlacei-lhe a cintura e dei-lhe um beijo com toda a paixão e enternecimento que minha situação de carnavalesco ébrio me permitia. Ela assentiu, abraçando-me com força. Deixou-se ficar, as pernas muito juntas, os olhos fechados, imóvel, a balbuciar “meu Deus, meu Deus”, quase desfalecendo. Aquilo me causou um tesão indescritível, logo percebido pelo volume desproporcional na minha sunga. Até que, alguns beijos e muitos minutos depois, tentei tirar-lhe a máscara, mas minha coelhinha assustou-se e escorregou-me dos braços, sumindo novamente ao entrar na Joana Angélica quase correndo.
Não consegui dormir de tesão, frustração e ressaca. Jurei que iria conseguir mais do que beijos no dia seguinte. O carnaval de 75 não ia terminar sem que eu a levasse para cama. Ah, não...
No segundo dia voltei esperando encontrá-la. Chovia fininho, gotas concentradas. Passei longas e torturantes horas, perscrutando cada rosto feminino, buscando cada fantasia cor-de-rosa, percorrendo cada rua, cada bar de Ipanema. A noite já ia alta quando a achei, finalmente, junto à bateria de um bloco sonolento. Sambava. A máscara avultava, parecia crescer. Cheguei-me sorrateiro e beijei-lhe o cangote. Senti uma mistura de loção barata, suor e um leve cheiro de éter, que aumentou em muito o meu desejo. Naquela altura, não pensava em mais nada. Finquei minhas unhas nos seus braços roliços, arranhando sua pele morena. Abocanhei aquela boca carnuda, até sentir na minha um gosto acre de sangue. Ela chegou a tocar com a palma da mão o pára-brisa dum automóvel que passava, enquanto eu agarrava seus cabelos revoltos. Gemia novamente murmurando “meu Deus, meu Deus”, e senti no seu hálito quente e arquejante, o bafo dos animais acuados. Mas fui correspondido e no calor da batucada ela me abraçou, me beijou. Quase soluçava. O tesão foi nos envolvendo, colando pele com pele. Eu a queria, eu era o predador, eu a teria, mas a máscara roçava meu rosto. Então, sem poder resistir, fui aproximando a mão direita, enquanto que com a esquerda a enlaçava mais. De chofre agarrei a máscara. Seus olhos dilataram-se de surpresa. Os meus zombaram de mim. O que vi me causou horror: era uma cabeça estranha, sem nariz, com dois buracos sangrentos atulhados de algodão de onde saía uma gosma amarela, viscosa e purulenta.
Recuei num imenso vômito de mim mesmo. Todo eu nojo. Por um segundo levei a mão ao rosto encobrindo o meu nariz como se não quisesse respirar, enquanto com a outra me preparei para esmurrá-la.
Dei-lhe um soco, sacudi-a com fúria. Ao longe um “abre alas que eu quero passar”. Ela chorava, suplicava baixinho, quase tive pena. Mas o desejo de fazer desaparecer aquele rosto monstruoso, pútrido, de quebrar aqueles dentes estranhos abaixo daquele nariz inexistente era quase imperioso. Não pude me controlar e quanto mais eu ouvia o tum-tum da bateria, mais eu tinha a certeza que ele soava dentro de mim. Tum-tum... Vísceras, sangue... Ódio... Nojo, nojo, nojo...Tum-tum...tum-tum...
Consegui, a custo, afastar-me. Mas não antes de deixar jogado no chão, uma massa desfigurada, hedionda e sangrenta que se misturava à chuva que agora caía com ímpeto. Um corpo disforme e sangrento como o rosto.
Apressei o passo e ao chegar à Praça General Osório, inconscientemente, pus-me a correr como um louco para a casa, o queixo batendo, suando frio, ardendo em febre, parando de quando em vez para respirar e sufocar a ânsia, o nojo, o vômito. Figuras saíam das sombras, os corpos seminus, as fantasias exuberantes, o colorido gasto, manchado pelo temporal. Eram olhos, bocas, seios. Eram pernas, umbigos e nádegas, mercadorias de várias cores, tamanhos e texturas que se ofereciam, agarravam-me, puxavam-me, levavam-me ao compasso do samba. Mas eu só enxergava aquele rosto...Aquele rosto.
Passaram-se semanas, meses. Eu num torpor, sem que tivesse qualquer noticia daquela coitada. Lançava-me às manchetes diárias como um cão faminto chafurdando nas latas de lixo. E nada. Não era possível. Eu a matara, tinha certeza. E foi na frente de todo mundo! Não dormia ouvindo passos no corredor: “são eles, a polícia, vêem me buscar”, temia. E nada. Sofri horríveis pesadelos onde via aquele rosto beijando-me em cópula e eu num gozo louco, esmurrando-o, esmurrando-o, esmurrando-o...
Hoje, trinta anos depois, não esqueço o supremo horror que senti ao olhar aquele rosto disforme. Está tatuado na minha angústia, nos meus pesadelos. É como se de repente eu tivesse aberto a porta de um porão escuro, onde se escondiam centenas de espíritos aflitos e monstruosos. São imagens que se sobrepõem, confundem-me. São vozes que brotam em minha mente, a princípio fluidas, fugazes, sussurros apenas, ecos distantes que depois se transformam em presença, em uma mão enluvada ou em uma fantasia de coelhinha. Vão enredando-me em meus véus, plantando dentro de mim a semente da minha própria dor e incerteza. São delírios, anseios, nojo, nojo, nojo...
Mas nada me causa mais terror, ímpeto, dor e asco do que aquela lembrança insistente, corpórea. Aquela ferida eterna na minha alma, marca indelével de brasa e fogo: quando parei à porta do meu apartamento para procurar a chave é que reparei que a minha mão direita apertava uma pasta oleosa e sangrenta. Era a máscara.

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

O homem de cabeça de papelão

[Sem tempo para organizar ou escrever os meus próprios textos tive a idéia de postar aqui este excelente conto de João do Rio. Um pouco longo, talvez, para ser lido na tela, os pacientes verão que vale a pena.]

João do Rio

No País que chamavam de Sol, apesar de chover, às vezes, semanas inteiras, vivia um homem de nome Antenor. Não era príncipe. Nem deputado. Nem rico. Nem jornalista. Absolutamente sem importância social. O País do Sol, como em geral todos os países lendários, era o mais comum, o menos surpreendente em idéias e práticas. Os habitantes afluíam todos para a capital, composta de praças, ruas, jardins e avenidas, e tomavam todos os lugares e todas as possibilidades da vida dos que, por desventura, eram da capital. De modo que estes eram mendigos e parasitas, únicos meios de vida sem concorrência, isso mesmo com muitas restrições quanto ao parasitismo. Os prédios da capital, no centro elevavam aos ares alguns andares e a fortuna dos proprietários, nos subúrbios não passavam de um andar sem que por isso não enriquecessem os proprietários também. Havia milhares de automóveis à disparada pelas artérias matando gente para matar o tempo, cabarets fatigados, jornais, tramways, partidos nacionalistas, ausência de conservadores, a Bolsa, o Governo, a Moda, e um aborrecimento integral. Enfim tudo quanto a cidade de fantasia pode almejar para ser igual a uma grande cidade com pretensões da América. E o povo que a habitava julgava-se, além de inteligente, possuidor de imenso bom senso. Bom senso! Se não fosse a capital do País do Sol, a cidade seria a capital do Bom Senso!Precisamente por isso, Antenor, apesar de não ter importância alguma, era exceção mal vista. Esse rapaz, filho de boa família (tão boa que até tinha sentimentos), agira sempre em desacordo com a norma dos seus concidadãos.Desde menino, a sua respeitável progenitora descobriu-lhe um defeito horrível: Antenor só dizia a verdade. Não a sua verdade, a verdade útil, mas a verdade verdadeira. Alarmada, a digna senhora pensou em tomar providências. Foi-lhe impossível. Antenor era diverso no modo de comer, na maneira de vestir, no jeito de andar, na expressão com que se dirigia aos outros. Enquanto usara calções, os amigos da família consideravam-no um enfant terrible, porque no País do Sol todos falavam francês com convicção, mesmo falando mal. Rapaz, entretanto, Antenor tornou-se alarmante. Entre outras coisas, Antenor pensava livremente por conta própria. Assim, a família via chegar Antenor como a própria revolução; os mestres indignavam-se porque ele aprendia ao contrario do que ensinavam; os amigos odiavam-no; os transeuntes, vendo-o passar, sorriam.Uma só coisa descobriu a mãe de Antenor para não ser forçada a mandá-lo embora: Antenor nada do que fazia, fazia por mal. Ao contrário. Era escandalosamente, incompreensivelmente bom. Aliás, só para ela, para os olhos maternos. Porque quando Antenor resolveu arranjar trabalho para os mendigos e corria a bengala os parasitas na rua, ficou provado que Antenor era apenas doido furioso. Não só para as vítimas da sua bondade como para a esclarecida inteligência dos delegados de polícia a quem teve de explicar a sua caridade.Com o fim de convencer Antenor de que devia seguir os tramitas legais de um jovem solar, isto é: ser bacharel e depois empregado público nacionalista, deixando à atividade da canalha estrangeira o resto, os interesses congregados da família em nome dos princípios organizaram vários meetings como aqueles que se fazem na inexistente democracia americana para provar que a chave abre portas e a faca serve para cortar o que é nosso para nós e o que é dos outros também para nós. Antenor, diante da evidência, negou-se.— Ouça! bradava o tio. Bacharel é o princípio de tudo. Não estude. Pouco importa! Mas seja bacharel! Bacharel você tem tudo nas mãos. Ao lado de um político-chefe, sabendo lisonjear, é a ascensão: deputado, ministro.— Mas não quero ser nada disso.— Então quer ser vagabundo?— Quero trabalhar.— Vem dar na mesma coisa. Vagabundo é um sujeito a quem faltam três coisas: dinheiro, prestígio e posição. Desde que você não as tem, mesmo trabalhando — é vagabundo.— Eu não acho.— É pior. É um tipo sem bom senso. É bolchevique. Depois, trabalhar para os outros é uma ilusão. Você está inteiramente doido.Antenor foi trabalhar, entretanto. E teve uma grande dificuldade para trabalhar. Pode-se dizer que a originalidade da sua vida era trabalhar para trabalhar. Acedendo ao pedido da respeitável senhora que era mãe de Antenor, Antenor passeou a sua má cabeça por várias casas de comércio, várias empresas industriais. Ao cabo de um ano, dois meses, estava na rua. Por que mandavam embora Antenor? Ele não tinha exigências, era honesto como a água, trabalhador, sincero, verdadeiro, cheio de idéias. Até alegre — qualidade raríssima no país onde o sol, a cerveja e a inveja faziam batalhões de biliosos tristes. Mas companheiros e patrões prevenidos, se a princípio declinavam hostilidades, dentro em pouco não o aturavam. Quando um companheiro não atura o outro, intriga-o. Quando um patrão não atura o empregado, despede-o. É a norma do País do Sol. Com Antenor depois de despedido, companheiros e patrões ainda por cima tomavam-lhe birra. Por que? É tão difícil saber a verdadeira razão por que um homem não suporta outro homem!Um dos seus ex-companheiros explicou certa vez:— É doido. Tem a mania de fazer mais que os outros. Estraga a norma do serviço e acaba não sendo tolerado. Mau companheiro. E depois com ares...O patrão do último estabelecimento de que saíra o rapaz respondeu à mãe de Antenor:— A perigosa mania de seu filho é por em prática idéias que julga próprias.— Prejudicou-lhe, Sr. Praxedes?Não. Mas podia prejudicar. Sempre altera o bom senso. Depois, mesmo que seu filho fosse águia, quem manda na minha casa sou eu.No País do Sol o comércio ë uma maçonaria. Antenor, com fama de perigoso, insuportável, desobediente, não pôde em breve obter emprego algum. Os patrões que mais tinham lucrado com as suas idéias eram os que mais falavam. Os companheiros que mais o haviam aproveitado tinham-lhe raiva. E se Antenor sentia a triste experiência do erro econômico no trabalho sem a norma, a praxe, no convívio social compreendia o desastre da verdade. Não o toleravam. Era-lhe impossível ter amigos, por muito tempo, porque esses só o eram enquanto. não o tinham explorado.Antenor ria. Antenor tinha saúde. Todas aquelas desditas eram para ele brincadeira. Estava convencido de estar com a razão, de vencer. Mas, a razão sua, sem interesse chocava-se à razão dos outros ou com interesses ou presa à sugestão dos alheios. Ele via os erros, as hipocrisias, as vaidades, e dizia o que via. Ele ia fazer o bem, mas mostrava o que ia fazer. Como tolerar tal miserável? Antenor tentou tudo, juvenilmente, na cidade. A digníssima sua progenitora desculpava-o ainda.— É doido, mas bom.Os parentes, porém, não o cumprimentavam mais. Antenor exercera o comércio, a indústria, o professorado, o proletariado. Ensinara geografia num colégio, de onde foi expulso pelo diretor; estivera numa fábrica de tecidos, forçado a retirar-se pelos operários e pelos patrões; oscilara entre revisor de jornal e condutor de bonde. Em todas as profissões vira os círculos estreitos das classes, a defesa hostil dos outros homens, o ódio com que o repeliam, porque ele pensava, sentia, dizia outra coisa diversa.— Mas, Deus, eu sou honesto, bom, inteligente, incapaz de fazer mal...— É da tua má cabeça, meu filho.— Qual?— A tua cabeça não regula.— Quem sabe?Antenor começava a pensar na sua má cabeça, quando o seu coração apaixonou-se. Era uma rapariga chamada Maria Antônia, filha da nova lavadeira de sua mãe. Antenor achava perfeitamente justo casar com a Maria Antônia. Todos viram nisso mais uma prova do desarranjo cerebral de Antenor. Apenas, com pasmo geral, a resposta de Maria Antônia foi condicional.— Só caso se o senhor tomar juízo.— Mas que chama você juízo?— Ser como os mais.— Então você gosta de mim?— E por isso é que só caso depois.Como tomar juízo? Como regular a cabeça? O amor leva aos maiores desatinos. Antenor pensava em arranjar a má cabeça, estava convencido.Nessas disposições, Antenor caminhava por uma rua no centro da cidade, quando os seus olhos descobriram a tabuleta de uma "relojoaria e outros maquinismos delicados de precisão". Achou graça e entrou. Um cavalheiro grave veio servi-lo.— Traz algum relógio?— Trago a minha cabeça.— Ah! Desarranjada?— Dizem-no, pelo menos.— Em todo o caso, há tempo?— Desde que nasci.— Talvez imprevisão na montagem das peças. Não lhe posso dizer nada sem observação de trinta dias e a desmontagem geral. As cabeças como os relógios para regular bem...Antenor atalhou:— E o senhor fica com a minha cabeça?— Se a deixar.— Pois aqui a tem. Conserte-a. O diabo é que eu não posso andar sem cabeça...— Claro. Mas, enquanto a arranjo, empresto-lhe uma de papelão.— Regula?— É de papelão! explicou o honesto negociante. Antenor recebeu o número de sua cabeça, enfiou a de papelão, e saiu para a rua.Dois meses depois, Antenor tinha uma porção de amigos, jogava o pôquer com o Ministro da Agricultura, ganhava uma pequena fortuna vendendo feijão bichado para os exércitos aliados. A respeitável mãe de Antenor via-o mentir, fazer mal, trapacear e ostentar tudo o que não era. Os parentes, porem, estimavam-no, e os companheiros tinham garbo em recordar o tempo em que Antenor era maluco.Antenor não pensava. Antenor agia como os outros. Queria ganhar. Explorava, adulava, falsificava. Maria Antônia tremia de contentamento vendo Antenor com juízo. Mas Antenor, logicamente, desprezou-a propondo um concubinato que o não desmoralizasse a ele. Outras Marias ricas, de posição, eram de opinião da primeira Maria. Ele só tinha de escolher. No centro operário, a sua fama crescia, querido dos patrões burgueses e dos operários irmãos dos spartakistas da Alemanha. Foi eleito deputado por todos, e, especialmente, pelo presidente da República — a quem atacou logo, pois para a futura eleição o presidente seria outro. A sua ascensão só podia ser comparada à dos balões. Antenor esquecia o passado, amava a sua terra. Era o modelo da felicidade. Regulava admiravelmente.Passaram-se assim anos. Todos os chefes políticos do País do Sol estavam na dificuldade de concordar no nome do novo senador, que fosse o expoente da norma, do bom senso. O nome de Antenor era cotado. Então Antenor passeava de automóvel pelas ruas centrais, para tomar pulso à opinião, quando os seus olhos deram na tabuleta do relojoeiro e lhe veio a memória.— Bolas! E eu que esqueci! A minha cabeça está ali há tempo... Que acharia o relojoeiro? É capaz de tê-la vendido para o interior. Não posso ficar toda vida com uma cabeça de papelão!Saltou. Entrou na casa do negociante. Era o mesmo que o servira.— Há tempos deixei aqui uma cabeça.— Não precisa dizer mais. Espero-o ansioso e admirado da sua ausência, desde que ia desmontar a sua cabeça.— Ah! fez Antenor.— Tem-se dado bem com a de papelão? — Assim...— As cabeças de papelão não são más de todo. Fabricações por séries. Vendem-se muito.— Mas a minha cabeça?— Vou buscá-la.Foi ao interior e trouxe um embrulho com respeitoso cuidado.— Consertou-a?— Não.— Então, desarranjo grande?O homem recuou.— Senhor, na minha longa vida profissional jamais encontrei um aparelho igual, como perfeição, como acabamento, como precisão. Nenhuma cabeça regulará no mundo melhor do que a sua. É a placa sensível do tempo, das idéias, é o equilíbrio de todas as vibrações. O senhor não tem uma cabeça qualquer. Tem uma cabeça de exposição, uma cabeça de gênio, hors-concours.Antenor ia entregar a cabeça de papelão. Mas conteve-se.— Faça o obséquio de embrulhá-la.— Não a coloca?— Não.— V.EX. faz bem. Quem possui uma cabeça assim não a usa todos os dias. Fatalmente dá na vista.Mas Antenor era prudente, respeitador da harmonia social.— Diga-me cá. Mesmo parada em casa, sem corda, numa redoma, talvez prejudique.— Qual! V.EX. terá a primeira cabeça.Antenor ficou seco.— Pode ser que V., profissionalmente, tenha razão. Mas, para mim, a verdade é a dos outros, que sempre a julgaram desarranjada e não regulando bem. Cabeças e relógios querem-se conforme o clima e a moral de cada terra. Fique V. com ela. Eu continuo com a de papelão.E, em vez de viver no País do Sol um rapaz chamado Antenor, que não conseguia ser nada tendo a cabeça mais admirável — um dos elementos mais ilustres do País do Sol foi Antenor, que conseguiu tudo com uma cabeça de papelão.

domingo, 30 de outubro de 2005

Lendo: Lisbela e o Prisioneiro

Lisbela e o Prisioneiro

Osman Lins
Editora Letras e Artes – 1964
Peça teatral, comédia.


Frederico, Citonho e Leleu falando de Boa Vista:

_ É um lugar muito macho, nem todo mundo se agrada. Basta dizer uma coisa: lá só se vende gravata preta.
_ Oi, e por quê?
_ Porque todo mundo está sempre de luto de algum parente que morreu na faca.
_ Então, é bom, é terra que endurece o coração. Pior é caruaru, que amofina gente e bicho. Sei de um camarada que criou lá uma onça; a onça terminou tão avacalhada que bebia leite num pires, feito gato.
_ Eu já ouvi falar desse negócio. Será verdade? Se fôr, não quero nem passar pela vizinhança.


(P. 46)

terça-feira, 25 de outubro de 2005

Litoral belga. Flandres.

Bruxelas

Um ano e dois meses sem pisar em Bruxelas, quase nada mudou ou talvez eu ainda nao tenha percebido as mudanças. Chove desde que cheguei e aqui no café internet onde estou tenho direito a um show particular, dois africanos cantam na na lingua deles que nao sei qual é.

Ontem comprei varios livros no sebo ouvindo a chuva bater no telhado.

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

No ônibus





Era uma menininha linda,
de mais ou
menos cinco anos,
acompanhada
da mãe.

_ Manhê, olha aquele homem lá, ele não tem perna!

_ Ahn?

_ Aquele lá ó mãe, tá vendo a perna dele, pois então, ele não tem, só tem uma.

_ É filhinha, é como o Fulano, lembra? Ele não tem braço.

_ Hum hum

_ Sabe, ele quase perdeu também as duas pernas, só que Deus foi tão bom que curou as pernas dele, aí ele perdeu só o braço.

_ Mãe! Então por que Deus não curou o braço dele também?

_ ???

[Aqui, mãe com cara de tacho tentando arrumar uma explicação para o inexplicável]

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Leila Silva

Anjos de Prata

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Escuta, Zé Ninguém!

“Nem sequer te apercebes de que a opressão das leis que regulam a tua vida matrimonial decorre naturalmente do teu espírito pornográfico e da tua irresponsabilidade sexual.”
(P.41)

Isto é para o Zé Ninguém, nem todo mundo é Zé Ninguém. Reich é 'meio' radical, mas é uma leitura interessante.

domingo, 16 de outubro de 2005

Visitante






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Kuala Lumpur
Templo de Batu Caves
Leila Silva







[Dois mini contos sobre o mesmo tema: Visitante. O primeiro, Visita da dama de branco, é meu e o segundo, Visitante noturna, da Vera do Val]

Visita da dama de branco


Leila Silva

Nas mãos trazia sempre magnólias. Muitas vezes me visitou e em nenhuma delas vi algo que pudesse lembrar uma foice. Só a delicadeza das magnólias. Nunca pude definir o que se esboçava nos seus lábios, um sorriso, uma tristeza, um convite, uma ameaça?

Tantas vezes bateu à minha porta sem, na verdade, nunca ter ousado passar dos degraus da entrada. A não ser ontem, tão bela toda de branco, se aproximou de tal modo que pude sentir seu hálito quente, quase beijou-me os lábios. Implorei que ficasse ou me tomasse pela mão, me conduzisse...Impassível, meneou a cabeça e foi indo, como veio. Nem as magnólias me deixou.

Magnólias também têm seu tempo.
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Visitante noturna
Vera do Val

Rua estreita e antiga, tudo muito quieto, grandes árvores e jardins, o prédio meio desbotado. Ela subiu as escadas quase pairando; tocando suave o corrimão, no rastro dos dedos dele. Atravessou a porta e reconheceu a sala. Sorriu para os livros espalhados, preciosidades de cores e texturas e o imaginou ali, debruçado na mesa redonda, a ler, quase bêbado, absorto. A escrivaninha ,embaixo da janela de postigos altos, dizia das noites insones. Flutuou sussurrando ternuras, acariciou o sofá de grandes flores azuis ,mergulhou os pés, com preguiça, no tapete cremoso, sentindo o silencio e o chiar do aquecedor. No quarto a luz suave do abajur, travesseiros esparsos.
E ele, adormecido, na cama alta e larga.
Aproximou-se devagarinho. Os cabelos escuros, os olhos fechados, as mãos que ela amava. Viu o corpo do homem derramado, o abandono nos lençóis muito brancos. Cuidadosa desenhou a boca macia com a ponta dos dedos, tocou as têmporas, roçou a pele quente e úmida do sono. Tateou seu macho, reconheceu seus caminhos. Com carinho infinito as mãos em concha se perderam entre as pernas dele. Quando ouviu o gemido se esfumou no ar.

Como uma verdadezinha azul !

Quando ele acordou sentiu o cheiro.

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

Duas meninas


Melaka, Malasia,
foto por Leila S.


Marina, mas que lugar é esse? Um jardim secreto, Lídia. Não precisa ter medo, é um secreto bom. É só uma brincadeira, brincadeira de duas meninas de 13 anos, nem adultas, nem crianças, Lídia. Calma, calma, é aqui, pronto, é só isso, agora deitamos na relva, sim, isto se chama relva, se quiser pode chamar também de grama, mas eu prefiro relva. Eu achei relva uma palavra bonita, vi num poema outro dia, acho que foi naquele livro que você me emprestou. Eu também tenho lido muitos livros Lídia, muitos, mas quantos significa muito? Lídia, seu nome é tão bonito, quem escolheu foi seu pai ou sua mãe. Foi minha mãe. Sua mãe também é linda, Lídia. E você é uma doll, lembra-se o que é doll? É boneca. Isso mesmo. Você não acha que parece uma doll? Não sei. O Rodrigo não disse isso a você, é Rodrigo mesmo o nome dele, não? Deixe de ser boba, Marina. Eu não sou boba, eu vi, ele vive olhando pra você. E daí? Daí nada, ele está apaixonado por você. E você, você está apaixonada por ele? Eu não estou. Mas sabia que ele te olhava, não sabia? Esqueça isso, Marina, eu não quero falar do Rodrigo, está bem? Hum hum, você gostou do jardim secreto? Era da minha avó, ela morreu, coitadinha, agora ninguém cuida dele, enquanto meus tios estiverem se esfaqueando por causa da herança vai ficar assim, abandonado e triste. Nada mais triste que um jardim abandonado. Minha avó era um anjo com muitos defeitos, sabe, Lídia? Você se lembra dela? Eu me lembro, ela era muito chique. Ela me chamava assim: Marina Morena! Porque tem mais Marinas na minha família, sabe? Não é por causa da música? Ah, é, tem a música também. Quando eu era pequena eu não queria que ninguém morresse. E agora você quer? Não, não é isso, quer dizer, se a professora de matemática morresse eu não ia me importar. Será que no ano que vem nós vamos estudar na mesma classe, Marina? Vamos. Como você pode saber? Eu sei sabendo, Lídia, eu repito tanto o seu nome porque o acho lindo, linda Lídia. Viu que eu quase fiz um poema? Você chama a isso de poema? Está bem, era muito pobre, depois vou fazer um pra você, bem bonito.Você faz poemas? Não, mas vou fazer um pra você. Você escreve naquele diário que eu te dei? Sim, toda noite. E essa noite, o que você vai anotar? Ora, ainda não sei. Lídia, eu posso te dar um beijo?
Leila Silva
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Conto publicado no Bestiário

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

Fogo


Ventava naquele dia em que meu corpo parecia me deixar.
Olhei para fora e contemplei o cedro de folhas agitadas. O coqueiro, quase ao lado, permanecia calmo e elegante. Estranhei o fato, se estavam tão próximos, a força que balançava um não deveria balançar o outro?

Aquele parecia um bom dia para morrer, à hora do ângelus.

Pensei com menos propósito do que aquele cedro e decidi que o céu cinza combinava com um blues, entretanto coloquei The Doors e pensei no meu doce Frederico. Onde estaria?
“Come on baby, light my fire”. Soube, então, que ele ia voltar.

Tinha deixado todos os seus discos.




Manila - Cemitério chinês
foto por Leila Silva

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

Baghdad Burning

De vez em quando gosto de ler as notícias sobre o conflito no Iraque (sei lá como chamar isso) nesse blog:
Baghdad Burning. É mais ou menos como se eu telefonasse para uma amiga de lá e perguntasse: ‘Então, como vão as coisas vistas do interior?’

Deixo aqui um pedacinho do último post, uma reflexão sobre os quatro anos do ataque às torres de Nova Yorque e um balanço das perdas de um lado e de outro. Muito irônica, no final ainda parabeniza os Estados Unidos porque estão ganhando de longe.
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It has been four years today. How does it feel four years later? For the 3,000 victims in America, more than 100,000 have died in Iraq. Tens of thousands of others are being detained for interrogation and torture. Our homes have been raided, our cities are constantly being bombed and Iraq has fallen back decades, and for several years to come we will suffer under the influence of the extremism we didn't know prior to the war.

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Four years later and the War on Terror (or is it the War of Terror?) has been won:


Score:

Al-Qaeda – 3,000
America – 100,000+

Congratulations.

Em:Baghdad Burning

sexta-feira, 16 de setembro de 2005

A tia de Amsterdã

Cresci ouvindo falar dela, sonhava com a cidade, com o seu pequeno apartamento com os canais, as bicicletas, as pontes que ela atravessava para ir à padaria, não havia clichê sobre a Holanda que não me atravessasse a cabeça. De vez em quando falávamos ao telefone, tinha que ser em inglês, tia Mônica nunca tinha se interessado pelo português. Não era por desprezo, só não tinha razão para dedicar-se a mais essa língua. Nossa família é do Suriname, mas quase ninguém mais vive lá. Temos todos passaporte holandês, e muitos seguiram o caminho natural, pegaram o passaporte e rumaram para Amsterdã, os que não sabiam viver no frio optaram pelo Brasil. Tia Mônica era gentil no telefone e de vez em quando nos enviava presentes pelo correio ou por algum parente, bombons, camisetas de turista, coisas assim.

Finalmente o dia de visitar essa tia chegou. Feliz e ingênuo, porque as duas coisas andam juntas, com pouco mais que uma mochila nas costas, estava preparado para desbravar os Países Baixos. Na chegada, confusão, minha mala nunca chegava na esteira, já estava tonto de olhar para as bagagens, mas fiquei lá plantado até o momento em que nada mais rodava. Fui informado que teria que esperar até o dia seguinte pelos meus apetrechos, viriam em outro vôo. Na saída encontrei a tia já preocupada, nervosa com um cigarro entre os dedos. Fomos para o seu apartamento, expliquei-lhe que ia ter que comprar pelo menos uma calça. ‘Não se preocupe’, disse e pediu o meu número. Que eu ficasse descansando, ela ia cuidar disso para mim. Saiu às pressas e, em menos de uma hora estava de volta não com uma, mas sete calças. ‘Sete? Tia, não precisava!’ Presente para o sobrinho brasileiro. Fiquei sem graça, mas vai ver que era normal, que ali compravam calças assim, a rodo, um modo de compensar a falta de espaço. Eu mesmo nunca tinha comprado mais de duas de uma só vez.

Durante a semana visitei museus, cafés, cinema, casa de Anne Frank.... De vez em quando a tia desaparecia, ‘um minutinho’, dizia e voltava meio vermelha e com o cigarro trêmulo, tentando acertar os lábios. Uma vez em casa, nem me perguntava se eu queria, preparava duas canecas de chá, me entregava uma e descia para o porão. Um dia decidi dar uma olhada no lugar, um porão, para mim que não estava habituado, era por si só envolto em certo mistério. Aproveitei uma das saídas de tia Mônica e desci a escadinha que cheirava a mofo, a pequena porta estava fechada a chave, mas percebi que havia uma luz acesa lá dentro. Deitei-me no chão e pude ver, através do grande vão abaixo da porta, uns pés de estantes. Nada mais. Escutei um barulho na porta de cima e subi as escadas como um louco, corri para a frente da televisão, peguei o controle e fingi que estava procurando um canal. Estava agindo como uma criança idiota, pensei, com as mãos a tremer. Tremendo pra nada, imbecil curioso. Raiva de mim mesmo, mas logo foi a tia descendo as escadas, escutei a porta se abrir e….pronto, minha curiosidade estava atiçada de novo. Fui até a ponta da escada e perguntei, muito gentil, ‘Tia, quer ajuda?’ Ela subiu no mesmo instante e, sem graça, procurando o cigarro, disse: ‘Não, não, aquilo ali está uma bagunça só, melhor ficar longe.’ ‘Se quiser posso te ajudar a arrumar.’ ‘Não, um dia, um dia’ E a pequena chave foi discretamente para o bolso do casaco que ficava pendurado perto da porta de entrada, ela não saía sem ele.

De manhã, quando ela me propôs que saíssemos, aleguei dor de cabeça e sugeri que ela fosse só, eu poderia encontrá-la mais tarde, já conseguia me virar pela cidade, era só me dizer onde. Expliquei e fui lhe entregando o casaco. Distraí-a com umas histórias de família e consegui pegar a chave enquanto a ajudava a vesti-lo.. Pela janela fiquei observando ela desaparecer na esquina, morrendo de medo que começasse a revirar os bolsos. Desci desesperado para o porão, abri a porta e vi quatro prateleiras organizadas, repletas de carteiras, cada carteira tinha um papel colado por fora com uma data e uma indicação de lugar. Abri uma, dinheiro e documentos, outra, mesma coisa e outra e outra, uma infinidade de carteiras. Fiquei meio zonzo, olhando para aquelas prateleiras e quase desfaleci ao ouvir um barulho na porta, subi as escadas como pude, deitei-me no sofá, calmamente, e fingi que estava dormindo. Não sei se ela acreditou, olhou-me aflita e disse que tinha voltado por causa da chave, antes de tomar o bonde percebeu que não estava no seu bolso, ‘Você não a viu em algum lugar?’ ‘Chave, que chave?’ Disse passando a mão pela testa como se estivesse a arder e tomei uma aspirina para dar mais ênfase. Ela acendeu um cigarro e ficou me explicando como era a tal chave, eu só balançava a cabeça. ‘Tia, agora estou melhor, vou sair um pouco’. Estava louco para escapar e telefonar para a minha mãe. ‘Eu vou com você’, disse e não me deixava em paz por um segundo até que me dei conta de que podia conversar com minha mãe na frente dela, bastava que eu falasse em português e evitasse as palavras importantes que tivessem alguma semelhança com o inglês. Assim fiz, minha mãe estranhou o tom no começo, mas depois entendeu o que eu queria, ou seja, a encenação. Minha tia não tirava os olhos de mim, eu contava tudo rindo e colocando ‘saudades’ aqui e ali, essa palavra ela conhecia. Minha mãe disse que ia me telefonar mais tarde para me dizer o que fazer. Andamos intranqüilos pelas ruas, a tia, mais estranha que nunca. A chave no meu bolso. Acho que ela sabia. Paramos num café, eu aproveitei e fui ao toalete, peguei a porcaria da chave e joguei no lixo. Voltei mais leve.

Minha mãe telefonou à noite e disse que já tinha ouvido falar sobre a cleptomania da cunhada, nunca dera ouvidos, não imaginava que fosse maníaca a esse ponto. Ela já tinha telefonado para outros parentes e eles estavam me esperando, eu podia ir para lá no dia seguinte. ‘É melhor’. Passei a noite em claro e tia Mônica também, do sofá eu a ouvia remexer as gavetas à procura da cópia da chave, certamente. Fingi dormir. No dia seguinte arrumei as malas e expliquei que ia para a casa dos outros parentes. Ela não tentou me convencer a ficar, acompanhou-me até o ponto e disse que voltasse para tomar chá com ela antes de voltar para o Brasil. Não voltei à casa dela, telefonei dois dias antes do meu retorno e marcamos encontro de despedida em um café. Nunca falamos do porão.

em : Anjos de Prata


Leila Silva

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

Na livraria

de Regina Igel


Numa dessas livrarias modernosas, onde se pode sentar como em biblioteca, ler à vontade, comprar ou não comprar, ainda ir até o café e lá uma rubiácea saborear... pois foi numa dessas, em SP, que isto aconteceu. Coisa banal, mas... à falta de outra coisa mais interessante, vou contar.Peguei uma revista importada, daquelas que falam de fofocas reais européias, que custam uns 30 reais, mas como ler é de graça, aproveitei... E me fui sentar num daqueles recantos com cadeiras confortáveis, onde outros já estavam aboletados, cada qual com seu livro ou revista ou jornal. Mais parecia mesmo uma biblioteca do que uma livraria. Mas, pra quê indagar os porquês. Uma boa idéia não se discute. E fui lá me sentar. Olhei tudo na tal revista, vi princesas e príncipes, descansei a cuca das minhas atividades normais e cansativas - principalmente quando exagero, o que faço com relativa freqüência - pois então, depois de descansar o meu fatigado cérebro einsteniano, fechei a revista, fechei os olhos e ali continuei por um bom espaço de tempo. Tempo e espaço, não são coisas de Einstein? Então.. não é à-toa que me canso tanto...Mas, abri os olhos e olhei ao redor. E dei com uma figura masculina ali bem perto. Sentado na cadeira justamente ao meu lado, estava lendo. Interessante exemplar da espécie masculina! Homem de seus 45 ou poucos mais de idade, barba limpa e bem aparada, cabelos meio crespos, castanhos, perfil de nariz afilado. Mãos claras, do tipo que só conhecem o exercício de virar páginas, bater dedinho em celular, levantar copo de vinho... O homem lia, compenetrado. E o mais interessante em toda a figura, para mim, eram seus óculos. Dourados. Aros auricolores e hastes douradas. Não dava para ver a cor das lentes, mas imaginei serem transparentes, claro, ali não fazia sol, embora houvesse uma linda vegetação plantada em vasos. Jardim de inverno, sem dúvida, mais ainda porque o inverno paulistano estava mais vociferante do que nunca, com um frio de fazer gritar. E me fixei nos óculos do cidadão. O homem todo era um quadro digno de ser olhado. Tenho disto, esta apreciação estética pelo ser humano. Não existe pessoa feia pra mim. Todo o mundo tem algo bonito, até mesmo o... bom, não vou dizer o nome do político que acho o mais feio que já vi. (Não é o Valério, mesmo porque até a careca dele tem sua brilhante beleza.)Enfim, para quem está me acompanhando até agora, uma revelação. Gosto de olhar as pessoas e posso ficar muito tempo praticando este esporte, principalmente se meu foco de visão permanecer inalterado. Era o caso do leitor barbudo de óculos dourados. Ele permanecia impassível, parecia que nem sequer virava as páginas. Talvez estivesse dormindo, fingindo que lia, não saberia dizer. Mas estava ali. Um quadro bom pra ser olhado. E, de repente, ele levanta o rosto do livro, gira a cara em minha direção e me diz, à queima-roupa:-- Se você continuar olhando pra mim deste jeito, vou começar a ficar nervoso.Levei um susto daqueles. Parecia que uma estátua tivesse começado a falar. Devo ter ficado supervermelha, que é a minha reação - como me revelam - quando levo susto ou fico sem-graça. Na ocasião, foram as duas coisas. Fiquei sem fala. Minha honesta intenção estética em olhar pro moço tinha sido notada por ele, mas terá visto que era honesta? Logo que me recuperei, lhe disse:-- Estava admirando seus óculos. São diferentes. Sorrindo, ele os retirou e os estendeu para mim, dizendo:-- São da Holanda.-- Ah, parecem mesmo .... (Como é que fui dizer isto? Por acaso conheço outros óculos holandeses, pra fazer tal comparação?) - Peguei-os na mão, ainda quentes do contato com o rosto do seu dono. Eram bonitos. Dourados, pesados, suas lentes eram transparentes, límpidas e grossas. Devolvi-os, perguntando, só para dizer alguma coisa:-- Foram comprados aqui em S.Paulo ou na Holanda?-- Nem aqui nem na Holanda. Em Pernambuco. De um amigo que levou receita do meu médico e comprou-os em Amsterdão. Lá em Pernambuco somos meio doidos por coisas holandesas. -- Ah bom. E têm sua razão - disse eu, filosofando historicamente. - É o legado holandês. Foram quase 25 anos de convivência com os ... neerlandeses.-- Bom, mas eu não estava lá... no século 17! Devo ser descendente de um deles, porque gosto das coisas holandesas. Infelizmente a única vez que cheguei perto de súdito holandês, foi de uma vaca holandesa, lá num sítio, no interior de Pernambuco...A conversa foi andando. O homem escreve, mas não publica (é por isto que o Brasil não vai pra frente -quem escreve, não publica; quem publica, não escreve). E fomos tomar um café, e trocamos cartão, e ficou tudo por isto mesmo. Foi uma boa tarde na livraria-biblioteca-café. Uma tarde esteticamente perfeita. E interessante (para mim, pelo menos). E, por isto, estou contando aqui.

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

Persona



“Give me love and, baby, I feel
higher than a kite can fly.”

The Kingston Trio


Às vezes tenho que esforçar-me para lembrar de quem eu era. Tudo aparece confuso e cinza. Tantos clichês nos rodeiam. Quem era eu, quem fui, quem sou? Até aí. Não falo de outras vidas, dear baby, que essa já me basta. O tempo urge, cuidemos. Cuidemos desta que aqui está, efêmera e imperfeita.

Que mais? Ah, teve um ser chamado nietzsche que decretou que Deus está morto. Poupou-me trabalho, mas não me disse quem Eu sou.

A espera sábia pode ser de rara beleza, mas você não acredita nisso. No meu armário tenho várias máscaras que confeccionei em papel maché. Cada uma mais bonita que a outra, dependendo do ângulo. Essa que porto agora é de cor invulgar. Percebeu? Levou anos para estar assim, com esta máscara tenho tantas habilidades, você nem imagina. Sei saltar de um século para o outro, já já lhe mostro. Tenho também uma toda branca, elegante e assustadora, de impossível decifração.

Um personagem simples, como tantos outros, que transita de dia pela cidade e de noite pela via-láctea. Um personagem bêbado de lucidez…Um personagem eu. Para montar, desmonto.
Qual o salário de um poeta? Perguntou-me aquela criança de bochechas vermelhas e olhar acastanhado. Salário vem de sal, meu bebê. E no suor também há sal. Alguns transitam tão à vontade pelo mundo, como se todas as coisas lhes pertencessem. É obsceno. Claro que sei saltar de um século para outro, mas você precisa sempre de todas as provas, vá à biblioteca, às três, e eu lhe mostrarei.

Agora, com licença. Tempo de recolher.

Leila Silva